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    AGOSTINHO NETO: O pai do “Sacred Hope “ alteado em París


    O facto foi concretizado pela última remessa da tenaz revista “Latitudes. Cahiers Lusophones”, publicada na capital francesa, cuja substancia e, predominantemente, consagrado a obra do Poeta – Maior. Esta é constituída de uma quinzena de contribuições que permite reapreciar vários aspectos do pensamento cultural e da força poética do Kilamba. Este número dedicado ao nacionalista angolano beneficiou,  naturalmente, do apoio daFundação António Agostinho Neto e da Calouste Gulbenkian. O facto foi concretizado pela última remessa da tenaz revista “Latitudes. Cahiers Lusophones”, publicada na capital francesa, cuja substancia e, predominantemente, consagrado a obra do Poeta – Maior.
    Esta é constituída de uma quinzena de contribuições que permite reapreciar vários aspectos do pensamento cultural e da força poética do Kilamba. Este número dedicado ao nacionalista angolano beneficiou do apoio da Fundação António Agostinho Neto e da Calouste Gulbenkian.


    Johnny Kapela - Angola
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    N a sequencia de um editorial assinado pelo clarividente Professor Manuel dos Santos Jorge, reencontra-se, ai, o inusitado discurso proferido pelo engajado Homem de Letras no ato da posse do cargo de Presidente da Assembleia Geral da União de Escritores Angolano, em 24
    de Novembro de 1977.
    Lê-se com interesse o depoimento político de Silvino da Luz, Embaixador de Cabo Verde em Angola; a esperada análise de Luís Kandjimbo, actualmente, em posto no Secretariado Geral da CPLP, que realça a dinâmica histórica que fora do jovem colaborador do ousado jornal da Igreja Metodista, “O Estandarte”, um intelectual orgânico, quer dizer, estruturalmente, parte da nação em luta pela independência e do Estado alforriado.
    Avalia-se a erudita demonstração da potencialidade pedagógica das tiradas poéticas do autor de “Com occhi asciuti “, com Pires Laranjeira e Ana T. Rocha, Professores nas Faculdades de Letras da Universidade de Coimbra.
    Quanto ao José Luís Mendonça, este confirma, num relevante exame, a clara inclinação da
    mensagem poética de Neto, homem de esquerda, para a justiça social, que para, ele, e o
    principal garante do desenvolvimento duradoiro de África.
    Esta visão e apoiada pelo tributo de António Faria, que caracteriza a filosofia política do Presidente do movimento dos Plebeus, como do arrasamento e da reedificação; movimento que produzira, segundo Inocência Mata, herdeiros do nacionalismo literário angolano.
    Este originara, evidente e igualmente, segundo Joseneida Mendes Eloi de Souza e Maria
    de Fatima Maia Ribeiro, Professores na Universidade Federal de Bahia, assim como, Maria Nazareth Soares Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, reapropriadores no Brasil, da “Speranza sacra”.
    Houve, paralelamente, em Cabo Verde, onde Agostinho Neto foi consignado, no início dos anos 60, a residência fixa, herdeiros. Luiz Silva estuda o caso Nho Balta que canta, inevitavelmente, “Havemos de voltar”.
    O número 41/42 da revista parisiense conta com dois artigos do prolífico historiador angolano Simão Souindoula.
    Homem, engajado em leituras inovadoras, ele propõe uma análise “within”, de dimensão linguística e antropológica, da construção poética do nativo de Kaxicane.
    Com efeito, nascido no início dos anos 20, numa zona rural, onde a língua veicular e o kimbundu, Agostinho Neto falara e assumira, naturalmente, toda a carga antropológica, subsequente, do uso deste idioma bantu.
    O poeta nacionalista, incluíra, consequentemente, no seu edifício, numa dinâmica de particularização do português escrito em Angola, vários bantuismos evocando, personagens sociais, antropónimos, topónimos - genéricos ou de memória - a flora, a organologia musical ou crenças hidrogonicas, etc.
    Membro do Comité Cientifico Internacional do emblemático Projecto da UNESCO “A Rota do Escravo”, Souindoula faz, numa segunda contribuição, uma análise de uma principais linhas temáticas da prédica poética do generoso Medico, a brutal escravidão e a sua inaceitável continuação.
    O número de Latitudes, ora publicado, confirma o cunho do Musoneki Ionene na história politica e cultural, contemporânea, do pais, cujas estacas caracterizarão “O Século de Agostinho Neto”.


    A influência de Malantagana Ngwenya na pintura angolana


    Simão Souindoula - Angola

    Uma das figuras dentre das mais marcantes das artes plásticas africanas contemporâneas e, sem duvida, a do veterano - pintor moçambicano, Valente Malantagana Ngwenya.
    Tirando a sua originalidade das suas composições em bloco, reagrupando personagens, invariavelmente, roliças e com olhares, extraordinariamente vivas, e sendo assegurar-se uma larga promoção internacional, o velho pintor de Maputo, influenciou vários jovens artistas do continente.
    Isso e particularmente verificável em Angola, onde vários criadores inspiraram-se, utilizando a pintura a óleo, o acrílico ou técnicas mistas, do pincel do Mestre moçambicano.
    É, o caso de Fernando Nunes, Gabriel Quissanga ou de Alves Manuel.
    A ilustração da réplica malagataniana angolana a mais acabada e a mais impressionante, saiu das broxas do espantoso autodidacta, de génio, Fernando Caterca Valentim.
    Com efeito, seduzido pelo estilo da composição do taumaturgo ronga e sob o enquadramento do seu mentor, o saudoso Luzolano, o jovem Valentim, se engajará, em Luanda, numa epopeia artística, verdadeiramente heróica, num contexto social e económico assolado pelo longo conflito armado.
    Fazendo bem armas iguais com o Mestre da contra – costa, no continente niger e na Península ibérica, o pintor-poeta originário de Gabela, na generosa província angolana de Kwanza sul, fará eclodir o seu imenso talento, dentro e fora das fronteiras de seu pais, em Portugal, nomeadamente, com numerosas exposições, a publicação de vários catalogos e a integração de seus espectaculares quadros em diversas colecções.
    Fará o, também, na África central, no quadro da Bienal da Arte Bantu Contemporânea.
    Recebera, em Brazzaville, na margem direita do Congo, em 1994, o Grande Premio deste certame, e a tela premiada, nesta ocasião, fará objecto da primeira impressão têxtil, significativa, produzida, em Libreville, no Gabão, pelo Centro Internacional das Civilizações Bantu.
    Seguindo o decano -pintor originário da aldeia de Matalana, nas margens do Oceano Indico, Valentim se engajara, igualmente, na poesia ; tirando a titularização suas obras, nesta base.
    Enfim, na senda do antigo estudante da fileira « Pintura Decorativa » da Escola Industrial de Lourenço Marques, o afiliado da União Nacional das Artistas Plásticos Angolanos, adoptara, também, nas suas composturas, a estampilhagem gravurante do venerável preto e branco, mas analogamente, a refulgente cor enxofre.
    __________________________________
    Simão Souindoula é Historiador e critico de arte. Membro do Comité Cientifico Terceiro Festival Mundial das Artes Negras

    ENTREVISTA - ANGOLA: “A tradição oral exige não só plena adesão interior, mas a perfeita exteriorização”

    Eduardo Quive - Maputo


    Escritor angolano David Capelenguela

    David Capelenguesa, poeta angolano, de expressão meramente contemporânea ape-sar de ele próprio considerar-se dos anos oitenta, é um contador/cantador de canções populares através da poesia. A oralidade trás para este poeta a bilha e a água da sua criação poética. Os seus sujeitos poéticos não são fantasmas, estão de forma física e são a sua gente, a história popular e outros inigmas sociais. Queria descreve-lo com mais exactidão. Queria dizer no meu pacato e possível modo da escrever que ele é um entre vários poetas que fazem o emblemá-tico esquema literário angolano. Aliás, ele próprio faz questão de citar essas vedetas que são dentre vários: Ana Paula Tavares, Lopito Feijóo, José Luís Mendonça, João Maimona, Luís Kandjimbo, Frederico Ningi, António Panguila.
    Mas eu, para além de ter comparado a sua escrita com a de Ana Paula Tavares, de um lado, mas de outro, idênti-ca a de Aires de Almeida Santos (autor de “Meu Amor da Rua Onze”), outro emblemático escritor contador de oralidades. Talvez encontremos em Capelenguela o reflexo do seu eixo de vivência e convivência, ao nascer no Huíla, naturalizar-se no Namibe atraído pelo deserto de Kalahari e constantemente deslocando-se de provín-cia em província, cidadela a cidadela, levando consigo as estórias dos povos, os hábitos e costumes, dizeres e cantares. Eis o composto da sua poesia que o torna inconfundivelmente mwangolé. Nada melhor que o poe-ta na sua viva voz para sabermos quem ele é.


    L: Antes de mais, como é que me dirijo a si? Digo Sr. Professor, Sr. Jornalista ou Poeta?
    DC: Risos…aqui e agora estou nas vestes de poeta. Embora, transversalmente corra em mim o sangue de jornalista que até certo ponto tem andado na minha poesia, impulsionando, dando sugestões e até mesmo inspirando-me para o outros voos no mundo da poesia.

    L: O que significa cada uma dessas profissões para si? Sei que já está também a entrar para Direito.
    DC: como disse, elas todas fazem parte do percurso da minha vida. Com 17 anos de idade entrei para o Ministério da Educação concretamente na actividade de professorado, na brigada juvenil de ensino Cdte Dangereux na cidade do Namibe. Dei aulas de Língua portuguesa no ensino de base IIº e IIIºs níveis, durante 12 anos. Três anos depois de estar a trabalhar como professor entro para o jornalismo, na rádio local comecei por apresentar um programa romântico/relaxe, durante um ano, depois um outro programa virado para a juventude onde fiquei durante um ano também e por fim um programa cultural onde permaneci mais de cinco anos. Colaborei ainda no jornal de Angola e Angop (Agência Angola Press) durante quatro anos. Passei pela ainda rádio Huíla, e actualmente estou na Rádio Cunene onde apresento um programa cultural também. Quanto ao Direito, é a formação que estou a seguir, se tudo correr bem termino a minha licenciatura em Direito este ano de 2012. Estou muito entusiasmado, pois é o curso dos meus sonhos, embora antes tivesse ingressado no ISCED - Instituto Superior de Ciências de Educação, onde fiz o primeiro ano de Linguística português. Relativamente a poesia, esta faz o meu mundo, é a razão do meu viver, a força e o compasso que me tem mantido firme e fiel comigo mesmo e com os meus próximos.

    L: Como foi o seu inicio na carreira poética? Teve alguma formação específica? Foi influenciado por algum autor para despertar a sua atenção para o fazer poesia? Por que você escolheu ser poeta?
    DC: Eu entro para a poesia de forma implícita. Como disse a instante, o primeiro programa que começo a apresentar na rádio Namibe foi romântico. Tinha eu um chefe de programas muito exigente, no bom sentido, foi uma pessoa muito organizada e gostava de ver as coisas nos seus devidos lugares, estou a falar de uma grande figura do jornalismo Angolano,  o Sr. Alves António que é actualmente o director Provincial da Rádio Huíla. E como é obvio em qualquer programa de rádio, antes do programa ir ao ar, deve-se fazer a realização do mesmo, coordenar os temas e as músicas. Foi então que paulatinamente comecei a sentir o pulsar no meu lado poético-romântico. Na verdade não tive uma formação específica como tal, mas através de uma entrevista que eu fiz, já enquanto realizador e apresentador do programa cultural, a um grande poeta, cineasta e antropólogo angolano, estou a falar de Ruy Duarte de Carvalho, daí partiu uma amizade com este grande homem de cultura e, muito cedo comecei a tomar contacto com as suas obras, convivemos muitos anos, viajamos e fez-me conhecer o Namibe a dentro, os seus povos e culturas, formas de estar e ser, danças, adágios, provérbios, máximas, adivinhas, cantos, ritos de puberdade, formas de choro, sinais do rugir do leão e gestos até do ruminar do boi comum e do boi grado e mais. Foi então que fui-me forjando, vou sendo forjado para esta coisa de fazer poesia e devo mesmo dizer que é o grande ganho dos meus últimos 23 anos, pois faço da poesia a legítima confidência para o meu quer ser, para as coisas animadas e inanimadas, o belo, o ruim, as sensibilidades, os sinais visíveis e inexplicáveis, mas procurando dar um rosto próprio e característico a poesia que tenho tentado ilustrar no quotidiano. Tenho tido ainda um grande apoio de aconselhamento poético, conversa e ensinamento de técnicas e outras formas de se caminhar na poesia por parte de outros grandes nomes da poesia angolana. Falo por exemplo do poeta e crítico literário Lopito Feijóo, uma pessoa que está sempre por perto e fazendo com que a minha poesia antes de sair ao público seja lida por ele e outras pessoas. Tem sido muito gratificante. Embora poucas vezes mas vou conversando ainda sempre que possível e nos encontramos em Angola ou em Lisboa com o crítico literário Luís Kandjimbo, que me recomenda, aconselha e desperta-me para muita leitura e consulta bibliográfica não só da poesia mas da literatura no geral, como deves saber, Luís Kandjimbo não é crítico e poeta vulgar, é artista de manga comprida, é académico, homem que ama profundamente a cultura, exigente, e pautado de um rigor e disciplina. E orgulho-me profundamente por isso, embora consciente de muito caminho por fazer e, lá vou indo.

    L: O ser poeta, mas cantando as canções do povo, nas suas línguas, hábitos e costumes, como é que surge em si?
    DC: Este estilo da elaboração poética, começa concretamente quando passo a apresentar o programa cultural na rádio Namibe e, como vês mais uma vez o nome da rádio e o Namibe, …risos…aí comecei a sentir a verdadeira responsabilidade do trabalho jornalístico, com o agravante de ser um jornalismo quase investigativo, pois estava perante um programa que se chamava “ Frente Cultural”. Começo a sair para reportagens dentro e fora da circunscrição do Namibe, não só enquanto cidade mas também enquanto Província, pois a abrangência cultural da região se impunha. Foi desta forma que seguindo as normas tradicionais da nossa gente, muitas vezes tive de sentar-me no otyoto, ou para ser recebido enquanto jornalista visitante ou para a partir mesmo destes lugares, entrevistar, assistir cerimónias, conversar, julgamentos tradicionais, ou mesmo uma simples sentada ao anoitecer a volta da lareira enquanto a noite se faz adulta. Ouvi canções ao anoitecer, recados e assobios de aviso no percurso da vida em busca da vida. A tradição oral exige não só plena adesão interior, mas a perfeita exteriorização. A “memória muscular” é exercida nas festas, pois mobiliza e prescreve regras restritas de comportamento. São os ritos e as regras que regem a nossa gente…, estar e ser humilde deve ser sempre sagrado e bem visível aos olhos dos mais velhos, pois com a realização escrupulosa dos ritos os homens atingem o mundo do ser. A forma de se sentar para mulheres e homens, a maneira de fazer parte da conversa e tomar a palavra, saudar, o coro do canto e o gesto da dança quando chamado a fazer parte, o penteado feminino e masculino, o traje tudo, tudo é feito com rigor e pormenorizadamente. Foi então que a questões da oralidade, começa a ganhar corpo na minha poesia, assim mesmo podes ver o poema “rito de puberdade”, da página 40 do meu segundo livro de poesia “ O enigma da Welwitschia” editado pela brigada jovem de literatura de Angola do Namibe em Abril de 1997.

    L: Como é reconciliar essa maneira de fazer a poesia com as barreiras linguísticas que separam os povos e às próprias exigências da poesia?
    DC: Tudo quanto tenho tentado fazer é na verdade uma demonstração e valorização cultural, que infelizmente o etnocentrismo europeu negou, descuidou e deturpou, fazendo-se de esquecido que esta é a verdadeira realidade cultural negro-africana. E fruto disso mesmo, assistimos hoje, um processo de secularização da cultura tradicional, sobretudo nos meios urbanos, contradizendo-se com evidências de que a cultura tradicional oral informa e motiva princípios, valores, reflexões e estruturas que não se devem ignorar isto, pois constituem a especificidade da nossa identidade. Nunca perdi de vista que todo o exercício cultural e não só, obedece normas e regras, mas mesmo assim ainda, julgo que as exigências que a poesia impõe fazem parte de um todo percurso e etapas que tenho trilhado ao longo destes anos. A quando da apresentação da minha mais recente obra poética no passado mês de Maio em Lisboa, a Dra. Ana Mafalda Leite, Professora de Literaturas Africanas de expressão Portuguesa disse-me uma coisa que parece simples mais muito profunda, onde par ela, eram felizes aqueles poetas que tiveram o privilégio de passar de um século para o outro, no caso do 20 ao 21. Esta afirmação levou-me a fazer uma reflexão a respeito da velha discussão sobre o conceito de geração. Para mim, e perante uma realidade diferente, onde Angola caminha a passos largos para diferentes tendências, queira cultural social ou político, uma geração, literária neste caso, pressupõe ser uma integridade social de homens selectos, irmanados dos mesmos ideais e estratégias, pensamentos, possuidora de uma linguagem característica, com alinhamento e desagregação da geração anterior. Embora não seja tanto esse o meu caso, aliais porque eu identifico-me até certo ponto um pouco com a geração de 80, caso haja a posterior a esta, a minha forma de encarar as barreiras linguísticas que separam os povos é a de valorizar as línguas maternas ou nacionais como temos chamado cá em Angola, para a partir delas procurarmos formar um juízo valorativo da sua cultura, personalidade, valores e identidades evidenciando-as de diversas formas até a este nível poético como tenho tentado fazer. É nesta senda que, ao contrário da dicção mais discursiva, retórica, de conteúdo político directo, que esteve em evidência nos anos 60 e 70, a minha poesia procura mover-se em outro sentido, buscando uma reinvenção da sintaxe e a força mântrica das palavras. A linguagem poética, tenta ser uma leitura crítica ou expoente descritiva da realidade cultural angolana ou africana e não só, onde a transmissão oral ganha um espaço e transmite energia procurando coexistir com outras formas de realização poética.


    L: Sente que a sua poesia, nos moldes que a faz (juntando estórias populares, línguas locais) é entendida? Isso o tem preocupado?
    DC: Sinto que é realmente entendida, embora por um público por vezes restrito e sobretudo àquela camada de leitores mais atentos. Por estes anos de exercício poético baseado na cultura tradicional oral, eu tenho chegado cada vez mais a conclusão de que tudo o que existe provém de uma origem, mas a oralidade é mãe da sua própria existência, pois para mim, a civilização negro-africana baseia-se na palavra; é essencialmente oral, aliais, na tradição africana, o mundo é dominado pela palavra. A oralidade é completada por ritos e símbolos. Mas este sem a palavra, sem a tradição torna-se ineficaz. A palavra ocupa o primeiro lugar nas manifestações artísticas, no culto religioso, na magia e na vida social para além do seu grande valor dinâmico e vital, é praticamente o único meio de conservar e transmitir o património cultural. Embora esta palavra deva ser interpretada de diversas formas, julgo ser um elemento que nos identifica. A minha preocupação não é de estar a ser ou não entendido, porque estou seguro que tenho sido entendido, pelo contrário a minha preocupação é servir e transmitir a realidade ao nível destes povos. De chamar atenção a sociedade de que na condição africana, não há centros urbanos sólidos sem uma origem cultural ou tradicional assente verdadeiramente nas suas raízes. Mas também é importante lembra aqui que, John Nacy, citado por Jorge Macedo in “ ... Texto Literário” diz que” a literatura tende a criar para si uma gíria a que insufla um ideal estético”. Isto para dizer que, a “gíria literária” de hoje traduz fielmente os esforços de toda uma geração de escritores que primam por exprimir-se com a arte, sobretudo na sua dimensão estético-subjectiva. A palavra, para estes poetas inovadores, é um mero símbolo que, no entanto, encerra uma pluralidade inesgotável de sentidos ao ponto de o seu significado contextual afigurar-se ambíguo. Logo, para apreender a palavra poética e, por extensão à própria poesia produzida nos nossos dias, é preciso vencer a tentação da aderência imediata e, ultrapassar o sentido literal da palavra para, lá dela recriar a criação do poeta. Esta recomendação e gestos verbais apontam para a necessidade de se corrigir o mito de que a poesia é uma leitura fácil, pois instado ao consumo da produção poético diga-se de passagem, requer, como toda a arte que se preza como tal, um esforço de interpretação, no desejo de andar próximo da convivência poética. Aliais “ao poeta pergunta-se como canta, não se lhe pergunta o que canta”.

    L: A propósito, qual é a razão para a sua cumplicidade com as tradições?
    DC: Porque acho é de lá onde viemos, onde estão as nossas raízes, onde teremos que regressar um dia…risos…

    L: Será também, essa, uma marca que quer deixar sendo um poeta fora da cidade capital?
    DC: O mestre Ruy Duarte de Carvalho é assim como sempre o chamei e o continuarei a chamar, viveu em Luanda capital de Angola, conviveu intensamente com o interior do País e não só, mas manteve-se fiel a sua forma de pensar e encarar a realidade poética. Como em toda história da poesia, eu também inspiro-me do canto, mas canto puro, suave e de transmissão cultural, não canto em forma de gritaria como repúdio a um assaltante de telemóvel ou carteiras das senhoras em pleno dia e em plena capital do país, embora esta forma de canto me possa propor e inspirar algo para escrever, só não sei se seria poesia ou não! Mas, como digo, estar na capital ou não, não faz-me muita diferença, aliais, eu vivo no Lubango, Província da Huíla, trabalho em Ondjiva, Província do Cunene todas cidades e Províncias do interior e sou estudante Universitário em Luanda capital do País, onde passo muito tempo também. Mas a convivência com este meio extra interior, ou melhor, “o choque de culturas” não deve deixar-me desenraizado dos meus princípios, valores, reflexões, formas de pensar e pontos de vistas, interpretar e entender a estruturação e estratificação dos meios urbanos e rurais, pois as raízes de um povo constituem a herança e o património sagrado que cada indivíduo e cada comunidade recebem dos antepassados, contextualizando este mesmo testemunho para ser o seu alimento e razão profunda da sua existência.

    L: Isso (o ser escritor de fora da capital) tem influenciado na sua carreira literária? E dos outros poetas do Namibe?
    DC: Não, eu encaro o país no seu todo, transmito valores, desperto consciências, critico, e deixo-me criticar, sou forjado por outros e muitos forjam-se da minha poesia. Penso que o ser social pressupõe-nos deveres/obrigações e direitos. Relativamente a poesia de outros poetas do Namibe, julgo que não foge muito da realidade geral, embora a forma de pensar e trabalhar a poesia varia de poeta para poeta.

    L: O que Namibe significa para si?
    DC: Risos…o Namibe é o meu ponto de partida, onde um dia encontrei o sentido das almas na teimosia das paragens impacientes, sem que a virgindade do vasto deserto do Kalahari e a impressão do gesto firme na fineza dos actos tivesse-me negado o alcance do que pretendia. O Namibe enquanto interior é excessivamente denso na sua vastidão de arte, ternura, adágios, contos e saberes. E fica-se com a sensação de que a corrente fria de Benguela ainda nada levou e por desbravar é do que há de mais, pois a mobilidade do espaço-tempo-ser aguarda-nos na continuidade de outros partos. Sempre que vou ao Namibe, ao regressar volto com visões reelaboradas, comprometido com o seguimento do querer que nos consome na azáfama da seiva do verbo. O Namibe aguarda-me sempre guardando as mais belas notas para serem cantadas em forma de poesia. Como disse, no princípio da minha entrevista, foi ali onde comecei com as minhas profissões e conheci o Mestre Ruy Duarte de Carvalho, que me apelou a riqueza do solo, falou-me da expressão do sapatear na dança Kuvale, afinou-me a sensibilidade para as diversas formas e mensagens vindas do som do batuque, mostrou-me a legenda das ondas do mar e descreveu-me o interior até a fronteira com a vizinha República da Namíbia.

    L: Qual tem sido o movimento da literatura nessa região?

    DC: O movimento literário nesta região tem sido mais baseado da gente que vem de fora, digo de autores que socorrendo-se da frescura, da beleza da pequena cidade, vão até lá com finalidade de apresentação pública das suas obras. Existe um pequeno núcleo da brigada jovem de literatura, onde com alguma periodicidade, realizam-se encontros, palestras e debates a volta de um dado tema literário, e assim vai indo a vida literária por aquelas paragens.

    L: Poetas como Aires Almeida dos Santos e Ana Paula Tavares o que lhe dizem? Aliás, acho a sua poesia um pouco semelhante á de Aires Almeida Santos, onde o povo é objecto da vossa criação. Comenta.

    DC: São poetas de grande dimensão, sobretudo a poesia da Paula Tavares, aquém eu mais leio, já que tenho lido muito pouco a poesia de Aires de Almeida Santos. Leio muito também a poesia do Lopito Feijóo, José Luís Mendonça, João Maimona, Luís Kandjimbo, Frederico Ningi, António Panguila e outros mais, todos poetas de grande valor e julgo que conquistam o seu espaço, cada um tem a sua forma de encarar e elaboração poética. Todavia, o povo está sempre presente na poesia, não só na minha, mas como na de todos autores, pois quando escrevemos não só estamos a exercitar a nossa capacidade intelectual, mas também nos comunicando com outros através do texto. Isto pressupõe a existência de dois pólos de comunicação, onde o emissor transmite a mensagem para o receptor ou até vice-versa, como muitas vezes acontece na minha poesia, em que recebo, concebo, reelaboro e volto a transmitir.

    L: As suas duas últimas obram: “GRAVURAS D’OUTRO SENTIDO” e “TIPO-GRAFIA LAVRADA” são no meu entender, um símbolo da qualidade da sua poesia, mas no entanto, nelas há sinais de transformação da sua escrita poética, quando comparado com a obra “VOZES AMBÍGUAS”. Comente esta interpretação, tecendo igualmente, comentários sobre o que norteia a escrita dessas obras?

    DC: Eu estruturo a minha poesia da seguinte maneira: 1 – compasso da reelaboração da alma, onde incluo as obras “Planta da sede, O enigma da Welwitschia, Rugir do crivo”, 2 – compasso da travessia, onde incluo as obras “Vozes ambíguas e Acordanua”,  3 – compasso do silêncio e tacto, onde incluo as três últimas obras, neste caso, “Gravuras d`outro sentido, Tipo-grafia lavrada e Véu do Vento”, esta última que vamos apresentar ao público no dia 08 de Junho de 2012. Como dizeres e confirmo, depois de um período de reflexão, análise e maturação dos meus feitos poéticos, neste último compasso tenho procurado manifestar-me na poesia de uma forma mais profunda e interventiva, olhando as questões que desde sempre me preocuparam, procurando aqui e de viva voz, sempre que posso e assim o entender deixar bem patente o dizer da minha gente. Eu me sinto bem representá-los como tenho feito, sobretudo porque eles aceitam-me e cada vez mais inspiram e fornecem-me subsídios para estes feitos. A obra “Gravuras D’outro sentido, procura” descrever vários estilos e formas de representação poética direccionados ao Namibe, sobretudo, não fugindo a regra de sempre. Já a obra “Tipo- Grafia lavrada, é um pouco mais solta, mais geral, na sua forma de estruturação e apresentação, embora, sejam todas obras de uma mesma linha de orientação e do mesmo autor, com as mesmas pretensões, visões e formas de pensamento.    

    L: Esta pergunta já lhe tinha feito noutras conversas, mas ela ainda me incomoda a dentro. Qual poderá ser o destino da sua poesia, tendo em conta a distancia que a sociedade vai tendo com as suas raízes identitárias? Teme alguma falta de espaço?
    DC: Pelo contrário, o espaço é conquistado pelo homem e, a poesia tem e terá sempre espaço em qualquer parte do mundo. Um dia o escritor Angolano Abreu Paxe ao ser perguntado sobre a sua forma de fazer poesia, respondeu belamente dizendo, “penso que a poesia, como ato de criação, para mim não deve de forma objectiva nomear as coisas tal qual como elas acontecem no cosmos, tal como se movem, tal como o cosmos as regula, vistas, à vista desarmada ou macroscopicamente. A poesia deve constituir-se no mundo alternativo, este funcionando como mundo não codificado ou convencionado numa visão globalizante, senão como codificação singular do criador e do leitor. Ao serviço da arte, a poesia deve-se construir com certa erudição, ou seja, a partir do que já existe, do que já foi proposto nos matizes artísticos. A poesia deve convidar-nos a mergulhar no escuro, como dizia Gastão Cruz, não para o iluminar, mas para aprender a conhecê-lo, evocando todos os sentidos.” Eu estou perfeitamente de acordo com este poeta, e é nesta forma de encarar os desafios da caminhada poética que o mestre Lopito Feijóo sempre diz, poesia é um mundo onde quando mais se caminha mais caminho há para se fazer, aliais, o poeta, não tem fronteiras e nem se circunscreve só na sua pátria, e assim, mais uma vez voltando ao poeta Lopito Feijóo, dizia: “é sem fronteira a pátria do poeta/ minha pátria é a nossa casa/ É a minha campa (é dizer), m´bila iami! /chamar-se-ia Lucrécia, Mundo/ou poesia, não fosse eu um apátrida!”. 


    Moçambique em Agosto


    Jorge Arrimar - Angola


    Chegámos a Maputo na madrugada do dia 10 de Agosto. A cidade revelava-se devagar, capulanas resistentes ao nosso olhar estrangeiro. A urbe era tanto o que os antigos legaram como o que os contemporâneos fizeram, lado a lado umas coisas, justapostas outras, misturadas ainda outras, como se ela estivesse, desde sempre, “na varanda do tempo […] onde o mundo mais namora com a nação moçmbicana”, como nos diz Mia Couto, referindo-se à variedade de povos e de culturas que o Índico trouxera até ali. Na Maputo de hoje descobre-se muito da Lourenço Marques de ontem, sobretudo no casario (muitos dos seus exemplares evidenciam o arrojo e modernidade com que foram desenhados), na forma simétrica em como foi construída ao longo de ruas largas e arborizadas, de avenidas amplas e rectas. Cidade de acácias vermelhas que, apesar de não serem bem acácias, ganharam o direito de serem conhecidas assim por se transformarem em árvores de fogo e deixarem no ar o cheiro das suas flores cor de chama. Cidade de ruas e largos com tapetes entretecidos das pétalas lilases que os velhos jacarandás deixam cair numa benesse florida aos seus habitantes. Infelizmente, nem todos aprenderam a cuidar da sua cidade e descobre-se, mais vezes do que se desejaria, uma cidade de ruas esburacadas e sujas, de prédios por reparar, de jardins por limpar. Mas acreditamos que seja uma questão de tempo e de aprendizagem e que esta cidade poderá continuar a ser uma das mais bonitas e tranquilas de África.
    Lembrei-me, então, que, uma amiga minha, moçambicana, me tinha dito uma vez que, em qualquer língua, bantu ou outra, para ela esta cidade “merecia mais ser a Baía da Lagoa […] pelo formato, doçura e cor do mar que a rodeia”. Confesso que, na altura, não percebi muito bem e até achava um tanto infeliz este nome, em que se misturava lagoa e baía. Mas hoje concordo com ela. Há cinco séculos atrás, navegadores que por ali passaram no rasto do Gama, levaram até longe notícias dessa baía, a ponto de, logo em 1502, aparecer referenciada no célebre mapa de Cantino. Estar neste planisfério é, por si só, uma certidão de maioridade, um sinal de notoriedade. Se a isto somarmos o peso da lenda que suporta este nome, então Baía da Lagoa não tem rival. Acreditavam os antigos que aquela magnífica baía se enchia das águas que os rios, que ali desaguam, iam beber a uma grande lagoa que existia no interior do continente. Bela esta imagem de uma lagoa que se transforma em baía…
    Mas como diabo surge então esse nome que se grudou à cidade até à independência de Moçambique? As crónicas antigas revelam que o reconhecimento geográfico desta baía só acontece a partir de 1544, por via de um obscuro navegador, chamado Lourenço Marques, que seria um piloto das naus da Índia e negociante ao serviço do capitão português de Sofala e Moçambique. Pois foi a esse senhor que, decorrido muito tempo, foram buscar o nome que pespegaram à povoação que se desenvolvera naquele local. Esse Lourenço não imaginava, sequer, que iria ser aquela baía a imortalizar-lhe o nome. Ainda hoje não é uma questão encerrada a do nome autóctone que foi escolhido para substituir o do obscuro navegador. Cheguei a ouvir sussurrar, enquanto andei por Moçambique, que Kampfumo ou Xilunguíne são ainda candidatas à designação desta cidade. Nisso Luanda teve sorte. Ninguém sentiu necessidade de alguma vez lhe trocar o nome. E, felizmente, a minha terra resistiu sempre às tentativas que houve, ao longo dos tempos, de lhe mudarem o nome, de S. Pedro da Chibia para
    Vila João de Almeida. Nunca ninguém usou este nome com que o Estado Novo tentou cobrir o original. É que é sempre complicado mudar o nome de uma cidade, de uma pessoa, até de uma coisa. Com o nome vai muito mais que a simples sonoridade dele. Ao nome vão-se agregando muitas coisas, muitas referências, muitas histórias, muitas vidas...
    Mesmo no dia da chegada, ao raiar da aurora, aproveitámos para iniciar o nosso passeio. O dia estava cinzento e frio, fazendo-se sentir, desagradavelmente, em fortes e repentinas rajadas. Alguém me disse, depois, que Agosto é o mês dos ventos. De bons ventos, espero, pensei eu. A primeira paragem foi no Jardim dos Namorados, recentemente recuperado. Ao fundo, junto ao paredão que dava para a baía, viam-se duas filas paralelas de colunas, nuas, como se estivessem ali apenas para sustentar o céu. Era o que restava de um magnífico caramanchão de buganvílias que emprestara frescura às pessoas nos dias de maior calor.
    Perscrutando o horizonte, achava que, a qualquer momento, o tempo iria mudar e que, talvez, fosse um bom prenúncio começar a minha visita por ali… no namoro que eu pretendia iniciar com aquela cidade que ainda não vira, mas que sabia ser uma das mais encantadoras da África Austral. Pela primeira vez deixei o meu olhar demorar-se na baía. Depois de um pequeno-almoço tomado no bar do jardim, resolvemos continuar a visita. Nas curvas do Caracol “ia com os olhos cheios de mar. Quem olha para trás com uma baía assim? Quem consegue desprender os olhos dos minúsculos barcos de pescadores concentrados na pequena praia da Catembe, fugidos de um mar como aquele que hoje faz?”. Fiz minhas as palavras do narrador de “O olho de Hertzog”, belíssimo livro do moçambicano Borges Coelho, que nos transporta a este mesmo local… só que h| quase um século atrás. Proferidas há tanto tempo, não deixavam de manter o mesmo sabor.
    Fui interrompido nas minhas cogitações pelo taxista que nos levava (coincidência: também a personagem do romance ia de táxi): Se quiser, pode apanhar um barco lá em baixo e ir até Catembe e depois à Ponta do Sol, vale a pena. Respondi-lhe que ainda era cedo para esse passeio; queria ver Maputo em primeiro lugar. Catembe ficaria para mais tarde, se houvesse tempo.
     Iniciámos a nossa visita à urbe, primeiro pela marginal de uma baía de águas um tanto escuras, disseram-nos depois, devido aos lodos e sedimentos transportados pelos rios que ali desaguam, sobretudo do Umbelúzi. Seguiu-se a Fortaleza, onde se encontram guardados alguns dos símbolos da época colonial, nomeadamente a estátua equestre de Mouzinho de Albuquerque e o painel de bronze que representa o momento da vitória em Chaimite sobre o último rei ngúni de Gaza. Chaimite, não a capital de Gungunhana, que era Manjacaze, mas a que fora de Muzila, seu pai. Lembrei-me dum livro de Guilherme de Melo, que li há já bastante tempo, “Os leões não dormem esta noite”, construído na base da hipotética conversa entre o rei vencido, o “leão de Gaza”, e o oficial vencedor, o “leão português”, antes de, a ferros, o soberano ngúni ter abandonado a sua terra definitivamente, para ir morrer bem longe, no forte de S. João Baptista da cidade de Angra do Heroísmo, no arquipélago dos Açores.
    Fiquei encantado com a Estação Central dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Mais tarde li, numa qualquer publicação de divulgação turística, que a revista Newsweek a tinha considerado como a mais bela estação de caminhos de ferro de África e uma das sete mais belas do mundo. Fora desenhada por Gustave Eiffel e inaugurada em 1910, partindo o seu autor da ideia de que se devia assemelhar a um palácio com pilares de mármore e enfeites em ferro fundido. Uma placa de latão polido, cravada numa das paredes, dava-nos conta das comemorações, este ano, do seu centenário. Seguir-se-iam três dias de passeios pela cidade. Não me admirei que as elites, as de ontem como as de hoje, tenham escolhido os bairros Sommerschield e da Polana para residir. Dentro da igreja de St.º António, rendido ao suave brilho dos vitrais, vi uma laranja de luz a ser espremida lá no alto, no lugar das estrelas.
    Num dos outros dias em que estivemos em Maputo, a caminho dos muitos sítios, edifícios e monumentos que queria conhecer, passámos pelo Alto Maé e eu tentei ver se adivinhava o vulto de algumas pessoas que eu conheci longe daqui, deste lugar que me haviam dito ter sido deles. Voltaríamos alguns dias depois, quando uns amigos nos quiseram mostrar Maputo “by night”, após um jantar de iguarias moçambicanas que a mãe de um amigo, Sérgio Sousa, simpaticamente nos ofereceu. Um ponto alto deste jantar e do serão que se lhe seguiu, foi termos tido a oportunidade de falar com D. Teresa, sua avó, e que conta com a belíssima idade de 105 anos. Senhora de uma vivacidade pouco vulgar em alguém com tantos anos percorridos, encantou-nos com as suas histórias, quase sempre filtradas de fino humor.
    Já com a capital bastante percorrida, com os seus emblemáticos locais e principais monumentos visitados, quisemos ver o que havia para lá dos seus limites. Resolvemos, então, ir até Inhambane e depois até mais longe, a Vilanculos, terra vizinha do célebre arquipélago do Bazaruto, quase a 800 km de Maputo. Alugámos um carro com tracção às quatro rodas que nos levou, de forma mais segura, à descoberta do asfalto esburacado, do sem asfalto, da terra batida e da picada. Maputo, Marracuene, Maluana, Manhiça, Taninga, Magul, Macia, Xai-Xai, Chongoene, Boane, Chidenguele, Zandamela, Quissico, Zavala, Inharrime, Maxixe e Inhambane; quilómetros e quilómetros por terras de paisagem variada, florestas de cajueiros, machambas de amendoim, palmares de coco e sura, pomares de mangueiras e tangerineiras... e mulheres de capulanas a drapejar ao vento, à cabeça bacias com frutos, camarão, água, molhos lenha, tudo. As bermas das estradas são a montra deste país. 
    Em Zavala quis ver e ouvir os marimbeiros, os tocadores de marimba, os mágicos da timbila. Infelizmente não foi possível, pois só se faziam ouvir em festas, cerimónias ou ocasiões especiais. Tive pena.
    Chegámos a Inhambane já a noite escondia quase tudo. Ficámos hospedados na Casa do Capitão, residencial construída a partir do que restava da velha casa do capitão do porto desta cidade. No outro dia, quando o sol começou a levantar-se, a baía de Inhambane foi saindo da sombra, primeiro envolta numa suave neblina, depois coada nas malhas de luz de um sol cada vez mais forte. Um navio encalhado pelo recuo nocturno da maré ia ganhando vida à medida que a madrugada lhe devolvia o mar. A baía de Inhambane foi um deslumbramento. Lindíssima!
    Aqui bebi um refrescante e doce sumo de tangerina, um sabor que me transportou à infância e às tangerinas da minha terra natal, no sudoeste angolano. Como as de Inhambane, ainda acho que as tangerinas da Chibia são das melhores do mundo. Junto a minha voz à do poeta da Mafalala e confesso que “adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos / das magníficas tanjarinas d'Inhambane. Adoro mesmo!”
    A caminho do Miramar, mirando o mar deixei-me ir com os repuxos do respirar das baleias, parentes, talvez, daquelas que eu vi mergulhar no mar dos Açores, naquele Atlântico agitado e profundo que separa as remotas ilhas das Flores e Corvo. Se nestas estivemos nas terras mais ocidentais da Europa, agora estávamos onde o Oriente começa.
    Esta é a costa africana banhada pelas índicas vagas, as mesmas que, devagar, muito devagar, conduziram o Gama até ao Samorim de Calicute, na eterna Índia das especiarias. Pois, fui encontrá-lo, triste e esquecido, num quintal desta centenária cidade, refém infeliz de um conturbado tempo nosso (não o dele!), e hoje náufrago de um outro oceano que, em vida, não imaginara vir a enfrentar.
     Segundo rezam antigas crónicas, o velho almirante aparecera na protectora baía, vai para mais de 500 anos, para fazer aguada e, bem impressionado pela terra que seus olhos descobriam, resolveu entrar e ver como era mais de perto. Depois seguiria o seu destino, bem mais longínquo e apelativo, na outra margem daquele mesmo oceano que o refrescava, ele que, afinal, não se prendera ao gosto da doce tangerina, antes se mantivera fiel ao cheiro da canela e da noz-moscada. Mas gostou da baía e ainda se diz hoje que foi o navegador português a propalar que aquelas eram terras de boa gente. Mais do que tudo, foram essas palavras que ligaram o Gama a este lugar. E por que razão fora tão simpático, logo ele que, segundo consta, não era muito dado a palavras doces ou a simpatias vãs? Contaram-me que o velho almirante, vindo do mar em terra se encharcara de copiosa chuva, e que, precisando de um tecto para se recolher e de uma fogueira para se secar, teria sido abrigado por um local em sua própria casa, que ao recém-chegado se dirigiu em bitonga, convidando-o a entrar, bela gu nhumbale.
    O Gama, de regresso ao navio e satisfeito com a hospitalidade, teria dito, então, que estava numa terra de boa gente. Gente que, em jeito de despedida lhe teria gritado ambane. Mais nesta última palavra, a da despedida, do que nas primeiras, as do convite, parece espreitar o nome desta cidade. O toponímico Inhambane terá origem nesta palavra, a mesma que foi pronunciada para despedir o visitante?
    Voltei a olhar para a estátua ali esquecida a um canto e questionei-me se não continuariam a dizer ambane ao Gama. Ele, que, há mais de trinta anos aguarda, naquele cais improvisado, por uma outra nau, que o leve de regresso à terra natal. Ou então, de tanto esperar e de por tanto tempo o deixarem ficar… talvez a boa gente de Inhambane lhe volte, um dia, a dizer, bela gu nhumbale. Quem sabe?
    E a viagem continuou, mais umas três centenas de quilómetros, mais Moçambique a desfilar nas bermas das estradas, Inhambane, Maxixe, Mocoduene, Morrumbene, Massinga, Unguana, Vilanculos. Para mim, nada como a Baía de Inhambane. Não é fácil encontrar uma natureza tão rica, tão pujante de beleza como a(s) Baía(s) de Inhambane. Os nossos olhos ainda estavam cheios da Praia da Barra, da Baía dos Flamingos, do Miramar, das Praias do Tofo e do Tofinho. Em Vilanculos ficámos na Casa Rex. O nosso quarto abria-se para o mar e para as ilhas do Bazaruto. Lá, diziam-nos, naquelas ilhas é que está uma beleza sem igual. Nós acreditámos, mas os dias estavam cinzentos, chegou mesmo a chover, e achámos que não valia a pena arriscar. Passeámo-nos por ali, vimos praias de areais a perder de vista e coqueiros a dançar marrabentas de vento… mas continuávamos com a Baía de Inhambane no olhar.
    Quando iniciámos o regresso a Maputo, quisemos voltar a Inhambane. No Tofo encontrei (Que surpresa!) amigos antigos de Angola e de Macau que haviam escolhido aquele lugar para sua residência. Com eles almoçámos matapa de caranguejo e só saímos de lá quando, ao desmaiar do sol, a mosquitaria ganhou coragem e invadiu tudo. A viagem até Chidenguele foi nocturna e de cacimbosos calafrios, sobretudo quando nos cruzávamos com outros carros, todos a fugirem dos mesmo buracos e a cegarem-se dos mesmos faróis. Nas margens do lago com o mesmo nome desembocámos em adiantada hora. Só os pássaros, as rãs e as estrelas se ouviam. Lindo! E o mar a bater em frente mostrava-se invejoso daquele lago que nos atraía mais do que ele. Em Nhambavale, mesmo juntinho à água doce do lago, foi um delírio. Seria ali o paraíso?
    Seguiu-se Xai-Xai onde o ocaso não foi um acaso de beleza e o horizonte festejou-nos com tons de manga madura. O que veio depois é que foi! Chegámos ao Bilene já a noite nos brindava com as primeiras sombras que uma lua cheia teimava em afastar. Deixaram-nos num cais destruído e disseram-nos que esperássemos pelo barco. Havia de chegar, mas como não tinha luz, seriamos avisados pelo roçar do casco dele nas ondas mansas da lagoa. E assim foi. Quando se acercou de nós, arregaçámos as calças, mergulhámos os pés na água morna e fomos até ele. Seguiu-se a viagem num barco sem luz em que o farol era o luar… Deixaram-nos na encosta arborizada das grandes dunas que não deixavam ver o mar. O cen|rio era soberbo { luz da lua… o cenário continuou soberbo com a manhã a chegar…


    Variações e Tendências dos Discursos Críticos Africanos

    LUIS KANDJIMBO - Angola

    INTRODUÇÃO

    Em 1989 realizou-se em Dakar e pela primeira vez em África, o Congresso anual de uma das mais prestigiadas associações americanas de investigadores, críticos e professores universitários especialistas de literaturas africanas.Participei desse evento e acompanhei com particular interesse os grandes debates sobre as literaturas do continente, que ali tinham sido concentrados por um período curto de três dias. No último dia ouvi uma sintética retrospectiva na alocução proferida pelo decano dos criticos africanos, o professor Eldred Jones da Serra Leoa, que num tom alegórico fazia a apologia da inserção de África no espectro semântico da crítica sobre as respectivas literaturas. Durante as sessões de trabalho várias intervenções faziam apelo a critérios que fossem os mais pertinentes para a análise dos textos literários africanos.
    Por outro lado, na década passada participei com alguma frequência em actividades organizadas por uma associação sediada em Paris, igualmente de investigadores e criticos das literaturas africanas. E a conclusão a que fui chegando resume-se nisto: o exercício efectivo do discurso crítico sobre as literaturas africanas vai gerando abordagens e problemáticas novas.
    Os debates sobre essa matéria vão-se multiplicando. E do mesmo modo as publicações, algumas das quais resultantes de trabalhos académicos. Com efeito, o ponto de referência e, ao mesmo tempo, o limiar desse processo de reflexão remonta aos fins dos anos 40, com a criação da revista Présence Africaine animada pelo senegalês Alioune Diop e publicada em Paris. Seguir-se-iam outras revistas que, por serem de âmbito geral, desempenharam um papel menor na história da crítica africana . Publicaram-se também um bom número de antologias. Igual destaque deve ser dado aos dois congressos de escritores negros realizados em Paris e em Roma, respectivamente em 1956 e 1959, que ajudaram de certo modo a sacudir a mornez ocidental na sua relação com a África.
    As décadas de 60 e 70 são marcadas por importantes factos políticos e culturais, nomeadamente as independências das antigas colonias britânicas, francesas e belgas; e a institucionalização dos estudos universitários. O ensino e a pesquisa das literaturas africanas são introduzidas nas Universidades de alguns países africanos, designadamente na Faculdade de Letras da Lovanium de Kinshasa; Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Dakar; Universidade de Yaoundé; Universidade de Nsukka e Ibadan na Nigéria; Universidade do Ghana que cria o primeiro instituto de estudos africanos; Universidade de Makerere, no Uganda.
    Neste período surgiram revistas especializadas que veiculavam alguns resultados de pesquisa e sustentavam a actividade daquelas instituições do ensino superior. Por exemplo: Transition, Okike, African Literature Today, Drum. Realizam-se vários colóquios no quadro das actividades de algumas universidades. Assim, o colóquio de Dakar(1963), Freetown(1963), Abidjan(1969, 1970), Makerere(1962), Yaoundé(1973), Lumbumbashi (1975) , Lagos(1977)no âmbito do FESTAC, que no dizer de L.Mateso foi a consagração das teses de Yaoundé; Brazzaville(1981).
    A década que se segue aponta alguns sinais de ruptura, quer sob o ângulo historiografico, quer sob o ângulo teorico e crítico.
    A tirania das metodologias ocidentais começam a ser objecto de dúvida epistemológica. Já em 1968, Thomas Melone, num seminal artigo lançava o repto. No seu entender, "a tarefa do critico, por se pretender técnica e criativa situa-se a um outro nível. Tal é imposto ou sugerido pela problemática da linguagem, quer dizer da estrutura profunda da obra" . Em termos metodológicos considera que "o objectivo(...) é apresentar ao público mundial as obras mais significativas da nossa literatura assente na nossa própria sensibilidade estética, da nossa própria avaliação das civilizações negro-africanas, da nossa própria visão do devir africano" .

    Foi no Colóquio de Lumbumbashi que se constituiu a Associação de Críticos Literários Africanos, realizado de 24 a 27 de Março. Mas esta Associação teve vida efémera.
    Thomas Melone, "La critique littéraire et les problémes du langage: point de vue d'un Africain", Présence Africaine nº73, 1º trimeste 1970,pp.3-19.
    No entanto, quando se aborda hoje o discurso crítico sobre as literaturas africanas, o problema releva da demarcação dos seus limites e finalidades perante o fascínio subjacente à adesão aos métodos ocidentais. Por conseguinte, engendram-se imediatamente questões de ordem epistemológica.
    De acordo com P. Ngandu Nkashama, "o que é urgente neste momento tanto em crítica literária como em todos os discursos africanos, é a necessidade essencial de determinar os fundamentos e os postulados teóricos que satisfaçam qualquer exigência crítica. Sem estes aspectos preliminares, a crítica não pode operar senão como um mimetismo da palavra, sem influência real, quer sobre o texto, quer sobre o contexto que lhe subjaz" .
    Com este texto pretendo apontar algumas linhas que evidenciam a vitalidade das reflexões africanas e referir as formas típicas que caracterizam os diferentes pontos de vista dos críticos perante as literaturas dos seus países. Procuro igualmente detectar, algumas tendências que pela sua originalidade são susceptíveis de representar alguma ruptura. Além disso, pretendo despertar o público leitor angolano para a existência de um interessante debate envolvendo problemas associados aos critérios de apreciação estética e crítica de um modo geral. Eis os desenvolvimento que está exposta na parte introdutória:



    O CAMPO DA CRÍTICA LITERÁRIA AFRICANA
    E SUAS LINHAS DE FORÇA

    A crítica literária africana pode ser entendida como um sub-sistema dentro dos sistemas literários nacionais. O seu campo apresenta uma estrutura em que avultam problemáticas de natureza epistemológica. Abordar a crítica das literaturas africanas é levantar questões acerca do sujeito e do objecto do discurso, dos métodos, princípios operatórios e das condições da sua eficácia. Não pretendo introduzir a ideia de crítica a partir do nada. Pelo contrário, parto do pressuposto da precedência dos fundamentos da crítica relativamente ao surgimento das literaturas escritas. Segundo Locha Mateso, "a crítica literária na África tradicional é uma actividade de multiplas facetas(...) concentra os critérios de apreciação que correspondem à finalidade conferida à obra por um determinado grupo social" .

    Pius Ngandu Nkashama, Ecritures et Discours Littéraires,Paris, L'Harmattan, 1989, p.241.
    O seu objecto é constituído por um conjunto de textos resultantes de dois sistemas de comunicação: a comunicação oral e a comunicação escrita. Do primeiro temos a literatura oral e do segundo temos a literatura escrita. Alguns autores põem em causa os canones da literatura escrita, tal como têm sido apresentados. É o caso do professor nigeriano Emmanuel Obiechina que, no estudo dedicado à literatura panfletária de Onistsha, leva a concluir que essa categoria de textos não pode ser negligenciada, apesar de os seus destinatários serem aqueles segmentos sociais com baixo rendimento e gostos diferentes dos da classe média.
    Perante este quadro heterogéneo de textos, a posição e a atitude dos sujeitos dos discursos críticos têm-se revelado polémicas. É que o elenco de tais sujeitos também não tem sido homogéneo. Não são apenas africanos entre eles. Contam-se também criticos não africanos. Contudo, a variedade de textos assim como os problemas que se colocam na sua recepção têm suscitado suspeitas quanto a relativa ineficácia da utensilagem teórica e crítica ocidental. Donde se compreendem as posições de certos críticos africanos a este propósito.
    Eldred Jones observa que "as literaturas africanas apresentam uma importância capital para os africanos e deve-se, naturalmente sobre esta matéria esperar dos críticos africanos opiniões substanciais" . Estas considerações impõem-se com algum vigor ao serem transpostas para o plano institucional do ensino. No dizer de P.Ngandu Nkashama" as literaturas africanas transformaram-se em verdadeiras paradas económicas, dando direito a vantagens e lucros em moeda sonante ". Aludindo o comportamento dos "colegas" das universidades ocidentais, acrescenta: "evidenciando sem escrupulos uma incompetência notória(...) os homólogos africanos não são considerados senão nas relações de beligerância, enquanto obstáculos a eliminar(...)com um pouco de condescendência eles reduzem-no ao triste papel de mendigo, pedinchão de esmolas facilmente manipulável" .
    Mais adiante poder-se-à ver uma manifestação dos debates entre criticos africanos e não- africanos e as modalidades dessa conflitualidade que não parece ser apenas uma "deslocada hostilidade", como diz Solomon Ogbede Iyasere.

    Locha Mateso, La Littérature Africaine et sa Critique, Paris, ACCT/Karthala, 1986,p.55.
    Eldred Jones, African Literature Today (Editorial), nº7,1982
    Por outro lado, os próprios críticos não-africanos revelam-se insatisfeitos com os instrumentos que utilizam. Edgar Wright refere que o crítico ocidental que se dedica ao estudo das modernas literaturas africanas enfrenta duas grandes obstruções:"a primeira reside em saber se qualquer teoria geral pode funcionar, quando aplicada a uma cultura que é completamente diferente nas suas origens daquela que constitui o suporte material da teoria(...); a segunda relaciona-se com o público leitor e a intencionalidade do autor" .
    Em 1973, a Sociedade Africana de Cultura promoveu a realização do colóquio de Yaoundé sob o tema: O crítico africano e o seu povo como produtor de civilização. A presidir a sua realização estava o seguinte argumento:
    "Cada sociedade tem as suas normas de apreciação. Estas são parte integrante da sua ética da vida.
    As correntes externas, por mais generosas que sejam, não saberia substituir o esforço pessoal de pesquisa e de confrontação que apenas permite esclarecer os juízos através do contexto especifico de uma civilização"(...)
    "Quem poderá melhor que os criadores africanos apreciar a necessidade de sentir a condição do seu povo, ou indicar aos escritores a via a seguir, os obstáculos a evitar? Trata-se de integrar o criador africano na vida da sua civilização e de libertá-lo da dominação excessiva do Ocidente".
    Estes são os postulados básicos do colóquio que durante quatro dias reuniu cerca de 50 especialistas das literaturas africanas, entre os quais alguns europeus e americanos. Os debates subdividiam-se em três eixos, nomeadamente: Teoria - o povo e a actividade crítica; Doutrina a crítica em África; Pedagogia- Crítica e comunicação.

    Pius Ngandu Nkashama, Ob.Cit.
    Edgar Wright, "Critical Procedures and the Evaluation of African Literature", in The Critical Evaluation of African Literature, ed.
    Edgar Wright (London, Heinemann,1978)p.8
    Apesar da leitura das comunicações que, reputei de importância imediata cujos resultados merecerão desenvolvimentos ulteriores, limito-me, em primeiro lugar, a fornecer referências das conclusões a que chegaram os participantes.
    No primeiro atelier destacam-se as definições de crítica e povo. A crítica é entendida como "uma actividade de reflexão cujo objecto é a criação artistica; uma ciência cujo objecto é explicar o produto cultural criado e sua difusão". Por povo entende-se "o conjunto de uma comunidade partilhando uma mesma cultura e tendo línguas comuns que realizam as funções de referências".
    Lançou-se alguma precisão sobre o conceito de crítica africana sendo entendida como o reflexo da visão do mundo própria do povo e em particular da sua estética. Relativamente às condições necessárias para a emergência e difusão da actividade crítica são indicadas duas que subentendem a necessidade de políticas culturais nacionais: condições políticas, no âmbito das quais se considera a liberdade de expressão e a democratização da informação; condições técnicas do discurso em que destacam os níveis da crítica, as modalidades e técnicas de crítica, as tendências da crítica tradicional e actual; e o aspecto ideológico de toda a crítica.
    Estas condições convalidam a necessidade de autonomização efectiva da crítica e a constituição do seu objecto. De resto, o exercício do discurso integra igualmente esse objecto.
    No segundo atelier debatia-se a indissociabilidade da crítica de outros domínios como a educação e a comunicação, havendo entre eles uma apertada conexão com a problemática linguística. Ficou consagrada uma recomendação às altas instâncias dos Estados Africanos, dentre elas a OUA.
    Recomendava-se a adopção de "uma política sistemática de formação de linguistas africanos(...)" bem como "a multiplicação e desenvolvimento de editoras africanas que se encarreguem de publicar obras inter-universitárias por serem indispensaveis para o renascimento cultural do continente.
    No terceiro atelier, as conclusões visavam completar algumas definições fornecidas no primeiro. A obra literária - no contexto das literaturas africanas - foi definida como "um discurso oral ou escrito organizado exprimindo uma visão do mundo numa perspectiva estética". Em sentido amplo, a crítica é analisada enquanto "reacção de um individuo ou de um público manifestada diante de uma obra literária, sendo por isso compatível com a ideia de um certo pluralismo. Atribuem-se determinadas funções ao crítico africano. A tarefa que lhe é conferida como primordial reside na formação de formadores nos vários níveis de ensino e no quadro de programas de animação cultural. E na qualidade de criador, considera-se que o crítico" deve contribuir, de modo permanente, para a promoção do espírito criador, entendendo-se que qualquer acto de promover a leitura visa uma multiplicação das actividades criadoras.
    Foi ainda proposta a criação de uma Associação de Críticos Africanos.
    O colóquio de Yaoundé constitui um dos importantes pontos de referência, na história das reflexões africanas.
    Do conjunto das comunicações apresentadas, prenderam a minha atenção, pela lucidez e vertente de focagem, nomeadamente os textos de M.aM.Ngal:"O artísta africano: tradição, crítica e liberdade criadora; de Pierre Ngijol "A crítica literária africana na literatura tradicional oral"; de Nguessan Kotchy e H.Memel-Foté": A crítica na África tradicional"; de Noureini Tidjani - Serpos "A crítica africana: os critérios de recepção"; e de Mohamadou Kane "Sobre a crítica da literatura africana moderna ". Retomarei a leitura de alguns destes textos posteriormente.
    Haverá alguma razão para sustentar que a diferença entre a crítica dos africanos e a crítica dos não africanos representa uma polarização irremediável?
    Num artigo publicado em 1969, na revista Présence Africaine, o nigeriano Joseph Okpaku demarcava o alcance e os limites da intervenção das duas críticas. Observa que "o primado da crítica das artes africanas deve ser conferido aos africanos fazendo uso de padrões africanos". Por outro lado, "o papel do critico ocidental é diferente",. "A única actividade válida deste último consiste em interpretar as literaturas africanas e outras artes para audiências ocidentais". Com efeito, as posições que fazem a apologia dessa primazia são bem mais antigas. Remontam aos anos dos congressos de escritores negros. Nessa época a investigadora belga Lylian Kesteloot, escreveu:" Estou convencida de que só os críticos africanos serão capazes de destilar toda a essência, sabor, significado e poesia, toda a " suculência" dos frutos" de sua herança ancestral para maior glória da literatura mundial".
    O debate foi tomando outras feições, tendo chegado a opor, mesmo entre críticos africanos, negadores e defensores do monopólio do discurso crítico legítimo. Encontramos algumas destas manifestações na revista African Literature Today, especialmente no seu número dedicado à crítica (Focus on Criticism). No editorial desse exemplar Eldred Jones, que é editor da revista, advoga já a tese do primado da crítica endógena. No mesmo encalço alinha Thomas Melone, quando em 1970, escrevia: "A situação hoje nos impõe uma revisão total do processo. Trata-se de restituir ao povo o privilégio de que foi detentor durante os tempos imemoriais(...) O problema essencial consiste em não perder de vista o que na tradição constituia a base da crítica artistica e literária tal como o povo a exercitava .

    Joseph Okpaku, "Tradition, Culture and Criticism", Présence Aricaine, 70, 2º trimestre, 1969,pp.137-146
    Solomon Ogbede Iyasere, no texto inserido na revista mencionada, sustenta que "não é por sermos africanos que as nossas explicações serão melhores que as do crítico não-africano". Ele reage ao requisitorio produzido por Ernest Emenyonu contra o crítico americano Bernth Lindfors. Este ataque suscitou outros comentários da parte de Solomon O.Iyasere. Condena Emenyonu por agir "como se fosse um cego perante uma qualidade relevante como é a distinção das situações e factos, ele fecha os olhos à distinção entre a arte e a realidade, representação artistica e reprodução fotografica" .
    Entre os negadores da primazia da crítica endógena encontram-se aqueles que sem o declararem explicitamente atestam o chamado "mimetismo da palavra". Quer dizer exercem a crítica em dois níveis: recuperando as variáveis de postulados teóricos ocidentais (únicos susceptíveis de ser considerados como tais e de funcionar como metodologia coerente); e no outro nível o discurso da crítica literária parece, limitado não marcado por quaisquer limites metodológicos .
    Os argumentos aduzidos pelos defensores da primazia da crítica endógena são de peso para serem apontados como tendencialmente prevalecentes. A lista de testemunhos é de certo modo abundante. Mas o que importa é identificar os recortes do paradigma novo.

    Thomas Melone, Op.Cit. 
    Solomon Ogbede Iyasere," African Critics on African Literature: A study in misplaced hostility", in African Literature Today (Focus on Crticism) de. Eldred Jones(London,Heinemann,1982), nº7.pp.20-27
    Pius Ngandu Nkashama, Op.Cit.
    Apesar dessa oposição assente na consideração do primado dos critérios de apreciação, várias têm sido as tentativas para a elaboração de respostas. Grande parte destes esforços são empreendidos no contexto do e pesquisa das universidades. Actualmente ensaiam-se, um pouco por todo o continente, novas vias para os estudos das literaturas africanas.
    Segundo Elo Dacy, no quadro da universidade congolesa o discurso crítico apresenta-se em quatro correntes, nomeadamente a linguística, a anti-representação, a antropologica e a ecológica . As duas primeiras caracterizam-se por serem negadoras. Negam, respectivamente, o reconhecimento de uma identidade congolesa da literatura escrita em francês; a segunda, a existência do romance africano em geral e do romance congolês em particular. A corrente antropológica representada pela professora francesa, Arlette Chemain, é uma crítica formalista que arranca de pressupostos ocidentais. Transfere os métodos da crítica ocidental para os textos africanos. Finalmente, a corrente ecológica representada por nomes de pesquisadores congoleses, "propõe-se a reintroduzir a obra no contexto da sua produção e contextualizar os instrumentos de análise" .
    Nas universidades dos países anglófonos, as posições estendem-se desde as correntes sociologicas às neo-marxistas e neo-científicas. Tal é o caso da Nigéria onde, segundo Grace A.Adebayo, a crítica neo-marxista, representada por Femi Osofian, Biodun Jeyifo, Odia Ofeinum, é praticada de modo determinista e normativo como prova de que "a crítica literária africana seguiu tenazmente na peugada da crítica europeia, em nós que tanta desconfiança nos suscita" .
    O princípio da década de 70 marca a emergência de uma corrente pragmática na África Oriental, liderada pelo escritor e professor universitário queniano, Ngugi wa Thiong'o. Desenvolvendo a tese da endogeneidade da crítica com Henry Owuor-Anyumba e Taban Lo Liyong (ugandês), lança o projecto de abolição do Departamento de Inglês na Universidade. Defendem a constituição do Departamento de Literatura e Línguas Africanas. Os fundamentos de tal tese assentam na necessidade urgente de afastar o aspectro de uma África que fosse vista como simples extensão do Ocidente, procurando instituir, portanto, uma visão afrocêntrica dos estudos literários .

    Elo Dacy, "La Critique à l'Université", Notre Librairie (Littérature Congolaise), nº92-93 Mars-Mai 1988,pp.198-202
    Grace Aduke Adebayo," A crítica do romance da África Ocidental de língua francesa e inglesa:- evolução e estado actual" África - Literatura, Arte e Cultura, Vol.III, nº11, Lisboa, Jan-Jun.,1981,pp.10-18

    Ora, este grupo parte de pressupostos de inspiração marxista na análise do fenómeno literário. Donde animados por um certo desejo de síntese, três críticos nigerianos, considerados também de inspiração marxista (Chinweizu, O.Jemie,IMadubuike) aprofundam essa focagem no livro Toward the Decolonination of African Literature, Abiola Irele, um dos eminentes críticos nigerianos, classifica as teses iconoclastas destes três como sendo resultado de um "naive romanticism". O que os aproxima aos marxistas, diz A.Irele, é o facto de partirem da ideia prescritiva e ortodoxa da crítica.
    Depois de muitas hesitações e resistências, a Universidade de Ifé, na Nigéria, procederia a uma reorganização do Departamento de Inglês. Em 1977, dava lugar a três novos Departamentos . Tudo isto ocorria perante a rejeição da mudança que se verificava na Universidade de Ibadan, a primeira a ser criada e onde se formam a primeira geração de professores de literatura, escritores e criticos nigerianos.
    No plano de estudos da Universidade de Ifé identificam-se os seguintes Departamentos: Departamento de Língua Inglesa; Departamento de Literaturas em Língua Inglesa; Departamento das Línguas Europeias Modernas. As literaturas africanas são leccionadas no âmbito dos dois últimos.
    O processo de autonomização das literaturas africanas foi provocando, embora com alguma lentidão, o abandono das denominações generalistas elaboradas na base de critérios raciais. A historiografia regista influências profundas que o movimento panafricanista e posteriormente a Negritude exerceram sobre a ideologia dos escritores africanos. Estas literaturas foram durante muito tempo designadas como sendo negro-africanas.
    O tipo de argumentos utilizados para justificar tais desingnações é-nos dada por Lylian Kesteloot, na sua Anthologie Négro-Africaine:" Consideramos a literatura negro-africana como manifestação e parte integrante da civilização africana. E mesmo quando é produzida num meio culturalmente diferente, anglo-saxónico nos Estados Unidos, Ibérico em Cuba e no Brasil(...) O espaço da literatura negro-africana cobre não apenas a África ao sul do Sahara, mas todos os cantos do mundo onde se estabeleceram comunidades Negras, sob os auspícios de uma história turbulenta que arrancou ao Continente centenas de milhões de homens como escravos(...)" .

    Biodun Jeyifo, "The debate on literary pedagogy in África: the Ife experience", in AAVV, Littératures Africaines et Enseignement, Actos do Colloque International de Bordeaux, 15-17 Mars 1994, organizado por Centre d'Etudes Littéraires Maghrehines, Africaines et Antillaise e R.C.P.-C.N.R.S nº732 Littératures Africaines Imprímées, Bordeaux, Presses Universitaires de Bordeaux, pp.735-391.
    A partir da década de 70 e 80, a tendência dominante da crítica designa as literaturas africanas no plural, confinando-as aos espaços nacionais. Passam a aser publicados estudos e antologias que obedecem ao critério da nacionalidade literária. Para M. a M. Ngal, este critério tem a sua validade na medida em que o conjunto de actos criadores que a literatura representa "estabelece com as línguas nacionais, uma relação de pertença linguística (...) É neste sentido que às produções intelectuais abstractas tais como as literaturas filosóficas se autorizam qualificativos como a filosofia francesa, filosofia alemã".
    Chinweizu,O.Jemie e I.Madubuike, no livro já mencionado, produzem interrogações interessantes sobre os critérios para uma definição do objecto do discurso crítico: as literaturas africanas. Enquanto tal, elas "não podem ser definidas com uma simples, concisa, anotação de dicionário, através da enumeração das condições necessárias e suficientes". Por isso, recorrem a uma definição extensional em que as semelhanças de família são empregues de modo pragmático para se determinar os casos duvidosos e de fronteira que poderiam ser incluidos no indiscutível canone das literaturas africanas.

    OS CASOS PARADIGMÁTICO
    DO PRIMADO DA CRÍTICA ENDÓGENA

    Dentre aqueles autores africanos que rejeitam vigorosamente a tradição crítica ocidental e lançam pilares para um novo paradigma, de um corte epistemológico, figuram os nomes de J.P.Makouta Mboukou, Mahamadou Kane e M. a M.Ngal. Esta é a apreciação de Locha Mateso.
    A introdução de um novo paradigma emerge de um princípio importante para as literaturas. É o princípio do relativismo histórico. Por outras palavras, o primado da crítica literária endógena resulta do reconhecimento de uma situação de natureza ontologica cujas potencialidades motivam a adopção de critérios que sustentam a caracterização das literaturas africanas. Ora, a crítica literária legitima-se a partir da recepção da obra literária. E o que se sugere com a ideia do primado da crítica endógena é a adequação do exercício da leitura às experiências das sociedades africanas.

    Lilyan Kesteloot, Anthologie Negro-Africaine (Littérature de 1918 à 1981), Verviers, Les Nouvelles Editions Marabout, 1978, p.5-6
    Na verdade, Mohamadou Kane e J.P. Makouta Mboukou são dois dos referidos autores que no espaço da língua francesa realizam abordagens inovadoras. É evidente que a originalidade das suas metodologias não esgotam o que de um modo geral fazem igualmente os seus confrades do espaço de língua inglesa. Lamentavelmente o objecto de análise de Locha Mateso reduz-se às literaturas de língua francesa. Tal é a consequência da balcanização linguística do continente.
    No entanto, os tipos de análise realizados por Mohamadou Kane e Makouta Mboukou têm várias semelhanças com as que são produzidos por alguns críticos de língua inglesa.
    O nigeriano Ernest Emenyonu autor de "The Rise of the Igbo Novel", aproxima-se, quer de Mohamadou Kane, quer de Makouta Mboukou ao inventariar os elementos dos contextos e universos culturais subjacentes às obras literárias de escritores de origem igbo, nomeadamente Pita Nwana, que escreveu"Omenuko", um romance em língua vernácula, Ciprian Ekwensi e Chinua Achebe. E.Emenyonu chega à seguinte conclusão: o facto de a literatura igbo ser na sua grande parte escrita em inglês não lhe retira qualquer valor enquanto arte concebida pelo génio igbo, de acordo com uma visão do mundo igbo, uma ética igbo e padrões igbo" .
    J.P.Mboukou tece as mesmas considerações quando se refere ao contexto sócio-linguístico do romance africano. Assevera que "não é exagero dizer que haverá tantos contextos linguísticos quanto a diversidade de escritores negro-africanos" . Por isso forjou a noção do duplo contexto linguístico que se analisa na presença indelével da língua materna dos escritores coexistindo com a língua de origem europeia. Não se limitando ao contexto linguístico, o crítico congolês entende que a leitura de um romance africano pressupõe ainda outros contextos: o geográfico, o sócio-etnológico, o sócio-histórico. Eles representam signos cuja decifração permite atingir a mensagem romanesca. Além disso, a abordagem de Makouta Mboukou dá particular destaque aos "não-ditos". Ou seja, os elementos não verbais que entram na constituição das situações pressupositivas complexas.

    Ernest Emenyonu, The Rise of the Igbo Novel, Ibadan, University Press Limited, 1987,p.189
    J.P.Makouta Mboukou, Introduction a l'étude du Roman Négro-Africaine de Langue Française, Nouvelles Editions Africaines, 1980,p.268
    Na sua monumental obra crítica"Roman Africain et Tradition", Mohamadou Kane começa por reconhecer expressamente a existência de pontos de convergência entre a sua perspectiva metodológica e a de outros investigadores do espaço anglófono. Menciona, por exemplo, os nomes dos nigerianos Emmanuel Obiechina e Joseph Okpaku que também defendem a "especificidade da literatura africana, a continuidade do discurso narrativo de uma literatura [tradicional] a outra [moderna] e a importância da sobrevivência das 'formas tradicionais' no romance africano" .
    Mas, a originalidade desse estudo de Mohamadou Kane reside na extensa perquirição do tema da identidade alicerçada nas isotopias da tradição.
    Outros investigadores como Isidore Okpewho estendem a captação destas sobrevivências aos domínios da poesia. Na sua antologia "The Heritage of African Poetry", que compreende as literaturas escritas em inglês, português e francês, e as tradições da poesia oral, I.Okpewho procura encontrar os pontos de ancoragem para a ideia segundo a qual as literaturas orais africanas influenciam profundamente as literaturas africanas actuais.
    Apesar do radicalismo de que são acusados os autores de "Toward the Decolonization of African Literature" dão uma importante contribuição para a refutação das teses da crítica eurocêntrica. Corroboram a ideia da precedência da oralidade sobre o romance e a poesia. Expendem uma abundante réplica, passando em revista, por exemplo os ataques desferidos contra a estética do romance. Nesse excurso,incidem sobre aspectos estrurais como espaço e tempo; trama e diálogo; personagens e descrição .
    Já em 1973, na comunicação ao colóquio de Yaoundé, preocupado com os fundamentos das novas tendências do discurso sobre as literaturas africanas, Mohamadou Kane recusava a dependência insidiosa dos críticos perante os instrumentos de inspiração europeia. Lamentava a hegemonia da crítica de Paris de que dependia a consagração e a glória dos escritores africanos. O mérito das obras era determinado na base de critérios da literatura francesa, passando ao lado do essencial.

    Mohamadou Kane, Roman Africain et Tradition, Dakar, Nouvelles Editions Africaines, 1982,p.19-20
    Chinweizu, et al., Toward the Decolonization of African Literature (African Fiction and Poetry and their critics), Enugu Fourth Dimension Publishing, 1980
    A situação não deixa de ser paradoxal se se privilegiarem os públicos africanos. M. a M.Ngal, na sua intervenção no referido Colóquio, considera que as literaturas africanas modernas não atingem senão alguns milhares de pessoas. Por conseguinte, "a grande maioria a que os críticos se devem dirigir são analfabetos"."E mesmo quando sabem ler a maior parte não possui um nível de instrução que lhes permite ler as línguas ocidentais nas quais o Africano é forçado a escrever se pretender uma larga audiência".
    Ainda segundo M.a M.Ngal, "o problema essencial da crítica é (...) revelar ao público não apenas as profundezas dos significantes mas encontrar as técnicas mais apropriadas para decantar os significados".
    Para aquele crítico zairense, a criação literária é uma forma de proceder à releitura da tradição. Ela efectua-se a partir de um "vasto texto virtual e objectivo da tradição". Enquanto leitura, a crítica, no entender de Ngal, há-de fazer apelo a conexões e pontos de apoio disponíveis na tradição.
    A historiografia literária é também um domínio importante. O investigador e crítico beninense Guy Ossito Midiohouan procurou contribuir para uma redifinição das condições do desenvolvimento das literaturas em língua francesa, com o seu livro "L' idéologie dans la Littérature Négro-Africaine d' Expression Fraçaise". Ele chega a conclusão de que "o aparecimento e a evolução histórica dos géneros(romance, teatro e poesia) tem a sua explicação fundamentada, não em argumentos filosóficos, mas na convergência de factores identificáveis: ensino, vida intelectual e cultural, meios de edição, público destinatário" .


    CONCLUSÃO

    As tendências em que se analisam os discursos sobre as literaturas africanas representam o aprofundamento de uma reflexão epistemológica. através da qual se eleva o desempenho, a tomada de consciência do próprio sujeito de reflexão, contribuindo ainda para a definição dos contornos e da especificidade das literaturas enquanto objecto. Está aí subjacente a ideia de um novo paradigma e de uma ruptura epistemológica, entendida como negação da subordinação à hegemonia dos conhecimentos e das práticas ocidentais.

    Guy Ossito Midiohouan, L'ideologie dans la Littérature Négro-Africaine d'expression Française
    O ensino das literaturas africanas no nosso continente tem a idade das independências. As filosofias pedagógicas e a estrutura dos programas nem sempre encontraram respaldo nas políticas culturais dos Estados. É neste sentido que apontavam as conclusões da Conferência da Associação das Universidades Africanas, realizada em 1972 sob o tema "Criando a Universidade Africana: Os aspectos relevantes da década de 70". Segundo o professor Babs Fafunwa, os investigadores dos novos Estados independentes recomendavam a reformulação do ensino superior, especialmente a adequação dos currículos às realidades africanas e a edificação de Universidades que fossem instituições viáveis sob o ponto de vista moral e político. A essa mesma conclusão se chegaria em tantos outros colóquios. Por isso, os iniciadores da investigação e da crítica consideram que os resultados são decepcionantes, passadas que são quase três décadas.
    Todavia, o crítico norte-americano Bernth Lindfors, ao apresentar as conclusões do seu inquérito sobre o ensino das literaturas africanas nas universidades dos países africanos de língua inglesa, observa que "a descolonização dos estudos literários em África está em curso" . Refere que dos 194 cursos leccionados em 30 universidades dos 14 países, a amostra representa cerca de 60% do número total de cursos em que se inscrevem 226 autores. Estes indicadores estatísticos fornecem um quadro que reflecte provavelmente também a situação dos países de língua francesa. Ignora-se, no entanto, e com alguma razão o que se passa nos países africanos de língua portuguesa.
    Por diferentes razões, as perplexidades e paradoxos resultantes do ensino das literaturas africanas são bem maiores no contexto da academia ocidental, pois, é lá onde parecem abundar especialistas e leitores. Numa tentativa de confirmar a marginalidade das literaturas africanas nas universidades americanas, o crítico Christopher L.Miller formula as seguintes questões:"o que terão as literaturas africanas trazido para o campo dos estudos literários?";"fornecerão elas algo mais do que um vasto conjunto de material em bruto a que se aplicarão as metodologias ocidentais?";"será que as literaturas africanas apresentam desafios?" .

    Bernth Lindfors, "The Teaching of African Literatures in Anglophone Universities: An Instructive Canon", in Raoul Grandqvist(ed.), Canonization and Teaching of African Literatures, MATATU: Journal for African Culture and Society, 7,1990,pp. 41-55.
    Ao responder, Christopher Miller escreve:"enquanto objecto de estudo e fonte de interpretação cultural, a África tem sido considerada apenas quando inserida numa rígida estrutura hierarquizada de centro e margem, em que se desvalorizam as margens". No dizer do professor nigeriano Abiola Irele. "a investigação africana é na melhor das hipóteses marginal e na pior inexistente na economia global do desempenho intelectual do mundo contemporâneo". Por isso, um outro crítico africano, Anthony Appiah, advoga a instauração de "epistemologias alternativas da leitura" . O que está de acordo com aquela ideia conclusiva de Abiola Irele, que é citado por C.Miller: "é-nos patenteada uma oportunidade ... de produzir um apreciável impacto no domínio da investigação e certamente no sistema mundial do conhecimento".
    Na verdade, a apologia de um discurso crítico endógeno é a expressão de uma certa alteridade. E a busca de um discurso alternativo que não se submete a essa marginalização, refutando a exclusão epistemológica ou epistemicídio. Segundo Boaventura de S. Santos o epistemicídio deve ser considerado "como um dos grandes crimes contra a humanidade" . Ele é irmão gêmeo do genocídio. É que "o epistemicídio foi muito mais vasto que o genocídio porque ocorreu sempre que se pretendeu(...) ilegalizar práticas e grupos sociais que podiam constituir uma ameaça à expansão capitalista."

    Cristopher L.Miller, "Literary Studies and African Literature: the Challenge of intercultural literacy", in Robert H. Bates,V.Y.Mudimbe e Jean O'Barr(eds), Africa and The Disciplines, Chicago, University of Chicago Press, 1993.
    Anthony Appiah, "New Literatures, New Theory?", in Op.cit.,pp.57-89.
    Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice- O Social e o Político na Pós-Modernidade, Porto, Edições Afrontamento,1994,


    FONTE: www.nexus.ao/kandjimbo/kalitangi/critica_web.htm

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