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    EDITORIAL-48: Assim vão as coisas em Moçambique…


    Eduardo Quive - Maputo

    Esta é a quadragésima oitava vez que nos apresentamos a si, caro leitor. Ainda não cessamos a tarefa de informar sobre as letras, debater e divulgar, propósitos imutáveis desta Literatas nossa que nasce do sangue dos poetas, prosadores, críticos entre novos e velhos que embarcam quinzenalmente nesta loucura missão de fazer a arte virtualmente a partir de um país onde há uma maioria considerável que não tem acesso à internet. Cada espreita dela que damos aos leitores, sentimos que vale a pena e quando saímos, vemos olhos ansiosos e ouvidos famintos por uma boa literatura e com fronteiras abertas. Assim falamos nós sem retratos imaginários, estamos na vida real entre os naturalistas, realistas e surrealistas até aos experimentalistas. A literatura é feita de movimentos e só se move que sem deixa morder por esse bicho perigoso que se chama palavra.
    Já diz o brasileiro Alberto Lins Caldas, esse homem que escreve tudo a minúscula inicial incluindo o nome do país porque reconhece que a tarefa do escritor é criar o seu mundo, as suas gentes a que acaba se tornando servo. o leão é uma forma de zebra, a anta é uma forma de onça, o capitalista é uma forma de operário, um latifundiário é uma forma de camponês. É tudo uma forma, e nós, na virtual forma, fazemos a saudade, a lembrança, o desejo e outros prazeres que achamos que só fisicamente fazem sentido.
    Saímos de Outubro onde pela primeira vez, realizou-se a Mostra de Literatura Infanto-Juvenil em Maputo com a convidada especial Lurdes Breda, escritora portuguesa com cerca de 20 títulos publicados, na sua maioria infantis. Foi mais uma daquelas viagens a jangada nas águas agressivas da barra do Limpompo que engolem vidas na travessia dos tempos. Mas acima de tudo, foi uma viagem repleta de experiências marcantes para a Literatura Infantil em Moçambique, género que ainda padece de desinteresse pela maioria. Isto ainda leva-nos a questionar se as crianças moçambicanas têm acesso a uma literatura da sua faixa etária ou não. E a resposta é não.
     Na obrigação que se tem feito publicidade ultimamente, os adultos dizem “é de pequeno que se torce o pepino, as crianças devem crescer com hábitos de leitura”, mas os livros para essa camada aonde estão? Eis a hora de se despertar, não se pode exigir das crianças que leiam obras adultas, com palavras que nunca viram e ouviram, todas páginas só com palavras secas, tudo a sério. Assim, como diz, Lurdes, elas só se assustam. Há que se investir numa literatura adequada para os petizes e não impor que elas leiam os clássicos e os compreendam como os adultos. É até por falta dessa diferenciação, que temos agora crianças a partilhar as famosas novelas brasileiras com os adultos com cenas pornográficas e palavras obscenas a boa moda da juventude moderna.
    E mesmo a propósito das novelas, outra vez o Hélder, meu sobrinho de 2000, uma vez disse à Lulu, sua irmã de 2005 “me dá um beijo de amor”. A irritação não me coube no peito, afinal não são os miúdos que vão atrás das novelas, são as novelas que vão atrás deles, pois é de manhã, é de tarde, é de noite, elas são propaladas e sem nenhuma hipótese de evitá-las.
    O maior preocupante é que na actual Política de Livro ainda em discussão, parece que as crianças não fazem parte das decisões do governo sobre a sua educação cultural e sobre os seus livros. Há que se tomar decisões tendo em conta todos os níveis, se não, a sociedade estará formada em estranhos fragmentos. 

    EDITORIAL-47: Da humildade do escritor à do Homem


    Eduardo Quive


    Pela quadragésima sétima vez saímos esculpindo a palavra. Este parto foi mais uma vez à cesariana como já nos acostumamos (incrível como nos acostumamos de coisas dolorosas!), mas sempre fazendo pela sensação estranha de dor e ternura depois de tudo consumado. A maior alegria é, afinal, ver que não somamos número de edições apenas, somamos número de vitórias e de realizações. No acto de difundir a palavra “palavra” não encontramos outra razão se não a alma.
    Aí é que começa o campo das divergências sobre nós mesmos. A humildade que temos no exercício de uma profissão, neste caso a nobre tarefa de ser escritor e a de ser Homens. Por vezes, como profissionais de uma área a humildade pode-nos ser imposta, mas como Homens é sempre uma opção. O que se verifica nas letras é que aliada à submissão que o escritor tem de si mesmo, tanto a humildade do Homem como a do Escritor, caminham juntas.
    Não queremos nos arriscar em dizer que o homem que é Suleiman Cassamo é humilde, mas já há provas de que o escritor Suleiman Cassamo é. Para ainda não ter começado a escrever, um dos escritores mais conhecidos que o país tem, autor de uma emblemática obra em que o povo fala por si, deve ser algo grave e, no mínimo, nós esperamos que seja pelo facto de estar a preparar um livro que ainda pode superar a fama e o impacto de “O Regresso do Morto”. Caso seja esse o intento, não há espaço para dúvidas, afinal este é um exemplo directo de que “a pressa é inimiga da perfeição”.
    Mais emociona-nos a cada passo a descoberta de poetas novos neste Moçambique em que o novo nos foi ensinado que é duvidoso. Poderá notar o leitor da Literatas que, embora com alguns nomes já conhecidos, há uma exclusiva maioria em revelação nas páginas de poesia. Esse é, na verdade, o nosso papel, ir para além do existente, contornar viagens e fazer com que, como uma andorinha, os nossos gritos cheguem aos ouvidos dos mais ténues homens que são feitos pelo silêncio conjuntural. Nós os descobrimos e os trazemos aos olhos atentos que vós sois e queremos que haja um julgamento justo sobre a sua poética forma de escrever. O que estaríamos a ser, se o nosso conteúdo fosse o mesmo com os outros?
    Diz-se nas terras moçambicanas que é mais bom quando se repete, mas nós dizemos que é melhor quando se é exclusivo. Esperamos um dia ter servido esta e outras pátrias que fazem este rio que se chama Lusofonia na invenção de novos peixes que poderão conhecer a sua profissão com a humildade de ser escritor e a de ser Homens, neste caso, com Sebastião Alba a figurar como a personagem principal.

    ENTREVISTA: Filimone Meigos: Um poeta feito de contradições



    Já lia os seus escritos desde há muito tempo, mas o verdadeiro contacto com a sua poesia chegou-me nos finais do ano passado quando tive acesso a algumas edições da revista literária Charrua. Daí não parei mais a busca de quem era Filimone Meigos. Descobri que para além de ser autor de “Mozambique Meu Corpus Quantum”, era autor de outras duas obras de uma densa poesia, nomeadamente, “Poema Kalach in Love” e "Globatinol" ou o garimpeiro do Tempo" Uma conversa com Meigos que é também sociólogo, (docente de sociologia de arte) é passear de Beira a Chimoio, de Nampula a Maputo, lugares que o poeta se refere dos lugares e das gentes com quem se cruzou e que formam os seus sujeitos poéticos. E não só nesta entrevista, Filimone Meigos assume que “a inspiração é divina” sendo que a sua poesia a que “muitos não entendem” é baseada em três conceitos Arte – Filosofia – Ciência. Mas porquê justificar as palavras de um poeta que fala por si, não como director geral do Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), mas como poeta que é e, inevitavelmente, como sociólogo.


    Eduardo Quive - Moçambique


    Andei num liceu em que tinha como professores, Lídia Jorge, Zeca Afonso, e foi-me quase que inoculado o vírus da escrita. Na verdade vinha até da escola primária, e a minha família toda tem muita inclinação para as letras. O meu pai fez letras também, e isso influenciou-me naquelas leituras que eram coloniais como “João de Deus”, Antero de Quintal, Camões, eu li isso. Mas o que vem a surpreender de verdade, foi em 1973/74, foi a obra “Mangas Verdes com Sal” de Rui Knofli, nesse livro tinha um texto que dizia “Então Rui” e eu escrevi um nessa altura intitulado “Então Mone”, decalcado. Acho que foi meu primeiro texto e nem sei onde está esse texto, que era reminiscências de leitura de “ Mangas Verdes com Sal”.
    Começo a publicar textos a partir de 1975/76 na Beira no jornal Diálogos, com Heliodoro Baptista, Bassana Admugy, Júlio Bicá, Carlos Beirão, Simião Cachamo, e tínhamos mais outros. Então essa é a minha geração. Em 1978 vou dar aulas em Chimoio e fui feliz porque quando lá chego, a Diálogo saia no sábado e tinha um texto bem ao lado do meu, assinado “Marcelo Panguana – Chimoio”. Aquela cidade é muito pequena e perguntei a algumas pessoas, quem era aquele. Foi então quando disseram-me que era um químico e trabalhava numa fábrica de sumos e foi até lá. Encontrei Marcelo Panguana com uma bata branca armado em químico a fazer os sumos. Aquilo foi tipo amor a primeira vista. Então continuamos a publicar na Diálogo e em princípios de 1979 fui para a tropa em Nampula, estive na Academia Militar e conheci a Esménia Sacramento, que tinha um programa na rádio local chamado “O Poema Essa Arma” – decalquei – o que originou o meu primeiro livro, “Kalach in Love”. Uma releitura do programa radiofónico “O Poema Essa Arma” da Esménia Sacramento. Estava ela, Rafa Cambala, Moncolo Chiniá, Ana Paula Muhoro, todos estes escreviam.
    Se eu quiser dividir a minha entrada para as letras teria essas três etapas. Que são, a fase do Liceu, do Chimoio, onde fiz a geração Diálogos, e em Nampula, onde a Esménia Sacramento no seu programa apresentou-me o Rui Nogar e Orlando Mendes, foi um facto inédito e tinha comigo os meus textos iniciantes que mostrei aos dois. Eles disseram-me “há uns teus amigos em Maputo que vão gostar daquilo que escreves e eles tem uma linha própria”. Foi então quando conheço Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White, Juvenal Bucuane. E quem me dá os primeiros escritos destes é o Rui Nogar, ele era na altura director provincial de qualquer coisa em Nampula. Nessa altura, aliás, estava em vista a criação da AEMO. Portanto, quando a AEMO foi criada eu estava na tropa em Nampula e já estavam em contacto com os dois escritores que assumiram as grandes pastas da AEMO, sendo Rui Nogar, Secretário-geral e Orlando Mendes, Presidente da Mesa da Assembleia Geral.


    L: Então participa na criação da AEMO?
    F.M: Não. Porque estava na Academia Militar, mas vi a constituição e acompanhei tudo. Aliás fui posto a par desses processos todos pelo Rui Nogar e Orlando Mendes mais não fiz parte do corpo directivo. Só fiz parte dos corpos directivos nos tempos do Albino Magaia, que fui vogal.

    L: Mais depois vai a AEMO para se integrar na Charrua?
    F.M: Quando volto da tropa, eu vinha a Maputo para tratar da minha desmobilização, entro no processo da dinamização da AEMO. Participo dos jantares literários e das tertúlias.

    L: Vem recorrer a desmobilização porque já tinha como missão entrar activamente na vida literária?
    F.M: Não. Pauto pela desmobilização porque sempre achei que Guerra não é solução para este país. A minha geração toda sempre pensou que a guerra não é a solução para este país. Costumo dizer isto, que as pessoas próximas nem acreditam, o meu primeiro curso licenciatura em ciências político-militares, para aniquilar as forças vivas e não vivas do inimigo.
    Mas, a minha geração depois fez-se jus a questão, quando assinamos o Acordo de Roma, porque se chegou à consciência de que nunca seria a solução para a nossa situação, a guerra. Mas éramos miúdos, com 17/18/19 anos de idade e a juventude é sempre vista como aquele que vai contra a corrente.
    Volvidos que foram os tempos, a história provou-nos que estávamos correctos. E foi nesse prisma que achei por bem sair do exército. Mas estive na guerra a combater os BA’ s e essa expressão vais encontrar nos meus textos quando digo “BA’ s ao quadrado é igual a merda”. Porque de facto os BA’s eram merdas, andei atrás deles, queimavam aldeias, roubavam bois, violavam mulheres etc, e eu vivenciei isso quando estava na guerra. Eu vi que Guerra não era solução.
    Mas voltando à sua questão, vi cá e negociei a minha desmobilização e o Sebastião Marques Mabote que era Chefe de Estado Maior General, desmobilizou-me. Voltei a Beira como secretário de ligação do governador. Na beira fortifiquei as relações literárias com Hiliodoro Baptista e outros camaradas.
    Mas tive que estudar e voltei para Maputo e integro-me efectivamente na Charrua. Na verdade eu já estava envolvido, porque quando estive cá durante 3 anos quando a Charrua estava pujante, andamos todo Maputo a noite a pé, ninguém tinha carro. Desde a casa do Khosa que era no Alto-Maé até a Julius Nyerere, e aqueles bares todos, nós entrávamos, eu, Luís Carlos Patraquim, Calane da Silva, Gulamo Khan etc. O Calane e Ungulani já não bebem e nem fumam, mas naquela altura bebiam e fumavam todos. Foi uma iniciação interessante porque tínhamos uma geração anterior a nossa e nós mudamos radicalmente a abordagem formal e dos conteúdos – isso é que foi Charrua. A Charrua define-se pela sua capacidade de ruptura, embora com algo de continuidade em termos de formas e conteúdos, avacalhamos aquilo. E havia velhos que estavam connosco. o Rui Nogar, Craveirinha, o Aníbal Aleluia, gostavam porque viram que éramos dinâmicos. E depois tínhamos actividades de grande vulto como os Msahos, com o Tomás Vieira Mário, o Afonso Santos que éramos muito activos nessas actividades. Os M’sahos foram revelando conteúdos completamente novos como por exemplo, “As Saborosas Tangerinas de Inhambane”, poema de José Craveirinha. E a primeira vez que o país soube desse poema foi nos M’sahos, o Gulamo Khan roubou ao tio Zé, porque ele era muito cauteloso ao publicar os seus conteúdos. O Gulamo Khan que era adido de imprensa do presidente Samora Machel, roubou o poema e dissemos pela primeira vez em público, com a declamação dele, minha e do Tomás Vieira Mário, no jardim Tunduro em directo, porque tínhamos a transmissão da Rádio Moçambique.

    L: Entra na Charrua já com ambições como escritor? Tinha já em plano a publicação de um livro?
    F.M: Eu devo ter sido dos últimos escritores da Charrua a publicar uma obra. O livro não era um fim em si, obviamente que iria ser, mas não era uma meta. Se for a ver o Pedro Chissano, ou eu, mesmo o próprio Aníbal Aleluia, nós só lançamos livros já no fim. Na verdade o que valeu naquele tempo foi a possibilidade de partilharmos vivências, e debatermos a literatura no seu sentido mais amplo. Nós líamos muito e trocávamos livros e ideias. É isso que me traz muita tristeza porque não se esta geração era suposto ser a fiel depositária – o que é normal porque as gerações sucedem-se – não sei se lêem, se trocam livros. Nós fazíamos isso, íamos a casa de um e do outro, embora bebêssemos uns copos, e havia uns mais adiantados que outros, já tinham livros e até famílias, como era o caso de Khosa, Chissano e do Bucuane. Nós vivíamos como família. Veja hoje como os filhos de Khosa, ou os do White, os meus filhos, tratam-se como primos, somos tios e eles consideram-nos assim. E não era farsa, provavelmente, porque não houvesse diferenciação social como hoje há. Éramos todos iguais, ninguém tinha nada. O Rui Nogar é que tinha que lutar para nos meter na loja para temos uma camisa, calça ou manteiga. E ele fazia questão de dizer ao pessoal das lojas que éramos responsáveis. Ele gostava muito de dizer “cada um com a sua idiossincrasia”.
    Nós tivemos sorte porque apanhamos uma geração que depositava em nós a esperança e me parece, modéstia parte, que correspondemos a expectativa.

    L: Corresponderam as expectativas…
    F.M: Tu lés um “ Ualalapi” de Ungulani Ba Khosa, “ Amar sobre o Índico” de Eduardo White, e tu vês que está ali uma coisa sumarenta. Bem exprimida e as análises que fazíamos um bocado empíricas, porque nenhum de nós tinha ido a escola, mas eram feitas com alguma profundidade.

    L: Mas também eram tidos como rebeldes…
    F.M: Sim. Essa é a característica da juventude. Não é rebeldia como rebeldia, mas rebeldia com alguma substância. É um bocado disso que não sinto na geração que nos sucedeu na AEMO. E para o meu gáudio, sinto isso com o Movimento Kuphaluxa, que é – se eu quiser dizer quem é que herdou o espírito ou o modis faciente da Charrua – na minha opinião não é a geração dos jovens que estão na AEMO que faz, edita e discute ideias sobre a nossa literatura. A geração que está na AEMO não consegue fazer isso.

    L: Mas nesse processo de “passagem de testemunho” sendo que vocês aprenderam dos outros, fizeram o vosso temo da juventude com um certo reconhecimento e terão ensinado aos mais jovens que hoje estão, o que terá falhado?
    F.M: É um problema conjuntural. O testemunho, ficou nas nossas mãos e não foi passado por vários motivos:
    Primeiro parece-me que a geração sucessora não entendeu o recado.
    Segundo parece-me que a própria conjuntura fez com que tivéssemos tido uma abordagem diferente. Era outra coisa que não fosse literatura. Nós nunca pensamos nisso. Fazíamos literatura por literatura. Parece-me que a conjuntura impeliu-nos – quando digo nós, estou a incluir-me na nova geração e dou a mão à palmatória – impeliu-nos à mc-rogização da Literatura, tal como aconteceu na música e nas outras modalidades artístico-culturais. É a cogmelização, a preocupação com os efeitos rápidos, e ganhos. O que nós na Charrua não tínhamos. Éramos pobrezinhos, mas não pobres de espírito, e se leres o Khosa vais achar isso, por exemplo. Mas hoje estamos preocupados com o exibicionismo, marcas de factos e parece-me, infelizmente que esse paradigma vincou – a parte na minha opinião o Movimento Kuphaluxa – mas vincou esse mc-rogização, enquanto a literatura vai para além dos fatos.

    L: Mas esses todos problemas que se registam que resultados trarão em termos do novo produto artístico.
    F.M: Toda gente apercebeu-se sem o devido contra-efeito que a cultura é um poder. Mas não tem o devido contra-peso, porque não estudam, não lêem, então fica tudo vazio. Esvazia o conceito de arte como o nível mais alto de criatividade e por conseguinte o nível mais alto de intelectualização do mundo circundante.
    Então, estão todos preocupados com os livros, gingação, meninas e viagens, mas se olhares para eles com tudo isso não são nada.

    L: Já disse, portanto, que Kalach in Love é uma releitura do programa radiofónico “ O Poema essa Arma”, mas também podiam ser as falas de um militar que precisava da paz?
    F.M: Há ali a antítese da guerra, ou seja, o dilema de ter que pegar numa arma para alcançar a paz.

    L: E é exactamente isso que quero saber, porque há aqui um cidadão que era militar e tinha que lutar, por outro há aquele que diz “a guerra não é a solução”…
    F.M: Tínhamos o Apartheid e tínhamos os BA’s, estávamos expostos à apúlia, por um lado, mas por outro, tínhamos como única saída a guerra. Mas como hipótese de trabalho submersa, era a paz. Nós podíamos ter uma solução para o Apartheid, os BA’s negociando a paz, e esta era a proposta da Charrua. A Liberdade. Na Charrua tínhamos o debate crítico e democrático que não é o que me parece haver agora na AEMO. Não sei que cor tem e o que pensa a geração que agora se encontra na AEMO.

    L: Acha que há falta de uma ideologia por parte dos actuais gestores da AEMO?
    F.M: Nós tínhamos uma ideologia que não era exactamente uma ideologia. Mas pelo menos tínhamos um manifesto, se for a ler Charrua poderá encontrar isso, mas não me parece haver esse manifesto nos que agora estão. Não há esse arrojo, acutilância e finura no pensamento neles, como nós tivemos.

    L: Estava portanto a reflectir sobre esse “não a guerra” na sua obra?
    F.M: É interessante, porque há uma contradição, pela consciência de que eu não posso ser livre sem essa guerra, mas dentro desta guerra reconhecer que guerra não é nada, não é solução.
    Parece-me que todos aqueles que fizeram guerra entediam isso. Eu sou oficial na reserva e fui ensinado a matar, aniquilar as forças vivas e não vivas do inimigo. Mas sabes o que é isso? É ter o matar como sua missão, tal inimigo que é seu compatriota.

    L: Mas então, o seu segundo livro, mais um título difícil e a respectiva escrita.
    F.M: Porque eu penso e é por isso que dizem que a minha poesia não é poesia. E vou revelar um segredo: quando vou para a universidade começo a aprender a epistemologia, há um estudioso dessa área que se chama Gastom Bachilar, um francês que admiro bastante que “ a Arte, Filosofia e a Ciência, devem andar de mãos dadas”. Arte no seu sentido de mirandum, criativo, devaneio, onírico; Filosofia - perguntativo o rigor científico da teoria. Então, se tu reparares, já responde a pergunta que provavelmente me colocarás sobre o meu terceiro livro, o Mozambique meu Corpos Quantum, é uma tentativa de fazer essa junção, concordando, portanto, com Gastom Bachilar. Se você não estuda, não entende a filosofia, pode escrever poesia, mas não vais te dar bem. Então tens que ser capaz de reunir a perspectiva filosófica, científica e artística, e ele chama isto de racionalismo aplicado. Na verdade a minha poesia é uma tentativa de fazer o racionalismo aplicado. É por isso que sou muito combatido com os que dizem que não é poesia, mas eu afirmo, é poesia e tenho a certeza que é porque estou a seguir uma afirmação teórica que advêm das sociologias, com a qual concordo plenamente. Não se pode escrever poesia copulando e juntando palavras sem conteúdo.

    L: Mas o que isto exige de ti? Quer concordar que não existe a inspiração?
    F.M: A inspiração é divina. É para aqueles que acreditam em Deus. Eu acho que para se escrever tem que se ter outras componentes como a leitura e nessa leitura tem que haver a capacidade de apreender o mundo. E quando escreve é já uma tentativa de extravasar esta apreensão com o máximo possível de abordagens e aí, entra o Gastom Bachilar, Filosofia, Ciência e Arte, o Racionalismo Aplicado.


    L: Você acha que nestes seus moldes de fazer a poesia, é compreendido?
    F.M: Não estou preocupado com isso. Escrevo poesia para os meus, e provavelmente para posterioridades. Fernando Pessoa, não foi entendido na sua época, José Craveirinha idem.

    L: E quem são esses “teus” que se refere?
    F.M: São os que gostam de mim, os que estudaram comigo, alguns dos que estudaram comigo, porque mesmo os que cresceram comigo, alguns dizem que o que escrevo não é poesia.

    L: interessante esta sua abordagem da poesia como uma junção Filosófica, científica e Artística, afinal, estamos perante um sociólogo. Fale-nos dessa relação artista – sociedade a que se remete.
    F.M: primeiro é uma relação difícil. É entender que tenho uns quadros desponíveis em que posso entender a condição social do artista, os conteúdos que o artista trata sob ponto de vista simbólicas, trocas de bens e serviços e trocas de poder/autoridades e etc. eu conheço isto teoricamente. Não sei se isso dificulta ou facilita a minha tarefa, de qualquer maneira há um pressuposto que é que eu sei que isto é transversal a aquilo que eu faço.

    L: Está aqui a defender que é difícil fazer a arte ou ser-se artista sem olhar para o que está a nossa volta e nos relacionarmos?
    F.M: eu continuo a pensar que – isto é um bocado de resultado da minha convivência – o artista sempre tem que ser engajé. Um artista engajado. Você não faz arte para arte, é mentira, faz alguma arte relacionada com qualquer coisa, eu acredito nisso.

    L: mas olhemos por exemplo para a poesia, nos dias de hoje aplica-se muito o concretismo, do experimentalismo ao visual…
    F.M: Pode até ser, mas atrás desse experimentalismo, por trás desse concretismo há uma epistemologia, há uma busca de saber, há um processo dessa busca, esse é que é o ponto.

    L: o ser sociólogo e o poeta em si convergem?
    F.M: Infelizmente, na verdade é até felizmente porque se recuo para o racionalismo aplicado o meu apego a de marche artística, o mirandum, devaneio, e a de marche filosófica, perguntativa, e a de marche científica, o rigor metodológico… é pa, eu acho que nice.

    L: Ainda nesse âmbito sociólogo, lembro-me já que apesar de amigos, estou ao lado de um magnífico reitor do Instituto Superior de Artes e Cultura…
    F.M: (risos) … A magnificência é inerente do cargo, na verdade de magnífico não tenho nada, como podes imaginar e veja como estou (de calções, chinelos artesanais, camisete acompanhado do seu Kalach, o cachimbo e o vinho), eu fui sempre assim.
    Mas esta magnificência também é luta porque entre os meus pares, há uma atitude de resiliência, há crítica de fatos e gravatas e de formalismos que remontam as origens da universidade com as togas e todas aquelas formalidades que não me parecem ser a solução para este país.

    L: está a falar da classificação das pessoas pela aparência e não pelo conteúdo?
    F.M: É um bocado da mc-rogização, quer dizer, tu avaliares o invólucro e não o conteúdo, ou seja, se tu estás de factos e gravatas, you are the one, mas se quer falaram contigo, se quer sabem quais são as suas ideias, suas opiniões, estão te avaliar pelas tuas sandálias e que tal chegares destrinçares essas sandálias teoricamente e dizeres que usas as sandálias porque está um dia quente e qualquer coisa, pelo que faz mais sentido que usar fatos e gravatas num país que faz 40 graus de temperatura.
    É mais racional eu ter racionais do que fazer jus a um embrulho, que é um bocado consequência perversa da modernidade, as pessoas dão mais valor ao invólucro… e se você for um bandido, cheio de gravatas e tudo, mas em baixo tens uma AKM?

    L: como formador de artistas o que observa do Moçambique artístico?
    F.M: Eu estou a falar aqui como um sociólogo poeta o poeta sociólogo poeta, como quiseres. Sinto que há duas perspectivas: uma que são os artistas que entenderam que é preciso ter imputes teóricos para, por exemplo, conseguirem falar sobre aquilo que fazem, essa é uma perspectiva com a qual concordo.
    A outra perspectiva é de gente que vai estudar para ter um diploma, para serem N1, sabes o que é N1? Para ganhar salário que é outra perspectiva com qual não me identifico, mas que existe e contra factos não há argumentos, esse é um adágio antigo.
    Mas se eu quiser fazer uma análise mais fria, eu diria que há gente que está a estudar para aumentar conteúdo, o CHA – Conhecimentos, Habilidades e Atitudes, e há outros que estão pura e simplesmente para depois poderem factos e gravatas e serem chamados doutores todos embrulhados em termos de marketing com esse veludo, quando efectivamente não corresponderão aos conteúdos. Esta segunda alternativa põe-me um bocado triste, mas é o que existe, a sociologia também ensinou-me que as sociedades são feitas de actores sociais, há bons e mãos, há pretos e brancos, há marginais e não marginais, as sociedades transportam em si, doenças, as sociedades tem anomias. Há sempre questões anómicas que tem a ver com a própria sociedade, mas que elas não se podem sobrepor para saberem estar, saberem fazer e saberem ser.

    L: Olhando para essas duas vertentes, que aqui mostra, que valor acha que tem a formação para o artista e para a cultura no geral?
    F.M: A formação, eu volto ao Bashilar, para os artistas a formação dá-los este tripé de Filosofia, questionamento, cristicidade, Arte – podes ter nascido com ela, com os teus avôs, mas o mirandum, capacidade de sonhar onírica, ao mesmo tempo, já o terceiro pé, a metodologia a cientificidade que te dá a Ciência… Não há feitiço que substitua a ciência, a leitura, não há sonho que substitua a leitura, não há livro onírico que substitua o livro científico. Quer dizer que tens que ler ciência ao mesmo tempo que tens que ler literatura. Outra pergunta…

    L: Estamos numa altura em que se reclama falta de qualidade em que quase todas as áreas artísticas no país. Estou a falar, por exemplo, da música, da literatura, só me é difícil de falar das artes plásticas… que explicação pode se dar a tanta reclamação?
    F.M: Estamos numa crise de crescimento. Nos escritores esse marasmo, nos músicos a pandzização e mc-rogização da música, nas artes plásticas, temos a famosa discussão entre arte contemporânea e a não contemporânea, e sempre repito que é uma discussão redundante, porque quando Picaso, Gandisque, Marlu, estavam a fazer as coisas que fizeram não diziam “eu agora estou a fazer arte contemporânea”. Arte é arte, a arte é do seu tempo e aqui cabe-me falar de um famoso que eu gosto muito que é Nobel de arte, o primeiro preto e africano, Wole Sonyika, o tigre não precisa falar sobre a sua tigritude, ataca. Se você é e pode, faz. Parece-me que é esse o nosso problema que no meu atender, é uma crise de crescimento. Mais dia ou menos dia, há de haver uma quantidade que vai nos revelar a qualidade.

    L: Precisamos de acreditar ou precisamos de fazer alguma coisa?
    F.M: Eu acho que estamos a fazer. Por exemplo esta entrevista já é essa perspectiva de que temos que dar um passo seguinte. Dois, o Movimento Kuphaluxa na minha opinião, uma resposta a esse marasmo que caracteriza a literatura moçambicana.




    RETALHOS: Ximatanini ou nossa Praia Landinha


    Eduardo Quive - Moçambique


    Meu Deus, quanta água! Muita água! Em todo canto é só ver água e mais água! Tudo se transformou no tão precioso líquido! Vejo gente a bailar nos braços da chuva grande. Eu e Netinho saímos escalando esse mar que os céus cinzentos nos trouxeram no pobre Patrice. Chamamos Simone e Pala. Corremos descalços de calções e sem camisa galgando a terra que se fartava de tanta água. O chão prostrava-se perante o poder de quem está lá em cima. A minha mãe dizia que é Deus. Deus no céu e diabo em baixo das areias do bairro, mas quando fazíamos covas para construir as casas dos nossos palitos, representando aquilo que éramos, ou o que seríamos, lembro-me, aparecia um bichinho gordo que auto locomovia-se rastejando. Aí os mais velhos diziam é “nwinho wa missava”. Dono da terra. Aí mais uma coisa, as areais do meu bairro afinal não eram em que se encontrava o diabo! Então ficávamos felizes.
    A chuva mesmo seria a única barreira para as nossas brincadeiras, mas em vão. Enquanto ela caía eu ainda dentro da casa espreitando cobiçosamente ouvia malta Djossefa, Lulu, Florêncio e outra rapaziada, a cantar “treinador Maxaquene, Treinador Maxaquene”. Cheio de vontade de aliar-se àqueles amigos filhos do tio Pedro e tio Luís que o meu pai chamava-o Ndondondo porque bebia muito Tontonto (três palavrinhas), ao ver os rapazes brincar nas águas da chuva enquanto o tronco estava exposto aos pingos.
    Olhava para o chão quase com as lágrimas a cair e via na minha mão a ameaça de que se saísse, ia apanhar. Mas sempre dá um jeito quando Netinho entrasse em casa. Ele inventava qualquer coisa mas fazia a casa cuspir-me para fora. Aí saímos ambos de calções correndo para lá das bandas do tio Zefanias o pai de Pala onde tinha um tubo que tirava a água das caleiras. Era mesmo bom sentir aquele bater forte das águas da chuva nos nossos corpos. Uníamo-nos todos meninos, eu, Netinho, Simone, Lulu, Djossefa e Florêncio. Corríamos toda rua a fora. Depois pulávamos para as bandas do Singathela onde por causa da força dos pingos e da pequena ventania oportunista, todas as mangas caíam por terra. Apanhávamos aqueles frutos silvestres, mesmo na casa da professora Rossana onde tinham as mangas mais doces. Mas era tudo escondido, aí saber correr era um factor importante.
    Mas o pior mesmo, foi o dia que fomos conhecer a nova casa de Netinho, onde tio Pedro, seu pai, com salário de miséria como professor da escola primária, investia tudo para saírem da rua “O” e viverem felizes em família. O bairro onde morariam chama-se Ndlavela, fica depois de São Dâmaso. E é por lá onde tínhamos a nossa praia Landinha, uma porção de água cercada de terra. Mas não era assim que diziam os mais velhos, chamavam de “mati ya ndabi”, água que vem das cheias. Cheias de 2000. Mas nós não tínhamos esses preconceitos com aquela praia solitária que se instalou para nós meninos pobres do bairro onde tinha tudo, ladrões, sarnas e bilharziose, malária, diarreias, gonorreia e TB aos mais velhos. Agora também eclodiu nova doença. A gravidez.
    E íamos correndo ao Ximatanini como também chamavam. Dias de calor após quase um mês de chuvas torrenciais que encheram-nos as casas, as ruas e até as vidas. Na escola já não íamos a tempo e eram nossas ferias aquelas que as chuvas nos deram. Netinho que era mesmo bom das espertezas pediu-nos que o acompanhássemos lá para nova casa deles.
    Chegamos a praia Landinha e ainda a distância vozes de meninos que gritavam de alegria. Aí corremos ainda mais. Tiramos as camisas e as calças, ficávamos de calções ou mesmo de bicho fora sem temer as diferenças. Praia Landinha estamos aqui hoje nós da rua “O” e queremos tomar banho nas suas águas onde dizem que morreram muitas crianças. Nós que te somos solidários perante as injustiças que as pessoas te dão para não seres reconhecida como nosso Ximatanini onde banharemos os nossos troncos. Onde mulheres com bebés nas costas vem lavar as roupas que sujam na vida.
    Ah! Que saudades daqueles tempos em que os trópicos ardiam sob a nossa pele negra, indefesa do intenso calor típico de Janeiro e Fevereiro e lá no Ximatanini aquela praia de negros e mulatos pobres do subúrbio, afogávamos as nossas diferenças sem história!
    Horas passavam despercebidamente no banho da Praia Landinha. Entrávamos e saíamos correndo e gritando. Éramos felizes e confidentes com o nosso Ximatanini lá do Ndlavela. Só quando a noite começa a ameaçar chegar nos recolhemos, trémulos e mulatos de tanto banho.
    Mesmo com o cessar da tarde evidente, restavam vontades de continuar na alegria de Ximatanini que já era a nossa praia Landinha. Voltávamos a correr para casa como sempre gostávamos. Uma provocação a outros meninos dos bairros que passávamos agitava-nos ainda mais. Corríamos apressados para a porrada que receberíamos em casa. Ou pelo menos eu e Netinho. Já na rua, ainda na entrada chegavam-nos as vozes do medo. Gulherme, irmão mais novo de Florêncio é que vinha a correr para chamar-nos atenção do que nos esperava. Mas eram apenas ameaças de quem não podia afogar-se naquelas águas. Tudo em vão, a praia era nossa e nós tínhamos que nos banhar nela.

    RETALHOS: De madrugada morreu Mpudzuini


    Eduardo Quive - Moçambique


    Plazz…!!! Mais uma daquelas suas tossicas matinais, estendido aos primeiros raios solares. Hoje é até justo. É manhã de Julho, faz frio em Mapulanguene, mas nem por isso, madala Sope sempre fora assim.
    Aos 87 anos de idade, vive os seus quase quarenta anos de solidão sem arredar o pé daquele banquinho de madeira, com o cobertor sobre os ombros, única herança de outra velhice.
    Passam anos Sope sentado por cima do tempo, as rugas já não são de reclamar, rematiz à mistura do cansaço da vida que não passa para outras esferas já o sossegam como mero sobrevivente.
    Desde tenra idade o velho Sope partilha os dias com o silêncio de gente, barulho das aves, saudades e escarros que são o seu único romper da voz que se cala desde tempos do seu avô. Faz 37 anos que Mpundzuini, seu filho, morreu. O infortúnio deu-se numa escura manhã de Março quando um grupo de homens e mulheres invadiram o dormitório de Mpundzuini acusando-o de roubo de seis patos lá para outro lado do povoado.
    Tão sedo para sua idade, Mpundzuini viu a morte a visitar-lhe na madrugada de um dia que se quer estava ao alcance dos seus ancestrais como destinado o seu fim. Os populares que vinham na fúria da desgraça implantada pelo jovem filho de Sope, sem delongas puseram-se a destruir a cabana onde dormia Mpundzuini, repescando-o de seguida para fora. Daí, seguiram-se vassouradas, pedradas e socarias. Esbofeteavam e insultavam o jovem tido como ladrão.
    O velho Sope apercebeu-se da confusão que se instalara no seu lar sempre sossegado, ainda saiu a gritar que os vândalos parassem, mas era já sem força na sua voz que sempre foi roca. Tossiu e rebentou gritarias, mas não deu em nada. A povoação vizinha estava toda ela intolerante. Como podia lhes roubar patos naqueles tempos de fome à mistura do deixa andar que lhes permitia fazer justiça com as próprias mãos!
    Mpundzuini ainda olhou para seu velho pai atordoado pelo cenário que vivenciava. Sope viu o seu filho sentenciado a morrer de espancamento, ainda que lhe dessem a justa oportunidade de dizer ao menos se cometera ou não o tal delito. Mas não, que tem a falar um ladrão? E ai de quem ousar a defendê-lo.
    Encravado entre a sova dos homens descamisados em pleno cinco da manhã e das mulheres de capulanas até ao cimo da barriga e bem amarradas, tão jovem que era, Mpundzuini amanheceu espatifado e gritando por dentro que não entende o que se passa.
    Lá para o centro do povoado, mesmo defronte à casa do régulo, foi feita uma cova onde seria depositado o corpo do hoje julgado ladrão de patos e sem direito à recurso, condenado à morte. De vistas com a cova o velho Sope que seguia a população agressiva para com seu primogénito, sentiu um parto no coração, manchas de sangue sobravam-lhe no rosto que através dos olhos já tinham a certeza do fim que o filho teria. Aquela cova não era para ser sepultado o Mpundzuini, era sim, para enterra-lo vivo.
    Foi tudo em fracções de segundos. Enquanto a escaramuça persistia, um grupo de homens já tinha preparado a cova que estava na forma horizontal. O outro grupo que vinha doutro lado com o jovem a ser espancado por todos, arrastando-o para aquele sítio, já sabia do que se seguia. Meteram-no na cova que cobria todo seu corpo de pé e de seguida, desataram a enterrar o buraco. Era o fim do castigo que um ladrão que põe fome no povoado merecia.
    O velho Sope ainda lembra-se desse trágico episódio da sua vida e por isso, tosse sem mais algum interesse. Se lhe vem mais um ou dois copos de Uputsu pouco lhe preocupa, que verdade os homens têm para lhe oferecer que lhe possam doar tanto que ver o único filho a morrer de pé, clamando justiça, olhando para seu velho pai tão inútil para salva-lo para morte ainda em vida? Pensa e relembra o velho sem verter nenhuma lágrima. Que dor maior havia por chorar naquele momento em que já 37 anos passavam?

    EDITORIAL-45: “Nós somos cidadãos da eternidade”

    Eduardo Quive


    Fiódor Dostoiévski tinha um autêntico músculo erudito; uma satírica forma de ver o mundo e as coisas, por isso, verifica-se nas suas abordagens, a normalidade com que lida com o meio e os seus acontecimentos. É essa relevância lúdica que faz de si, provavelmente, o escritor de todos os tempos, todas as gerações e de todos os continentes. A escrita nem pela língua nos limita, aliás, a essência de uma obra, muitas vezes, está na familiaridade que o autor tem com a língua da sua escrita, isso podemos encontrar em Dostoiévski, este nome que constantemente associa-se a bons escritores dos tempos actuais.
    Ao começar esta abordagem falando do escritor russo que, para além, de autor da frase que guia este editorial é também autor da viva frase como esta “Sofrer e chorar significa viver.” Ana Paula Maia e Décio Bettencourt Mateus, dois escritores de países diferentes, Brasil e Angola, são uma combinação perfeita que vieram a calhar em simultâneo neste número. Trata-se de dois escritores de géneros literários diferentes, (um é contista e romancista, outro poeta) em que não se encontram neles grandes diferenças sob ponto de vista de conteúdo e abordagem.
    Na poesia de Décio Bettencourt, poeta angolano, vigora um cidadão comum cantante das coisas de gente comum, como a Zungueira (vendedoras ambulantes), o Candongueiro (em Moçambique chamados por Chapeiros), gentes dos “Pés Descalços”, andantes e batalhadores que no final do dia, apenas o arroz lhes interessa.
    Ana Paula Maia, não foge dessa abordagem, indo ao encontro, entretanto, de uma sociedade cáustica brasileira, falando de factos, que parecem ficção para alguns e, por isso, tratados pela autora com a devida solidez e frieza que eles merecem. Uma escritora que diante daquilo que vê, mantém-se escritora sem afugentar-se na cidadã de um país que também é.
    Na verdade, há um encontro inadiável entre a África e América Latina que vigora desde tenra idade. Os factos narrados por esses povos, não precisam serem inventados, porém, apimentados como só estes escritores sabem fazer num processo que une, o escritor, o cidadão e o infiltrado na sociedade. Uma boa literatura exige do autor essa coragem do Ser e por muitas vezes do Estar. Mas acima de tudo o que conta é a coragem de falar do quotidiano sem achar nele um mistério específico, fazendo da própria vida, esse mistério de bom contador de histórias.
    Ana Paula Maia é a personagem desta quinzena – 14 a 27 de Setembro. Décio Bettencourt Mateus angolano nascido em Menongue, província do Kuando-Kubango, sul de Angola, a 11 de Setembro de 1967, autor de “Os Meus Pés Descalços”, “Gente de Mulher” e “Xé Candongueiro!” é o entrevistado. Duas figuras dos mesmos tempos, países diferentes e escrita homogénea.

    Marcelo Panguana lança “Conversas do Fim do Mundo”


    Eduardo Quive
    Escritor Marcelo Panguana lança um novo livro em Maputo

    Como se pode explicar um fim? Como ele é ou como será? O que dizer perante o mundo que se acaba? Qual será o tempo final?
    Todas estas questões que podem incomodar o leitor (como a nós incomodam), levam-nos a este, no mínimo, satírico título do escritor moçambicano Marcelo Panguana, “Conversas do Fim do Mundo”, que será apresentado em público na próxima quinta-feira, 13 de Setembro, no Instituto Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

    Realmente, perante o fim, não se tem nenhum argumento, se não o próprio fim que se instala, afinal, Marcelo Panguana, autor de outras reflexivas oubras como, “As Vozes que Falam Verdade” (1987), “A Balada dos Deuses” (1991), “O chão das coisas” (2003) e “Como um Louco ao Fim da Tarde” (2010), é aquele que não se cansa de falar o que vê, vive e sente.
    É como dizia Francisco Noa, crítico literário, “na literatura moçambicana o que há de melhor são contistas e são contos que não se precisa inventar”. Panguana, é esse escritor que não inventa, usa os “chãos” que tem para contar várias histórias com o devido cuidado de se perder no texto, típico de jornalista que é Marcelo Panguana, embora se ocultando.
    Em “Conversas do Fim do Mundo” não encontrará-se um “eu” novo deste escritor, no entanto, há nessa obra, a novidade dos próprios assuntos retratados, desta vez, em jeito de críticas de obras literárias moçambicanas, reflexão filosóficas, análise de assuntos existenciais e, como não podia faltar, tendo em conta o estilo caracteristico das suas abordagens, interogações do país que vive e de onde é.
    “Estou a cumprir as minhas obrigações como escritor e como cidadão. Vou falar do país, das coisas que vejo no quotidiano e outros textos que fui produzindo ao longo dos últimos tempos, na sua maioria já publicados em jornais e revistas e alguns inéditos”.
    A olhar pelas declarações do autor, tidas em exclusivo pela Literatas, “Conversas do Fim do Mundo” será o prenúncio dos nossos dias no olhar da lucidez de um literato.
    “A Literatura  não pode ser tida apenas como uma forma de proporcionar lazer, mais do que isso, a Literatura é uma forma de intervir.”
    O facto deste livro estar a adiantar-se para o “fim” não implica o fim da carreira de Marcelo Panguana aos 61 de idade. “um escritor não morre”, disse o escritor.

    LIVROS: “Livro Livre” de Laulane e arredores


    Eduardo Quive


    Em jeito de insitação a uma provável viagem ao seu meio, Niosta Cossa que se propõe ser o cronista dos próximos tempos depois dos Machado da Graça, Tomás Vieira Mário entre outros bons nomes que se assinalam neste género raro no país, tornou oficial o seu estatuto de cronista na semana passada em Maputo, com o lançamento do seu livro intitulado “Livro Livre”.
    Afinal, estamos perante uma escrita não muito nova, mas para lá das regras clássicas. Estamos na verdade, diante de um autor que se consolida entre o dizer o que pensa perante o dizer o que sabe e o que outros pensam. Niosta Cossa não cede à pressão e nem teme as aventuras. Escreve e descreve de forma sólida, os problemas periféricos, aliás, tal periferia que vive desde ao seu “agitado” bairro Laulane aos outros cantos da cidade de Maputo que ele vê com um olhar crítico.
    Na lupa desde jovem escriba, em “Livro Livre” passam-se cenários como, pressa com que os homens agem todos os dias, frustração, nostalgia, fome e sede sem falar dos movimentos que Laulane faz sem estar fora da cidade que é capital de Moçambique o que lhe faz dizer de viva voz “escrevo por paixão – actualmente amo brincar com as palavras, construir frases, desconstruir conceitos, inaugurar novos mundos (ou redescobrir os velhos)”.
    A relação deste autor com o seu meio (meio de todos), leva a uma necessidade de se revisitar um outro “cronista” que constantemente se camufla na posição de contador de estórias, Marcelo Panguana, que nas suas obras “O Chão das Coisas” e “Como um louco ao fim da tarde” faz quese que sistematicamente, uma radiografia dos problemas do quotidiano, sem deixar de os relacionar com os tempos idos.
    O lançamento de “Livro Livre” de Niosta Cossa, que aconteceu na Escola de Artes e Comunicação da Universidade Eduardo Mondlane, foi um acto presidido pelo académico Cremildo Bahule, este que por sua vez, é autor da satírica obra “Carlos Cardoso: um poeta de consciência profética” e “Babalaze: A Outra Margem da Verdade”.
    Para Bahule, Niosta Cossa é um autor de que o país precisa e vem para enriquecer o Moçambique literário que se está a consolidar, daí, a leitura de “Livro Livre” ser não só por necessidade de entretenimento, mas por se tratar de um livro que fala de um quotidiano por todos conhecido, facto que nos leva a intitular essa obra de “Livro Livre” de Laulane e arredores.

    ENTREVISTA AO ESCRITOR PEDRO CHISSANO: “Niguém Matou a Charrua”

    Eduardo Quive - Moçambique

    Vítimas das imigrações como muitos bantus, os Chissanos que são no geral da província de Gaza, subdividem-se entre os do Guijá, no Chókwè, região do Limpopo e os de Bilene em Macia e Mandlakazi. Pedro Baptista Chissano, este a quem nós retratamos nesta entrevista, nasceu no Guijá, ao sétimo dia do Março de 1956, filho de pai motorista no Chókwè que depois veio a integrar a empresa pública, que na era colonial denominava-se de Serviços Municipais de Viação (SMV), hoje conhecidos por Transportes Públicos de Maputo (TPM). Aliás, foi essa integração do pai nos SMV, que tornou Pedro, em menino de Lourenço Marques a partir de 1962. Recebeu o nome do seu bisavô, é avô do seu pai, Chicolonhe, nessa altura estava a decorrer o processo de colonização do Limpopo. Portanto, o seu primeiro nome foi Chicolonhe, mas esse nome caiu no desuso, entretanto era usado antes de vir para Lourenço Marques. Daí em diante, fica Pedro Chissano. Um autêntico activista literário, escritor dos outros e poucas vezes escritor de si e como se não bastasse o facto de não publicar as suas obras, tenta sufocar o jornalista que há em si. No seu jeito de falar com aquela nostalgia, Pedro Chissano, vai citando nomes, deixando frases e canções que não saem da sua contemporânea memória e sempre que entende, chora os tempos sem se queixar de nada, apenas da saudade que reconhece ser maior. Super dotado, Pedro cairia um bom historiador e até Antropólogo, consegue harmonizar os termos, às origens e preservar os acontecimentos com os devidos efeitos. Eis a razão de ser a figura que homenageamos neste número que fala da exclusivamente da Literatura Moçambicana e, particularmente, da Associação dos Escritores Moçambicanos. O menino Pedro tem na sua memória “O Chão das Coisas”.


    Literatas: Como é que sai de Guijá para Lourenço Marques, já agora, Maputo?
    Pedro Chissano: Saio porque meu pai que era motorista conseguiu um outro emprego nos Serviços Municipais de Viação aquilo que vocês chamam de TPM (Transportes Públicos de Maputo) agora. Isso foi em 1962. Ele foi o primeiro preto a entrar para esses serviços. Estudei na Munhuana, primeira e segunda.
    Chegado a esse nível disseram ao meu pai “os seus filhos não podem continuar ai” e fomos ao João Belo, onde faço a 4ª classe na Escola Secundária Estrela Vermelha em 1968. Aprendi a jogar basquete ali e outras coisas. Estávamos na sociedade portuguesa.

    L: E quando chegaram, viveram no bairro de caniço?
    P.C: Não cheguei de viver no bairro de caniço no entanto, quando cá cheguei fomos viver ao lado da casa do Senhor Enoque Libombo, que chegou a presidente da Associação dos Negros de Moçambique. É pai da Aida Libombo que foi vice-ministra.
    Vivemos na casa que era do seu irmão, Alfredo Libombo que arrendou ao meu pai. Bem ao lado. Vivemos ali durante dois três anos. Considerava-se bairro de caniço, mas as casas onde vivíamos não eram de caniço, tinha até luz e água.
    Foi quando a vida do menino Pedro começou a mudar. Vivia numa palhota lá de onde vinha, mas em Lourenço Marques, dado a profissão do meu pai, não era permitido viver em más condições. E ele recebia o suficiente para arrendar uma boa casa, ter os filhos numa boa escola e educar-lhes melhor.
    Fui baptizado na Munhana entre 1964 a 65.
    Depois fomos viver na avenida Paiva de Andrade, agora Av. Siad Bar. Grande parte dos prédios que ali estão, vi a construírem. Eu brincava ao lado de uma cantina que se chamava Benfica no Alto-Maé, mas agora aquilo já não existe. Essa gente sempre preocupada em matar a memória, não é? Muda-se tudo todos dias.
    A memória boa que tenho é do tempo que vivia já no Alto Maé, cá na zona de cimento e não lá nas lagoas, nos Libombos. Quer dizer, começamos a ser cosmopolita, mas entre pobres, porque havia também brancos pobres, aqueles que vinham de Goa. A gente chama Indianos, porque eram de facto indianos. Só que os portugueses chamava-os de Goeses, porque era sua colónia. Portanto, estávamos numa colónia de pretos assimilados e semi-pobres, brancos pobres e ricos, goeses, em fim, brocávamos juntos.

    L: Creio que nessa altura já entrava em contacto com os livros, a leitura…
    P.C: Sim. O meu padrinho de baptismo era chefe do meu pai, um fiscal na empresa dos transportes. Eram pessoas, embora não ricas, mas com cultura. Mensalmente eu recebia um pacote de livros. Além de que é a partir daqui que vou a Escola Joaquim de Araújo, ou Estrela Vermelha, hoje, onde cheguei a bibliotecário de turma. Tinha um cacifo e a minha tarefa era distribuir livros aos alunos. Naquele tempo era no máximo por turma, 35 alunos.
    Aí decantou-se a paixão pela leitura, porque era obrigado a ler. Ler, ler, ler e interpretar; fazer redacções, etc.
    Quando vou para a Escola Comercial, aí aconteço como um pequeno redactor. Porque lembro-me que ainda no primeiro ano do comércio iniciávamos a fazer pequenas redacções e o professor por eu ser preto disse numa dessas vezes que apresentei mau trabalho “não vou acreditar que você preto pode escrever desta maneira”. Mas, eu acredito que escrevia bem devido a acumulação de léxicos, por muita leitura. Quando lemos muito há momentos em que as coisas saem sob outras formas, criatividade.
    Mas na escola comercial não foi tudo. Aprendi a tocar viola. Gravo dois discos no estúdio Delta Publicidade, com um grupo chamado CONCERTO GUITARRA ELÉCTRICA. Gravamos no dia 01 de Abril de 1974, quatro temas: USIWANA, MARIA ROSA, cantadas em ronga por um colega meu que as compunha. O triste equívoco ai pela idade, já vez o alto nível de intelectualidade de um menino que está a despontar, Pedro Chissano, está lá na capa do disco, Escrito em português FELICIDADE A VOCÊS. Eu tinha 17 anos em 1974.
    A letra e música foi feito por mim, quem me ensina é um colega que já morreu, lá do Instituto Vasco da Gama, chamava-se Octávio David Mahumane, a quem gostaria de deixar uma homenagem escrita. Outro é o Jonny Job Mondlane, esse está vivo. Mas o falecido que cantava “Ussiwana, Ussiwana; Hine hi ta fana na Jesus a nga fela Ussiwanine” é o Ambrósio Dantas Pedro Coisinha, gostaria de deixar este nome registado por que são companheiros de jornada. Eu tinha 17, Ambrósio tinha 20 anos, era o mais velho.
    A registar que o Ambrósio Dantas Coisinha cresceu na Munhuna onde fiz a 2ª classe. O Octávio David Mahumane, conheci na Estrela Vermelha. Os brancos começaram a nos chumbar muito na Estrela Vermelha por causa desses velhotes, o Guebuza, Albino e Lina Magaia, Josina, andavam a fugir. Os brancos começaram a perceber que “estes miúdos basta fazerem o 5º ano fogem vão para a Frelimo” então começaram a travar-nos. Tu não passavas de qualquer maneira. Em 72, bastava passar o 2º ano, os gajos travavam-te. Então os pais gastavam muito dinheiro porque ficávamos muito tempo no ensino. Eram 450 escudos por mês. É onde conheço o David Mahumana, mas depois passei e fui para o Comércio.
    Consegui fazer a Escola Comercial, mas veio em 1974 o golpe de Estado, aí instala-se a confusão. O meu pai tinha muitos filhos, no total somos 14. Eu sou o 10º filho, estão a minha atrás 9 irmãos e 4 á frente. Alguns são célebres como o João Chissano que foi treinador de Costa do Sol, agora é treinador adjunto da Selecção moçambicana de futebol. Mas antes dele tive duas irmãs artistas, a Ana Vasta Chissano e Joaquina Chissano que estiveram na Companhia Nacional de Canto e Dança. Esta coisa de arte persegue-nos. O Alfredo Chissano também está ligado a arte, esteve na Sociedade Moçambicana de Autores e agora no Instituto Nacional do Livro e do Disco com o Ungulani Ba Ka Khosa.
    Mas voltando às leituras. Em 1974, decido trabalhar, o meu pai tinha já muitas despesas. Fui a Niassa, não porque quis. Quando volto do Niassa tinha a mania de que já escrevia então venho encontrar-me com o Albino Magaia e cruzo-me com o Ungulani aqui (na AEMO), o Armando Artur também andava por aqui, ele era o mais novinho. Khosa era professor e o Armando ainda a estudar.
    É aqui na Associação dos Escritores Moçambicanos onde se caldeiam novas vontades e o gosto por escrever. Por via disso acaba nascendo a Charrua revista ou grupo que fui um dos fundadores e coordenador. O Tomás Vieira Mário, fui resgatá-lo, andava por ai, eu sabia que ele escrevia muitas coisas, tinha uma escrita muito bonita. Chamei o Tomás, até hoje ele diz-me “eu tinha medo de entrar na associação dos escritores”, bom tinha medo coisíssima nenhuma, não tinha entrado antes, tinha esse receio.
    O Albino Magaia já o conhecia pelo nome, mas conheci-o melhor em Niassa, porque ele como antigo combatente na clandestinidade, juntamente com o Malangatana, Samora Machel, a Frelimo, (quando digo Samora é porque era quem estava em frente das grandes decisões), manda-o para Niassa. Nessa altura eu estou a vir de Cuba, 11º Festival Mundial da Juventude Estudante, apanho o Albino Magaia na mesma casa onde vivi.
    Fui a Cuba em 1978 a chefiar a delegação do Niassa. Fui descoberto lá em Mecanhelas onde estava. Encontrei em Niassa, o Hilário Matusse, estivemos juntos na Escola Comercial, mas brincámos juntos no Niassa.
    O próprio Hortêncio Langa, ia lá cumprir outra missão, o encontrei. Foi professor no Niassa, mas isso compete a ele dizer. No entanto, lembro-me que a esposa dele ou a mãe dos filhos dele mais velho estava na Rádio Moçambique na altura.
    Fizemos um pequeno conjunto de amigos lá. Trocávamos livros, conversávamos e essa prática veio reforçar-se na AEMO. Além de nós, fomos conhecendo outros jovens que foram chegando, os da Forja, estou já a ver o Castigo Zita, estou a ver um que está aqui no Ministério da Cultura que já não me lembro do nome. Depois viemos conhecer esses meninos da Oásis, e outros com os quais estamos a fazer de facto este esforço de crescimento mútuo. Depois sois vós a aparecer agora também a incomodar-nos com os livros, embora não tenham surgido aqui, mas estão a fazer as coisas com zelo. É um núcleo positivo que eu acredito, nos ajuda a colocar – alicerces já os temos – mas ajuda-nos a colocar algumas pedras sobre nós próprios. Não nos bastamos a nós próprios, precisamos sempre de maior confortabilidade – se quisermos – estética ou de solidez e a gente vai buscando nos mais novos esses que nos aparecem, vós inclusos lá.
    Esta é a pequena história do menino Pedro.
    Depois fui coordenador da Charrua, fui muito trabalhador em levar livros à Impressa Nacional. A pessoa que mais saia daqui para levar livros dos outros a Impressa Nacional, era eu. Tive uma relação muito especial com o Júlio Navarro.
    Quando ele era chefe das edições daqui, ficava naquele gabinete onde está o Alves, tinha muitos papéis. A minha missão era ler, entregar ao Albino Magaia na altura dizendo que a proposta era lançar este ou aquele livro. E foram muitos, “Magoda” do Hortêncio Langa, livros do Armando Artur e muitos outros.
    Eu era muito preguiçoso em ter as minhas próprias coisas. Só agora lancei o “Boas Festas Chiquito”, tem o “Algumas histórias e brincadeiras com B grande” eu sei que está pronto, mas só o secretário-geral é que pode dizer quando é que isso sai.
    Colaborei com muitos jornais, no “Notícias” o “Kikirigóóó” ou o “Canto do Galo” é que produziu o “Boas Festas Chiquito”. Depois fiz o “Polígamo 2” que ainda não sistematizei para livro. Os contos que vão sair são de textos publicados na Charrua e na revista “Tempo” sobre tudo. Colaborei com o “Savana” nos tempos de Juvenal Bucuane, com crónicas.


    L: Quando entram na AEMO e criam a Charrua, como é que foram recebidos por aqueles que já estavam dentro da associação, como por exemplo, o Rui Nogar?
    P.C: O Rui Nogar era uma pessoa especialíssima. Provavelmente por causa do passado recente dele: preso político, um indivíduo complacente para com os outros, tolerante. Tu podes ver ao ponto mais alto, como o comportamento de Nelson Mandela com as pessoas que o encarceravam, quando ele sai como os trata. Não quero dizer que a cadeia seja um belíssimo centro de reeducação, mas de reflexão é, muita reflexão. E o Rui Nogar foi muito excepcional.
    Tivemos problemas com algumas figuras – não é oportuno dizer quem são – mas
    nem todos nos deixavam passear por aqui. Há espaços físicos em que éramos ditos “hei hei hei, vocês aqui não ficam”, pessoas da direcção da AEMO que saiu em 1982.
    Tivemos que provar com trabalho que podíamos ser acoitados na AEMO. Esses trabalhos revelaram-se nas próprias edições da Charrua. Mas essas pessoas que não nos queriam ver, vinham com estigmas - é bom que se diga isso – vinham estigmatizadas das redacções dos jornais onde trabalhavam e sobre tudo quando a cor é mais escurinha. Foram maltratados. E aquele estigma, a tendência humana é passar para gerações subsequentes e dizer “sofram lá um pouco mais, não podem ter as coisas de mãos beijadas”. Mas foi boa coisa, porque não há aqui gente que saiu ferida, paraplégica, estamos todos em pé e conversamos até com essas pessoas, salvo, aquelas que já partiram.

    L: Nota-se hoje alguma inoperância em novos projectos de revistas literárias. Como é que faziam para manter a Charrua?
    P.C: O problema daquele tempo é que cada um de nós saía do seu local de trabalho e vinha para aqui pensar Charrua. A única coisa que tínhamos em mão para a nossa afirmação era a Charrua. E a partir do momento que saiu o primeiro número, decidimos que todas as semanas – se não todos o dias – tínhamos que nos encontrar. E inventamos aquilo que chamamos “Jantar Literário”às sextas-feiras. Todas sextas-feiras estávamos na AEMO.
    Os Jantares Literários eram a consagração daquilo que nós fazíamos. Ainda vejo o Ungulani pendurado na janela a ler um dos seus textos, assim um bocado ébrio naqueles tempos, com uma voz um bocado rouca e nós a batermos palmas, pá, “é um texto conseguido”!
    Isto fazíamos todos nós, uns com maior e outros com menos propriedade. E fomos crescendo.

    L: Algo chamou-me atenção durante as leituras que fiz de algumas edições da Charrua, foi o facto de ter nos revelado uma escrita sua mais jornalística. Reconhece essa influência?
    P.C: Provavelmente. Tenho algumas coisas que herdei de jornalistas bons. Há jornalistas bons, por exemplo, um Albino Magaia, um Calane da Silva, um Tomás Vieira Mário – apesar de ele dizer que quem o trouxe aqui fui eu – mas as suas crónicas são boas. Um Machado da Graça, eu já nem quero falar deste Machado da Graça que tenho lido no “Savana”, aquela maneira quase que muito simplista de colocar as coisas, mas a piada dele está lá, ele gosta daquela pintada do riso e está lá.
    Mas eu li coisas que o Machado da Graça escrevia na “Tempo” em 1981, coisas belíssimas. Essa gente marcou-me, mas sobretudo o Albino Magaia marcou-me profundamente. Para além de que essa gente aguçou o meu sentido de observação, eu gosto de escrever um texto ainda que profundo, mas breve e que te chama atenção para uma realidade – não para tu perderes tempo a ler, duas ou três páginas, não – gosto da síntese que os jornalistas, têm muito disso. Quer dizer, eu escrevi, tu leste, percebeste e podes voar para onde tu quiseres naquela brevidade que te apresento.
    Nesse aspecto tens razão. Por isso eu chamei ao primeiro livro de cronicontos. São crónicas mescladas de contos. Quem lê “Boas Festas Chiquito” verá que há crónica, mas aquilo é uma história ao mesmo tempo.
    Agora tu hás-de encontrar essa diferença no livro que ai vem e, provavelmente, eu me sinto pequenino em algumas histórias e brincadeiras. São contos alguns muito densos, o leitor as vezes pode se perder. Mas quando escrevo crónica sinto-me um peixe na água. Sinto-me bem.

    L: Estavam no tempo em que a guerra era pela barriga e a reconstrução. Havia dinheiro para sustentar uma revista?
    P.C: Eram tempos difíceis. Não tinha papel no País…


    L: Aliás, nas edições número 5 e seis que saíram juntas, Tomás Vimaró, escreveu um artigo sobre essa falta de papel que punha muitos livros a espera de serem impressos…
    P.C: Nessa altura em que começa a escassear de verdade o papel, começa igualmente, o descalabro da revista. Mas devo dizer que, quem nos apoia em primeiro lugar é a Embaixada de Portugal – isto é bom que se diga porque é história – nós mandatamos o Eduardo Luís de Menezes White – não por ser white – ele foi lá, negociou e conseguiu o primeiro financiamento e naquele tempo fazer uma revista eram 20.000 a 25.000 meticais. Os tais 20.000 fomos dados pela Embaixada de Portugal.
    Desse dinheiro inicial havia tanto sentido de austeridade, tanto que o dinheiro das vendas – porque nós vendíamos a revista – guardamos para imprimir as edições subsequentes até a morte da Charrua nós é que custeávamos as publicações.
    Tínhamos um bom tesoureiro, o Juvenal Bucuane, ele sabia muito bem fechar o dinheiro. Penso que os cheques tinham que ser assinados por ele, por mim e por mais alguém que já não me lembro.
    Luís Carlos Patraquim – só uma dica – foi a Portugal com o dinheiro da Charrua, pediu 15.000 meticais emprestado, o suficiente para sair daqui para Portugal. Assinamos o cheque e ainda agora está lá – está lá, mas é nosso. E não estamos arrependidos pelo apoio que o demos, até hoje quando vou a Portugal, os melhores momentos que tenho é com o Luís Carlos Patraquim. E recordamos isso numa gargalhada daquelas “ó Patraquim pediste dinheiro da Charrua!”. (risos)

    L: E chegou a devolver o valor?
    P.C: Não, não, não. Não devolveu. É óbvio que aquela conta o banco já se esqueceu e a Charrua morreu! (risos).

    L: E foram galgando até a edição oito…
    P.C: Pois, terminamos na oitava edição, mas isso tinha a ver com o sentido da afirmação. Nós sempre defendemos que a Charrua era como um viveiro onde as pessoas se vão afirmar. E as pessoas se afirmaram. O Ungulani afirmou-se ali. E hoje aparece como um dos maiores do século XX, foi a Charrua. E quando nós começamos a sentir isso, cada um dos componentes foi vendo a altura que tínhamos atingido. O Bucuane já tinha livro, o White também já tinha – esses foram os primeiros a publicar.
    Depois sai o Ualalapi. O Ualalapi criou barulho neste país. Aí as pessoas foram dizendo para si mesmas “afinal eu posso” e a Charrua foi caindo assim. Os colaboradores primários foram esquecendo a Charrua e a Charrua morreu. É uma morte natural, ninguém a matou. Também não queríamos fazer daquilo um espaço permanente, mas sim, um espaço de afirmação, foi o que sempre dissemos. Mesmo no primeiro editorial nós já dizíamos, que se aqueles velhotes não conseguirem, nós vamos para frente. E alguns foram ficando dirigentes, seja da própria AEMO ou de outras instituições.

    L: E parece que até hoje as coisas são assim: vamos criando, vamos subindo e ganhando nome e prestígio, quando achamos que estamos próximos do sucesso inesgotável, deixamos para trás o que nos catapultou e vamos assumir aquela grandeza que sempre foi na verdade a nossa ambição.
    P.C: Começamos a não ter tempo. Alguns ficaram dirigentes como disse, foram nomeados chefes nesses sítios; eu fui nomeado chefe do gabinete no Conselho Municipal e o tempo foi ficando escasso. Que isso, por ser um facto, que não desiluda os nossos seguidores é falso também. Porque os nossos seguidores ficam desiludidos. Eles viam em nós um fio que os puxava. Há textos por aí que dizem “Charrua quem te puxa e quem te quer parar?”. Há textos dessa natureza. Mas ninguém matou a Charrua.
    Essa coisa de chefia é complicada. Começamos a ficar chefe e depois fomos ficando consagrados ao nível de outras revistas. A Charrua já não era uma coisa da praça, tu tinhas que ir a Tempo, ver um texto – é esse o outro lado que gostaria de dizer – o Gilberto Matusse, vem de Portugal com os seus colegas, o Cunha, o Gregório Firmino e olham para a Charrua, como objecto de trabalho. E eles divulgam a Charrua, escrevem, escrevem e escrevem e, nós ficamos um bocado fortes. Mas a Charrua ficou para trás, provavelmente, injustamente, porque podíamos tê-la como modelo de referência como primeira revista e podíamos continuar dois três contos, poemas e etc, aquilo que a malta publicava com qualidade e com aqueles desenhos do Ídasse Tembe – já me esquecia do Ídasse. E aquelas entrevistas que eu só aprendi a ler na Charrua pelo Tomás Vimaró. Uma entrevista feita ao Manuel Ferreira; uma entrevista feita ao José Luandino Vieira quando ele diz “a Língua Portuguesa calhou na rifa fónica”, ele disse isso na revista Charrua e quem fazia as entrevistas era o Tomás Vieira Mário com aquela experiência de jornalismo que ele tinha, mesmo antes de ir a Roma.
    Há uma saudade que eu próprio tenho da Charrua. Há aquela nostalgia ao lembrar Charrua, aquelas tertúlias literárias, os Jantares Literários, o Eduardo White em cima de uma mangueira a ler “Os Amotinados” com a Anabela Adrianoupolis. Esses momentos não voltam mais. (instantes de silêncio, entornando na boca algumas gotas do seu vinho).
    Já houve de tudo aqui na AEMO, teatro lá de cima das árvores, o Eduardo White nessa altura era mais novo – se subisse agora caía de certeza absoluta – (risos). O gajo subia e dizia lá um poema a sua bela maneira “Os Amotinados”.

    L: Como disse Charrua era um espaço de afirmação como escritores, mas acontece que alguns afirmaram-se como políticos e outras áreas sociais e económicas…
    P.C: Não. Em qualquer um de nós há um bicho político, isso é velho. Não sou eu e eu acredito que em ti próprio há esse bicho. Acredito ainda que daqui a 10 anos, o futuro chefe de Estado se te convidar para seres ministro da Cultura vais. Eu sei que tu vais. (risos)
    Agora isso é conversa. O que é facto é que nós arrancamos para Charrua sem qualquer outro interesse se não a escrita. Os que conseguiram ser são. Mas não estou a ver pessoas da Charrua que não são escritores, acho que todos ficamos escritores. Aqueles que caíram na graça do poder do dia foram resgatados para aquilo e o primeiro a abrir o caminho para isso – é bom ser claro – foi o Hélder Muteia. O Hélder não foi lá pedir seja lá o que for, alguém engraçou-se com ele lá de cima e convidou-o, ele aceitou. Eu, em momento bom se me tivessem convidado, teria ido fazer papel, digamos, de governante. Quando digo momento bom, digo momento oportuno, este já não é o meu caso, mas haverá outros que se seguirão. Eu tenho já barba branca, só se calhar for para uma Assembleia Provincial da minha província que é Maputo, aí vou, mas não tarefas pesadas que me obrigariam a andar a ver dossiês e dossiês que não acabam.
    Eu gosto dos meus camaradas, o Hélder, Juvenal – o Juvenal até tem uma tarefa menos desgastante, digamos, prestigiante – é membro da Comissão Nacional de Eleições aquilo dá prestígio. Ouvem a tua voz como conselheiro e não pertences a nenhum executivo. O Herldér, já esteve numa cadeira desgastante, mas agora está na FAO, isso dá prestígio. Isso é bom para mim, deixa-me gordo, tenho companheiros confiados em boas missões e não sou daqueles que aproveita-se disso para fazer rixas e ter inveja.
    Ta aí aquele menino que é director do Instituto Superior de Artes e Culturas, o Filimone Meigos, isso também orgulha-me. Nós acompanhamos o Filimone a acabar a sua décima primeira classe. Depois foi para a universidade, batalhou para o que tem.
    Esta aí o Ministro Armando Artur, críticas há várias, mas está a fazer o seu trabalho. Isto é belo.
    Agora se todos esses fossem para altos cargos como estão e fosse para fazer confusão, ficaria muito triste ou seja, haviam de dizer é a geração deste que está a fazer porras.
    Mas fico feliz meu filho pela pergunta que fizeste-me. É pertinente. Tenho ouvido muita gente por aí a dizer “essa gente fica secretário-geral da AEMO e depois são ministros”, acho que é muito simplista dizer isso.

    L: Há quem diga as pessoas da Charrua eram as que tinham ou tem, capacidades para assumir grandes responsabilidades nas áreas culturais. Concorda?
    P.C: O pessoal da Charrua estava fardada a cumprir algumas tarefas. Não há hipótese. Não há maneira. Eu já fui convidado para fazer tarefas que não se podem dizer assim. E eu não era secretário-geral, era apenas da Charrua. E aqui nos cruzamos com o Marcelino dos Santos que ia nos dando algumas missões, por exemplo.
    Destinos são vários, partindo da AEMO. Podes ir a vários sítios. Podes ser reitor de uma universidade, podes dar aulas, podes ser chamado a secretariado do congresso de Cabo Delgado a partir daqui. Mas não é célula da Frelimo como se fala por ai ou se algum dia foi, hoje já não é.
    Em algum momento a AEMO foi confundida nesse sentido porque quem a cria é Samora Machel que manda o Marcelino dos Santos. Mas nunca alguém via num Marcelino, um poeta; num Sérgio Vieira, um poeta, num Jorge Ribelo, um poeta. Viam aqueles homens fardados daquele uniforme de lá donde vinham, então era uma célula da Frelimo. Mas não é.


    L: Tal como vocês foram assistidos ao surgir, foram surgindo, igualmente, na AEMO outras revistas ou grupos depois da Charrua. Sendo que vocês em algum momento foram vítimas de estigmas dos velhotes, terão sabido não “torturar” os mais jovens?
    P.C: Há uma coisa que o velhote Rui Nogar costumava dizer, aquilo que ele chamava de “características idiossincráticas de cada um dos Homens” que é a tua maneira de ser, a minha maneira de ser e de estar. Há quem olhasse e dissesse “isto aqui?”.
    O primeiro livro de Armando Artur, foi da Charrua, ele entregou ao Ungulani Ba Ka Khosa para ler, - sentado ali onde agora é contabilidade – ele sentou em cima do livro – esses meninos pá – Armando ainda hoje não se esquece disso. Ele fez a leitura que fez, numa desses são chefes da Charrua e sei lá, e pediu o livro de volta.
    Mas isso depende de cada pessoa. Eu nunca tive problemas com as novas gerações. Forja era da minha geração só que entendeu que queria fazer paralelismo com a Charrua. Publicaram dois ou três números, se a memória não me falha. Só que não havia suporte literário para aguentar uma revista de 32 páginas. Enquanto nós tínhamos material, havia escritores no nosso grupo. O Juvenal já escrevia desde os anos 70’, e estavam os seus escritos guardados porque não sabia onde publicar; o Ungulani e eu já tínhamos. O Eduardo White, não tendo esse material, mas com uma grande capacidade de criação estava sempre a produzir, tinha um cérebro blindado. Nós alimentávamos a nossa revista e eles não tinham essa capacidade.

    L: Mas vocês da Charrua eram vistos também como indisciplinados…
    P.C: “Nós fizemos muita porcaria”, entre aspas, coisa que tem a ver muito com as idades que tínhamos. Eu sai de Maputo para Niassa com 20 anos e regresso com 26 anos, ainda não tinha 30 – esse dado é curioso – o Ungulani tinha 24 anos, um menino mandado para ser professor no Niassa depois volta, o Armando Artur é que não tinha idade para ser rebelde.
    O Eduardo era, claramente, rebelde. Mas rebeldia o que era? Era a gente postar-se sempre um pouco fora dos cânones do poder político, isso é natural. E havia os mais rebeldes e outros menos, mais disciplinados. Éramos assim.
    Estava aqui uma senhora que vendia cerveja, já morreu e não me lembro do nome, ela disse que a cerveja que restou nesse dia era para o dia seguinte e ela queria ir para casa. Obviamente que tomamos de assalto a geleira! (risos).
    Nós sabíamos que lá fora não havia mais cerveja, só aqui. Estou a falar dos anos 1982 a 1984. Não tinhas cervejas por ai, e eu disse quero tomar mais uma cerveja. Tinha que tomar mais uma cerveja. Nós tomamos de assalto ela a gritar, “não Ungulani, hei Pedro! Armando!” éramos rebeldes, mas a nossa rebeldia era marginal. Uma rebeldia de fulcro e não de mexer com os poderes. Essa de que temos que tomar esta cerveja, porquê que temos que tomar amanhã?
    Lembro-me daquilo que fizeram ao Ungulani quando ele faz um discurso autodiegético num conto seu, em que ele diz que saiu foi roubar um par de sapato para o filho, mas acontece que foi apanhado e espancado e o seu filho veio a passar sem saber que era o pai, também espancou-lhe. O Marcelino dos Santos fez uma reunião na revista Tempo onde o texto saiu e eu disse ao Ungulai “essa é tua retórica literária contra as imposições políticas”, ele riu-se. Ele tinha que encontrar uma maneira subtil de rebeldia, mas não uma rebeldia de rua. Se não pegavam em ti e desapareces. Vivemos momentos difíceis. Não havia esse barulho, manifestar contra o poder era impossível.

    L: E quanto a própria AEMO quanto uma “instituição” se assim se pode dizer, o
    que acha dela?
    P.C: Isto tem altos e baixos. Esta era uma casa de começo com Rui Nogar, foi uma casa de consolidação com Albino Magaia, com Pedro Chissano – não estou a afirma-lo de forma concludente – terá sido o momento de gente da minha geração também habitar a casa mais livremente.
    Acredito que o Hélder Muteia fez algumas mexidas e teve uma secretária-geral adjunta esplêndida a Lília Momplé, eu também tive um secretário-geral esplêndido que é o Leite Vasconcelos. Penso que essas pendles terão conseguido ajudar para que a casa não descarrilasse.
    Depois do Hélder creio que foi a própria Lília Momplé tendo como adjunto, o Armando, depois da Lília foi Suleiman Cassamo só depois vem o próprio Armando.
    Há aqui uma sucessão – para ser honesto – de sucessões na direcção da AEMO de dois em dois anos que não é muito sólido. Um sai ainda com coisas por fazer, entra outro também com suas coisas e esquece as do outro, assim vamos acumulando esquecimentos, de direcção a direcção. Isto terá criado qualquer problema estrutural ao nível da coerência programática da AEMO. Isto poderá ter falhado.
    E depois o outro erro foi exceder as sucessões geracionais. Essas sucessões geracionais a experiência ao cabo destes quatro anos mostra que não são a melhor maneira de resolver o problema na associação. As candidaturas têm que ser supra-geracionas. Se sou da Charrua ou da Oásis não podemos nos candidatar por diferença de geração. Se isso aconteceu, temos que mudar. Tem que se ter a casa como a casa dos escritores e não da geração do dia ou seja, o que nós passamos a fazer aqui foi pensar que a Charrua é um partido, depois a Oásis é outro partido.
    Quando estamos na Assembleia Geral a tendência é digladiarmo-nos enquanto forças literárias de momentos diferentes e foi preciso que isto fosse esquecido. Agora é isto que estás a ver, a casa caiu num descalabro. O perfil de um secretário-geral tem de ser de disponibilidade a toda hora, se não pode estar a tempo inteiro, que dedique duas a três horas ao dia, mas isso não está a acontecer. O poder quando é concentrado numa só pessoa há um vício de que se cometam erros sem alguém para chamar atenção. E a acumulação de erros pode ser nefasta para vários vectores.
    Estamos a falar livremente, na associação dos músicos moçambicanos foi o mesmo que aconteceu. O meu irmão Hortêncio Langa foi deixado sozinho. Acumulou erros atrás de erros e há pessoas que falam com muita alegria co-relação a isso. Mas ele estava sozinho. E sozinho não se faz nada.
    Há uma necessidade que a chama do colectivismo na instituição se mantenha acesa e esta capacidade congregacional não existe, porque ela perdeu o lado supra-geracional. Quer dizer quando eu me zango contigo só digo este há-de ver, mas com um mais velho podia se ter um método diferente de abordar o problema.
    O que nós estamos a tentar fazer e o que estamos a discutir neste momento é esta situação que prevalece. Como mudar essa situação? O que entendo é que isto está mal, é preciso reunirmos todos os escritores, todos, discutirmos os problemas abertamente e arranjarmos uma solução. Se for necessário recorremos ao estatuto da associação caso o erro esteja lá e rectificamos.

    Você já me massacrou muito pá.

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