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    ENTREVISTA: Filimone Meigos: Um poeta feito de contradições



    Já lia os seus escritos desde há muito tempo, mas o verdadeiro contacto com a sua poesia chegou-me nos finais do ano passado quando tive acesso a algumas edições da revista literária Charrua. Daí não parei mais a busca de quem era Filimone Meigos. Descobri que para além de ser autor de “Mozambique Meu Corpus Quantum”, era autor de outras duas obras de uma densa poesia, nomeadamente, “Poema Kalach in Love” e "Globatinol" ou o garimpeiro do Tempo" Uma conversa com Meigos que é também sociólogo, (docente de sociologia de arte) é passear de Beira a Chimoio, de Nampula a Maputo, lugares que o poeta se refere dos lugares e das gentes com quem se cruzou e que formam os seus sujeitos poéticos. E não só nesta entrevista, Filimone Meigos assume que “a inspiração é divina” sendo que a sua poesia a que “muitos não entendem” é baseada em três conceitos Arte – Filosofia – Ciência. Mas porquê justificar as palavras de um poeta que fala por si, não como director geral do Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), mas como poeta que é e, inevitavelmente, como sociólogo.


    Eduardo Quive - Moçambique


    Andei num liceu em que tinha como professores, Lídia Jorge, Zeca Afonso, e foi-me quase que inoculado o vírus da escrita. Na verdade vinha até da escola primária, e a minha família toda tem muita inclinação para as letras. O meu pai fez letras também, e isso influenciou-me naquelas leituras que eram coloniais como “João de Deus”, Antero de Quintal, Camões, eu li isso. Mas o que vem a surpreender de verdade, foi em 1973/74, foi a obra “Mangas Verdes com Sal” de Rui Knofli, nesse livro tinha um texto que dizia “Então Rui” e eu escrevi um nessa altura intitulado “Então Mone”, decalcado. Acho que foi meu primeiro texto e nem sei onde está esse texto, que era reminiscências de leitura de “ Mangas Verdes com Sal”.
    Começo a publicar textos a partir de 1975/76 na Beira no jornal Diálogos, com Heliodoro Baptista, Bassana Admugy, Júlio Bicá, Carlos Beirão, Simião Cachamo, e tínhamos mais outros. Então essa é a minha geração. Em 1978 vou dar aulas em Chimoio e fui feliz porque quando lá chego, a Diálogo saia no sábado e tinha um texto bem ao lado do meu, assinado “Marcelo Panguana – Chimoio”. Aquela cidade é muito pequena e perguntei a algumas pessoas, quem era aquele. Foi então quando disseram-me que era um químico e trabalhava numa fábrica de sumos e foi até lá. Encontrei Marcelo Panguana com uma bata branca armado em químico a fazer os sumos. Aquilo foi tipo amor a primeira vista. Então continuamos a publicar na Diálogo e em princípios de 1979 fui para a tropa em Nampula, estive na Academia Militar e conheci a Esménia Sacramento, que tinha um programa na rádio local chamado “O Poema Essa Arma” – decalquei – o que originou o meu primeiro livro, “Kalach in Love”. Uma releitura do programa radiofónico “O Poema Essa Arma” da Esménia Sacramento. Estava ela, Rafa Cambala, Moncolo Chiniá, Ana Paula Muhoro, todos estes escreviam.
    Se eu quiser dividir a minha entrada para as letras teria essas três etapas. Que são, a fase do Liceu, do Chimoio, onde fiz a geração Diálogos, e em Nampula, onde a Esménia Sacramento no seu programa apresentou-me o Rui Nogar e Orlando Mendes, foi um facto inédito e tinha comigo os meus textos iniciantes que mostrei aos dois. Eles disseram-me “há uns teus amigos em Maputo que vão gostar daquilo que escreves e eles tem uma linha própria”. Foi então quando conheço Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White, Juvenal Bucuane. E quem me dá os primeiros escritos destes é o Rui Nogar, ele era na altura director provincial de qualquer coisa em Nampula. Nessa altura, aliás, estava em vista a criação da AEMO. Portanto, quando a AEMO foi criada eu estava na tropa em Nampula e já estavam em contacto com os dois escritores que assumiram as grandes pastas da AEMO, sendo Rui Nogar, Secretário-geral e Orlando Mendes, Presidente da Mesa da Assembleia Geral.


    L: Então participa na criação da AEMO?
    F.M: Não. Porque estava na Academia Militar, mas vi a constituição e acompanhei tudo. Aliás fui posto a par desses processos todos pelo Rui Nogar e Orlando Mendes mais não fiz parte do corpo directivo. Só fiz parte dos corpos directivos nos tempos do Albino Magaia, que fui vogal.

    L: Mais depois vai a AEMO para se integrar na Charrua?
    F.M: Quando volto da tropa, eu vinha a Maputo para tratar da minha desmobilização, entro no processo da dinamização da AEMO. Participo dos jantares literários e das tertúlias.

    L: Vem recorrer a desmobilização porque já tinha como missão entrar activamente na vida literária?
    F.M: Não. Pauto pela desmobilização porque sempre achei que Guerra não é solução para este país. A minha geração toda sempre pensou que a guerra não é a solução para este país. Costumo dizer isto, que as pessoas próximas nem acreditam, o meu primeiro curso licenciatura em ciências político-militares, para aniquilar as forças vivas e não vivas do inimigo.
    Mas, a minha geração depois fez-se jus a questão, quando assinamos o Acordo de Roma, porque se chegou à consciência de que nunca seria a solução para a nossa situação, a guerra. Mas éramos miúdos, com 17/18/19 anos de idade e a juventude é sempre vista como aquele que vai contra a corrente.
    Volvidos que foram os tempos, a história provou-nos que estávamos correctos. E foi nesse prisma que achei por bem sair do exército. Mas estive na guerra a combater os BA’ s e essa expressão vais encontrar nos meus textos quando digo “BA’ s ao quadrado é igual a merda”. Porque de facto os BA’s eram merdas, andei atrás deles, queimavam aldeias, roubavam bois, violavam mulheres etc, e eu vivenciei isso quando estava na guerra. Eu vi que Guerra não era solução.
    Mas voltando à sua questão, vi cá e negociei a minha desmobilização e o Sebastião Marques Mabote que era Chefe de Estado Maior General, desmobilizou-me. Voltei a Beira como secretário de ligação do governador. Na beira fortifiquei as relações literárias com Hiliodoro Baptista e outros camaradas.
    Mas tive que estudar e voltei para Maputo e integro-me efectivamente na Charrua. Na verdade eu já estava envolvido, porque quando estive cá durante 3 anos quando a Charrua estava pujante, andamos todo Maputo a noite a pé, ninguém tinha carro. Desde a casa do Khosa que era no Alto-Maé até a Julius Nyerere, e aqueles bares todos, nós entrávamos, eu, Luís Carlos Patraquim, Calane da Silva, Gulamo Khan etc. O Calane e Ungulani já não bebem e nem fumam, mas naquela altura bebiam e fumavam todos. Foi uma iniciação interessante porque tínhamos uma geração anterior a nossa e nós mudamos radicalmente a abordagem formal e dos conteúdos – isso é que foi Charrua. A Charrua define-se pela sua capacidade de ruptura, embora com algo de continuidade em termos de formas e conteúdos, avacalhamos aquilo. E havia velhos que estavam connosco. o Rui Nogar, Craveirinha, o Aníbal Aleluia, gostavam porque viram que éramos dinâmicos. E depois tínhamos actividades de grande vulto como os Msahos, com o Tomás Vieira Mário, o Afonso Santos que éramos muito activos nessas actividades. Os M’sahos foram revelando conteúdos completamente novos como por exemplo, “As Saborosas Tangerinas de Inhambane”, poema de José Craveirinha. E a primeira vez que o país soube desse poema foi nos M’sahos, o Gulamo Khan roubou ao tio Zé, porque ele era muito cauteloso ao publicar os seus conteúdos. O Gulamo Khan que era adido de imprensa do presidente Samora Machel, roubou o poema e dissemos pela primeira vez em público, com a declamação dele, minha e do Tomás Vieira Mário, no jardim Tunduro em directo, porque tínhamos a transmissão da Rádio Moçambique.

    L: Entra na Charrua já com ambições como escritor? Tinha já em plano a publicação de um livro?
    F.M: Eu devo ter sido dos últimos escritores da Charrua a publicar uma obra. O livro não era um fim em si, obviamente que iria ser, mas não era uma meta. Se for a ver o Pedro Chissano, ou eu, mesmo o próprio Aníbal Aleluia, nós só lançamos livros já no fim. Na verdade o que valeu naquele tempo foi a possibilidade de partilharmos vivências, e debatermos a literatura no seu sentido mais amplo. Nós líamos muito e trocávamos livros e ideias. É isso que me traz muita tristeza porque não se esta geração era suposto ser a fiel depositária – o que é normal porque as gerações sucedem-se – não sei se lêem, se trocam livros. Nós fazíamos isso, íamos a casa de um e do outro, embora bebêssemos uns copos, e havia uns mais adiantados que outros, já tinham livros e até famílias, como era o caso de Khosa, Chissano e do Bucuane. Nós vivíamos como família. Veja hoje como os filhos de Khosa, ou os do White, os meus filhos, tratam-se como primos, somos tios e eles consideram-nos assim. E não era farsa, provavelmente, porque não houvesse diferenciação social como hoje há. Éramos todos iguais, ninguém tinha nada. O Rui Nogar é que tinha que lutar para nos meter na loja para temos uma camisa, calça ou manteiga. E ele fazia questão de dizer ao pessoal das lojas que éramos responsáveis. Ele gostava muito de dizer “cada um com a sua idiossincrasia”.
    Nós tivemos sorte porque apanhamos uma geração que depositava em nós a esperança e me parece, modéstia parte, que correspondemos a expectativa.

    L: Corresponderam as expectativas…
    F.M: Tu lés um “ Ualalapi” de Ungulani Ba Khosa, “ Amar sobre o Índico” de Eduardo White, e tu vês que está ali uma coisa sumarenta. Bem exprimida e as análises que fazíamos um bocado empíricas, porque nenhum de nós tinha ido a escola, mas eram feitas com alguma profundidade.

    L: Mas também eram tidos como rebeldes…
    F.M: Sim. Essa é a característica da juventude. Não é rebeldia como rebeldia, mas rebeldia com alguma substância. É um bocado disso que não sinto na geração que nos sucedeu na AEMO. E para o meu gáudio, sinto isso com o Movimento Kuphaluxa, que é – se eu quiser dizer quem é que herdou o espírito ou o modis faciente da Charrua – na minha opinião não é a geração dos jovens que estão na AEMO que faz, edita e discute ideias sobre a nossa literatura. A geração que está na AEMO não consegue fazer isso.

    L: Mas nesse processo de “passagem de testemunho” sendo que vocês aprenderam dos outros, fizeram o vosso temo da juventude com um certo reconhecimento e terão ensinado aos mais jovens que hoje estão, o que terá falhado?
    F.M: É um problema conjuntural. O testemunho, ficou nas nossas mãos e não foi passado por vários motivos:
    Primeiro parece-me que a geração sucessora não entendeu o recado.
    Segundo parece-me que a própria conjuntura fez com que tivéssemos tido uma abordagem diferente. Era outra coisa que não fosse literatura. Nós nunca pensamos nisso. Fazíamos literatura por literatura. Parece-me que a conjuntura impeliu-nos – quando digo nós, estou a incluir-me na nova geração e dou a mão à palmatória – impeliu-nos à mc-rogização da Literatura, tal como aconteceu na música e nas outras modalidades artístico-culturais. É a cogmelização, a preocupação com os efeitos rápidos, e ganhos. O que nós na Charrua não tínhamos. Éramos pobrezinhos, mas não pobres de espírito, e se leres o Khosa vais achar isso, por exemplo. Mas hoje estamos preocupados com o exibicionismo, marcas de factos e parece-me, infelizmente que esse paradigma vincou – a parte na minha opinião o Movimento Kuphaluxa – mas vincou esse mc-rogização, enquanto a literatura vai para além dos fatos.

    L: Mas esses todos problemas que se registam que resultados trarão em termos do novo produto artístico.
    F.M: Toda gente apercebeu-se sem o devido contra-efeito que a cultura é um poder. Mas não tem o devido contra-peso, porque não estudam, não lêem, então fica tudo vazio. Esvazia o conceito de arte como o nível mais alto de criatividade e por conseguinte o nível mais alto de intelectualização do mundo circundante.
    Então, estão todos preocupados com os livros, gingação, meninas e viagens, mas se olhares para eles com tudo isso não são nada.

    L: Já disse, portanto, que Kalach in Love é uma releitura do programa radiofónico “ O Poema essa Arma”, mas também podiam ser as falas de um militar que precisava da paz?
    F.M: Há ali a antítese da guerra, ou seja, o dilema de ter que pegar numa arma para alcançar a paz.

    L: E é exactamente isso que quero saber, porque há aqui um cidadão que era militar e tinha que lutar, por outro há aquele que diz “a guerra não é a solução”…
    F.M: Tínhamos o Apartheid e tínhamos os BA’s, estávamos expostos à apúlia, por um lado, mas por outro, tínhamos como única saída a guerra. Mas como hipótese de trabalho submersa, era a paz. Nós podíamos ter uma solução para o Apartheid, os BA’s negociando a paz, e esta era a proposta da Charrua. A Liberdade. Na Charrua tínhamos o debate crítico e democrático que não é o que me parece haver agora na AEMO. Não sei que cor tem e o que pensa a geração que agora se encontra na AEMO.

    L: Acha que há falta de uma ideologia por parte dos actuais gestores da AEMO?
    F.M: Nós tínhamos uma ideologia que não era exactamente uma ideologia. Mas pelo menos tínhamos um manifesto, se for a ler Charrua poderá encontrar isso, mas não me parece haver esse manifesto nos que agora estão. Não há esse arrojo, acutilância e finura no pensamento neles, como nós tivemos.

    L: Estava portanto a reflectir sobre esse “não a guerra” na sua obra?
    F.M: É interessante, porque há uma contradição, pela consciência de que eu não posso ser livre sem essa guerra, mas dentro desta guerra reconhecer que guerra não é nada, não é solução.
    Parece-me que todos aqueles que fizeram guerra entediam isso. Eu sou oficial na reserva e fui ensinado a matar, aniquilar as forças vivas e não vivas do inimigo. Mas sabes o que é isso? É ter o matar como sua missão, tal inimigo que é seu compatriota.

    L: Mas então, o seu segundo livro, mais um título difícil e a respectiva escrita.
    F.M: Porque eu penso e é por isso que dizem que a minha poesia não é poesia. E vou revelar um segredo: quando vou para a universidade começo a aprender a epistemologia, há um estudioso dessa área que se chama Gastom Bachilar, um francês que admiro bastante que “ a Arte, Filosofia e a Ciência, devem andar de mãos dadas”. Arte no seu sentido de mirandum, criativo, devaneio, onírico; Filosofia - perguntativo o rigor científico da teoria. Então, se tu reparares, já responde a pergunta que provavelmente me colocarás sobre o meu terceiro livro, o Mozambique meu Corpos Quantum, é uma tentativa de fazer essa junção, concordando, portanto, com Gastom Bachilar. Se você não estuda, não entende a filosofia, pode escrever poesia, mas não vais te dar bem. Então tens que ser capaz de reunir a perspectiva filosófica, científica e artística, e ele chama isto de racionalismo aplicado. Na verdade a minha poesia é uma tentativa de fazer o racionalismo aplicado. É por isso que sou muito combatido com os que dizem que não é poesia, mas eu afirmo, é poesia e tenho a certeza que é porque estou a seguir uma afirmação teórica que advêm das sociologias, com a qual concordo plenamente. Não se pode escrever poesia copulando e juntando palavras sem conteúdo.

    L: Mas o que isto exige de ti? Quer concordar que não existe a inspiração?
    F.M: A inspiração é divina. É para aqueles que acreditam em Deus. Eu acho que para se escrever tem que se ter outras componentes como a leitura e nessa leitura tem que haver a capacidade de apreender o mundo. E quando escreve é já uma tentativa de extravasar esta apreensão com o máximo possível de abordagens e aí, entra o Gastom Bachilar, Filosofia, Ciência e Arte, o Racionalismo Aplicado.


    L: Você acha que nestes seus moldes de fazer a poesia, é compreendido?
    F.M: Não estou preocupado com isso. Escrevo poesia para os meus, e provavelmente para posterioridades. Fernando Pessoa, não foi entendido na sua época, José Craveirinha idem.

    L: E quem são esses “teus” que se refere?
    F.M: São os que gostam de mim, os que estudaram comigo, alguns dos que estudaram comigo, porque mesmo os que cresceram comigo, alguns dizem que o que escrevo não é poesia.

    L: interessante esta sua abordagem da poesia como uma junção Filosófica, científica e Artística, afinal, estamos perante um sociólogo. Fale-nos dessa relação artista – sociedade a que se remete.
    F.M: primeiro é uma relação difícil. É entender que tenho uns quadros desponíveis em que posso entender a condição social do artista, os conteúdos que o artista trata sob ponto de vista simbólicas, trocas de bens e serviços e trocas de poder/autoridades e etc. eu conheço isto teoricamente. Não sei se isso dificulta ou facilita a minha tarefa, de qualquer maneira há um pressuposto que é que eu sei que isto é transversal a aquilo que eu faço.

    L: Está aqui a defender que é difícil fazer a arte ou ser-se artista sem olhar para o que está a nossa volta e nos relacionarmos?
    F.M: eu continuo a pensar que – isto é um bocado de resultado da minha convivência – o artista sempre tem que ser engajé. Um artista engajado. Você não faz arte para arte, é mentira, faz alguma arte relacionada com qualquer coisa, eu acredito nisso.

    L: mas olhemos por exemplo para a poesia, nos dias de hoje aplica-se muito o concretismo, do experimentalismo ao visual…
    F.M: Pode até ser, mas atrás desse experimentalismo, por trás desse concretismo há uma epistemologia, há uma busca de saber, há um processo dessa busca, esse é que é o ponto.

    L: o ser sociólogo e o poeta em si convergem?
    F.M: Infelizmente, na verdade é até felizmente porque se recuo para o racionalismo aplicado o meu apego a de marche artística, o mirandum, devaneio, e a de marche filosófica, perguntativa, e a de marche científica, o rigor metodológico… é pa, eu acho que nice.

    L: Ainda nesse âmbito sociólogo, lembro-me já que apesar de amigos, estou ao lado de um magnífico reitor do Instituto Superior de Artes e Cultura…
    F.M: (risos) … A magnificência é inerente do cargo, na verdade de magnífico não tenho nada, como podes imaginar e veja como estou (de calções, chinelos artesanais, camisete acompanhado do seu Kalach, o cachimbo e o vinho), eu fui sempre assim.
    Mas esta magnificência também é luta porque entre os meus pares, há uma atitude de resiliência, há crítica de fatos e gravatas e de formalismos que remontam as origens da universidade com as togas e todas aquelas formalidades que não me parecem ser a solução para este país.

    L: está a falar da classificação das pessoas pela aparência e não pelo conteúdo?
    F.M: É um bocado da mc-rogização, quer dizer, tu avaliares o invólucro e não o conteúdo, ou seja, se tu estás de factos e gravatas, you are the one, mas se quer falaram contigo, se quer sabem quais são as suas ideias, suas opiniões, estão te avaliar pelas tuas sandálias e que tal chegares destrinçares essas sandálias teoricamente e dizeres que usas as sandálias porque está um dia quente e qualquer coisa, pelo que faz mais sentido que usar fatos e gravatas num país que faz 40 graus de temperatura.
    É mais racional eu ter racionais do que fazer jus a um embrulho, que é um bocado consequência perversa da modernidade, as pessoas dão mais valor ao invólucro… e se você for um bandido, cheio de gravatas e tudo, mas em baixo tens uma AKM?

    L: como formador de artistas o que observa do Moçambique artístico?
    F.M: Eu estou a falar aqui como um sociólogo poeta o poeta sociólogo poeta, como quiseres. Sinto que há duas perspectivas: uma que são os artistas que entenderam que é preciso ter imputes teóricos para, por exemplo, conseguirem falar sobre aquilo que fazem, essa é uma perspectiva com a qual concordo.
    A outra perspectiva é de gente que vai estudar para ter um diploma, para serem N1, sabes o que é N1? Para ganhar salário que é outra perspectiva com qual não me identifico, mas que existe e contra factos não há argumentos, esse é um adágio antigo.
    Mas se eu quiser fazer uma análise mais fria, eu diria que há gente que está a estudar para aumentar conteúdo, o CHA – Conhecimentos, Habilidades e Atitudes, e há outros que estão pura e simplesmente para depois poderem factos e gravatas e serem chamados doutores todos embrulhados em termos de marketing com esse veludo, quando efectivamente não corresponderão aos conteúdos. Esta segunda alternativa põe-me um bocado triste, mas é o que existe, a sociologia também ensinou-me que as sociedades são feitas de actores sociais, há bons e mãos, há pretos e brancos, há marginais e não marginais, as sociedades transportam em si, doenças, as sociedades tem anomias. Há sempre questões anómicas que tem a ver com a própria sociedade, mas que elas não se podem sobrepor para saberem estar, saberem fazer e saberem ser.

    L: Olhando para essas duas vertentes, que aqui mostra, que valor acha que tem a formação para o artista e para a cultura no geral?
    F.M: A formação, eu volto ao Bashilar, para os artistas a formação dá-los este tripé de Filosofia, questionamento, cristicidade, Arte – podes ter nascido com ela, com os teus avôs, mas o mirandum, capacidade de sonhar onírica, ao mesmo tempo, já o terceiro pé, a metodologia a cientificidade que te dá a Ciência… Não há feitiço que substitua a ciência, a leitura, não há sonho que substitua a leitura, não há livro onírico que substitua o livro científico. Quer dizer que tens que ler ciência ao mesmo tempo que tens que ler literatura. Outra pergunta…

    L: Estamos numa altura em que se reclama falta de qualidade em que quase todas as áreas artísticas no país. Estou a falar, por exemplo, da música, da literatura, só me é difícil de falar das artes plásticas… que explicação pode se dar a tanta reclamação?
    F.M: Estamos numa crise de crescimento. Nos escritores esse marasmo, nos músicos a pandzização e mc-rogização da música, nas artes plásticas, temos a famosa discussão entre arte contemporânea e a não contemporânea, e sempre repito que é uma discussão redundante, porque quando Picaso, Gandisque, Marlu, estavam a fazer as coisas que fizeram não diziam “eu agora estou a fazer arte contemporânea”. Arte é arte, a arte é do seu tempo e aqui cabe-me falar de um famoso que eu gosto muito que é Nobel de arte, o primeiro preto e africano, Wole Sonyika, o tigre não precisa falar sobre a sua tigritude, ataca. Se você é e pode, faz. Parece-me que é esse o nosso problema que no meu atender, é uma crise de crescimento. Mais dia ou menos dia, há de haver uma quantidade que vai nos revelar a qualidade.

    L: Precisamos de acreditar ou precisamos de fazer alguma coisa?
    F.M: Eu acho que estamos a fazer. Por exemplo esta entrevista já é essa perspectiva de que temos que dar um passo seguinte. Dois, o Movimento Kuphaluxa na minha opinião, uma resposta a esse marasmo que caracteriza a literatura moçambicana.




    LEITURAS: "Ser escritor não deve ser visto como tentativa de se tornar imortal, famoso ou ter riqueza "




    Camille Dungy, poetisa norte-americana que recentemente visitou a capital moçambicana, Maputo, não se foi sem deixar a sua experiência como professora de escrita criativa no San Francisco State University, ao mesmo tempo que é poetisa. Era necessário que falássemos das suas obras, mas as dificuldades de acesso ao livro de autores contemporâneos de outros países se fez sentir neste encontro, mas, por outro lado, fez surtir efeitos a tentativa de se chegar à resposta sobre o que é um escritor, o que ele deve fazer para que se torne um escritor entre vários e, o principal, que exercícios faz um “bom escritor”. Na verdade, Camille é a pessoa que nos trás a fórmula mágica para que se seja um escritor: a leitura e a prática de escrita.


    Amosse Mucavele - Moçambique

    Literatas: Como é que o trabalho de professora de escrita criativa, jornalista influência a sua escrita?

    Camille Dungy: O acto de ensinar exige o enquadramento das minhas ideias de forma mais clara possível. Ensinar requer de mim que seja uma leitora por excelência e exige um pensamento crítico em relação ao trabalho e de como e porque se assume uma literatura com êxitos. Isto de ensinar leva-me a lêr bastante de modo a manter-me actualizada com o mundo da literatura. Também todas estas ferramentas são indispensáveis para mim como escritora. Ensinar enriquece a minha escrita, ou seja, ensinar requer o mesmo combustível como a escrita.

    L: Quais são as suas expectativas com esta viagem a Mocambique? Acha que os EUA estão de algum modo interessados pela literatura Moçambicana?

    C.D: como escritora e leitora a minha curiosidade é natural. O meu trabalho é questionar por detrás do mundo conhecido. Sinto-me tão entusiasmada para ter esta oportunidade de visitar Moçambique e encontrar alguns dos emergentes e já estabelecidos escritores. Do mesmo modo estou feliz por ter a oportunidade de ver o país in loco. Havia muito sobre o qual não tive chances de ver, mais do que nunca agora vou me focar em livros para saber algo mais. Assim como ensinar e ler, a viagem é também veículo inspirador para a escrita.
    Relativamente a questão sobre o interesse dos americanos em ler autores moçambicanos, leitores em todo mundo teêm interesse em literaturas de outras paragens e lugares. Há no entanto uma barreira que é a língua entre os países lusófonos e de expressão inglesa, por isso a importância dos tradutores, eles ajudam a construir a ponte que nos divide. Se há boa literatura, também há bons leitores.

    L: Para os que escrevem e por quê? Escreverão apenas para vender?

    C.D: Trata-se de uma questão específica em relação ao vosso Pais, o nível de realização e a variedade de tantos outros factores. Não poderei responder nesse âmbito comercial. Mas posso dar-lhe respostas que vão de encontro com a realidade, contudo, se pretende saber como tornar-se um escritor que as pessoas possam procurar ler, é necessário muita leitura, e também praticar a escrita. Não acontece como acordar numa fresca manhã e esperar que seja um escritor publicado com frequência ( quem  as pessoas queiram ler) ao final do dia. Anos e anos de estudo e prática levam-no a melhorar a qualidade a partir do que lê.

    L: Como é descrito um escritor culturalmente activo nos EUA?

    C.D: Receio que não tenha percebido a sua pergunta. Além do mais, não sei se posso responde-la. EUA é um país muito grande, e existem muitas diferentes maneiras de mostrar o envolvimento cultural.

    L: Há uma tendência dos escritores modernos em procurar os clássicos. Podemos dizer que estamos perante os substitutos legais do Hemingway, Faulkner e Allan Poe?

    C.D: Não se pode saber com exactidão quem deixará impressões. Há demasiados factores que concorrem para tal, de geração para geração. Tudo o que se pode fazer é escrever as melhores estórias e poemas possíveis. Ser escritor não deve ser visto como tentativa de se tornar imortal, famoso ou ter riqueza. Há tantos outros caminhos para atingir isso, se é isso o que procura.


    L: Pode citar alguns escritores africanos e em particular Moçambicanos que são editados nos EUA? Estarão, os EUA preparados para receber outras literaturas?  
    C.D: Vocês como leitores devem ter interesse em conhecer este desafio, que é a publicação de novos autores africanos.

    L: Quais escritores que marcam a sua leitura? Como é que caracteriza a literatura contemporânea Norte-Americana?

    C.D: Como disse anteriormente, EUA é um país grande, e a América do norte, ainda que, não é maior que a África, ela é enorme e um continente diversificado. Não poderei falar da literatura Norte-Americana como um todo. Darei um endereço no qual poderá ler um ensaio escrito por mim no qual recusei-me  expor o meu pensamento sobre a poesia Americana. Duma forma resumida, a poesia americana é maravilhosamente complexa e diversificada. Há um estilo definido, grupo ou ideia. É o que a torna tão maravilhosa.

    L: Poderia deixar um concelho para escritores e para aqueles que querem se tornar escritores?

    C.D: Leitura constante, leitura, e mais leitura, ler sempre mais. Fale daquilo que voçe acha/ consta. Escreva sobre aquilo que lhe mova quando lê. Escreva sobre aquilo que deseja tentar e que seja capaz de faze-lo. De seguida veja como atingir esses objectivos. Quando terminar a prática. Leia algo mais. Repita este ciclo para os restantes dias de sua vida.



    ________________________________________ 

    Camille T. Dungy é autora dos seguintes livros de Poesia:  Smith Blue, Suck on the Marrow, and What to Eat, What to Drink, What to Leave for Poison. Editou e organizou a antologia Black Nature: Four Centuries of African American Nature Poetry, e co-editou  From the Fishouse poetry anthology (www.fishousepoems.org).  A sua obra teve menção honrosa no American Book Award, Northern California Book Awards, prémio poetry fellowship from the National Endowment for the Arts.  E  é Professora no departamento de escrita criativa da Universidade Estadual São Francisco.  www.camilledungy.com.

    Tradução: Amosse Mucavele e Mauro Brito

    LEITURAS: 12 anos de jornal Rascunho "o mais difícil é encontrar dinheiro”




    Aos 12, com circulação mensal que nunca se interrompeu, o “Rascunho” é hoje a mais longeva publicação literária independente do país.
    Quando existia a EntreLivros, revista mensal que editei entre 2005 e 2008 (como editora assistente e depois editora), eu pensava diariamente em quanto tempo duraria. E ao ver todo mês o Rascunho chegar, apostava que seríamos capazes de repetir o feito daquele veterano sediado em Curitiba. EntreLivros se foi, Rascunho continua – caro leitor, não é nada fácil.
    Criador e editor, Rogério Pereira conta a história do Rascunho: nasceu em 2000 como um encarte de oito páginas do “Jornal do Estado”, de Curitiba. Quando completou quatro anos, se tornou independente, já com 32 páginas, 40 em edições especiais. A cada mês, são rodados 5 mil exemplares. O número de colaboradores varia de 30 a 50 por edição. Chega a todos os estados brasileiros por meio de assinaturas e cortesias. Há pontos de distribuição gratuita em livrarias de vários estados. As edições seguem também para universidades e embaixadas brasileiras no exterior.
    O jornal é editado pela Letras & Livros, “criada por razões fiscais e cujo patrimônio é uma sala atulhada de livros, um computador, uma impressora e algumas dívidas”, explica Pereira. O endereço fiscal continua sendo o da casa de sua mãe. “Lá, o Rascunho nasceu. Lá, há de sobreviver. É claro que isso faz parte do folclore do jornal, pois agora temos uma sala comercial no centro de Curitiba”.
    Esta é a conversa que tive com Rogério Pereira por email. Vá por aqui para encontrar a versão online do Rascunho.


    Josélia Aguiar - Brasil


    Como surgiu a ideia de fazer o Rascunho?

    “Foi bastante prosaico: reuni um grupo de amigos para criar um jornal literário. Na época, éramos bastante jovens, acreditávamos que iríamos mudar o mundo, fazer grandes coisas etc. Ou seja, o que todo jovem acredita que irá fazer antes de se tornar um velho reclamão e acomodado. Tínhamos muito claro que precisávamos fazer algo de qualidade, expressivo, diferente. Então, resolvemos apostar em longos textos, longas entrevistas, espaço para inéditos — algo em franca decadência na imprensa brasileira naquela época, tão apaixonada pelas novidades da internet. Sempre fui muito perfeccionista e exigente comigo mesmo. Então, não poderia fazer um jornalzinho de literatura. Era preciso fazer o ‘melhor jornal de literatura do Brasil’, mesmo sem nenhum dinheiro, pouquíssima visibilidade e conhecimentos mais do que frágeis. Enfim, uma aventura como outra qualquer, cujos prejuízos seriam mínimos. Mas a aventura deu certo. O Rascunho cresceu, tomou corpo, importância e hoje é, apesar da arrogância do slogan, ‘o jornal de literatura do Brasil’”.

    Lembro-me de uma fase mais polêmica, com resenhas mais duras, brigas até. O Rascunho, me parece, está mais suave. É da idade? Foi algo que ocorreu naturalmente ou vocês buscaram uma mudança de ânimos?

    “Não buscamos nada. Ou buscamos e não sabemos. No início, éramos iconoclastas, destruidores, birrentos, piás de calça curta jogando pedras para todos os lados. Matamos vários passarinhos desavisados. Fase muito boa aquela. Lembro da capa sobre os 50 anos da poesia do Décio Pignatari: “50 ANOS DE ENGANAÇÃO”. Depois, teve a do Sebastião Uchoa Leite: “Pára com isso, Sebastião”. O Rascunho era melhor ou pior naquela época de guerrilha? Uns acham que era melhor; outros, que era uma lástima. Hoje, somos mais mansos, mais bovinos? Talvez sejamos mais responsáveis, sem perder a liberdade de opinião. O Rascunho vive publicando resenhas negativas a vários autores consagrados. Qual o problema? Nenhum. Fazer um jornal para ficar bajulando o outro em troca de bajulação é algo que não nos seduz. Pode seduzir algum dos colaboradores, mas nunca me seduzirá. O jornal continua sendo um amplo palco para discussões literárias, para a divulgação do livro, leitura e literatura. Hoje, abriga muitas vozes, é mais complicado driblar certos compadrios. Mas continuo tentando. Levo as coisas muito a sério. Há todo um critério editorial seguido à risca. É claro que hoje as costas doem mais, a visão está mais embaçada, a energia começa a rarear. Nestes dias, é melhor esquecer pequenas intrigas. E guardar energia para as grandes batalhas. A velhice só faz bem aos museus; e aos geriatras enquanto não precisarem consultar seus colegas geriatras”.

    O que é mais difícil – ter mais leitores, ter os colaboradores que procuram, ter patrocinadores?

    “Mais difícil é encontrar dinheiro. A ignorância está entranhada na vida do Brasil. Ser ignorante é muito fácil, muito mais cômodo. Dói menos. Nossa classe média é alfabetizada, mas não lê. Ou lê para se distrair. Portanto, um bando de analfabetos. Nossos políticos, com algumas boas exceções, são todos clones do Tiririca: usam gravata Armani, terno Ermenegildo Zegna e carregam no bolso o livro de piadas do Costinha. Para tirar sarro da nossa cara, obviamente. Leitores surgem o tempo todo. Somos uma imensa minoria. Mas com bastante ânimo. Colaboradores também. O Rascunho não consegue abrigar todos que desejam colaborar com o jornal. E não pagamos um centavo pelos textos. É incrível como existem pessoas malucas. Não estou sozinho nisso. Sou apenas um arremedo de Simão Bacamarte. O Rascunho é a nossa Casa Verde. Precisamos de mais dinheiro para adquirir nossos barbitúricos, soníferos, calmantes etc”.

    O Paiol Literário, projeto que recebe autores para longa conversa, e agora a reunião em livro das principais entrevistas fortaleceram o Rascunho? 

    “É preciso fazer algo que dê sustentação financeira. Todo projeto ajuda a manter o Rascunho vivo. O Paiol surgiu do meu interesse pelas discussões em torno da leitura/literatura. Não é nada original: entrevista com um escritor, com perguntas do público. O diferencial é que guardamos a memória de todos os encontros com a transcrição no Rascunho, com o áudio e o vídeo. O livro de entrevista é uma consequência bastante natural, pois as grandes entrevistas fazem parte da alma do Rascunho desde seu início. E o belo trabalho do Luís Henrique Pellanda na organização e da Arquipélago na edição valorizou muitíssimo esta marca do Rascunho. Mas o mais importante é que o Rascunho gerou um ambiente propício à criação de novos projetos. E vamos continuar insistindo enquanto o médico não nos der alta deste hospício.”

    O site ajudou na vida do Rascunho impresso?

    “O site ‘piorou’ a vida: não ganhamos dinheiro com ele (só gastamos) e cresceu muitíssimo a nossa demanda. Todo dia tem alguém entrando em contato, mandando textos, mandando livro, etc. Um verdadeiro inferno, no bom sentido (acho). Hoje, temos mais leitores no site do que na versão impressa. Ao todo (site + impresso), temos quase 30 mil leitores. É muita gente desocupada neste mundo.”

    Como funciona a parceria com o grupo GRPCom, que publica a “Gazeta do Povo”?

    “Imprimimos o Rascunho nas gráficas da “Gazeta do Povo” com algumas vantagens. Em troca, oferecemos todo o conteúdo do Rascunho para o site da Gazeta. É uma ótima parceria. Mas não implica em qualquer interferência na linha editorial. Continuamos com a mesma independência, fazendo o jornal de madrugada, aos finais de semana. As dificuldades financeiras continuam as mesmas. Todo mês é preciso buscar dinheiro para arcar com todas as despesas da edição. Quando falta, tiro do meu bolso. Não usamos lei de incentivo. Mas, que fique claro, não há nada de heróico nisso tudo, como alguns dizem por aí. É apenas uma escolha, uma forma de viver, de apostar em alguma coisa em que se acredita. Heróico é outra coisa, muito mais complexo, como ajudar efetivamente quem precisa. Fazer um jornal de literatura é apenas uma aposta. Nada mais.”

    Por que as nossas publicações literárias nascem e morrem tão rapidamente? A competição entre os pares é um problema maior que a própria falta de público?


    “Deus se esqueceu de colocar na constituição cerebral da classe média brasileira (na haitiana também, parece) que ler é importante. E a classe média gerou os diretores de marketing, que não lêem, não sabem para que serve a leitura de ficção etc. Aí, eles, os diretores de marketing das grandes empresas (inclusive das editoras), que só lêem livros de autoajuda, pois estão preocupados somente consigo mesmos, não sabem exatamente para que serve uma publicação literária. Aí, não destinam verbas publicitárias a estas publicações literárias. E elas morrem. E as grandes editoras, que poderiam investir em publicações como o Rascunho, não investem. Por quê? Simples: porque é preciso fisgar o leitor desavisado dos grandes jornais. O leitor do Rascunho sabe onde e o que procurar nas livrarias. Entre a Folha e o Rascunho, a grande editora sempre opta pela Folha. Não poderia optar por ambos? Cansei de bater na porta das grandes editoras pedindo um quinhão (bem pequeno) da verba publicitária. Algumas querem fazer permuta por livros. Adoro livros, vivo por eles etc., mas já tentei mastigar a “Divina Comédia” com alface e me pareceu indigesto. Nem as grandes editoras, cujos diretores de marketing foram gerados a partir do erro divino, apostam em publicações com o Rascunho (a não ser as assessorias de imprensa, que nos atormentam o tempo todo; por quê? porque os escritores querem espaço lá, acham importante a discussão de seus livros no jornal, etc.). Torço para que os diretores de marketing sejam todos ficcionistas. Eu falo de publicações literárias na essência. Não falo de publicações culturais. Ninguém se interessa por publicações alternativas de literatura. A não ser os leitores e os escritores. Mas os leitores destas publicações estão sempre sem grana. Se todo mês cada um que diz gostar doasse R$ 1, estaríamos salvos. O pobre não é solidário na literatura. Nem no câncer. Mas as publicações têm muita culpa nisso tudo. Normalmente, são de péssima qualidade gráfica e editorial, atendem interesses mesquinhos de meia dúzia de poetas locais, são intransigentes, não aceitam a variedade de vozes etc. Sufocam e morrem.”

    Como explicar o fato de Curitiba, o Paraná em geral, ter um veículo do porte do Rascunho? Antes houve o Nicolau, agora há também o Cândido. De onde vem a tradição de fazer publicações?

    “Talvez venha da anemia editorial da cidade. Nunca tivemos (com raríssimas exceções) um mercado editorial fortalecido. Isso talvez tenha motivado algumas pessoas a se dedicar às publicações literárias. É uma forma de dizer “estamos aqui, fazemos algo além de fugir da chuva e de treinar este nosso sotaque horroroso”. Ou talvez não seja nada disso. Quem sabe seja um ranço da soberba intelectual de nossa colonização europeia: somos filhos de italianos, poloneses, ucranianos, alemães. Filhos renegados, é bom que se diga. Ou talvez seja a coincidência de algumas pessoas estarem em Curitiba em determinado momento da vida. Ou ainda a inveja do passado. Já que tivemos a Joaquim, vamos fazer o Nicolau; já que o Nicolau fez sucesso, vamos fazer o Rascunho; já que o Rascunho deu certo, vamos criar o Cândido. É isto: a inveja nos move. A culpa, portanto, de tantas publicações literárias em Curitiba é da inveja. E, em última estância, do capeta e dos pecados capitais. Contrariando nossa tradição cristã, vamos todos arder no fogo do inferno, invejosos, sob as labaredas das nossas páginas impressas em papel barato.”

    O que quer o Rascunho agora? Algum novo projeto, reformulação à vista?

    “A sobrevivência. Sempre. Mas sempre queremos ir além da sobrevivência. Vivo de projetos. O que me impulsiona sempre é a possibilidade de fazer algo, de ir além. Tenho vários projetos anotados na caderneta ao lado da caixa de Rivotril. Pretendo criar uma fundação: Fundação Rascunho de Cultura. Com isso, desejo criar projetos sociais de livro e leitura. Ir além da discussão teórica, da divulgação dos livros etc. Hoje, apoiamos alguns projetos, mas é preciso fazer mais. Acho que uma Fundação dará suporte para mais esta aventura. Também pretendo criar uma biblioteca comunitária na casa da minha mãe (endereço fiscal do Rascunho). Cresci naquela casa de madeira, criei o Rascunho ali, li boa parte dos livros naquele quarto úmido. Agora, sempre que vou à casa da minha mãe, penso que uma biblioteca poderia ser muito útil para aqueles moleques que passam o dia nas esquinas vagabundeando ou usando drogas. Também carrego há bastante tempo a ideia de uma biblioteca itinerante pela periferia de Curitiba. Pretendo comprar uma kombi, equipá-la e levar livros e leitura a quem precisa. Muitas pessoas não sabem que gostam de ler. É preciso mostrar isso a elas. E pretendo criar o Prêmio Rascunho de Literatura. Ainda não sei muito bem como, nem quando, mas penso nisso há muito tempo. Não tenho projetos originais. São todos muito óbvios. Mas acredito que é preciso dizer o óbvio todos os dias. E o original quando é possível.”






    ENTREVISTA: "Cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão"

    Amosse Mucavele - Moçambique



    Literatas (L): A tua poesia se difere tanto dos outros poetas angolanos da actualidade, refiro-me ao Abreu Paxe, Nok Nogueira, onde nas suas criações poéticas eles têm a palavra como instrumento para fabricar outras realidades. E no teu caso acontece o inverso, você tem a realidade como a matriz do teu poema.
    - Como é que faz este exercício? O que é feito do poeta na criação dos seus livros?
    Décio Bettencourt (DB): Precisamos de diálogo, na nossa África. Muito diálogo. Precisamos de dialogar para exorcizar os fantasmas da guerra, dos genocídios, dos golpes de estado, das intolerâncias, das diferenças regionais, raciais, sociais e outras mais. Precisamos de vencer a fome, a doença, o analfabetismo, enfim, o subdesenvolvimento. Enquanto criador entendo como meta da criação não só a inevitável procura do belo, do artístico e de novos mundos, todavia de igual forma, o fluir de um despertar e chamar atenção social via mensagem. É preciso comunicar e falar África. E aí a poesia dialogante tem uma palavra de importância. É evidente que o processo criativo é (suposto ser) livre, e cada um à sua maneira e jeito. Agora o menos bom é fazerem-se ajuizamentos literários em função do estilo de preferência pessoal.

    L: A maneira do seu olhar a realidade circundante, faz-me lembrar a poesia do Agostinho Neto, José Craveirinha, Aires de Almeida Santos, António Jacinto. Que importância tem esta constante revisitação aos escritores de ontem na formação do poeta de hoje?
    DB: O poeta é um constante absorvedor de elementos materiais e espirituais do meio envolvente. Uma caminhada pode ser rotineira no dia de hoje, todavia altamente reveladora no dia de amanhã e depois. As leituras e revisitações – como chamou –, são manancial inevitável de colheita de inspiração, conhecimentos e aperfeiçoamento de técnicas literárias – no caso poéticas.

    L: Uma das barreiras que o “escritor engajado” tem no seu percurso, é esta: de ser lido pelo seu público-alvo. Será que a tua poesia é lida pelo candongueiro? Pela zungueira? E pelas restantes gentes dos pés descalços?
    DB: As gentes dos pés descalços da minha terra caminham com uma criança de fome às costas e um balaio de procura de sustento à cabeça. São jovens que passam o dia de sol intenso nas estradas a vender um negócio de miséria aos automobilistas que passam. Ou crianças que carregam quilómetros de um balde de água potável de má qualidade à cabeça. E outros mais dolorosos e humilhantes modus vivendi. Quem luta pela sobrevivência não tem, no geral, tempo para sentar-se e deliciar os prazeres mágicos de uma boa leitura. Enquanto criador, cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão.  

    L: Como poeta angolano, avento que pensa e vive no meio onde o idioma predominante é o kimbundo, e outras línguas nacionais. E logo lembrei nas palavras de uma escritora brasileira que já não vem o nome, que diz: ‘’os escritores africanos não escrevem para os africanos, o que é um problema.’’
    - Que dificuldades atravessa ao escrever os seus sentimentos na língua portuguesa?
    DB: Vivo num meio em que a cultura e consequentemente as línguas da terra sofreram traumática e dolorosamente com o processo de colonização. Mas pior do que isto é fazer-se um quase nada em mais de trintena de anos, para corrigir ou reverter esta situação. Luanda, por exemplo, está lamentavelmente a perder o kimbundo a nível das gerações mais recentes. Mas a minha escrita identifica-se sobremaneira com as marcas, gentes e coisas da terra. É em primeira instância sobre os africanos que escrevo.

    L: A tua produção poética obedece um intervalo de tempo de dois ou três anos, com esta periodicidade não teme o abandono dos teus leitores?
    DB: Absolutamente não! Ainda assim, penso produzir o possível: trabalho numa indústria de muita exigência profissional – petrolífera –, sou pai, esposo e chefe de família. Gasto cerca de três horas e meia, diárias no dificílimo trânsito da cidade de Luanda, no trajecto casa serviço e vice-versa. Então é já quase que miraculosamente que tenho quatro livros publicados desde 2004.

    L: No livro “Xé Candongueiro”, você atribui datas e locais de cada poema, será que tem a precisão exacta que escreveu na data x e local y?
    DB: Quando escrevo, dato sempre o que escrevo. Apenas isto. Não escrevo uma linha hoje e outra depois de amanhã e outra no mês seguinte. Não. Escrevo um poema assim de uma só vez. É claro que depois ele (o poema) vai para o laboratório onde é exaustivamente re-trabalhado durante o tempo que for necessário. Anoto data e local da criação. Gosto de fazê-lo.

    L: O poema a “A Dor da Poesia’’ diz: (…) escuta as gentes empobrecidas/(…)/as gentes esfomeadas/e vivenciadas de vexame/(…)/escreve a voz das gentes analfabetas/nas ruelas das kubatas/as gentes sofridas da hipocrisia dum discurso polido/e armadilhado.
    - Como avalia a democracia angolana?
    DB: É tudo um aprendizado. Estamos a caminhar, estamos a aprender. A história de Angola tem episódios deveras traumáticos, deveras dolorosos e de muito sangue entornado. Estamos a caminhar, algumas vezes com passos seguros e firmes, outras vezes não tanto e até com alguns recuos. Mas não restam dúvidas de haver sinais de amadurecimento na consciência politico-democrática dos angolanos. Estamos a caminhar a aprender…

    L – Qual é o papel do poeta? E que espaço ocupa o mesmo na sociedade angolana?
    DB: O poeta é um sonhador, é um criador. E o desenvolvimento alicerça-se nestas duas componentes: sonho e criação. O poeta é manancial activo e vivo do desenvolvimento. É transmissor de conhecimentos e realidades. Quanto ao seu papel na sociedade angolana, desejar que a sociedade nas suas mais diversas formas organizacionais, crie espaços para que o mesmo possa expandir a sua actividade, de forma a que a sua beneficência se converta em realidade visível.

    L: O factor globalização tem como seu epicentro a juventude, onde os nossos países recebem, digerem, sem uma mínima selecção, e no poema ‘’As Minhas Pretas” sintetiza esta minha pobre afirmação.
    - Será que os africanos não são capazes de vender a sua cultura?
    DB: Para tal é preciso que acreditem e valorizem a sua própria cultura. É preciso que os africanos gostem de si e aceitem-se como são. Não percebo o que motiva uma negra africana a implantar na sua cabeça cabelos de uma mulher branca, rejeitando assim a sua própria natureza. Isto é ridículo e coloca de imediato as africanas, de modo voluntário, em posição de subalternização em relação a mulher europeia. Não percebo porque um africano acha que deve clarear o tom da sua pele usando químicos. E sabe, a natureza é tão generosa para com os africanos que abençoo-os com as mulheres mais lindas do planeta. Todavia não crêem e buscam padrões que nada têm a ver com a nossa realidade. Por isto escrevi “As Minhas Pretas”, “Negra da Terra”, e outros mais.

    L: A maioria dos escritores tem a poesia como o seu pano de fundo, tal como diria o critico português Eduardo Lourenço “a poesia é a palavra fundamental, a claridade de uma época.”
    Contudo nos teus poemas acontece algo de pouco culto nos poetas, de se recorrer a crónica ou mesmo ao conto na sua criação poética. Que espaço a prosa ocupa no seu percurso literário?
    DB: É um pouco difícil comentar, pois cada um escreve como escreve, a seu estilo pessoal, à sua marca. Estas coisas são natas. Quando comecei a escrever poesia não decidi que seria assim; descobri-me a escrever assim. Deve ser um pouco semelhante à forma como andamos, pronunciamos as palavras, etc.
    Quanto ao espaço da prosa no meu percurso literário, foi decisivo. O meu primeiro contacto com as letras foi via prosa. Era uma estante abarrotada de livros que o meu pai tinha lá em casa. Os livros fazem parte dos meus primeiros brinquedos. Eu e os meus irmãos brincávamos às escondidas com os livros: um procurava um título, anunciava, e o outro tinha de encontrar o tal livro. Começamos por aí. Depois passámos a devorá-los, o Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, Eça de Queirós, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa, Júlio Dinis, Lusíadas, Luís de Camões, etc. Andei também pelos policiais, Agatha Christie e outros, e até Julias, Sabrinas e Biancas devorei. E muitos. mais, naturalmente. O contacto com a poesia veio depois.

    L: É possível tornar Angola num país de leitores? E como formar leitores?
    DB: Sem a menor dúvida: é possível tornar Angola num País de leitores. Porém é preciso vontade, é preciso que se queira. Criar leitores é fácil demais. Mas primeiro é preciso que se perceba as vantagens de se criar leitores – ou pelo menos que se deixe de fingir que não se percebe É bem mais difícil e dispendioso buscar petróleo nas entranhas da terra. É bem mais difícil e dispendioso criar cidades de betão. É mais difícil e dispendioso construir estádios gingantes de futebol. Alguns elementos: que haja em cada município, bairro, aldeia, casa, etc. uma biblioteca (ou pequena biblioteca) e que se incentive as crianças, adolescentes e jovens a fazerem uso. Que se baixe o preço do custo do livro. Que haja comida básica para todos – que de barriga vazia ninguém lê! Quando isto acontecer teremos menos alcoólatras, menos delinquentes, menos desempregados, enfim estaremos a criar os sustentáculos para o desenvolvimento de Angola: estaremos a produzir angolanos de qualidade.

    L: O poema ‘’Um Homem Num McDonald’s” diz: (…) E parte perdido na ilusão das europas brancas/A vergonha das Áfricas ignorantes/E sua gentes/A barriga de fome a roer/A vergonha a doer/e um homem parte na desilusão das Áfricas.’’ Comente este poema.
    DB: Os poetas (alguns) não gostam muito de comentar os seus poemas. Eu faço-o com gosto quando solicitado. Trata-se de um olhar crítico àqueles africanos que deixam os seus países à procura duma Europa doirada que afinal não é bem assim – não quero dizer que não devam sonhar ou procurar melhores condições de vida. Estava sentado num McDonald’s em Paris, a saborear uma refeição ligeira quando apareceu um irmão meu africano a pedir gorjeta. Achei interessante que se tivesse dirigido a mim, quiçá por ser o único negro como ele. Recusei inicialmente, todavia acabei chamando-o e dando-lhe algum dinheiro. Nasceu assim este poema, pensando naquele homem que sai da sua terra e se põe mendigo nas Europas. 


    POESIA DE DÉCIO BETTENCOURT MATEUS

    A ZUNGUEIRA

    O miúdo nas costas, faminto
    O sol queimando
    O sol assando
    O miúdo nas costas, faminto de alimento
    As moscas acariciando-o
    E o lixo distraindo-o!

    A zungueira zunga, cansada
    Na cabeça, o negócio e o sustento
    E nos pés empoeirados
    O cansaço dos quilómetros galgados
    O cansaço da distância percorrida
    A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

    A zungueira zunga, cansada
    E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
    Arreou, arreou, arreou nos limões...
    A zungueira zunga, empoeirada
    E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
    Arreia o preço do sustento

    O miúdo nas costas faminto
    A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
    O miúdo nas costas, faminto de alimento
    Chora e berra
    Não é birra
    É a fome que aperta, é a fome da sede!

    A zungueira zunga, apressada
    E arreia o negócio, arreia o preço:
    Arreou, arreou, arreou no chouriço...
    A zungueira zunga empoeirada
    E arreia o preço do negócio
    Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

    Depois, a viatura da fiscalização
    Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
    E os homens arrogantes a perseguirem
    E a baterem
    E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
    Caídos, espalhados no chão!

    Depois vem o fiscal, também faminto,
    “Você tem autorização?
    Acompanha, isso é transgressão!”
    A zungueira implora e mostra a fome:
    Tem dois dias o miúdo não come
    A lombriga na barriga precisa alimento!

    O fiscal, também faminto
    Arreia o lucro da zungueira cansada
    E desesperada
    Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
    Senão a zungueira não volta a casa
    E a zungueira cede, com medo no pensamento

    Depois a zungueira chega a casa
    De bolsos vazios, mas alívio no coração
    E grata, afinal não foi presa
    Afinal não foi à prisão
    A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
    O miúdo sedento de alimento

    Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
    Amanhã a zungueira voltará a arrear:

    Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…


    (Os Meus Pés Descalços)


    MEU POEMA ACORDA DORIDO!


    À memória de Luzia Bettencourt M.,
    minha mãe.
    Manhã virgem manhã cedo
    meu poema acorda dorido
    manhãs frias
    vai à igreja vai à missa
    em pernas de pressa:
    ó Senhor pão às minhas crias.

    Meu poema sofre a madrugada
    a espreitar a aurora
    acarreta água ensonada
    enche bidão enche tamborão
    de olho na torneira
    música sofrida no coração.

    Dorme insónias na noite escura
    acorda constrangido a praça
    a vender gelados
    compra esperança
    recebe troco ternura
    bem diz os kwanzas bem diz trocados.

    Caminha um sol abrasador
    preocupação no rosto
    meu poema tem dor
    a rusga a falar serviço militar
    a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
    kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

    Meu poema desperta alvorecer
    lava roupa amontoada no tanque
    rebenta mãos de sofrer
    vende gelo no Roque
    e sofre filho fugidio emigrado
    filho mwangolé exilado.

    Meu poema dorme cansado
    é pai mãe marido mulher...
    cuida os miúdos
    atende o marido
    dorme dorido prazer
    dorrme dorido sonho de trocados.

    Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
    ó Senhor pão às minhas crias!

    (Gente de Mulher)


    XÉ CANDONGUEIRO!


    Candongueiro tem pressa
    Sobe na baúca
    Não tem conversa
    Condução louca
    Pé no acelerador, velocidade
    Não respeita prioridade!

    Eh! Candongueiro dono da estrada
    Ultrapassa pela direita
    Manobra arrojada
    Ultrapassa
    Vuza na estrada estreita
    “Trabalha não dá confiança”, tem pressa!

    Candongueiro abarrotado
    Não afrouxa na lomba
    Leva gente p’ra mutamba
    Pé no acelerador, velocidade
    Dono da cidade
    “Dinheiro trocado, dinheiro trocado!”

    Eh! Candongueiro tem cobrador
    Que grita: 1. de Maio, Maianga, Maianga…
    Pé no acelerador, zunga-que-zunga
    Abarrotado de gente
    Não respeita cliente:
    “Ou encosta ou desce meu senhor!”

    Zé Pirão, São Paulo, Roque
    “Não há maka emagrece meu kota”
    Candongueiro manda na estrada
    Leva gente do musseque
    Gente enlatada
    Roda batida é dono da rota!

    “Trabalha não dá confiança”
    Prenda, Mulembeira, Mulembeira
    Leva gente do povo gente da praça
    Candongueiro transporte do povo
    Não é carro novo
    Arranca levanta poeira!

    Zunga-que-zunga sobe o passeio
    Carro cheio
    Xé candongueiro
    Respeita passageiro
    E espera prioridade
    Candongueiro é dono da cidade!

    Eh! Candongueiro é gente importante
    No carro velho
    Leva gente p’ro trabalho
    Carrega gente descarrega gente
    Ku Duro música alta
    Xé candongueiro olha multa!

    (Xé Candongueiro)




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