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    AFRICANIDADES: A falácia de rejeitar o racismo e ser cristão

    Victor Eustáquio– Portugal




    A razão da cor é a sua ausência, a sua própria negação, porque objectivamente não passa de uma ilusão óptica e procurar sentidos no ângulo de reflexão e refracção da luz mais não é do andar em círculos até à infinitude. Contudo, é a cor que tem ditado as pequenas e as grandes tragédias da história da cidade dos homens. A cor das ideias, a cor do território, a cor da pele e dos olhos, a cor da existência humana, tanto mais que não parece ser possível habitar um mundo monocromático apartado da diferença.
    Ainda assim, a grande ironia é que acabamos sempre por nos render aos ditames da cor. Um bom exemplo é rejeitar o racismo e ser cristão mesmo tempo. É que acreditar em Deus segundo os termos propostos pelo cristianismo é tão-somente uma forma de dar cor à religião, porque a adesão, consubstanciada na fé, implica subscrever um sistema de crenças que convida a defender o princípio de que a cosmologia cristã tem um papel de supremacia sobre todos os sistemas de crenças dos “outros” pela simples razão de que são obra do demónio. Dito de outra forma, aceitar uma proposição como uma verdade religiosa mais não é do que negar o que os outros consideram ser verdade, pelo que as “verdades dos outros” têm de se fundar necessariamente numa mentira. E mais: uma mentira que deve ser combatida, porque a missão de um bom cristão é levar a “luz” aos que dela estão afastados. O que quer dizer que, na prática, ser cristão implica rejeitar a diversidade como algo válido. Na melhor das hipóteses.
    É claro que as mentes mais moderadas podem sempre agitar a bandeira da coabitação entre credos. E ainda bem que assim é. De resto, tem sido esse o discurso formal do Papa Bento XVI. Mas não resolve o problema. E insistimos. A componente estruturante da fé é a crença, a convicção da conquista da “verdade”, o que obriga a localizar todas as “outras verdades” no campo da “mentira”.
    Esta dinâmica cultural assenta numa narrativa hegemónica e traduz-se pela assunção de uma política identitária. Afinal, em tudo semelhante aos mecanismos que conduzem ao racismo. Com efeito, a epistemologia eurocêntrica ocidental tendeu sempre a defender um padrão de pensamento que se obrigou a estudar o “outro” como objecto e não como sujeito capaz de produzir conhecimentos. Ou seja, reconhecendo apenas aos indivíduos ocidentais brancos a capacidade de produção de conhecimento científico, remetendo consequentemente toda a produção feita por indivíduos negros para a esfera do folclore e das cosmogonias mitológicas. Ora, isto mais não é, de novo, do que subscrever políticas identitárias que atribuem única e exclusivamente aos brancos do Ocidente a legitimidade para a produção do conhecimento científico. Numa palavra, preconizando o chamado racismo epistémico e negando a diversidade do mundo. É que, tal como a religião, também a epistemologia adquiriu cor. E neste pilar se alicerçou o monopólio universal da distinção entre o verdadeiro e o falso, pondo em evidência a relação etno-racional imperialista do Norte global num quadro de dominação do Sul global.
    Eis pois o drama da cor. Se ser cristão implica negar a diversidade, as narrativas imperialistas pontuadas por uma utilização persistente e acrítica de noções e conceitos baseados em pressupostos coloniais e racistas, também beneficiários do malfadado atributo da cor, conduziram precisamente aos mesmos efeitos.
    É evidente que se trata de uma problemática complexa, até porque há variáveis que merecem reflexões adicionais, como o fenómeno da miscigenação, mas uma coisa parece ser certa: a revisão crítica de conceitos hegemónicos definidos pela racionalidade moderna, aplicável igualmente aos afectos resultantes da supremacia da cosmologia cristã, a partir de uma perspectiva e condição de subalternidade, podem alavancar mudanças consideráveis. Numa palavra, é necessário aprender a descolonizar a cor para combater o estranho paradoxo da sua capacidade de colonialidade.

    POEGRAFIAS: A Moça do Pateta MUSSA MBIQUE

    Amosse Mucavele - Moçambique


    Á ilha................. onde te conheci.
    Minha macua Samira
    Ilha cor azul do meu lençol, camarão que dorme na boca do meu anzol
    Espero que aceites esta oferenda de mar e sol
    Afrodite com m’siro no rosto misturado de prazeres milenares
    Tu que espalhas felicidade na minha fortaleza
    Os homens do além mar assaltaram o seu coração sem pedir licença:
    O 1º fez-te mulher
    O 2º fez-te escrava
    Moça linda , filha única
    Inundaram-te de nomes/ raças: Lisboa, Goa, Salvador, Mossuril, terra da                          boa gente e pergunto: onde deixaram o Muhipiti?
    Despiram-te a roupa( os árabes) e cobriram-te de túnicas
    Tornaram-te prisioneira dos seus anseios .
    mas o vento derrubou os cárceres.

    CONTO CONTIGO:Entre (à) vista do Madala Kelembe


    Japone Arijuane - Moçambique

    A dorava eu, ao crepúsculo da tarde, nas vezes que a sedução do álcool e do clima falassem tão alto, fazer-me presente numa barraca algures na cidade de Quelimane. Já que existem de forma retumbante barracas que bibliotecas; aliás, em Moçambique no geral. Actualmente professa-se o culto pelas e nas barracas. É
    sempre assim quando o espírito de decadência atinge um país; nada mais que as pessoas acobardarem-se no álcool. Voltemos ao que interessa. Quando lá eu fosse; encontrava-me sempre com um homem, um homem com idade a esbranquiçar-lhe a carapinha. Um desses dias, cansado de o contemplar decidi enfrenta-lo. E lembro hoje, a nostalgia deste passado; este pássaro que sobrevoa-nos nas costas, que por
    vezes faz ninhos em algumas cabeças. O madala chamava-se kelembe; um velho despreocupado, mantinha sempre o seu olhar médico nas coisas. Abordei-o, colocando as questões de LEAD de qualquer bate-papo; lá veio, dizendo coisas que naquela altura eram para mim tão estranhas. Dizia o madala, que foi em tempos um estivador do ónus da desgraça; sua vida passeava nas mentes alheias, como pertence doutrem. Viveu para dar sentido a vida, para ele viver e continuar vivendo não era um acto heróico, mas sim autêntica cobardia. Para quem não vive por nada, melhor morrer por algo. Mas o que fazer?, quando não existe o tal algo para fazer?
    Se a vida é, em si, uma tremenda ilusão; quando achamos que perdemos, lá vem um sentimento que nos diz, um dia podemos vencer, e vivemos esperando esse dia chegar; por vezes esse dia nunca chega, se chega não é como idealizamos. Dizia estas palavras como quem nada queria dizer. E prosseguia, calmo e sereno, em jeito de suspiro, com os dedos a roçarem os já esbranquiçados bigodes; — Muitos anos de vida, nenhum vivido.
    Aquelas palavras eram-me indiferentes. Só hoje me entristeço; e fico realmente muito agastado. A lembrança de um velho na tamanha idade, a não sentir-se feliz por viver tanto tempo. No rosto, mas nada, se não tédio e angústia; angústia dos dias que viu passar. Continuamos; não me lembro precisamente da questão mas, eis aqui a resposta:
    — Tenho mais medo de viver que morrer! Entrego-me a morte como quem soubesse o que é morrer, mas a vida que eu levo sempre sujeita-me a morte. Se morrer é acordar de novo, então quero nunca dormir este novo acordar. Eu vivo, sem vida para viver!
    Quando quis saber mais acerca do tempo que levou e os dias que viu nascer e morrer nas noites; e o que ele fez. A resposta dessa questão me persegue até hoje; como um cão solitário que viu uma cadela passar. O Madala falava com cio nos sentidos, com raiva na língua. Dizia com todas as letras que morrer é melhor que
    estar como esta ele na vida. As oportunidades vão sempre para os oportunos; a sorte é uma gaiola em que os pássaros quando livres não voam. Tudo na vida resume-se numa armadilha, em que o desfazer é praticamente deixar de ser.
    Falando na suas palavras ele dizia e redizia:
    — Até que teria tudo!, hoje, tenho nada! Atropelei os sonhos da minha desastrosa vida! Tentei mas não consegui! Lutei e não venci! Há quem dizia que nunca é tarde; mas para me, entardeceu demasiado, que até ficou escuro. Escuro este que ilumina meus dissabores.
    O Malada Kelembe encontrava-se deitado no asfalto do tempo, esperando um veículo qualquer de cargas de almas para esvaziar a sua; e talvez assim, fazer-lhe algo. Já que nada conseguia fazer por ele, até mesmo a morte. O Madala vivia esbanjando palavrões; sem saber nada, muito menos ser gente. Mas uma coisa ele
    sabia, até certeza tinha; a liberdade. Sabia que a liberdade era natural, que homem que é homem não a prende a ter, muito menos a ser. A paz é a simplicidade de ser; a justiça a única forma de estar; o homem é feito de verdades e de sensualidades, a qual divinizaram e chamarão de amor. E dizia ainda, que ele é o que é, por que a vida é o que não deveria ser; assim como ele é o que não deveria existir. Quando questionei sobre se ele nunca tentou empregar-se, ironicamente disse: cárcere! escravatura sofisticada, assim como era o tradicional escravo. Hoje trabalha-se em troca de pão e ínfimo lugar para passar poucas horas, pois as maioritárias devem passar-se em trabalho. Dizia ainda que o emprego era acima de tudo um banquete servido na boca dos tubarões; música linda entoada por pássaros no cárcere.
    — Eu até seria um bom gestor, banqueiro, PCA de qualquer firma. Se assim fosse, teria uma casa, esse cárcere; um cão no quintal. Hoje tenho uma casa que é a liberdade!, e um cão vadio, claro que sou eu!
    Quando já preparava meu rol de questões, o madala levantou-se e disse:
    — Só ou não independente?! Fui! Só hoje arrependo-me de não o ter exprimido totalmente, de não ter-me embriagado pelo seu teor douto, meramente independente. Eu bem que podia o procurar e prosseguir com a eloquente conversa.
    Lembro-me, mas, que naquela fatídica tarde permaneci ali, jogando meu futuro no álcool e nas gastas meretrizes, ambulantes carnudas delas mesmas, que exibiam-se arredores. E hoje… quem dar-me-á tal sapiência?, quem será tão independente? nesse país que se mostra cada vez mais na decadência intelectual e na progressão bajuladora. Quantos Kelembes existem?, se é que existem!

    O Passo Certo no Caminho Errado: A Saudação

    Nelson Lineu - Moçambique

    Quando Alberto entrou no chapa, uma questão pairava na cabeça dos passageiros: “ de que lado ele estava?”. a questão era por causa da ligadura na testa, pontos na parte exterior do nariz e os lábios inchados; propriamente, se ele pertenceria a turma do assaltantes ou dos assaltados. Com todos os olhos sobre ele, como se advinha-se o que os outros estavam a pensar, tratou de esclarecer, lamentando-se, foi assaltado, eram vinte e três horas, numa rua sem iluminação, sem policiamento; logo que saudou os meliantes, ao dar por si viu-se sem telemóvel, carteira. O estado do rosto era correctivo dos assaltantes por causa dos seus gritos - embora inconscientes - e uma resistência por instinto. A partir desse momento, as pessoas foram dando opiniões acerca das razões que podiam estar por de trás daquele incidente, os que eram a favor apoiavam os argumentos ou acrescentavam, os contras não só refutavam davam as suas posições. Um funcionário público disse que era por causa da crescente desigualdade social. Uma senhora que era revendedeira num dos mercados da cidade disse que o problema era da hora do assalto, e que a desigualdade social era algo que acontecia em todo mundo e nem todos eram assaltantes. Um empregado doméstico concordou com a senhora, mas tinha um outro factor, a falta de iluminação. Contrapôs um segurança duma empresa privada, para ele esse não era o motivo suficiente - até porque certos assaltos também aconteciam de dia -, com isso o problema era dos policias que não andam nas ruas para proteger os cidadãos, algumas vezes eles mesmos participavam nos crimes directo ou indirectamente. Rebateu uma moça que contou, que numa noite, graças a ajuda dos policias escapou de uns homens que queriam violentar-lhe sexualmente, e como agradecimento pele serviço prestado não só a ela mas ao povo no geral teve que se deitar com eles, mesmo na estrada. Os que chegavam no seu destino desciam e outros subiam, o debate continuava, mas as opiniões não fugiam muito do que os outros disseram. Quase a chegarem na paragem, um homem que estava no último banco do lado esquerdo, que até então não tinha falado nada, era como se não ouvisse o que os outros diziam, por isso todos prestavam atenção quando ele falava, seguro de cada palavra que saía da sua boca, os gestos confirmavam, o olhar decepava qualquer duvida. – Todas as posições são plausíveis, a desigualdade social podia estar atrás desses assaltos, a escuridão, a falta de segurança na rua. Pela minha experiência, o que foi decisivo e originou o assalto, foi o facto de o Alberto ter cumprimentado os assaltantes, o que revelou medo por parte dele, tornando-o vulnerável. Essa posição teve aplausos, não se sabe pelo certo, se pelo conteúdo ou pela habilidade na fala. Mas a duvida mas relevante é que todos desceram com uma mesma questão: De que lado o homem estava? Se dos assaltantes ou assaltados.

    CONTO CONTIGO: Na casa da vizinha



    Japone Arijuane - Moçambique


    Nós aparecemos como resgate, teríamos de ficar com um quarto da casa e um quarto da sala, teríamos de dividi-la ao meio, enquanto esperávamos um pedreiro para a reforma, porém alojamo-nos mesmo assim, apenas uma cortina separávamos. Eu era nocturno caseiro, meu companheiro nem por isso, vezes eram duas por semana que dormia no seu local de trabalho. A vizinha, como meu companheiro a chamava, era um furacão, sempre em erupção, cujo fogo queimávamos ambos adentro; cautelosa vigiava-me o rosto, com dotes de fisionomista, como quem controla uma fruta prestes a amadurecer. Vinha cheia dela como uma serpente, contemplava-me primeiro e desenhava no ar com a sua voz suave a palavra – olá; eu, firme retribuía-a com um aceno, por vezes de braço, sem encara-la frontalmente, gesto de como quem nada quer. Mas via-lhe nos olhos o veneno da sedução, pronto para atirar como legítima defesa. 
    Um dia desses, ouvi batidas carinhosas a porta; ouvi na mesma voz que ouvia entre cortinas; não descortinando o real motivo, esbocei a básica questão: quem é? A mesma voz se fez firme.
    - Eu
    - Eu quem?! Como se pelo timbre da voz não reconhecesse a portadora.
    - Eu vizinha… Chamou-se. Quando fui abrir, lá estava ela desprotegida exibindo pouco tecido na epiderme, antes mesmo que abrisse a matraca, - disse eu:
    - Pois, não!
    - Não… É que esquece-me as chaves da minha porta… posso entrar daqui?
    - Pode! Fica a vontade. Tirou os chinelos sacudiu os pés, num saco que ali estava desempenhando função de tapete. Ao mergulhar seu tronco semi-nu na claridade a sala tornou-se mais iluminada; fingi não olhar, pois as mulheres interessam-se em homens que elas não vêem interesse deles nelas. Mas para chamar-me atenção, parou e assobio, um atrevimento pouco comum nas mulheres, - pensei eu! Quando a olhei acenou o rosto e cuspiu a mais bela frase de agradecimento que jamais ouvi em toda minha vida.
    - Obrigada… Mantive-me na compostura machista, levantei a mão e nenhuma palavra. Ela manteve-se ali olhando-me de soslaio, eu que propositadamente estava quase de tronco nu; lancei a camiseta que vestia na cadeira ao lado; dando-lhe as costas em direcção ao quarto, senti que alguém me contempla, aliás, eu até que sabia mas fingia. Quando virei a surpreende atónita, fitava-me feito um provinciano que chega pela primeira vez na cidade grande; contemplava-me como se eu não estivesse ali.
    - Algum problema? Continuo ali fixa e cabisbaixa, sem A nem B, muito menos C! Ganhou fôlego, como quem descansa de uma longa caminhada e disse:
    - Você é a solução…
    - Algum problema? Continuei, como quem não ouviu.
    - Não! Alguém é a solução!
    - Não entendi?!
    - Não vais entender, não é para entender, nem eu entendo! Aproximou-se, bem perto olhou-me nos olhos, senti o fogo a queimar-me todo. Seus lábios prontificaram-se com tudo; quando trilharam em mim, o fogo virou uma onda no mar, calma e traiçoeira, quando molhou-me todo, já estava eu a navegar mares e mares, sem medo de nada, muito menos do fogo do mar. Eu disse para mim mesmo, - deixe que tome dianteira.
    Mergulhei o rosto no decote, como se de um remo se tratasse, agarrei-lhe a cintura com as duas mãos. Colidimos na mesma primeira cadeira onde a minha camiseta estava pendurada. Ia eu fervendo, o furacão transformando-se em tsunami, quando a metade da sala enchia-se de esforços, as posições desfilando num cortejo de deuses. Um barulho fez sentir, quando nos demos do barulho, meu companheiro gemia, lá do lado do quarto. Olhei para o único buraco do quarto não vi, mas via-se a luz acesa reflectindo por cima da porta. 

    Moçambique em Agosto


    Jorge Arrimar - Angola


    Chegámos a Maputo na madrugada do dia 10 de Agosto. A cidade revelava-se devagar, capulanas resistentes ao nosso olhar estrangeiro. A urbe era tanto o que os antigos legaram como o que os contemporâneos fizeram, lado a lado umas coisas, justapostas outras, misturadas ainda outras, como se ela estivesse, desde sempre, “na varanda do tempo […] onde o mundo mais namora com a nação moçmbicana”, como nos diz Mia Couto, referindo-se à variedade de povos e de culturas que o Índico trouxera até ali. Na Maputo de hoje descobre-se muito da Lourenço Marques de ontem, sobretudo no casario (muitos dos seus exemplares evidenciam o arrojo e modernidade com que foram desenhados), na forma simétrica em como foi construída ao longo de ruas largas e arborizadas, de avenidas amplas e rectas. Cidade de acácias vermelhas que, apesar de não serem bem acácias, ganharam o direito de serem conhecidas assim por se transformarem em árvores de fogo e deixarem no ar o cheiro das suas flores cor de chama. Cidade de ruas e largos com tapetes entretecidos das pétalas lilases que os velhos jacarandás deixam cair numa benesse florida aos seus habitantes. Infelizmente, nem todos aprenderam a cuidar da sua cidade e descobre-se, mais vezes do que se desejaria, uma cidade de ruas esburacadas e sujas, de prédios por reparar, de jardins por limpar. Mas acreditamos que seja uma questão de tempo e de aprendizagem e que esta cidade poderá continuar a ser uma das mais bonitas e tranquilas de África.
    Lembrei-me, então, que, uma amiga minha, moçambicana, me tinha dito uma vez que, em qualquer língua, bantu ou outra, para ela esta cidade “merecia mais ser a Baía da Lagoa […] pelo formato, doçura e cor do mar que a rodeia”. Confesso que, na altura, não percebi muito bem e até achava um tanto infeliz este nome, em que se misturava lagoa e baía. Mas hoje concordo com ela. Há cinco séculos atrás, navegadores que por ali passaram no rasto do Gama, levaram até longe notícias dessa baía, a ponto de, logo em 1502, aparecer referenciada no célebre mapa de Cantino. Estar neste planisfério é, por si só, uma certidão de maioridade, um sinal de notoriedade. Se a isto somarmos o peso da lenda que suporta este nome, então Baía da Lagoa não tem rival. Acreditavam os antigos que aquela magnífica baía se enchia das águas que os rios, que ali desaguam, iam beber a uma grande lagoa que existia no interior do continente. Bela esta imagem de uma lagoa que se transforma em baía…
    Mas como diabo surge então esse nome que se grudou à cidade até à independência de Moçambique? As crónicas antigas revelam que o reconhecimento geográfico desta baía só acontece a partir de 1544, por via de um obscuro navegador, chamado Lourenço Marques, que seria um piloto das naus da Índia e negociante ao serviço do capitão português de Sofala e Moçambique. Pois foi a esse senhor que, decorrido muito tempo, foram buscar o nome que pespegaram à povoação que se desenvolvera naquele local. Esse Lourenço não imaginava, sequer, que iria ser aquela baía a imortalizar-lhe o nome. Ainda hoje não é uma questão encerrada a do nome autóctone que foi escolhido para substituir o do obscuro navegador. Cheguei a ouvir sussurrar, enquanto andei por Moçambique, que Kampfumo ou Xilunguíne são ainda candidatas à designação desta cidade. Nisso Luanda teve sorte. Ninguém sentiu necessidade de alguma vez lhe trocar o nome. E, felizmente, a minha terra resistiu sempre às tentativas que houve, ao longo dos tempos, de lhe mudarem o nome, de S. Pedro da Chibia para
    Vila João de Almeida. Nunca ninguém usou este nome com que o Estado Novo tentou cobrir o original. É que é sempre complicado mudar o nome de uma cidade, de uma pessoa, até de uma coisa. Com o nome vai muito mais que a simples sonoridade dele. Ao nome vão-se agregando muitas coisas, muitas referências, muitas histórias, muitas vidas...
    Mesmo no dia da chegada, ao raiar da aurora, aproveitámos para iniciar o nosso passeio. O dia estava cinzento e frio, fazendo-se sentir, desagradavelmente, em fortes e repentinas rajadas. Alguém me disse, depois, que Agosto é o mês dos ventos. De bons ventos, espero, pensei eu. A primeira paragem foi no Jardim dos Namorados, recentemente recuperado. Ao fundo, junto ao paredão que dava para a baía, viam-se duas filas paralelas de colunas, nuas, como se estivessem ali apenas para sustentar o céu. Era o que restava de um magnífico caramanchão de buganvílias que emprestara frescura às pessoas nos dias de maior calor.
    Perscrutando o horizonte, achava que, a qualquer momento, o tempo iria mudar e que, talvez, fosse um bom prenúncio começar a minha visita por ali… no namoro que eu pretendia iniciar com aquela cidade que ainda não vira, mas que sabia ser uma das mais encantadoras da África Austral. Pela primeira vez deixei o meu olhar demorar-se na baía. Depois de um pequeno-almoço tomado no bar do jardim, resolvemos continuar a visita. Nas curvas do Caracol “ia com os olhos cheios de mar. Quem olha para trás com uma baía assim? Quem consegue desprender os olhos dos minúsculos barcos de pescadores concentrados na pequena praia da Catembe, fugidos de um mar como aquele que hoje faz?”. Fiz minhas as palavras do narrador de “O olho de Hertzog”, belíssimo livro do moçambicano Borges Coelho, que nos transporta a este mesmo local… só que h| quase um século atrás. Proferidas há tanto tempo, não deixavam de manter o mesmo sabor.
    Fui interrompido nas minhas cogitações pelo taxista que nos levava (coincidência: também a personagem do romance ia de táxi): Se quiser, pode apanhar um barco lá em baixo e ir até Catembe e depois à Ponta do Sol, vale a pena. Respondi-lhe que ainda era cedo para esse passeio; queria ver Maputo em primeiro lugar. Catembe ficaria para mais tarde, se houvesse tempo.
     Iniciámos a nossa visita à urbe, primeiro pela marginal de uma baía de águas um tanto escuras, disseram-nos depois, devido aos lodos e sedimentos transportados pelos rios que ali desaguam, sobretudo do Umbelúzi. Seguiu-se a Fortaleza, onde se encontram guardados alguns dos símbolos da época colonial, nomeadamente a estátua equestre de Mouzinho de Albuquerque e o painel de bronze que representa o momento da vitória em Chaimite sobre o último rei ngúni de Gaza. Chaimite, não a capital de Gungunhana, que era Manjacaze, mas a que fora de Muzila, seu pai. Lembrei-me dum livro de Guilherme de Melo, que li há já bastante tempo, “Os leões não dormem esta noite”, construído na base da hipotética conversa entre o rei vencido, o “leão de Gaza”, e o oficial vencedor, o “leão português”, antes de, a ferros, o soberano ngúni ter abandonado a sua terra definitivamente, para ir morrer bem longe, no forte de S. João Baptista da cidade de Angra do Heroísmo, no arquipélago dos Açores.
    Fiquei encantado com a Estação Central dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Mais tarde li, numa qualquer publicação de divulgação turística, que a revista Newsweek a tinha considerado como a mais bela estação de caminhos de ferro de África e uma das sete mais belas do mundo. Fora desenhada por Gustave Eiffel e inaugurada em 1910, partindo o seu autor da ideia de que se devia assemelhar a um palácio com pilares de mármore e enfeites em ferro fundido. Uma placa de latão polido, cravada numa das paredes, dava-nos conta das comemorações, este ano, do seu centenário. Seguir-se-iam três dias de passeios pela cidade. Não me admirei que as elites, as de ontem como as de hoje, tenham escolhido os bairros Sommerschield e da Polana para residir. Dentro da igreja de St.º António, rendido ao suave brilho dos vitrais, vi uma laranja de luz a ser espremida lá no alto, no lugar das estrelas.
    Num dos outros dias em que estivemos em Maputo, a caminho dos muitos sítios, edifícios e monumentos que queria conhecer, passámos pelo Alto Maé e eu tentei ver se adivinhava o vulto de algumas pessoas que eu conheci longe daqui, deste lugar que me haviam dito ter sido deles. Voltaríamos alguns dias depois, quando uns amigos nos quiseram mostrar Maputo “by night”, após um jantar de iguarias moçambicanas que a mãe de um amigo, Sérgio Sousa, simpaticamente nos ofereceu. Um ponto alto deste jantar e do serão que se lhe seguiu, foi termos tido a oportunidade de falar com D. Teresa, sua avó, e que conta com a belíssima idade de 105 anos. Senhora de uma vivacidade pouco vulgar em alguém com tantos anos percorridos, encantou-nos com as suas histórias, quase sempre filtradas de fino humor.
    Já com a capital bastante percorrida, com os seus emblemáticos locais e principais monumentos visitados, quisemos ver o que havia para lá dos seus limites. Resolvemos, então, ir até Inhambane e depois até mais longe, a Vilanculos, terra vizinha do célebre arquipélago do Bazaruto, quase a 800 km de Maputo. Alugámos um carro com tracção às quatro rodas que nos levou, de forma mais segura, à descoberta do asfalto esburacado, do sem asfalto, da terra batida e da picada. Maputo, Marracuene, Maluana, Manhiça, Taninga, Magul, Macia, Xai-Xai, Chongoene, Boane, Chidenguele, Zandamela, Quissico, Zavala, Inharrime, Maxixe e Inhambane; quilómetros e quilómetros por terras de paisagem variada, florestas de cajueiros, machambas de amendoim, palmares de coco e sura, pomares de mangueiras e tangerineiras... e mulheres de capulanas a drapejar ao vento, à cabeça bacias com frutos, camarão, água, molhos lenha, tudo. As bermas das estradas são a montra deste país. 
    Em Zavala quis ver e ouvir os marimbeiros, os tocadores de marimba, os mágicos da timbila. Infelizmente não foi possível, pois só se faziam ouvir em festas, cerimónias ou ocasiões especiais. Tive pena.
    Chegámos a Inhambane já a noite escondia quase tudo. Ficámos hospedados na Casa do Capitão, residencial construída a partir do que restava da velha casa do capitão do porto desta cidade. No outro dia, quando o sol começou a levantar-se, a baía de Inhambane foi saindo da sombra, primeiro envolta numa suave neblina, depois coada nas malhas de luz de um sol cada vez mais forte. Um navio encalhado pelo recuo nocturno da maré ia ganhando vida à medida que a madrugada lhe devolvia o mar. A baía de Inhambane foi um deslumbramento. Lindíssima!
    Aqui bebi um refrescante e doce sumo de tangerina, um sabor que me transportou à infância e às tangerinas da minha terra natal, no sudoeste angolano. Como as de Inhambane, ainda acho que as tangerinas da Chibia são das melhores do mundo. Junto a minha voz à do poeta da Mafalala e confesso que “adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos / das magníficas tanjarinas d'Inhambane. Adoro mesmo!”
    A caminho do Miramar, mirando o mar deixei-me ir com os repuxos do respirar das baleias, parentes, talvez, daquelas que eu vi mergulhar no mar dos Açores, naquele Atlântico agitado e profundo que separa as remotas ilhas das Flores e Corvo. Se nestas estivemos nas terras mais ocidentais da Europa, agora estávamos onde o Oriente começa.
    Esta é a costa africana banhada pelas índicas vagas, as mesmas que, devagar, muito devagar, conduziram o Gama até ao Samorim de Calicute, na eterna Índia das especiarias. Pois, fui encontrá-lo, triste e esquecido, num quintal desta centenária cidade, refém infeliz de um conturbado tempo nosso (não o dele!), e hoje náufrago de um outro oceano que, em vida, não imaginara vir a enfrentar.
     Segundo rezam antigas crónicas, o velho almirante aparecera na protectora baía, vai para mais de 500 anos, para fazer aguada e, bem impressionado pela terra que seus olhos descobriam, resolveu entrar e ver como era mais de perto. Depois seguiria o seu destino, bem mais longínquo e apelativo, na outra margem daquele mesmo oceano que o refrescava, ele que, afinal, não se prendera ao gosto da doce tangerina, antes se mantivera fiel ao cheiro da canela e da noz-moscada. Mas gostou da baía e ainda se diz hoje que foi o navegador português a propalar que aquelas eram terras de boa gente. Mais do que tudo, foram essas palavras que ligaram o Gama a este lugar. E por que razão fora tão simpático, logo ele que, segundo consta, não era muito dado a palavras doces ou a simpatias vãs? Contaram-me que o velho almirante, vindo do mar em terra se encharcara de copiosa chuva, e que, precisando de um tecto para se recolher e de uma fogueira para se secar, teria sido abrigado por um local em sua própria casa, que ao recém-chegado se dirigiu em bitonga, convidando-o a entrar, bela gu nhumbale.
    O Gama, de regresso ao navio e satisfeito com a hospitalidade, teria dito, então, que estava numa terra de boa gente. Gente que, em jeito de despedida lhe teria gritado ambane. Mais nesta última palavra, a da despedida, do que nas primeiras, as do convite, parece espreitar o nome desta cidade. O toponímico Inhambane terá origem nesta palavra, a mesma que foi pronunciada para despedir o visitante?
    Voltei a olhar para a estátua ali esquecida a um canto e questionei-me se não continuariam a dizer ambane ao Gama. Ele, que, há mais de trinta anos aguarda, naquele cais improvisado, por uma outra nau, que o leve de regresso à terra natal. Ou então, de tanto esperar e de por tanto tempo o deixarem ficar… talvez a boa gente de Inhambane lhe volte, um dia, a dizer, bela gu nhumbale. Quem sabe?
    E a viagem continuou, mais umas três centenas de quilómetros, mais Moçambique a desfilar nas bermas das estradas, Inhambane, Maxixe, Mocoduene, Morrumbene, Massinga, Unguana, Vilanculos. Para mim, nada como a Baía de Inhambane. Não é fácil encontrar uma natureza tão rica, tão pujante de beleza como a(s) Baía(s) de Inhambane. Os nossos olhos ainda estavam cheios da Praia da Barra, da Baía dos Flamingos, do Miramar, das Praias do Tofo e do Tofinho. Em Vilanculos ficámos na Casa Rex. O nosso quarto abria-se para o mar e para as ilhas do Bazaruto. Lá, diziam-nos, naquelas ilhas é que está uma beleza sem igual. Nós acreditámos, mas os dias estavam cinzentos, chegou mesmo a chover, e achámos que não valia a pena arriscar. Passeámo-nos por ali, vimos praias de areais a perder de vista e coqueiros a dançar marrabentas de vento… mas continuávamos com a Baía de Inhambane no olhar.
    Quando iniciámos o regresso a Maputo, quisemos voltar a Inhambane. No Tofo encontrei (Que surpresa!) amigos antigos de Angola e de Macau que haviam escolhido aquele lugar para sua residência. Com eles almoçámos matapa de caranguejo e só saímos de lá quando, ao desmaiar do sol, a mosquitaria ganhou coragem e invadiu tudo. A viagem até Chidenguele foi nocturna e de cacimbosos calafrios, sobretudo quando nos cruzávamos com outros carros, todos a fugirem dos mesmo buracos e a cegarem-se dos mesmos faróis. Nas margens do lago com o mesmo nome desembocámos em adiantada hora. Só os pássaros, as rãs e as estrelas se ouviam. Lindo! E o mar a bater em frente mostrava-se invejoso daquele lago que nos atraía mais do que ele. Em Nhambavale, mesmo juntinho à água doce do lago, foi um delírio. Seria ali o paraíso?
    Seguiu-se Xai-Xai onde o ocaso não foi um acaso de beleza e o horizonte festejou-nos com tons de manga madura. O que veio depois é que foi! Chegámos ao Bilene já a noite nos brindava com as primeiras sombras que uma lua cheia teimava em afastar. Deixaram-nos num cais destruído e disseram-nos que esperássemos pelo barco. Havia de chegar, mas como não tinha luz, seriamos avisados pelo roçar do casco dele nas ondas mansas da lagoa. E assim foi. Quando se acercou de nós, arregaçámos as calças, mergulhámos os pés na água morna e fomos até ele. Seguiu-se a viagem num barco sem luz em que o farol era o luar… Deixaram-nos na encosta arborizada das grandes dunas que não deixavam ver o mar. O cen|rio era soberbo { luz da lua… o cenário continuou soberbo com a manhã a chegar…


    Confissão de Ignorância


    Cesar Barroso – Miami*



    Recebi um gentil convite do nosso cônsul, Emb. Hélio Ramos, que me surpreendeu: participar de uma palestra do escritor brasileiro Milton Hatoum. Corri ao Google para, quem sabe, reavivar a minha memória, mas concluí que jamais ouvira falar de Milton Hatoum. Total ignorância. Culpa minha, conforme explicarei abaixo.
    Antes permitam-me informar que esse editor não é novato nem leigo nessa área. Formado em Literatura Brasileira, fui aluno do Prof. Domício Proença Filho, membro da Academia Brasileira de Letras por mérito próprio. Li todo o Machado de Assis e todo o José de Alencar. Li o Padre Antônio Vieira, Gregório de Matos Guerra(como eu gostava do "Boca de Inferno"!), Frei Manuel de Santa Maria Itaparica. Depois li literatura brasileira barroca, parnasiana, romântica, simbolista, pré-mo derna, moderna... Cultuei através da leitura Guimarães Rosa, Mário Palmério e Euclídes da Cunha por muitos anos.
    Eu era um verdadeiro rato da biblioteca municipal da Avenida 13 de Maio, no Centro do meu querido Rio de Janeiro. E não fiquei só na literatura brasileira: li muito Balzac, Flaubert, Thomas Mann, Dostoiévski, os grande escritores portugueses - Luiz de Camões("Lusíadas" e "Sonetos"), Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, Eça de Queirós, apenas para citar alguns - Cervantes e Camilo José Cela do lado espanhol. Deixem-me incluir ainda alguns latino-americanos, como Gabriel Garcia Marques, Gabriela Mistral, Pablo Neruda. Acrescento ainda que estudei literatura inglesa e americana com o a Prfa. Letícia Cavalcanti Niederauer, que tinha doutorado pela Universidade da Pennsylvania.  E li muitas das principais obras das literaturas inglesa e americana.
    E por que não conhecia Milton Hatoum? Bem, não conhecia Milton Hatoum porque desde o início dos anos 80 deixei de acompanhar o movimento literário brasileiro. Depois de breve passagem pelo magistério e pelo jornalismo, ainda no Brasil, me entreguei a outras atividades, muito ligadas aos Estados Unidos, para onde posteriormente me mudei, e praticamente deixei de ler literatura brasileira e os suplementos literários. Culpa minha, exclusivamente minha. Hoje em dia leio muito sobre minha arte, a fotografia, o budismo, a filosofia, e um romance estrangeiro de vez em quando(nesse momento leio " Purge", da finlandesa Sofi Oksanen).
    Acabei, depois da surpresa do convite, tendo outra surpresa, a de ter encontrado um escritor brasileiro que conseguiu no convívio de apenas duas horas, convencer-me de que devo voltar a ler literatura brasileira. E prometi a mim mesmo que oportunamente  recomeçarei, justamente por "Dois Irmãos", de cuja leitura passarei minhas impressões aos leitores dessas linhas.
    Do encontro, lamentei apenas a sua brevidade. Milton Hatoum levantou algumas questões ali que mereciam debate demorado. Uma delas a do nosso relacionamento com os outros países latino-americanos. Realmente, como foi dito, o relacionamento não é melhor, como merecia, por culpa mútua. Visito esses países desde 1966, quando fui ao Chile com uma bolsa de estudos, e desde então lamento que a gente brasileira conheça tão pouco a cultura de nossos hermanos, e que eles não façam esforço pa ra compreender e falar a nossa língua. Como disse Milton, o comércio agora faz essa aproximação, e espero que se estenda às culturas e artes dessas nações tão ricas culturalmente como a nossa. Hoje, com uma namorada peruana, vivendo em Miami Lakes, a poucos passos de Cuba(Hialeah), e tendo feito uma viagem recente à Guatemala, mais do que nunca estou convencido de que o enriquecimento que essas culturas podem nos trazer é enorme.
    Uma declaração do Milton merecia mais explicações - "A literatura é transcendência da vida, quanto mais longe da vida, mais perto da vida" - para o público presente à palestra. Para mim, a literatura transcende à vida mas só consegue isso ficando o mais perto possível da vida. De qualquer forma, não houve tempo para se desenvolver esse debate. Como também não me ocorreu pedir o e-mail do escritor para poder inquirí-lo eletronicamente a respeito.
    Outra questão que poderia ter sido aprofundada  foi se há algum paralelismo entre "Dois Irmãos" e "Isaú e Jacó", de Machado de Assis. Como ainda não li o livro de Milton, não posso dar uma opinião a respeito, mas gostaria de tê-la ouvido da boca do autor.
    Foi uma linda tarde que nos proporcionou o consulado brasileiro. Estamos seguros que haverá muitas outras, em vista do apoio que o Emb. Helio Ramos vem dando à cultura e às artes brasileiras em Miami.

    Membro da Society of Professional Journalists (I. D. # 538500)

    AFRICANIDADES: Escritores lusófonos africanos: o dilema do passado


    Victor Eustáquio – Portugal 


    Em Portugal, na categoria de autores lusófonos de origem africana, a FNAC lista apenas dois nomes: Mia Couto e Pepetela. Com pesquisa, chega-se a mais dois: Ondjaki e José Eduardo Agualusa. Na Bertrand o mesmo, e é necessário vasculhar nome a nome: José Eduardo Agualusa e Pepetela. A Wook vai um pouco mais longe, mas obriga igualmente a uma pesquisa e com muitos filtros: além dos já citados, Henrique Abranches, Dulce Braga, Teobaldo Virgínio, Gabriel Mariano, António Aurélio Gonçalves, Arménio Vieira, Nelson Saúte, Arlindo Barbeitos e Manuel Lopes. Até é curioso, porque deixa de fora alguns autores com uma certa notoriedade em Portugal, mas recupera outros que são perfeitos desconhecidos no País.
    Sabe a pouco e evidentemente está longe de representar a literatura africana escrita por africanos. Todavia, reflecte uma realidade; é certo que não passa de um indicador de popularidade, isto é, dos autores africanos de língua portuguesa que mais vendem – as regras comerciais e as estratégias dos livreiros portugueses assim o ditam – mas serve para arriscar algumas observações.
    Dir-se-ia que para um País que quer assumir a liderança na promoção da lusofonia e na gestão dos activos culturais no contexto dos PALOP, a cultura em sentido lado não parece ser, afinal, uma grande prioridade para Portugal. Pelo menos no que diz respeito à literatura. Pela simples razão de que a deixou entregue à lógica do mercado. Faz sentido, embora careça de medidas complementares, e esse é o papel do Estado, de qualquer um, se ambiciona promover, quando reconhece valor, tudo aquilo que não seduz tão facilmente. O discurso é antigo e não vale a pena insistir, sobretudo quando esta retórica faz parte de um quadro de constrangimentos com outras urgências.
    Contudo, a questão levanta também vários desafios para os próprios autores africanos, dentro dos quais avulta a capacidade de gerar atracção naquilo que produzem. Não é que isso deva condicionar a natureza do que escrevem, mas obriga a ter em mente uma regra de ouro: a diferença entre o livro como obra e manifestação artística e o livro como produto comercial e, regra geral, um bem fungível, que se gasta com o tempo. O que quer dizer que é evidente a necessidade de um compromisso e de uma clarividência sem afectos exacerbados.
    Defender com orgulho que os escritores africanos dos PALOP no activo tendem a combater o exótico (recuperando as narrativas tradicionais e afastando o homem não africano do centro do universo para nele colocar o homem africano) para proceder a uma ruptura com o passado histórico e com os denominadores comuns etnocêntricos presentes nas ficções localizadas em África da maioria dos autores não africanos, espelha a vontade legítima da afirmação da nova literatura africana de expressão portuguesa.
    O que parece ser perigoso é que esses mesmos escritores se deixem sitiar pela tentação do afrocentrismo, produzindo narrativas exactamente iguais, embora com os termos invertidos, às que tanto criticam, as do passado colonial e imperialista, às do “homem branco no centro do universo”. É perigoso, embora compreensível. Porém, com o preço de que é exemplo a listagem redutora acima indicada dos autores lusófonos africanos com notoriedade em Portugal.
    Em poucas palavras, é sempre bom lembrar: o passado não seduz, o passado não vende. Porque não traz nada de novo.

    Escrevilendo

    Fraderico Ningi - Angola


    Luís Vaz de Camões
    Endechas a Bárbara Escrava


    Aquela cativa
    Que me tem cativo,
    Porque nela vivo,
    Já não quer' que viva.
    Eu nunca vi rosa
    Em suaves molhos,
    Que para meus olhos
    Fôsse mais formosa.

    Nem no campo flores,
    Nem no céu estrêlas
    Me parecem belas
    Como os meus amores.
    Rosto singular,
    Olhos sossegados,
    Pretos e cansados,
    Mas não de matar.

    Uma graça viva,
    Que nêles lhe mora,
    Para ser senhora
    De quem é cativa.
    Pretos os cabelos,
    Onde o povo vão
    Perde opinião
    Que os louros são belos.

    Pretidão de Amor,
    Tão doce a figura,
    Que a neve lhe jura
    Que trocara a côr.
    Leda mansidão,
    Que o siso acompanha;
    Bem parece estranha,
    Mas bárbara não.

    Presença serena,
    Que a tormenta amansa;
    Nela, enfim, descansa
    Tôda minha pena.
    Esta é a cativa
    Que me tem cativo
    E, pois nela vivo,
    É força que viva.



    Luís de Camões, 1946, Obras Completas, com prefácio e notas do Prof. Hernâni Cidade, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, Volume I, p. 92 - 94



    José Mucangana, 16 de Dezembro de 2011

    Notas de Leitura (*)


    Contrariamente às especulações de alguns biógrafos e professores de literatura portuguesa, menos conhecedores das Áfricas do que Camões, a bárbara escrava, não era uma mulata de Goa chamada Luísa (Wilhelm Stork, 1897, Vida e Obras de Luís de Camões, traduzido do original alemão de 1890 e anotado por Carolina Michaelis de Vasconcelos, 637 p., Lisboa, terceira edição, 2011, Bonecos Rebeldes, Unipessoal, Lda.). 

    Ela era certamente uma Preta da costa oriental de África, mais precisamente e com toda a certeza de Moçambique.  O Poeta não o esconde, quando canta a "Pretidão de Amor", maneira delicada de se referir à pretidão da nudez da sua esposa, nem quando evoca as qualidades de Bárbara. 

    O "rosto singular", os "olhos sossegados, pretos e cansados, mas não de matar" são de uma Preta de África, o cansaço que aparentam é quiçá a mornaça da monção tropical, anunciando a trovoada, mais do que isso, porém, é uma maneira muito africana de exprimir a plenitude e gratidão dos sentidos ao seu esposo amado e amante, porque aqueles olhos não estavam cansados de matar, como tem o cuidado de nos esclarecer o poeta. 

    "Uma graça viva", que nesses olhos sorridentes morava, é a arma de sedução sem rodeios duma Preta de África, "para ser senhora" de quem ama, que nem de outra maneira menos material se concebe o amor em África. 

    "Leda mansidão, que o siso acompanha", "presença serena, que a tormenta amansa" são descrições realistas do porte e maneira de estar típicos duma mulher Preta de África, que essencialmente é boa de coração, bárbara não e generosa, maldosa não. 

    Camões começa por confessar que morre de amores por Bárbara, cativo pelo amor de Bárbara e porque nela vive, a Bárbara mata-o com seu o grande amor.  Serão estas rimas, só por isto, endechas, em sentido figurado? 

    Luís de Camões viveu dois anos na Ilha de Moçambique, vindo de Goa, entre 1567 e 1569, antes de regressar ao Reino.  Foi em Moçambique que deu os últimos retoques nos Lusíadas, antes de retornar a Lisboa, onde os mandou editar.  Foi em Moçambique que compôs e compilou o seu Parnaso Lusitano, que se perdeu em parte ou em todo, por ter sido furtado ao Poeta, em Lisboa ou durante a viagem de regresso.  Também furtaram a Camões os dois últimos cantos dos Lusíadas, que ele teve de recompor de memória e segunda inspiração.

    Em que data escreveu ele estas endechas?  Não se sabe, Camões não data o poema, que intitula “endechas”, ou canções tristes ou fúnebres (Cândido de Figueiredo, 1949, Dicionário da Língua Portuguesa, décima edição, Lisboa, Livraria Bertrand), mas estas endechas não são tristes antes denotam o seu espírito forte inspirado por Bárbara:  “E, pois nela vivo, é força que viva.”  Tê-las-ia escrito, na hora da despedida, antes de voltar para o Reino com os seus manuscritos e sem Bárbara, que ficava entristecida na Ilha, ou já em Lisboa, quando lhe faltava a companhia de Bárbara e vivia das saudades de Bárbara.  “Aquela cativa”, ausente, já não queria que ele vivesse, ou ele já não podia continuar a viver sem ela, tão afastada dele, em Moçambique?  Ora as endechas estão escritas no indicativo presente, foram portanto compostas em Moçambique junto de Bárbara e, certamente, ela não desejava que ele deixasse Moçambique.  Bárbada encorajou-o, deu-lhe força, para terminar a sua obra, em Moçambique, mas não queria que ele realizasse a sua vida, em Lisboa, tão longe e, naqueles tempos, sem esperança de regresso:  ele vivia nela em Moçambique, onde completou as suas obras, mas ela já não queria que ele vivesse em Lisboa, partisse para Lisboa, onde estavam as tipografias.  Talvez fossem estas as endechas da hora da partida… e da decisão de viver com Bárbara enquanto houvesse língua portuguesa escrita e lida.     

    Tudo indica que foram.  As endechas começam por descrever o drama da decisão de partir com a oposição de Bárbara, nos quatro primeiros versos, e acabam, nos dois últimos versos, por justificar esta decisão.  Entre aquela introdução e esta conclusão, Camões descreveu magistralmente a mulher preta de África, o seu grande amor por Bárbara e tudo o que lhe ficou a dever.  Nunca, até aos dias de hoje, a mulher negra de África foi cantada com tão grande amor, arte e engenho, nem em português, nem em francês, nem em inglês.  O famoso poema em francês de Lépold Sédar Senghor “Femme nue, femme noire (mulher nua, mulher negra)” e os poemas sobre a mãe negra escritos em português não devem colocar-se ao lado deste, por não parecerem obras de diletantes ou principiantes desajeitados.   

    Nas suas endechas, Camões diz de forma poética muitas coisas, que não vêm da sua pura imaginação e estão certamente relacionadas com situações reais e vividas.  Sobre a cor da tez de Bárbara e seu arrebatado amor por ela escreve sem rodeios e não nos deixa dúvidas. 

    Os biógrafos atribuem ao seu “espírito forte” o facto de ter permanecido dois anos, sem recursos, isolado em Moçambique, num clima “hostil”, sem amigos, até que Diogo do Couto por lá passasse e reunisse dinheiro para lhe pagar a viagem para Lisboa (M. Lourenço Mano, 1963, Entre Gente Remota:  Crónicas e Memórias Históricas de Moçambique, Lourenço Marques, Minerva Central).  Diogo do Couto encontrou Camões “tão pobre, que comia de amigos”.  Não temos dúvida sobre o espírito muito forte de Camões.  Só perguntamos, como o teria apoiado a presença serena de Bárbara?  E Bárbara apoiou-o a tal ponto, que “nela enfim descansava toda a sua pena” e o levava a ter força para viver e não abandonar os seus projectos:  “E, pois nela vivo, é força que viva.” 

    Porque, muito simplesmente, Camões, na Ilha de Moçambique, era um ser humano, que precisava de agasalho, de água e de comida para sobreviver, retocar, completar os seus Lusíadas, compilar o seu Parnaso.  Além do amor, não lhe teria facilitado Bárbara tudo isso, abrigo e sustento, na Missanga, vila macua de Ilha, cheia de hortas, árvores de fruta e criação de animais domésticos, entre galinhas, patos mudos, marrecos e cabritos, ficando o Poeta cativo, pelo amor de Bárbara, dos laços de solidariedade da família matriarcal macua?  Não contaria a família alargada de Bárbara entre os amigos não identificados, que ajudaram Camões na Ilha de Moçambique?  Ele até o reconheceu:    “E, pois nela vivo...”  Na ilha de Moçambique estava sem amigos portugueses, até chegar Diogo do Couto, mas não lhe faltaram amigos moçambicanos.

    Por culpa de seu espírito independente, Camões tinha-se desligado de Pedro Barreto, que o trouxera de Goa para a vila portuguesa da Ilha.  Diz Diogo do Couto que “houve uma questão entre Barreto e Luís de Camões devido ao temperamento impulsivo deste”.  Com questão ou sem questão, a verdade é que Camões queria ficar na Ilha, onde faziam escala as naus da carreira da Índia, ao passo que Pedro Barreto seguia para Sofala, para tomar as funções de Viso-Rei do Estado da África Oriental de curta duração, que pouco sobreviveu ao estrangulamento, por portugueses mandados, de Dom Gonçalo da Silveira, em 16 de Março de 1561.  Dom Gonçalo da Silveira estava a ensinar e catequizar em terras de Manica, com autorização do Monomotapa do grande Zimbabuè, o seu cadáver foi deitado aos crocodilos duma lagoa do rio Mossenguese.  Era amigo de Camões da mesma geração, que o cantou nos Lusíadas e de quem escreveu o soneto “de um que trocou finita e humana vida por divina, infinita e clara fama” e “que sempre deu na vida claro indício de vir a merecer tão santa morte.” 

    Alguns biógrafos conjecturaram que Camões teria comprado uma escrava africana na Índia.  Esta hipótese não é verosímil, porque do Extremo Oriente tinha trazido, para Goa, um escravo jau, natural de Java, baptizado com o nome de António.  Ele chama escrava e cativa à Bárbara e, na Ilha de Moçambique, isolado dos moradores da vila portuguesa e bem integrado, na vila macua da Missanga, não devia ter dinheiro para comprar uma escrava bela como era Bárbara, mais bela, a seus olhos, que as rosas em molhos, que as flores do campo e as estrelas do céu.   

    Camões não nos deixou o nome da sua amada.  Chamou-lhe Bárbara, dando a entender que não seria nem cristã ou rume, nem muçulmana, mas pertencia aos povos ditos bárbaros ou gentios, que naquela época, ainda não eram considerados civilizados, nem seguiam uma religião monoteista. 

    Além do cativeiro em que a mantinha, pelo seu amor, não teria Camões pago um dote (lobolo, ou alambamento) para se casar com ela?  Para um português, em particular, indo-europeu, em geral, o dote pago pelo noivo não se pode chamar dote, porque o dote dos costumes indo-europeus é pago pelo pai da noiva.  O dote dos costumes africanos e semíticos mais parece a compra duma escrava, visto na óptica dos costumes indo-europeus.

    Camões era um homem maduro e respeitável e em nenhuma aldeia ou vila de África se permite a um homem ficar sozinho e solteiro, nem por pouco tempo.  Terão aparecido e sido apresentadas várias pretendentes, mas só Bárbara, cuja pretidão dos cabelos e da figura subvertiam os padrões estéticos dos cabelos loiros e da alvura da pele de toda a literatura clássica e da Renascença e do próprio Camões, contou para ele e marcou a vida e a obra do grande poeta.

    Luís de Camões foi o primeiro poeta moçambicano de língua portuguesa e Bárbara Vaz de Camões a primeira cidadã de Moçambique, que só é Moçambique porque foi Portugal e maior não foi, porque Portugal já entrava em decadência, naquela altura.  Poucos anos volvidos, Moçambique voltava a ser uma capitania do Estado da Índia. 

    O amor de Bárbara e de Luís de Camões derrotou o racismo, mesmo antes que nascesse e criasse raízes, em outras Áfricas e Américas. 

    Séculos antes de financiarem a recuperação de Portugal, obra do ministro das finanças, Professor António de Oliveira Salazar, com o suor do seu trabalho, nos profundos poços e galerias das minas de ouro do Rande, os povos de Moçambique já tinham financiado com a “leda mansidão” do seu amor e carinho, “que o siso acompanha”, os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, obra prima da língua portuguesa.   


    (*)  Estas notas foram inspiradas pelo doutor Duarte Marques, que foi professor de português dos liceus de Goa e de Lourenço Marques.

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