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    A Prosa Cáustica de Antonio Cabrita no Romance “A Maldição de Ondina”

    Silas Correia Leite - Brasil 


    “... A minha principal certeza é o chão
     em que se machucam os meus joelhos
     doloridos/Mas todos os que vierem me
    encontrarão agitando a minha lanterna
     de todas as cores/Na linha de todas 
    as batalhas...” 
     Deslumbramento – Manoel Lopes -


    Como quem não quer nada, de forma cáustica, irônica ou circunstancialmente poética, aqui e ali navalha no palavrear-carne humana (relações e escombros), o autor lusoafricano ANTONIO CABRITA no romance “A Maldição de Ondina” vai levantando lebres/corvos/rinocerontes (acontecências...), apontados trilhas escamosas, como se num desdizer todo próprio e único que abrisse em lascas, repentes nem tão repentes assim, achacadouros – tiradas como se falas-tirinhas de histórias em quadrinhos permeadas no contexto – e vai levantando os panos, os bichos (as lebres...), de seu narrar atrevido, ousado, parecendo como se descompromissado, aqui e ali, variando, mas a pegar o leitor pelo sem-pulo de parágrafos imbuídos no texto que são jóias preciosas, e, às vezes, por que não, atiçadas pérolas aos porcos dos contextos, mesmo ainda assim, ele mesmo, como se com a tal da própria “maldição de Ondina”: subindo à tona do charco humano. Para respirar a luz do que cria;cria no oxigênio do dizer e desdizer atrevido, quase claustrofóbico, a contar e assim se fazer também periscópio de seu tempo-lugar, ele mesmo um “Ondina” submarinado de ser um golfinho-escritor no mar de sargaços da vida muito além da imaginação... E a realidade ainda dói, moendas e engenhos de seus prismas... -Roteiro de entrelinhas, desapegos de fogo, aforismos homeopáticos a sangue frio, e, afinal, janelas-paredes, colônias-nós-mesmos, lusoafricanos, marfins e estrumes, párias e sombras, ombros e desordens íntimas, travessias e fronteiras malditas como legados campos minados de domínios amorais. A áfrica somos todos nós, a espécie humana/desumana? Maldição adâmica numa áfrica ancestral perdida nos tempos da história incabida de sofrências? -Maldição de Ondina destrincha (esparrama) o amor-açougue de almas. “Perfídias?” - “É um conto largo espalhando as suas metástases”, teria dito o autor sobre o romance. Quixotescamente os sobreviventes que nunca acabam sãos, contam as contendas de proprio coldre. Vários pontos de fuga inrompem no romancear, novelar, vinagres de almas brutas, perdidinhas, como ovelhas desgarradas no redil das aparências. De novo a tal da maldição de ondina impregnada no escrever/criar/sentir do autor? Moçambique sangra por seus horizontes e seres atiçados. Que bicho-de-prata morde as missangas de quem escreve nesses cantões, carunchando ideias, reativando outras, pondo olhares desesperados em situações irreconhecivelmente humanas? Ah o caos se acostumando ao delirio de fazer parte dele, nem ócio de oficio, nem inutensilio desvairado... O império, o colonialismo, soslaios de ressentimentos, polos-rancores, poros-expressões de sequelas... -Alta sensibilidade (fio de navalha) turbina o tresloucamento literário que vanguardeia de ser vivíssimo de dar dó, de dar susto, de ler e ficar com medo da próxima página de enfabulação e retórica estridente. É o artista que migrou de Portual pra África, e dessa áfrica que agoniza a derrama do pós-império... A miséria e a violência estetizadas... Ainda range a áfrica... Miseris Nobilis rogai por nós! -Nada é perfeito e acabado, e tudo está podre, penso, ao ler “A Maldição de Ondina” de Antonio Cabrita, paradoxalmente parafraseando o poeta-dramaturgo Bertold Brecht. Vidas desterradas que se cruzam. Palavras cruzadas em disparidades de coexistências sofridas, incompletas; fugas íntimas e externas. E as estórias em linhas paralelas, um crime, os estranhos jos ninhos. Um professor (Cesar) escritor de romances policiais. Moçambicano. Raul, um amigo, policial com faro fino. Beatriz, mulher-vitima de Cesar, nas incompletudes das lidas acadêmicas. Argentina, amante de Cesar, pavio curto. Aurora – a metáfora da obra a clarificar relações? - antiga ama-seca com sua dor (aleijamento), e outros desperdícios de vidas entre seres entrevados vão semeando vacâncias existenciais no romance. -A oralidade mapada da obra, datada na narrativa, intercalada de pensagens (pensamentos-mensagens) que mais são ironias e sacadas – as tirinhas de histórias em quadrinhos de jornais – mais as ratazanas de dentro e de fora do poder. Que meia mentira é meia vardede? Os miseráveis de sempre à míngua. Os flashs se intercalando a desditas, sonhos, ilações, memorias desterradas, chagas e cegueiras, emendas e reconstruções de. Tudo é exilio de. A áfrica toda não é um exilio continental? E há a diáspora intima de cada um. A consciência africana pesada na balança da historia é achada em falta. Mágoas ressentidas dão o que criar. A mão que balança o berço da ciivilização é salmoura pura? Fica a imagem-ideia. Ah mares de um período colonial... quanto de teu sal... são lágrimas de remorso de um antigo Portugal?... Toda colonizador ficou rico impunemente. E as colônias ainda (bem que) sangram artes pelo ladrão... -Mas as cicatrizes ainda purgam... São tantos os fantasmas. E os fósforos das criações iluminando cada recanto-divisa/fronteira do mundão africano para o mundão sem porteira todo, amoral globalizado. Salvos pela arte historial, desde as escritas das cavernas aos escritores que destravam caverna de olhares estrambólicos, lúcidos, portentosos? Que honra há, em partilhar o inferno – com seus traficantes de sombras – o que afinal soçobra? – A ressaca e a paranóias aos quatro ventos, condimentando infernos infinitos e particulares. O jogo de bisonhos biombos da vida? Mundo cão. -“Dá medo fechar os olhos num mundo em que as gotas de chuva não são inocentes” – Pg. 237. -Rita Hayworth dança um fado no limbo. A lua universal da mama áfrica sangra. Feridas acesas. A escrita de Antonio Cabrita desengarrafou a alma da África na literatura que vingou muito além de flagelos. -Por isso o romance A MALDIÇÃO DE ONDINA é, por assim dizer, de domínio público desde sempre. E a obra fez-se carne. E a carne ainda ramifica os veios de contações da terra-mãe. E dos filhos deste solo. A fava-rica é para quem surta?

    NOTÍCIAS: Guia de Salvador escrito por Jorge Amado será relançado em agosto


    A reedição de 1986 de ‘Bahia de Todos-os-Santos — Guia de ruas e mistérios de Salvador' mostra as visões do escritor sobre a capital baiana

    Além dos famosos e populares romances, o escritor Jorge Amado também se dedicou a outros prazeres literários, entre eles está o ‘Bahia de Todos-os-Santos — Guia de ruas e mistérios de Salvador', que como diz o título é um guia sobre a capital baiana. O livro será relançado no próximo mês, 26 anos depois da última edição.
    Publicado pela primeira vez em 1945, o guia ganhou revisões em 1960, 1966, nos anos 1970 e em 1986, sempre atualizando o leitor sobre a cidade e a vida cultural de Salvador. A última adaptação feita por Jorge Amado, de 1986, chega às livrarias pela Companhia das Letras em agosto, revelando o que o escritor  destacava da cidade no período.

    De 1945 para 1986, muita coisa mudou, como o próprio Jorge dizia. Se em 45, ele considerava a cidade, com seus 300 mil habitantes, “provinciana, descansada, tranquila, doce, bela e única”, 21 anos depois, já com quase 2 milhões de habitantes, ele conta como Salvador havia se tornado uma metrópole “ruidosa, movimentada, turbulenta, sua doçura fundamental entrecortada de violência”.
    O retrato da Salvador dos anos 80 para os dias atuais mudou muito, aquelas características que ele destacou só aumentaram, assim como a população, que hoje gira em torno de 2,7 milhões moradores. Assim mesmo, muito de sua vida cultural, suas ruas, seus mistérios e seus personagens permanecem.

    O hábito de falar mal da cidade, e de suas opções culturais e de lazer, parece tão antigo quanto a própria cidade. Pelo menos nos anos 40 já era assim, quando Jorge Amado descreve Salvador como "uma cidade pobre de hotéis, paupérrima de restaurantes, sem teatros e com pequena vida noturna".
    Anos depois ele atualiza as reclamações, com as queixas também seguindo os avanços da capital. Em 1986, ele dizia no guia que “falamos mal dos hotéis, dos restaurantes, dos cabarés. Falemos agora mal dos cinemas". E completava: "A Bahia ainda está à altura do cinema que merece”. Talvez hoje, caso fosse atualizar, a reclamação se voltasse para outros pontos, mas permaneceria.

    Igrejas - Entre os itens descritos pelo guia estão as igrejas, que ganham um capítulo exclusivo. Entre tantas, uma que ele ressalta é a famosa Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Negros, no Pelourinho, construída no século XVIII, e recentemente reaberta, após mais de um ano de obras de recuperação arquietetônica. “Sempre cheia de gente, extremamente ligada aos ritos do candomblé”, é como Amado a descreve.
    “Diz a lenda que a cidade do Salvador conta com 365 igrejas, uma para cada dia do ano. Dizem os amigos dos números exatos que entre igrejas e capelas elas somam 76. Pouco importa”, diz o escritor sobre a fama do número de igrejas na cidade.
    Trata ainda dos costumes do povo, seus mistérios, sua mestiçagem e seu sincretismo. Fala das igrejas, mas também das macumbas, dos terreiros, as comidas típicas, sa lavagem da igreja de Nosso Senhor do Bonfim, das homenagens a Iemanjá e a são João, entre outras festas populares.
    O autor descreve também os bairros proletários e os nobres, as feiras e os mercados, as inúmeras ladeiras e ruas da cidade, e apresenta as praias locais, como Itapuã, Amaralina, Pituba e o Farol da Barra.

    Personagens - Muitos dos personagens que destacava nas atualizações do guia ainda permaneciam na última edição de 1986 e ainda hoje se destacam no meio cultural baiano. “Dos filhos de Caymmi, (João Gilberto é) o mais louco e o mais angelical. Dos segredos das camarinhas surgiu Gilberto Gil, acento negro na voz límpida, melodia que desce da senzala para conquistar a praça e o poder. Da festa de Nossa Senhora da Purificação em Santo Amaro, de comício impossível, proibido, desembocou Caetano Veloso, barco em mar de temporal”.
    Entre outros nomes citados no guia estão o escultor Mário Cravo, a fotógrafa Arlete Soares e mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

    "O livro é um canto de amor à cidade, contando da história, da gente, do sentir, da beleza, dos grandes personagens ali nascidos e criados e, sobretudo, da maneira de ser única e original dos habitantes" — diz a filha do escritor, Paloma Amado, em entrevista ao Jornal O Globo sobre o livro. 
    http://www.ibahia.com

    “Cidade dos Espelhos” - U ma “Novela Futurista” de João Paulo Borges Coelho


    Luís Carlos Patraquim

    Cidade dos Espelhos, o mais recente livro de João Paulo Borges Coelho

    Deixemos de lado a blague, para despistar, sobre a novela futurista, sub-título do autor a esta sua e nossa, por mérito dele, “Cidade dos Espelhos”.
    No princncípio é a estranheza. Deixemos de lado a blague, para despistar, sobre a novela futurista, sub-título do autor a esta sua e nossa, por mérito dele, “Cidade dos Espelhos”. Como nos ensinou Sherlock Holmes, as primeiras evidências são, a mais das vezes, o engodo para a fulguração final da razão omnisciente que, sob a trama de enganos, falsas pistas, equívocos, repõe a ordem de um percurso, apazigua a intencional e prazeirosa perturbação de um mundo. Saudoso optimismo positivista que a incerteza apartou do nosso convívio.
    Sobre os futurismos, russo, italiano à la Marineti, que custeou a sua publicação como publicidade redigida nas páginas do Figaro, à solitária aventura dos poetas do Orpheu, ficamos conversados. Maiakovski sucumbe aos seus Banhos; Marineti veste a camisa negra, e os poetas de Orpheu, de ouvido em concha para o ranger das máquinas quase inexistentes no país das uvas e estáticos ante a dromologia em slow motion, deambulam pelos cafés da Baixa, fazem painéis, bravatas, sacodem a poeira e o cisco da Casa do Ser. Que às vezes é um galinheiro.
    Mas é nessa sub-titulada designação que se revela a primeira subtil ironia de João Paulo Borges Coelho. Se ele fosse americano e andasse de casaco à banda pelos pubs de Greenwich Village, lia-se este livro e dizia-se: ora aqui está, o gajo está meio gótico, não te parece? Ou então convocava-se o Ray Bradbury: há uma poética; não, não se trata da particular ficção científica do autor de Farenheit e das Crónicas Marcianas, mas é amazing, meu, andar pela avenida Louise – um achado! – e afagar aquelas árvores de plástico, pressentir as aves agoirentas, imaginar a insólita casa cor de mostarda. Será literatura fantástica? E as aves agoirentas? E o “areóstato negro com as insígnias da República” que se desinfla e se estatela sobre os subúrbios? Será o colibri uma variação do corvo de Edgar Allen Poe? O Mar de Sargaços, um dos capítulos, será uma homenagem ao reggae, uma alusão corsária, uma ondulada e ondulante meditação pós-colonial, uma paráfrase a Jane Rhys?
    Devevo dizer que não pretendo ter uma resposta nem julgo interessante essa cómoda classificação por géneros ou atmosferas de alguma moda.
    Este livro está cheio de sinais, de pontilhados exercícios de crueldade, a do mundo rarefeito onde estas personagens se movem. Alcandorado na irrevogável exigência de se demarcar de todas as antinomias, redutoras, enganosas, e alheio aos marcadores genéticos a que o câanon obriga para a jubilação identitária – moçambicaníssima, já se vê - João Paulo Borges Coelho prefere a cegueira dos sábios. No cabo do texto, avesso aos muitos ventos da História, conhecedor dela como é por ofício civil, olha o farol que, como dizia Sebastião Alba, “há séculos /que emite/ sinais indecifráveis”. Percebê-los, adivinhar-lhes ou inventar-lhes sentidos, vem sendo a empresa do autor de “As Visitas do Dr. Valdez”, desses majestosos Setentrião e Meridião onde um mesmo rio os une, masculino e feminino, como exemplarmente nos ensinou.
    “Cidadede dos Espelhos”. Côncavos? Convexos? Jogo de intersecções de reflectidas imagens, floresta de enganos ou caminhos da floresta, os de Heidegger, recolhido na sua cabana depois da queda? Jogo e tensão do desejo como na sequência da Dama de Xangai, com um Orson Welles à procura da sua Rita Hayworth? Os espelhos…. Em Tlon, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges fala-se deles. “Devo à conjugação de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta de Uqbar”, confessa o autor de ficções, onde o texto se inclui. Estava o argentino com o amigo Bioy Casares. “Do fundo remoto do corredor, espreitava-nos o espelho. Descobrimos (a altas horas da noite esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares – prossegue Borges – recordou que um dos heresiarcas de Uqbar havia declarado que os espelhos e a cópula eram abomináveis, porque multiplicam o número dos homens”. Também podia ir-se pela mão de Alice, mas deixemos Carroll e a sua dama de copas.
    Porque tudo tem um começo, arregalamos os olhos, semi-cerramo-los, névoas e brilhos sucedem-se ante o insólito atentado às portas do Templo. É noite, uma noite depois daquela, a antiquíssima, e deparamo-nos com o mais insólito atentado. O autor descreve-o com alguma minúcia: umas bolinhas, que parecem de sabão, umas seringas e uma espécie de gosma, venenosa, presumimos, que três bradas – Caia, Laissone e Jeremias – sopram com uma cana. Terrorismo bacteriológico mas executado como se de uma brincadeira de crianças se tratasse. Em banda desenhada, com recorte ao fundo das colunas em sombra, veríamos a silhueta dos três da vida airada com as canas em pose e as bolinhas flanando – brilhantes ou brilhiosas, como preferirem – em contraste com o escuro do mistério e o balão encimando o quadro com a onomatopeia “floc! floc!”. É isto uma novela futurista?
    E quequeque cidade! Reduzida a si, sem topónimo, com uma parte alta, uma parte baixa, um subúrbio com paredes de chapas onduladas, ferinas, segundo o narrador. Um subúrbio assim descrito: “Os escanzelados candeeiros públicos delimitam no seu pé (o pé de Laissone) pequenas ilhas de luz sobre as quais esvoaçam, enlouquecidos, os insectos”.E, como se não bastasse, há ainda o som de um trompete. É nesta triangulação de percursos, com a sempre omnipresente avenida Louise – um achado, volto repetir – que as três personagens correm, fogem, deparam-se com gente estranha – não propriamente zombies – mas algo excêntricas, no sentido etimológico da palavra: avós desfiando o tempo, uma indefinida baba tecida agora de vazios, meninas e generais à varanda da sua obra de plástico. Caia, Laissne, Jeremias, são a única mobilidade acossada. E correm. Quando um deles é aprisionado e tropeça na palavra – para confessar, claro – a palavra é violentada. A palavra não é da ordem da conotação. Querem-na confessional. O acontecimento tinha de ser com Jeremias. Ele faz, para si o filme breve da sua vida, mas, escreve o narrador, os torcionários “queriam dele uma torrente de palavras dóceis, que se dissolvessem numa certa lógica, mas o que o prisioneiro lhes entrega são palavras que engolem o acto, o transformam em algo que já não é acto mas uma qualquer delirante construção”. “Metáforas?”, pergunta ele, e a inquirição é-nos devolvida. Começamos a coçar a cabeça. Arre!, exclamariam, num certo antigamente da vida, os desaparecidos velhos de uma certa cidade que conhecemos. Mas Jeremias faz como Bartleby, embora o seu “preferia não… “ seja de outra ordem, porque impossível. Então, os “fragmentos de que falava – observa o narrador – são agora esquírolas que tomam conta das palavras, e as palavras são só letras soltas e sangue e guinchos e dentes e baba que excitam os torturadores, e por fim uma massa amorfa que flui devagar pelas comissuras dos lábios desfraldados, sem que seja necessário empurrá-la. Um cálido magma, quando muito um espaço mastigável”.
    Graveve circuncuncunstâncncia nesta cidade futurada, a agrilhoada ou conspurcada condição das palavras. Talvez seja por isso que o som do trompete acentua a melancolia dos seres, enovelados numa espécie de tempo aracnídio, onde há encarquilhadas mãos como raízes expostas segurando o fio, um fio de Ariadne que, suspeita-se, se perdeu.
    Não obstante as vestes ditas futuristas, há nesta “Cidade dos Espelhos” a dimensão da catástrofe tal como a define Aristóteles na sua “Poética”. Cuja, consistia “numa acção perniciosa e dolorosa, como são as mortes em cena, as dores veementes, os ferimentos e mais casos semelhantes”. A catástrofe introduz a perturbação que prenuncia o desfecho, ou o desenlace. “O messias está exangue – escreve o narrador – sem condições para prosseguir o encantamento do mundo. A multidão murmura, relutante em dispersar.”
    Desconfnfio quequeque, no meio dela, anónimo e discreto, um certo poeta, tendo assistido ao julgamento dos personagens, percorrida a avenida Louise, constatado um inusitado frémito nas estátuas perfiladas, escutado o “lamento sincopado das chapas onduladas”, percebida a seiva inquieta por dentro das árvores sintéticas da cidade alta, esse certo poeta com uma ideia de prosa, preferiu, apesar de tudo apiedar-se da “cidade dos espelhos”. “Por isso – condescende – ela ficará em suspenso, perdida neste jogo de reflexos, enquanto das falhas das paredes e dos passeios, dos frisos dos edifícios e dos castigados olhos das estátuas, não rebentarem novas ervas e destas surgirem as sementes de futuros personagens marchando lentamente em procissão até ao templo das colunas, com as suas cores e os seus rumores”.
    Ele é a criança neoténia, a pedamorfose, de que fala Giorgio Agamben, “a que pode dar atenção àquilo que não está escrito”. E prossegue: “A cultura e a espiritualidade genuína são aquelas que não esquecem esta originária vocação infantil da linguagem humana, enquanto uma cultura degradada caracteriza-se por tentar imitar um gérmen natural para transmitir valores imortais e codificados. (…) Em qualquer parte de nós o distraído rapazinho neoténico continua o seu jogo real. (…) Só no dia em que essa originária não-latência infantil fosse verdadeiramente, vertiginosamente, assumida como tal, em que se recuperasse o tempo e o menino Aíon fosse distraído do seu jogo, os homens poderiam construir uma história e uma língua universais, já não diferíveis, e pôr fim à sua errância nas tradições. Este autêntico apelo da humanidade em relação ao soma infantil tem um nome: o pensamento, ou seja, a política”.
    Mas as crianças brincam e podem ser cruéis. Deste originalíssimo livro de João Paulo Borges Coelho, onde o puro jogo de muitos sinais mescla-se com a ironia, terna é ela, onde na rarefacção que o perpassa, a memória institui-se como ágon, e percebe-se uma visualidade que a arte da escrita nos oferece, entre a imobilidade misteriosa de certos quadros de Paul Delvaux e a convulsão interior da Cathédral Engloutie, de Débussy, deste livro pode-se dizer que é um dos mais originais da literatura moçambicana.
    Razão tem Nazir Can quando observa que “ a chegada de JPB C produz um saudável abalo no universo literário moçambicano. Estamos certos que a sua escrita, como ocorre com todos os tremores, marcará uma época”.
    Oautor que me perdoe por citar e falar, não de livros e seus fazedores, mas, seguindo na esteira deste seu entusiástico e competente estudioso, o inclua onde ele, afinal, também está.
    João Paululo Borges Coelho é hoje dono de uma obra que, como afirma Nazir Can, “faz da relativização ou mesmo da desmistificação de toda a certeza, principalmente das certezas históricas e causas ideológicas de sentido único, a sua pedra angular. Esta opção, de resto, permite ao autor projectar um olhar novo sobre a História de Moçambique, um olhar que transcende a fácil dicotomia (entre “bons” e “maus”, “colonizadores” e “colonizados”) e que, simultaneamente, evita a facilidade do “indiferenciado no diverso”. Finalmente, JPB C consegue encontrar um caminho original para desenvolver a sua escrita, sem ter que passar pelo filtro de justificações normalmente exigidas ao escritor africano: porta-voz autorizado do lugar; missão social e compromisso político, que sustentam e outorgam sentido à sua vida literária, etc.
    Parafraseando Rimbaud , é na liberdade livre que está o compromisso do autor de “Cidade dos Espelhos”. Só me resta saudá-lo com admiração e amizade. E convidar-vos à leitura.

    LANÇAMENTOS SEXTA-FEIRA AS 17:30H NO CCBM:



    A Livaningo Cartão d’Arte, editora que produz livros artesanais, vai lançar no próximo dia 27/07/12, às 17:30h, no Centro Cultural Brasil-Moçambique - CCBM, duas obras de cartão: Estatuto e Focalização: Modalidades Técnico-narrativas Propensas à Expressão de Ideologias em Godido, João Dias e Portagem, Orlando Mendes, tese do docente universitário Aurélio Cuna e Mutxukumetiwa do escritor Rei do Gado. A apresentação das obras estára a cargo dos académicos Nataniel Ngomane e Abudo Machude, respectivamente.

    A obra de Aurélio Cuna é um estudo comparado de Godido e Portagem, na qual o autor demonstra como as modalidades técnico-narrativas revelam-se determinantes na expressão de ideologias dos narradores, com enfoque aos protagonistas das diegeses, numa época em que a arte, e a literatura em particular, era usada como um instrumento de luta contra a dominação colonial, a segunda oscila entre o conto e o romance.

    Em Mutxukumetiwa, o atirado/o deitado, Rei do Gado apresenta-nos um universo dramático, no qual, por um lado, as personagens enfrentam as consequências da miséria, e, por outro lado, as consequências da prosperidade aparente. Aliás, enquanto Cuna desenvolve uma recensão crítica sobre duas obras clássicas da literatura moçambicana que narram os dramas que os protagonistas enfrentam no mundo “civilizado” (Godido e João Xilim), Rei do Gado apresenta-nos um personagem que padece por ter sido abandonado pelos pais. Por isso, chamar-se Mutxukumetiwa.
    Pelo facto de a Livaningo, cartão d’arte ser uma editora alternativa que produz livros alternativos a baixo custo cujo objectivo é promover jovens escritores e tornar a literatura acessível a mais pessoas, a iniciativa da sua primeira aparição é apoiada pelo Movimento Literário Kuphaluxa, agremiação que congrega activistas literários com missão de ampliar na sociedade o gosto pela leitura e a promoção de escritores em aparição no panorama literário moçambicano e não só.

    Livros: "Sentimento do Fim do Mundo" - Willian Delarte


    O livro de poemas “Sentimento do Fim do Mundo”, de Willian Delarte, dialoga, ao seu modo torto e particular, com a quase homônima obra de Drummond "Sentimento do Mundo" (1940), assim como, aqui e ali, com toda a sua obra. É, na verdade, uma carta dirigida ao gauche de Itabira com notícias íntimas, poeticamente insanas, do "Nosso (líquido) Tempo" - este pós-moderno, globalizado, digital, que nos escorre pelos dedos.


    "[...] O "fim" pode ser o limiar da voz em muitos níveis, menos no da ingênua retórica dos profetas de plantão, tão repetitivos, tão óbvios, tão sem memória de outros pressupostos "fins". Ao "fim" liga-se, na nossa cultura, todo o senso comum de um momento especial que é o revelado apocalipse, mas, segundo a boa observação do poeta deste livro, o fim não é um futuro aventado. Ele diz respeito ao tempo presente de um "Mundo que se mundializa/ ferozmente" (Implosão Demográfica) e à nossa consentida indiferenciação frente à torrente de acontecimentos/notícias. [...] Willian Delarte inscreve-se no universo literário no fluxo do repertório de uma vastidão de poetas lidos, estudados e amados no curso de Letras e ao longo da sua vida de leitor, também oferece uma flagrante percepção subjetiva/objetiva que pode nos contagiar com outros nexos. Por isso, remeto o leitor ao início, à epígrafe que abre esta obra — "Se eu quisesse, enlouquecia", retirada do texto "Estilo", do poeta português Herberto Hélder. Enquanto nesse texto o personagem escritor diz não enlouquecer porque tem um estilo construído com a música de Bach e a matemática, apesar de simultaneamente ouvir os gritos loucos das crianças, o "eu" que se vai escrevendo na oferta com o "sentimento do fim do mundo" nos explicita a qualidade alucinada que é tentar resistir ao reino do "terrível normal inabalável" ("Caro Carlos"), ou, de outro modo, à desproteção do hipnótico medo que alguém sente quando decide publicar a sua poesia. Nessa condição, o destino de um livro é tão enigmático quanto um dia claro; a poesia escrita atrairá seus leitores e novos interlocutores e os desafiarão a pensar sobre seus modos de inexistência."

    *passagens do prefácio escrito pela Profa Dra Mônica Simas (USP)

    John Bella lança "O Regresso da Rainha Njinga" 


    O escritor angolano Jorge Marques Bela “John Bella” fará o lançamento do segundo volume do seu romance “o regresso da Rainha Njinga”, em Dezembro deste ano, por ocasião do 349º aniversário da morte da soberana do império Ngola.
    De acordo com o escritor, que avançou o facto hoje à Angop, o lançamento oficial do livro vai acontecer em Luanda e posteriormente será apresentado em Portugal, país onde está a ser preparada a referida obra pela Editora portuguesa “O cão que lê”.
    O livro, segundo o autor, comportará mais de 300 páginas que retratam aspectos sobre a soberana do reino do Ngola e deverá chegar a Angola em número de tiragem não revelado no próximo mês de Agosto.
    O primeiro volume do romance sobre a rainha, de 23 páginas, de acordo com John Bella, intitula-se “os primeiros passos da Rainha Njinga” e foi editado em Novembro de 2011.
    Njinga Mbande, tida como maior símbolo da resistência armada contra a ocupação portuguesa, nasceu em meados de 1582 e faleceu a 17 de Dezembro de 1663, sem, no entanto, ter sido capturada ou morta como foi intenção das mais altas patentes militares portuguesas da época esclavagista, ante uma longa e impiedosa perseguição a que a rainha foi submetida.
    John Bella retrata neste romance estes e outros aspectos que nortearam a vida da rainha Njinga Mbande, com o objectivo de divulgar e levar ao conhecimento das novas gerações a imponência dessa que foi a soberana do reino do Ngola (Angola), bem como contribuir no crescimento da história.
    Segundo o autor, para a compilação dos dados recorreu-se ao estudo e contacto com investigadores, tendo sido apurado que para a reconstituição do Império Ngola, quase já sob domínio político-militar português, Njinga Mbande teve que fazer alianças com os africanos e holandeses para uma luta contra a escravidão do seu povo.
    “Com este livro aspiro procurar encontrar, analisar e posteriormente fazer entender as causas deste ou daquele procedimento, quer positivo ou aparentemente negativo, de Mwene Njinga a Mbande sobre os acontecimentos de Zanga kya Ndanji, Kuwapolo, Kindonga, Kyambata, Kala a Ndula, Samba a Lukala, Mbanza e Makaria a Matamba, Mapungu a Ndongo, Kakulu ka Hangu, Kakulu ka Basa, Kasanji Kula a Muxitu, Kasanji Kula a Xingu, Kasanji ka Kinguri, entre outras localidades do reindo do Ngola no período de 1623 a 1630”, sustentou.
    John Bella começou a escrever aos 12 anos de idade e ingressou na Brigada Jovem de Literatura em 1984. Em 1987 frequentou um curso de literatura brasileira na União dos Escritores Angolanos, em Luanda.
    Em 1995 publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado “Água da vida” e até 2012, escreveu outras obras como “Panelas cozinharam madrugadas”, “As orelhas do coelho Hélio”, “Nzamba o rei sou eu” e “Estes dois são Cão e Gato”.
    Fez a apresentação este mês, do seu mais recente livro infantil “As lágrimas do Rei-sol”, inserida no âmbito do projecto “Jardim do livro infantil”, decorrido de 29 de Junho último a 1 Julho no país, sob promoção do ministério da cultura. Angola Press

    Crónicas Timorenses

    Joana Ruas – Lisboa
    Joana Ruas apresentando sua obra em Deli

    Abordei este segundo volume da trilogia A Pedra e a Folha, ainda antes de de ter iniciado a investigação que me levaria ao primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Tinha entre mãos as fontes escritas e tinha ainda as que me haviam sido fornecidas e que pertenciam à tradição oral.   A análise desse material levou-me à conclusão de que uma vez concretizada a unificação administrativa do território,   em finais do século XIX, este, embora tenha continuado a estar administrativamente dividido em reinos,   esses reinos  eram assim chamados formalmente pois os seus reis haviam deixado de ser vassalos do rei de Portugal, para serem apenas súbditos, não sendo os seus reinos nem já independentes nem mesmo autónomos. Apenas um, Manufhai, ousava ainda proclamar a sua independência face ao poder central.
    Constatei, pois, que a construção erguida durante séculos pela política de casados de Afonso de Albuquerque e mais tarde reforçada pela luta contra os Holandeses levada a cabo sobretudo pelos governadores pernambucanos, ruíra com as guerras de pacificação do território. Para um observador externo, a  existência colectiva do povo timorense tinha sofrido  uma descontinuidade,   pois uma vez vencido na  guerra de Manufhai,   os episódios novos que viria a sofrer já não eram  um prolongamento dos antigos. Perante estes novos dados da realidade,   olhei para o material que tinha entre mãos. Fixar a história destes povos na sua longa e perigosa marcha é extremamente difícil. Uma das razões pode ser aduzida do facto da sua vida colectiva não possuir a característica ocidental da circularidade imutável em que mesmo com retrocessos se processa uma continuidade na vivência histórica. Na verdade, havia já factores de coesão que se viriam a manifestar na Resistência ao invasor indonésio e que paradoxalmente surgiu no território com uma corrente nacionalista que estava sintonizada com os nacionalistas indonésios liderados por Sukarno na sequência da invasão nipónica.
    Em A Batalha das Lágrimas a intriga, de facto, perde-se na linearidade factual dos sucessivos episódios da guerra. A intriga perde-se porque estas histórias são histórias da resistência e dos vencidos e não as dos vencedores. Nos vencidos, à excepção dos que possuem uma arte, a arte da resistência que  Dante, na Divina Comédia , define como  a capacidade de resistência às adversidades e aos inimigos políticos, tudo se dissolve no inacabado porque a espoliação de que foram vítimas lhes rouba os fios da própria existência. Havia ainda que ponderar que na nossa cultura há uma oposição entre o oral e o escrito. Nas culturas orientais essa oposição não existe. Mesmo na cultura chinesa, a oposição que existe  é entre o gesto e o discurso. Lembremos a Questão dos Ritos Chineses, essa controvérsia que se travou nos séculos XVII e XVIII, isto é de 1631 a 1743, quando se iniciava a evangelização da China. Assim, na medida em que a escrita muda a natureza da narrativa oral, pois pelo  facto de passar para a forma escrita, o texto corta as amarras que o ligavam à oralidade, chamei-lhes crónicas e não contos . Crónicas no sentido dado às Crónicas Italianas de Stendhal, pela diversidade das fontes, escritas e orais e pela liberdade de invenção no tocante aos personagens mas não aos factos que se erguem sobre fundo histórico.
    Todas estas crónicas têm as suas fontes históricas assinaladas nas notas finais de cada uma delas. Entre as fontes portuguesas  não se verifica já a dispersão das fontes e dos documentos que estão na base do primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Ora esta concentração resulta da racionalidade imposta pela mudança  de estatuto da colónia.   Na documentação que esteve na base do 1º volume,   à medida que li todos aqueles  livros, relatórios militares,  documentação avulsa e notícias dos jornais, os personagens  foram-se-me  impondo, quer porque os autores desses documentos os consideravam heróis nacionais, fossem portugueses, goeses ou timorenses, quer porque sendo gente obscura acedeu à História por infracção, isto é, as suas vidas cruzaram-se com o Poder, passando a fazer parte dessa pluralidade de vozes que se perdem no tempo, os infames como os descreveu Michel Foucault em La Vie des Hommes Infâmes : «Vidas breves, achadas a esmo em livros e documentos».
    Ora depois da pacificação do território como lhe chamou Celestino da Silva, tudo passou a ser diferente aos olhares dos observadores, militares e administrativos que relataram os acontecimentos havidos no século XX, em vésperas da 1ª Guerra Mundial: à excepção de D. Boaventura de Manufhai, não foi registado nome algum de timorense, todos passaram à categoria dos vastos e anónimos, fenómeno registado  por Rilke e mais tarde por Canetti como os «sem nome».
    É minha convicção que o povo de Timor-Leste rasgou a noite de um longo sofrimento e de uma deriva histórica perigosa para a sua sobrevivência como povo até nos surpreender a todos nós Portugueses  e ao mundo inteiro tornando-se a primeira nação do século XXI, Timor Loro Sae.A sua coragem, determinação e capacidade de sofrimento foram por assim dizer a minha veste de luz, e  acolhi a inspiração que deles recebi nesses duros tempos de horror e de esperança. Indo a mais de meio do meu trabalho, apenas espero ter contribuído para a definitiva reconciliação da família timorense. Sobre tantos personagens colhidos aqui e ali apenas vos digo como Saint-Exupéry em O Principezinho :«Só se vê com o coração; o essencial é invisível aos olhos». 
      
    Crónicas Timorenses — estas crónicas abrangem um período que vai de 1910 a 1965.Dada a interferência no território de vários protagonismos  quer antes quer depois da 2ª Guerra Mundial, a autora deu à progressão dessa realidade complexa a forma de contos  por se basearem em  documentação escrita e oral. São estas as crónicas: D. Manuel dos Remédios —  breve texto sobre o exílio e morte na serra de Lavater deste liberal timorense perseguido pelas autoridades militares e religiosas em 1878;  O Cofre e a Espada — a autora desenvolve e aprofunda, a partir de personagens timorenses, a trama que leva  à guerra de Manufahi  quando em Portugal vigorava o novo regime — a República. A autora segue o desenrolar deste conflito baseando-se  na obra do oficial da Armada,  Jaime do Inso, intitulada Timor-1912 ;Folhas soltas no bosque — a acção deste conto que se baseia nas informações contidas  no livro Funo-A Guerra em Timor de Carlos Cal Brandão, decorre no rescaldo da  retirada  nipónica de Timor, em Agosto de 1945; Funan-Mutin (Branca- Flor) —  a chegada dos oficiais milicianos e suas esposas a Timor-Leste, as consequências  do golpe contra Sukarno e também   sobre os ventos de mudança que se anunciavam em Portugal e nas colónias.  

    Excerto de Funan Mutin (Branca Flor)

    Joana Ruas - Lisboa

    E, como ela saísse para a rua , o cabo seguiu-a e perguntou: — Para onde vai, Fulan Mutin?
    —  Sou Maria Benedita,  filha de D.Carlos e estou lá para os lados da praia. A noite não tarda a cair e eu não quero viajar às escuras.
    Maria Benedita chamou Olímpio e começaram a subir morro acima seguidos pelo cabo. Estavam já  naquela plataforma ondulada e sulcada de vales estreitos onde serpenteavam pequenos arroios alimentados pela  água suada pelos montes ensopados  e tendo em frente, velando como uma estátua de pedra, as escarpas do Mate-Bian e o céu tão perto das cabeças que parecia repousar placidamente sobre o Mundo Perdido, quando  o sino da Missão começou a tocar a finados. O rosto do cabo tornou-se grave.  
     
    —  Eu acompanho-a até casa. O sino, quando toca antes de eu começar a jogar, dá-me azar. Mas espere aqui por mim que eu não dei resposta ao chinês.
    E, tendo-se desculpado pela viagem perante o china,  Filomeno partiu com Maria Benedita.
    Olímpio que com a espera se deixara adormecer debaixo de uma árvore, quando Maria Benedita lhe tocou no ombro para o acordar,  apesar de estremunhado, espantou-se de a  ver  com um desconhecido que depois de  pegar em Maria Benedita pela cintura,  a  colocou em cima do cavalo. E mais espantado ficou quando o desconhecido, sem cerimónia, tomou  o cavalo dele  para o montar. Já encolerizado com tanto atrevimento,  levantou-se de supetão e gritou: — E eu onde vou? 
    Como nem ela nem ele cuidassem da sua pessoa, Olímpio achou melhor calar-se para ver se entendia melhor o que se estava a passar e foi andando a pé atrás deles que não pareciam apressados, pelo contrário, iam calados, mas Olímpio captou qualquer coisa no ar, impalpável mas demasiado presente para ser irreal. Era como se o mundo estivesse, de repente, todo sossegado. Pegou num galho para bater as ervas do caminho mas susteve o gesto. Podia-se quebrar o encanto e, mesmo só podendo vê-los de costas, sentia que apesar de montados em cavalos diferentes eles iam andando como se fossem uma só pessoa, uma só respiração, um só alento. Iam os dois tão paradamente andando que as borboletas poisavam nas crinas dos cavalos, nas orelhas e nas caudas. Quando em uníssono se olharam olhos nos olhos, os cavalos, sentindo-lhes a leveza,  ousaram baixar as cabeças e puseram-se a comer erva. Olímpio tossiu. Os cavalos começaram a trotar. E, como tivesse que correr atrás deles, gritou-lhes que parassem.
    Eles olharam para trás e começaram a rir.   
    As nuvens corriam velozes  pelo céu fora. A saia azul do vestido de Maria Benedita enfunou-se como uma bandeira, o chapéu caiu-lhe para os ombros e as fitas da cintura levantaram-se para lhe bater no rosto. Pararam. Maria Benedita trocou  o vestido  pela lipa e prendeu o chapéu com um lenço que atou com um nó debaixo do queixo. Quando continuaram a viagem, o vento despenhava-se do céu descendo as montanhas num vozeirão tremendo, galgava colinas e prados e, ao passar junto às gargantas dos rochedos, atirava-se pelos desfiladeiros em assobios sibilinos. As montadas dispararam vale abaixo. Cavalos selvagens, soltando-se da manada, fustigados pelo vento que lhes desatava as crinas revoltas, acolhiam como uma riqueza inestimável o  vigoroso abraço da ventania, empinavam-se e relincham numa saudação estrepitosa, expondo as narinas ofegantes à picante  carícia do ar fresco. Os viandantes embrenharam-se na floresta onde a ventania sossegada rumorejava no cimo das árvores altíssimas até que saía da densa folhagem e, já cansada, se ia estender como uma brisa fresca sobre o mar. Desmontaram para descansarem. No meio da floresta , o vento entrava ali devagar como num templo. A atmosfera carregava-se do  perfume das flores e, no ar um pouco agitado, ainda as pétalas tombavam das árvores em miríades esmaltando a terra fofa. O vento trazia rumores vários, cicios e assobios e a frescura de uma primavera breve. Para as flores dióicas chegavam as núpcias: o seu pólen espalhava-se nos ares como o sorriso de um deus amarelo e,  no recesso das folhas, na benigna obscuridade que as cercava, as flores aceitavam com um frémito voluptuoso a carícia da brisa e, enlanguescendo, derramavam-se lançando no seio da doce brisa o pólen fecundante. Os ninhos castanhos ou cinzentos recebiam o benefício de uma leve pétala branca poisando no seu ovo azul. O botão da flor da lua, ao sentir a aproximação da noite, estremecia um pouco e entreabria-se para desabrochar, caprichosa, na noite alta. Tinham-se sentado em frente um do outro. Ele tirara a camisa para ela se sentar nela e Maria Benedita olhava o seu peito largo e forte de filho das montanhas. Ela enrolara nas mãos um lenço de seda bordado a violetas e ficara de olhos baixos, submissa e grave. O seu rosto perdera a jovialidade e os olhos, a vivacidade. Mesmo quando chorara ele vira por detrás das lágrimas a vivacidade tenaz, a determinação juvenil e quase caprichosa por um objectivo. Agora via-a de semblante grave e olhos que escondiam uma súplica. Ele desfez o nó que lhe atava as mãos postas e, tomando-as entre as suas, levou-as à testa.  
    —  Eu começo a sofrer  antes mesmo da despedida. No corpo e na alma. Agora, quer partas ou quer fiques,  já não sou mais moça, sou mulher antes de ser noiva.
    —  Eu estou aqui para responder ao teu sentimento. Vou pedir-te em casamento ao teu pai. 
     

    Contos do Fantástico

    Jorge de Oliveira - O País
    É uma obra de muitas culturas (religiosas, locais, naturais, espirituais), mostrando o quão diversificado é este povo e, no fundo, olhando para esse tempo longínquo com a possibilidade que a distância temporal permite...
    De Aníbal Aleluia, escritor moçambicano já falecido, publicaram-se duas obras, “Mbelele e outros Contos”, “O gajo e os Outros” e, agora, “Contos do Fantástico”. Esta última, escrita em 1988, é de natureza totalmente diferente do que têm sido, ao longo dos últimos anos, as obras literárias moçambicanas.
    1. Com uma linguagem erudita, muito apurada, temáticas comuns, mas tratadas de forma bastante diferente, a obra trouxe estórias de ficção baseadas no além, naquilo que as pessoas muito falam, só que ninguém alcança. A maior parte dessas peripécias são resultantes do que ouviu ao longo das suas viagens por este país fora;
    2. Até a leitura e crítica social apresentada tem um cunho e uma forma não muito simplista, o que obriga o leitor a recorrer a uma análise baseada na conotação;
    3. “Cria, inventa, procura, experimenta. Observa com os teus próprios olhos. A ti é que mais interessam os fracassos e os triunfos. A eles não os afectam. Se tiveres aborrecimentos não serão eles a saná-los, embora, caso tenhas louros, sejam os primeiros a enviar relatórios às suas direcções para valorizarem as suas informações de cada ano, com vista a futuras promoções”;
    4. É um texto com linguagem muito apurada, dir-se-ia mesmo um português arcaico que nem a todos atinge, exigindo muitas vezes o recurso ao dicionário, mas de uma beleza acima do comum. Um estilo agradável, diferente do usual, e que nos faz sorrir e perceber que a língua também é um espaço infinito de que nenhum humano se pode apropriar na totalidade;
    5. A dado momento recorda o “Piratas das Caraíbas”, com seres meio humanos meio aquáticos a viverem em baixo da água, com muita escravatura à mistura, e, por outro lado, vale pela mostra de aspectos culturais que, em tempo de colonização, diferenciavam a visão do colonizador da do colonizado;
    6. “Meteu-se imediatamente no mato. Estava ansioso e já antegozava o seu triunfo sobre os javalis. Gostava que os animais alvejados dessem luta. Quando o javali eriçava as cerdas, expedindo chispas dos olhos pequenos, e o seu rosnar transformava-se num som agudo, Luís sentia-se mais homem, porque o animal parecia lançar-lhe um desafio. Então os seus músculos ganhavam dureza, rilhava os dentes e avançava afoito como se se quisesse entregar a um violento corpo a corpo”;
    7. É uma obra de muitas culturas (religiosas, locais, naturais, espirituais), mostrando o quão diversificado é este povo e, no fundo, olhando para esse tempo longínquo com a possibilidade que a distância temporal permite, como vários tabus e preconceitos (que sempre foram demasiados) foram sendo ultrapassados sem nunca terem sido explicados (o que é óbvio, porque sempre se basearam em mentiras e lendas sem base científica nenhuma);
    8. Livro de enorme riqueza narrativa, apresenta episódios que se vêem, logo à partida, tratar-se de imaginações que nunca existiram, assentes em dogmas e mentiras embutidas, ao longo de décadas, nas pessoas, até, por mais incrível que pareça, se tornarem defensáveis por alguns charlatões. E alguns dos exemplos mostram isso, como o caso de um fantasma de mulher que apanha um mulherengo, das profecias amaldiçoadas que são feitas entre humanos e se cumprem, de contactos com mortos, de Homens – Animais, de pessoas que não se pode prender ou bater e até sereias;
    9. “E todos tinham medo dele. Os conselheiros, em vez de conselhos, gritavam ditirambos. O ‘censor público’ instituído pelo régulo velho para moralizar a corte e a sociedade não teve similar no Sudoeste. Aliás, Macarala não deixava os indunas falarem, salvo para proferirem elogios. E o Sudoeste começou a empobrecer, acabando por cair numa indigência generalizada, enquanto o régulo vizinho, herdeiro do Velho, com uma política sã, desenvolvia as suas terras, promovendo a felicidade do seu povo”;
    10. Contos do Fantástico deve ser lido para se ganhar várias coisas, dentre elas relembrar algumas realidades dos tempos de outrora, desfrutar de uma leitura agradável (até pelo desconhecimento de alguns termos, o que é caricato), para se aprender novos termos (os tais arcaicos) e se poder avançar na direcção de novos momentos na nossa civilização.
    11. É um mergulho nas amarras de um povo que tem tanto de belo como de inexplicável.

    Sangue Novo - 21 Poetas Baianos do Século XXI



    A coletânea Sangue novo – 21 poetas baianos do século XXI, publicada pela Escrituras Editora, de São Paulo, terá lançamento em Salvador, no dia 23 de julho de 2011, das 10 às 14 horas, na livraria LDM Multicampi, na Rua Direita da Piedade.Sangue novo conta com organização do poeta José Inácio Vieira de Melo e com apresentação do escritor Mayrant Gallo. A ilustração da capa é de Fernando Aguiar, artista plástico e poeta português.

    Relação dos 21 poetas:

    Alexandre Coutinho
    André Guerra
    Bernardo Almeida
    Caio Rudá de Oliveira
    Clarissa Macedo
    Daniel Farias
    Edson Oliveira
    Érica Azevedo
    Fabrício de Queiroz
    Gabriela Lopes
    Georgio Rios
    Gibran Sousa
    Gildeone dos Santos Oliveira
    Janara Soares
    Lidiane Nunes
    Priscila Fernandes
    Ricardo Thadeu
    Saulo Moreira
    Vânia Melo
    Vanny Araújo
    Vitor Nascimento Sá 

    Extraido do blog do Poeta José Inácio Vieira de Melo: http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com

    Ficção brasileira que chegou aos EUA e à Itália

         Luana McCain - Brasil   
      
    'O Enigma do Guarda-Roupa é o primeiro volume da série Horror, composta por cinco títulos´independentes, cujo objetivo é proporcionar calafrios de medo no leitor, mediante histórias arquitetadas no sobrenatural e nas profundezas da mente humana.
    Com enredos simples, capítulos curtos e linguagem rápida, sem rodeios, os livros pretendem alcançar o público que não dispõe de tempo suficiente para leituras áridas, menos ainda o de fazer longos exercícios de imaginação.
               Pretendem, também, transformar o ato de ler em momentos inesquecíveis, de modo que estes despertem o interesse, a curiosidade e motive o leitor a encantar-se com o universo da leitura.
               Em O Enigma do Guarda-Roupa, o sobrenatural comparece da primeira à última página.
    A história é contada de forma nua, crua, sem requintes, por uma adolescente que terá sua vida completamente virada de cabeça para baixo quando sua família resolve mudar-se para um sinistro casarão.
    Lá, depara-se com um antigo guarda-roupa que, conforme a última moradora, é mal-assombrado.
    No início, atribui a história a boatos. Mas após uma sucessão de bizarros acontecimentos,  começa a perceber
    que há uma presença macabra à espreita.
    Será que a adolescente conseguirá desvendar a tempo o enigma do guarda-roupa?'



    Sérgio Simka
    É professor universitário e escritor. Coordenador do curso de Letras das Faculdades Integradas de Ribeirão
    Pires (FIRP). Seu site: www.sergiosimka.com.


    Luana McCain
    Cursa Letras, é colunista, revisora e suicida.


    Seri
    É jornalista e ilustrador. Trabalha no jornal Diário do Grande ABC, de Santo André-SP.





    Páginas: 72
    Edição: 1ª
    Ano: 2010
    Editora: Iglu
    ISBN: 978-85-7494-131-8
    Formato: 21,00 cm x 14,00 cm
    Peso: 91g



    AEMO lança “Contos do Fantásticos” de Aníbal Aleluia


    Por Eduardo Quive - Maputo
    Um dos emblemáticos na história da literatura moçambicana, Aníbal Aleuia, embora já para além do mundo dos vivos, desde 1993, teve os seus contos publicados na última sexta-feira em Maputo, pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO).
    O livro que se intitula “Contos do Fantástico” é a revelação de estórias, do misterioso mundo africano e, em particular, moçambicano, escritas pelo autor em 1988, antes da sua morte e que 20 anos depois, segundo Jorge de Oliveira, Secretário Geral da AEMO, a literacia dos mesmos não perdeu-se “a qualidade é inédita e o que escreve, até parece contemporâneo.”
    Palavras como Tinlholo, Mhamba, entre outras citações relacionadas com feitiçaria ou a dita magia negra, que constituem o mundo do obscurantismo em que muitas famílias moçambicanas ainda vivem, podem ser encontradas na obra.
    Aliás, são estes elementos antigos mas que não passam da literatura actual, que com “magia” e eloquência, Aníbal Aleluia escreveu para os homens de hoje, como se ao seu lado estivesse.
    Jorge de Oliveira, sobre o facto de se lançar as obras deste escritor a título póstumo, referiu que “Morre o homem, mas a obra fica” e para além disso “o conteúdo desta obra é de grande qualidade literária e transmite estórias do quotidiano que nunca passa.” Concluiu.
    Breve Apresentação do Autor
    Aníbal Aleluia, identificação de Henrique Aníbal Aleluia, nasceu a 30 de Agosto de 1921, em Inhambane, e faleceu a 14 de Maio de 1993. Usou, por vezes, os pseudónimos de Roberto Amado, Augusto António e Bin Adam.
    Exerceu vários ofícios, tais como carpinteiro, enfermeiro, professor, secretário administrativo, jornalista, ficcionista. Colaborou em diversos jornais e revistas como: “Itinerário”, “O Brado Africano”, “Elo”, “Revista d´Aquém e d´Além-Mar”, “Voz de Moçambique”, “Charrua”, “Tempo”, “notícias”, “Domingo” e “Vértice”. Publicou os livros “Mbelele e Outros contos”, 1987, “O Gajo e os Outros”, 1993, a título póstumo.

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