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    POEGRAFIAS: A Moça do Pateta MUSSA MBIQUE

    Amosse Mucavele - Moçambique


    Á ilha................. onde te conheci.
    Minha macua Samira
    Ilha cor azul do meu lençol, camarão que dorme na boca do meu anzol
    Espero que aceites esta oferenda de mar e sol
    Afrodite com m’siro no rosto misturado de prazeres milenares
    Tu que espalhas felicidade na minha fortaleza
    Os homens do além mar assaltaram o seu coração sem pedir licença:
    O 1º fez-te mulher
    O 2º fez-te escrava
    Moça linda , filha única
    Inundaram-te de nomes/ raças: Lisboa, Goa, Salvador, Mossuril, terra da                          boa gente e pergunto: onde deixaram o Muhipiti?
    Despiram-te a roupa( os árabes) e cobriram-te de túnicas
    Tornaram-te prisioneira dos seus anseios .
    mas o vento derrubou os cárceres.

    CONTO CONTIGO:Entre (à) vista do Madala Kelembe


    Japone Arijuane - Moçambique

    A dorava eu, ao crepúsculo da tarde, nas vezes que a sedução do álcool e do clima falassem tão alto, fazer-me presente numa barraca algures na cidade de Quelimane. Já que existem de forma retumbante barracas que bibliotecas; aliás, em Moçambique no geral. Actualmente professa-se o culto pelas e nas barracas. É
    sempre assim quando o espírito de decadência atinge um país; nada mais que as pessoas acobardarem-se no álcool. Voltemos ao que interessa. Quando lá eu fosse; encontrava-me sempre com um homem, um homem com idade a esbranquiçar-lhe a carapinha. Um desses dias, cansado de o contemplar decidi enfrenta-lo. E lembro hoje, a nostalgia deste passado; este pássaro que sobrevoa-nos nas costas, que por
    vezes faz ninhos em algumas cabeças. O madala chamava-se kelembe; um velho despreocupado, mantinha sempre o seu olhar médico nas coisas. Abordei-o, colocando as questões de LEAD de qualquer bate-papo; lá veio, dizendo coisas que naquela altura eram para mim tão estranhas. Dizia o madala, que foi em tempos um estivador do ónus da desgraça; sua vida passeava nas mentes alheias, como pertence doutrem. Viveu para dar sentido a vida, para ele viver e continuar vivendo não era um acto heróico, mas sim autêntica cobardia. Para quem não vive por nada, melhor morrer por algo. Mas o que fazer?, quando não existe o tal algo para fazer?
    Se a vida é, em si, uma tremenda ilusão; quando achamos que perdemos, lá vem um sentimento que nos diz, um dia podemos vencer, e vivemos esperando esse dia chegar; por vezes esse dia nunca chega, se chega não é como idealizamos. Dizia estas palavras como quem nada queria dizer. E prosseguia, calmo e sereno, em jeito de suspiro, com os dedos a roçarem os já esbranquiçados bigodes; — Muitos anos de vida, nenhum vivido.
    Aquelas palavras eram-me indiferentes. Só hoje me entristeço; e fico realmente muito agastado. A lembrança de um velho na tamanha idade, a não sentir-se feliz por viver tanto tempo. No rosto, mas nada, se não tédio e angústia; angústia dos dias que viu passar. Continuamos; não me lembro precisamente da questão mas, eis aqui a resposta:
    — Tenho mais medo de viver que morrer! Entrego-me a morte como quem soubesse o que é morrer, mas a vida que eu levo sempre sujeita-me a morte. Se morrer é acordar de novo, então quero nunca dormir este novo acordar. Eu vivo, sem vida para viver!
    Quando quis saber mais acerca do tempo que levou e os dias que viu nascer e morrer nas noites; e o que ele fez. A resposta dessa questão me persegue até hoje; como um cão solitário que viu uma cadela passar. O Madala falava com cio nos sentidos, com raiva na língua. Dizia com todas as letras que morrer é melhor que
    estar como esta ele na vida. As oportunidades vão sempre para os oportunos; a sorte é uma gaiola em que os pássaros quando livres não voam. Tudo na vida resume-se numa armadilha, em que o desfazer é praticamente deixar de ser.
    Falando na suas palavras ele dizia e redizia:
    — Até que teria tudo!, hoje, tenho nada! Atropelei os sonhos da minha desastrosa vida! Tentei mas não consegui! Lutei e não venci! Há quem dizia que nunca é tarde; mas para me, entardeceu demasiado, que até ficou escuro. Escuro este que ilumina meus dissabores.
    O Malada Kelembe encontrava-se deitado no asfalto do tempo, esperando um veículo qualquer de cargas de almas para esvaziar a sua; e talvez assim, fazer-lhe algo. Já que nada conseguia fazer por ele, até mesmo a morte. O Madala vivia esbanjando palavrões; sem saber nada, muito menos ser gente. Mas uma coisa ele
    sabia, até certeza tinha; a liberdade. Sabia que a liberdade era natural, que homem que é homem não a prende a ter, muito menos a ser. A paz é a simplicidade de ser; a justiça a única forma de estar; o homem é feito de verdades e de sensualidades, a qual divinizaram e chamarão de amor. E dizia ainda, que ele é o que é, por que a vida é o que não deveria ser; assim como ele é o que não deveria existir. Quando questionei sobre se ele nunca tentou empregar-se, ironicamente disse: cárcere! escravatura sofisticada, assim como era o tradicional escravo. Hoje trabalha-se em troca de pão e ínfimo lugar para passar poucas horas, pois as maioritárias devem passar-se em trabalho. Dizia ainda que o emprego era acima de tudo um banquete servido na boca dos tubarões; música linda entoada por pássaros no cárcere.
    — Eu até seria um bom gestor, banqueiro, PCA de qualquer firma. Se assim fosse, teria uma casa, esse cárcere; um cão no quintal. Hoje tenho uma casa que é a liberdade!, e um cão vadio, claro que sou eu!
    Quando já preparava meu rol de questões, o madala levantou-se e disse:
    — Só ou não independente?! Fui! Só hoje arrependo-me de não o ter exprimido totalmente, de não ter-me embriagado pelo seu teor douto, meramente independente. Eu bem que podia o procurar e prosseguir com a eloquente conversa.
    Lembro-me, mas, que naquela fatídica tarde permaneci ali, jogando meu futuro no álcool e nas gastas meretrizes, ambulantes carnudas delas mesmas, que exibiam-se arredores. E hoje… quem dar-me-á tal sapiência?, quem será tão independente? nesse país que se mostra cada vez mais na decadência intelectual e na progressão bajuladora. Quantos Kelembes existem?, se é que existem!

    A Conversa entre o Chá e a Solidão


    Celso Munguambe - Moçambique

    A solidão:
    - já viste como a rua anda movimentada esses dias?
    O Chá:
    - nem digas, logo que amanhece as pessoas colocam o pé fora de casa, algumas nem tem tempo de tomar o pequeno almoço como deve ser , outras nem tomam.
    A Solidão:
    é verdade. Outras fazem tudo por dinheiro , são capazes de matar, mentir, fingir gostar de alguem, até chorar. Para depois no final ficarem sozinhas com o dinheiro,mansões, carros de luxo que de nada valem quando tidos só, ou seja, podem servir até para ela comprar um homem mas já mais irá comprar o amor, amizade, afecto verdadeiro porque isso não se compra, conquista-se.
    O Chá:
    - os tempos mudaram meu querido amigo, as pessoas pensam que dinheiro compra tudo, quando falamos de amor nos dias de hoje já nem se sabe se ele existe. É certo que o dinheiro é importante para nossa sobrevivência no dia-a-dia: para comprarmos bens materiais, termos uma refeição condigna , mas ele não é tudo.
    A Solidão:
    - é isso ai meu companheiro, mas há pessoas que não entendem isso que cham que com o dinheiro podem fazer e desfazer e terem o que bem entenderem.
    Enfim, é assim que correm os dias de hoje
    O Chá:
    - sem dúvidas, não recordas do que dizia o magnifico presidente Samora M. Machel?
    A Solidão:
    - não, o que?
    O chá:
    - “ um ambicioso é capaz de tudo, vender a pátria só porcausa da sua ambição, do seu interesse individual. Não sei se um ambicioso muda, mas a minha experiência prova que não, muda de táctica, mas não elimina a ambição”.
    A Solidão:
    - e alguns venderam mesmo, sem dó nem piedade e venderam também a vida de um homem, que era um impecílio para os seus interesses gananciosos... é melhor eu para por aqui antes que comece a falar coisas que não devo
    O chá:
    - é verdade se não vais acabar como o jornalista ou aquele do ex Banco Austral que agora é Barclays.
    Mudando de assunto, é de notar também alguns aspectos positivos.
    A Solidão:
    - quais?
    O Chá:
    - a nossa gente tem sonhos, é trabalhadora batalhadora e perseverante.
    A Solidão:
    - é verdade pode perder a batalha mas não perde a guerra.
    O Chá:
    - com muito barrulho e várias greves os orgãos competentes acabaram por reabilitar a principal via de acesso a cidade de Maputo e que da acesso as outras provincias do nosso país. Promoveram também a recolha de lixo na cidade e arredores, montaram postes de iluminção em algumas ruas, enfim...
    A Solidão
    - não fez mais do que o seu trabalho...

    1 HORA ( Em casa de Narguiss)*

    Lilía Momplé - Moçambique


    Q ue força é esta que não a deixa levantar-se e correr para o seu Abdul que , já impaciente, quase derruba a porta aos pontapés. “ Não grita...Espera só pouco”, roga ela, tremendo de receio que ele se vá embora.
    Mas Abdul não se vai embora, continua a dar pontapés na porta e a gritar como se alguém, lá fora, lhe estivesse a fazer mal. E ela sem poder abrir aporta. Está tão perto, só alguns passos, poucos, tão poucos que ela resolve ir de rastos, já que não consegue pôr-se de pé. Lutando contra a força que a paralisa, avança com lentidão que os gritos de Abdul tornam insuportáveis.
    Está quase...um pouco mais...agora é só levantar o braço, alcançar a fechadura e rodar a chave...uma, duas vezes. Mas o braço pesa-lhe... pesalhe tanto...não consegue...não...
    Narguiss acorda a transpirar, apesar do cacimbo de Maio que entra pela porta de rede que liga a cozinha á varanda. “ Afinal tudo pode ser um sonho...Abdul não vem”, lamenta ela, desiludida, á sua volta.
    Foi um sonho terrível, mas Abdul. Era melhor do que estar assim sozinha, sem marido, no dia de Ide.
    Não se lembra de ter adormecido sentada, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a mesa da cozinha. Lembra-se, no entanto, do pesadelo de onde acaba de emergir e da estranha sensação de ter visto Abdul através da porta que ele batia com os pés por ter as mãos cheias de embrulhos.
    “Mas pode ser tudo sonho, mesmo. Abdul não está aqui”, geme baixinho. Experimenta mexer as pernas e os braços e constata, aliviada, que lhe obedecem perfeitamente. Tudo foi mesmo sonho. Abdul não veio e nada lhe tolhe os movimentos. Porém... os gritos e o barulho esquisito que chega da rua não é sonho, não. São reais e cortam o silêncio da madrugada, com assustadora nitidez.
    Curiosa. Narguiss rebola o corpo imenso até á porta de rede e sai para a varanda. A princípio não quer acreditar no que vê. Supõe mesmo ter mergulhado num novo pesadelo, tão estranho lhe parece tudo.
    Na varanda do primeiro andar , mesmo em frente, o casal que lá vive e que ela só conhece de vista, desfaz-se em gritos. Ela grita apenas por socorro e ele, embrulhado no que parece lençol, repete qualquer coisa que Narguiss não consegue compreender. De vez em quando, grita também por socorro.
    Apesar da escuridão da noite sem lua e d acácia rubra que os oculta um pouco, Narguiss consegue vê-los agora, perfeitamente, iluminados por holofotes manejados da rua. O homem continua a bradar qualquer coisa incompreensível e a mulher não para de pedir socorro. De repente, põem-se a correr de um lado para outro lado, na exígua varanda, numa dança
    macabra.
    Narguiss não sabe se as balas que os atingem vêm de dentro de casa ou dos homens dos holofotes que também disparam sem cessar. Mas , quando os vê cair, desta ela a gritar.
    - Está matar gente... muanene inluco... está matar gente... ali... muanene inluco...
    Não vê o homem que, da rua, lhe aponta a arma pois toda atenção está centrada na varanda da flat em frente. As balas atingem-na, certeiras, no pescoço e no peito e ela espanta-se da sensação de infinita paz que a acompanha na queda. Já nada a faz sofrer, nem o Ide sem ver a lua, nem as filhas sem casar, nem mesmo o Abdul.
    Como se o enorme corpo se recuasse a ceder, dá uma volta sobre si mesma e , escorregando lentamente, Narguiss cai por fim, sentada, com as costas apoiadas no gradeamento da varanda. E é assim que, pouco depois, as filhas alertadas pela gritaria e pelos tiros, a vêm encontrar.

    *in Neighbours  pag 107 e 108, 3ª Edição da autora 2008
    Glossário
    muanene inluco – Meu Deus – Língua Macua- falada no norte de Moçambique
    particularmente na Provincía de Nampula
    ____________________________________
    Lilía Maria Clara Carriére Momplé nasceu a 19 de Março de 1935, na Ilha de Moçambique, fez o ensino secundário na então Lourenço Marques( hoje Maputo). Frequentou o 2º ano de Filologia Germânica e licennciou-se em Serviço Social no Instituto Superior do Serviço Social de Lisboa, viveu em londres, Baía, São Paulo. De volta á Moçambique,trabalhou no Ministério da Cultura,onde foi Directora do Fundo para o Desenvolvimento Artsitíco-Cultural, Secretária Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. É membro da Southern African Writers Council.
    Em 1997 participou no International Writing Program, na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos de América.

    Obras Publicadas:
    Ninguém Matou Suhura 1988 – Contos
    Neighbours 1995- Romance
    Os olhos da Cobra Verde 1997- Contos
    As suas obras estão Publicadas na Itália, África do Sul,etc.

    A prostituta que me provou o teste

    Izidro Dimande - Moçambique


    Sexta-feira. Na cidade. Meia-noite. Lua cheia. Verão de Dezembro.
    As miúdas alegres na carne masculina que enfileirava a rua delas. Os guardas mais ricos ficavam no aluguer dos sítios.
    Eu (Mbopene), Xiguimane, Muzila vestidos de roupa de passeio descemos a cidade baixa com a ejaculação na mente. Mente esta que estava alcoolizada de tantas garrafas derrubadas no covil da Xitique. Mulher incerta e experiente na arte de vender aos assalariados que mês á mês colhia do cantineiro, do camionista que chegava ao mercado vender hortícolas e legumes, do armazenista que descarregava vagões de produtos contrabandeados, do mulungo do escritório.
    Descemos nos cânticos de alegria e no provoco dos inocentes que cruzaram caminho com os três assalariados.
    Mulheres expostas na rua como se de manequins das lojas fossem caminhavam em direcções incertas a vender o que entre as pernas lhes é sagrada.
    No silêncio dos homens atenciosos e na boca larga do Muzila ouviu-se uma frase grave, aterrorizadora, inerte, grossa, má, que deixou os homens de verdade silenciosos, as mulheres da rua a vociferarem, os seguranças das boates a entrarem na zaragata.
    - Calma ai! Não foi isso que ele queria dizer e não se referia a senhora.
    - A quem dizia, eu ouvi, foi esse cão duma figa que disse.
    - Vais apanhar que nunca viste hoje, nos estão aqui a fazer a vida e tu se não queres nada fica em tua casa. Seu nquenho.
    - Pega ai, e vocês não se metam se não apanham também, leva o gajo para lá em cima. E vocês ficam aqui. Quem seguir apanha, juro mesmo. Este tipo vai aprender.
    Sumiu na escuridão da garagem daquele edifício. Fiquei lúcido. Pensei na polícia. Pensei em fugir. Pensei na milícia. Pensei.
    - Agora vás dizer de novo aqui que disseste na rua ou vás fuder com a malta.
    - Juro que não dizia a vocês.
    Gritos de dor, de tristeza, de amparo. Ninguém ouve. Fraqueza do homem.
    - Tira-lhe as calças e a camisa e a cueca se tiver.
    Nu. Amarrado contra dois postes de canalização de água ali colados a parede. Gritava. A primeira tirou a calcinha. Nua ia ficando. A outra apalpava-lhe o que o homem preserva. Outra metia um lencinho a boca para lhe silenciar. Apalparam-lhe. Acariciaram-lhe. Chuparam-lhe como se de rebuçado fosse.
    Ficou erecto mesmo com dor. Calou-se com lágrimas de medo.
    - Vais dizer mas aqui?
    Silencio mudo.
    A nua segurou-o e introduziu na miúda. Fez movimento que animais em cio, sentiu
    prazeres, gemiam na doçura do acto sexual. Ia perdendo o directo ao medo, ia perdendo o medo a vida, ia ficando com mas prazeres.
    Saiu e entrou a outra, mas brava na arte de satisfazer o cliente mexeu com tudo, sentiu sua vagina delirar, sentiu sua vagina amadurecer, sentiu o pénis fazer-lhe sentir o prazer da vida. Mijou.
    - Agora vai dizer aos teus amigos aquilo que você pronunciou na rua. Saíram de volta ao serviço. Feliz e ele enforcado com o sexo grátis.
    Teve medo de voltar a ver seus amigos, quando no fundo da escuridão ouviu vozes se aproximando em seu auxílio.
    - Então? O que te fizeram Muzila.
    - Sexo sem protecção.
    - Vamos a policia faz queixa, se te transmitiram o sida a força.
    Um ano depois enquanto Muzila cuidava dos seus afazeres, surgiu uma mulher com meia-idade, a cara era linda, o vestuário a medida. Perguntou quando custava o produto olhando para a prateleira ao lado.
    Quando os olhos se cruzaram, Muzila ficou minutos a discernir suas lembranças.
    - Conheço a senhorita de algum lado.
    - Todos me conhecem.
    - Mas não me recordo.
    Pagou a conta e saiu. Minutos depois Muzila seguia para confirmaram o local.
    - Desculpa senhorita, trabalha na baixa da cidade?
    - Onde?
    - Desculpe, na rua!
    - Sim, porquê? Já estivemos juntos.
    Silêncio.
    -Sim, recorda do jovem que a um ano foi obrigado a fazer sexo por ter ofendido três senhoritas e os homens todos ali presentes ajudaram-nas.
    - Sim lembro-me.
    - Sou eu!
    Silencio. Olhares. Perguntas por fazerem-se.
    - Como está?
    - Casada há 6 meses com um estrangeiro e mãe de um bebé de três meses.
    - A tua amiga que também me possuiu.
    - Morreu!
    - De doença?
    - Não foi isso que levou a te possuirmos, de desconfiar que nos éramos umas cheias de SIDA.
    - Foi!

    O conto do pequeno Édipo


    Suleiman Cassamo - Moçambique

    O HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com uma voz cinzenta: -Uma cerveja. Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime. A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de poucos amigos. - Vá brincar lá dentro - berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca. O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante. - Que tal? - perguntou a mulher, tentando animá-lo. Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino. - Que tal, é boa? O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o "chapa" e a casa, uma pausa para relaxar. À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo: - Boa. A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz
    tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza. O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera. - Suca daqui! - ordenou a viúva. Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe… - Dá-lhe um pacote de "Maria" - disse o cara. E acrescentou, peremptório: - na minha conta. Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço. À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou: - Boa como a própria dona? Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra. - Xixi cama! - berrou o homem. O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões: - Rua-rua-rua! Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta.
    A prostituta que me provou o teste
    S exta-feira. Na cidade. Meia-noite. Lua cheia. Verão de Dezembro.
    As miúdas alegres na carne masculina que enfileirava a rua delas. Os guardas mais ricos ficavam no aluguer dos sítios.
    Eu (Mbopene), Xiguimane, Muzila vestidos de roupa de passeio descemos a cidade baixa com a ejaculação na mente. Mente esta que estava alcoolizada de tantas garrafas derrubadas no covil da Xitique. Mulher incerta e experiente na arte de vender aos assalariados que mês á mês colhia do cantineiro, do camionista que chegava ao mercado vender hortícolas e legumes, do armazenista que descarregava vagões de produtos contrabandeados, do mulungo do escritório.
    Descemos nos cânticos de alegria e no provoco dos inocentes que cruzaram caminho com os três assalariados.
    Mulheres expostas na rua como se de manequins das lojas fossem caminhavam em direcções incertas a vender o que entre as pernas lhes é sagrada.
    No silêncio dos homens atenciosos e na boca larga do Muzila ouviu-se uma frase grave, aterrorizadora, inerte, grossa, má, que deixou os homens de verdade silenciosos, as mulheres da rua a vociferarem, os seguranças das boates a entrarem na zaragata.
    - Calma ai! Não foi isso que ele queria dizer e não se referia a senhora.
    - A quem dizia, eu ouvi, foi esse cão duma figa que disse.
    - Vais apanhar que nunca viste hoje, nos estão aqui a fazer a vida e tu se não queres nada fica em tua casa. Seu nquenho.
    - Pega ai, e vocês não se metam se não apanham também, leva o gajo para lá em cima. E vocês ficam aqui. Quem seguir apanha, juro mesmo. Este tipo vai aprender.
    Sumiu na escuridão da garagem daquele edifício. Fiquei lúcido. Pensei na polícia. Pensei em fugir. Pensei na milícia. Pensei.
    - Agora vás dizer de novo aqui que disseste na rua ou vás fuder com a malta.
    - Juro que não dizia a vocês.
    Gritos de dor, de tristeza, de amparo. Ninguém ouve. Fraqueza do homem.
    - Tira-lhe as calças e a camisa e a cueca se tiver.
    Nu. Amarrado contra dois postes de canalização de água ali colados a parede. Gritava. A primeira tirou a calcinha. Nua ia ficando. A outra apalpava-lhe o que o homem preserva. Outra metia um lencinho a boca para lhe silenciar. Apalparam-lhe. Acariciaram-lhe. Chuparam-lhe como se de rebuçado fosse.
    Ficou erecto mesmo com dor. Calou-se com lágrimas de medo.
    - Vais dizer mas aqui?
    Silencio mudo.
    A nua segurou-o e introduziu na miúda. Fez movimento que animais em cio, sentiu
    prazeres, gemiam na doçura do acto sexual. Ia perdendo o directo ao medo, ia perdendo o medo a vida, ia ficando com mas prazeres.
    Saiu e entrou a outra, mas brava na arte de satisfazer o cliente mexeu com tudo, sentiu sua vagina delirar, sentiu sua vagina amadurecer, sentiu o pénis fazer-lhe sentir o prazer da vida. Mijou.
    - Agora vai dizer aos teus amigos aquilo que você pronunciou na rua. Saíram de volta ao serviço. Feliz e ele enforcado com o sexo grátis.
    Teve medo de voltar a ver seus amigos, quando no fundo da escuridão ouviu vozes se aproximando em seu auxílio.
    - Então? O que te fizeram Muzila.
    - Sexo sem protecção.
    - Vamos a policia faz queixa, se te transmitiram o sida a força.
    Um ano depois enquanto Muzila cuidava dos seus afazeres, surgiu uma mulher com meia-idade, a cara era linda, o vestuário a medida. Perguntou quando custava o produto olhando para a prateleira ao lado.
    Quando os olhos se cruzaram, Muzila ficou minutos a discernir suas lembranças.
    - Conheço a senhorita de algum lado.
    - Todos me conhecem.
    - Mas não me recordo.
    Pagou a conta e saiu. Minutos depois Muzila seguia para confirmaram o local.
    - Desculpa senhorita, trabalha na baixa da cidade?
    - Onde?
    - Desculpe, na rua!
    - Sim, porquê? Já estivemos juntos.
    Silêncio.
    -Sim, recorda do jovem que a um ano foi obrigado a fazer sexo por ter ofendido três senhoritas e os homens todos ali presentes ajudaram-nas.
    - Sim lembro-me.
    - Sou eu!
    Silencio. Olhares. Perguntas por fazerem-se.
    - Como está?
    - Casada há 6 meses com um estrangeiro e mãe de um bebé de três meses.
    - A tua amiga que também me possuiu.
    - Morreu!
    - De doença?
    - Não foi isso que levou a te possuirmos, de desconfiar que nos éramos umas cheias de SIDA.
    - Foi!
    Poesia e Contos de Autores Africanos moçambicano (n.1962)

    O Passo Certo no Caminho Errado: A Saudação

    Nelson Lineu - Moçambique

    Quando Alberto entrou no chapa, uma questão pairava na cabeça dos passageiros: “ de que lado ele estava?”. a questão era por causa da ligadura na testa, pontos na parte exterior do nariz e os lábios inchados; propriamente, se ele pertenceria a turma do assaltantes ou dos assaltados. Com todos os olhos sobre ele, como se advinha-se o que os outros estavam a pensar, tratou de esclarecer, lamentando-se, foi assaltado, eram vinte e três horas, numa rua sem iluminação, sem policiamento; logo que saudou os meliantes, ao dar por si viu-se sem telemóvel, carteira. O estado do rosto era correctivo dos assaltantes por causa dos seus gritos - embora inconscientes - e uma resistência por instinto. A partir desse momento, as pessoas foram dando opiniões acerca das razões que podiam estar por de trás daquele incidente, os que eram a favor apoiavam os argumentos ou acrescentavam, os contras não só refutavam davam as suas posições. Um funcionário público disse que era por causa da crescente desigualdade social. Uma senhora que era revendedeira num dos mercados da cidade disse que o problema era da hora do assalto, e que a desigualdade social era algo que acontecia em todo mundo e nem todos eram assaltantes. Um empregado doméstico concordou com a senhora, mas tinha um outro factor, a falta de iluminação. Contrapôs um segurança duma empresa privada, para ele esse não era o motivo suficiente - até porque certos assaltos também aconteciam de dia -, com isso o problema era dos policias que não andam nas ruas para proteger os cidadãos, algumas vezes eles mesmos participavam nos crimes directo ou indirectamente. Rebateu uma moça que contou, que numa noite, graças a ajuda dos policias escapou de uns homens que queriam violentar-lhe sexualmente, e como agradecimento pele serviço prestado não só a ela mas ao povo no geral teve que se deitar com eles, mesmo na estrada. Os que chegavam no seu destino desciam e outros subiam, o debate continuava, mas as opiniões não fugiam muito do que os outros disseram. Quase a chegarem na paragem, um homem que estava no último banco do lado esquerdo, que até então não tinha falado nada, era como se não ouvisse o que os outros diziam, por isso todos prestavam atenção quando ele falava, seguro de cada palavra que saía da sua boca, os gestos confirmavam, o olhar decepava qualquer duvida. – Todas as posições são plausíveis, a desigualdade social podia estar atrás desses assaltos, a escuridão, a falta de segurança na rua. Pela minha experiência, o que foi decisivo e originou o assalto, foi o facto de o Alberto ter cumprimentado os assaltantes, o que revelou medo por parte dele, tornando-o vulnerável. Essa posição teve aplausos, não se sabe pelo certo, se pelo conteúdo ou pela habilidade na fala. Mas a duvida mas relevante é que todos desceram com uma mesma questão: De que lado o homem estava? Se dos assaltantes ou assaltados.

    CONTO CONTIGO: Na casa da vizinha



    Japone Arijuane - Moçambique


    Nós aparecemos como resgate, teríamos de ficar com um quarto da casa e um quarto da sala, teríamos de dividi-la ao meio, enquanto esperávamos um pedreiro para a reforma, porém alojamo-nos mesmo assim, apenas uma cortina separávamos. Eu era nocturno caseiro, meu companheiro nem por isso, vezes eram duas por semana que dormia no seu local de trabalho. A vizinha, como meu companheiro a chamava, era um furacão, sempre em erupção, cujo fogo queimávamos ambos adentro; cautelosa vigiava-me o rosto, com dotes de fisionomista, como quem controla uma fruta prestes a amadurecer. Vinha cheia dela como uma serpente, contemplava-me primeiro e desenhava no ar com a sua voz suave a palavra – olá; eu, firme retribuía-a com um aceno, por vezes de braço, sem encara-la frontalmente, gesto de como quem nada quer. Mas via-lhe nos olhos o veneno da sedução, pronto para atirar como legítima defesa. 
    Um dia desses, ouvi batidas carinhosas a porta; ouvi na mesma voz que ouvia entre cortinas; não descortinando o real motivo, esbocei a básica questão: quem é? A mesma voz se fez firme.
    - Eu
    - Eu quem?! Como se pelo timbre da voz não reconhecesse a portadora.
    - Eu vizinha… Chamou-se. Quando fui abrir, lá estava ela desprotegida exibindo pouco tecido na epiderme, antes mesmo que abrisse a matraca, - disse eu:
    - Pois, não!
    - Não… É que esquece-me as chaves da minha porta… posso entrar daqui?
    - Pode! Fica a vontade. Tirou os chinelos sacudiu os pés, num saco que ali estava desempenhando função de tapete. Ao mergulhar seu tronco semi-nu na claridade a sala tornou-se mais iluminada; fingi não olhar, pois as mulheres interessam-se em homens que elas não vêem interesse deles nelas. Mas para chamar-me atenção, parou e assobio, um atrevimento pouco comum nas mulheres, - pensei eu! Quando a olhei acenou o rosto e cuspiu a mais bela frase de agradecimento que jamais ouvi em toda minha vida.
    - Obrigada… Mantive-me na compostura machista, levantei a mão e nenhuma palavra. Ela manteve-se ali olhando-me de soslaio, eu que propositadamente estava quase de tronco nu; lancei a camiseta que vestia na cadeira ao lado; dando-lhe as costas em direcção ao quarto, senti que alguém me contempla, aliás, eu até que sabia mas fingia. Quando virei a surpreende atónita, fitava-me feito um provinciano que chega pela primeira vez na cidade grande; contemplava-me como se eu não estivesse ali.
    - Algum problema? Continuo ali fixa e cabisbaixa, sem A nem B, muito menos C! Ganhou fôlego, como quem descansa de uma longa caminhada e disse:
    - Você é a solução…
    - Algum problema? Continuei, como quem não ouviu.
    - Não! Alguém é a solução!
    - Não entendi?!
    - Não vais entender, não é para entender, nem eu entendo! Aproximou-se, bem perto olhou-me nos olhos, senti o fogo a queimar-me todo. Seus lábios prontificaram-se com tudo; quando trilharam em mim, o fogo virou uma onda no mar, calma e traiçoeira, quando molhou-me todo, já estava eu a navegar mares e mares, sem medo de nada, muito menos do fogo do mar. Eu disse para mim mesmo, - deixe que tome dianteira.
    Mergulhei o rosto no decote, como se de um remo se tratasse, agarrei-lhe a cintura com as duas mãos. Colidimos na mesma primeira cadeira onde a minha camiseta estava pendurada. Ia eu fervendo, o furacão transformando-se em tsunami, quando a metade da sala enchia-se de esforços, as posições desfilando num cortejo de deuses. Um barulho fez sentir, quando nos demos do barulho, meu companheiro gemia, lá do lado do quarto. Olhei para o único buraco do quarto não vi, mas via-se a luz acesa reflectindo por cima da porta. 

    Moçambique


    Província de Niassa – cidade de Lichinga

    Lino Sousa Murucurza (Mukurruza), nasceu em Quelimane província da Zambézia, onde moldou a sua vida e a maneira de sentir as coisas que formam o homem (Dor, Amor, Paixão) e reside na cidade de Lichinga, província de Niassa.
    membro de direcção do (CEPAN) Clube de Escri-tores poetas & Amigos do Niassa.
    Costa na colectânea de poesia, (Noite Amanhecida) publicada em 2009. E ainda membro fundador do movimento “Gincana de arte Lichinga”.
    É também membro do Movimento Literário Kuphaluxa.




    Província de Sofala

    Danito Gimo da Graça Avelino (Dany Wambire), nasceu em 01 de Junho de 1989, no distrito de Manica, província de Manica (os seus pais são todos da província de Sofala). Tornou-se órfão bastante cedo, de pai aos 10 anos, e de mãe aos 12 anos. Desde então cresceu sob custódia da sua tia (Cristina Oliveira Garanhe Massora, irmã mais velha da sua mãe). Em 2008 tornou-se professor no distrito de Machanga, sul da província de Sofala, depois de formado pelo Instituto Nacional de Educação de Adultos – Beira (2006-2007). E foi lá onde começou a escrever, como forma de divertimento e para amparar-se dos vícios. Portanto, escreveu lá o seu primeiro livro (inédito), intitulado sugestivamente “Peripécias do Regulado de Esteve”, que tem alguns textos publicados pelo jornal OPaís e OPaís Online, desde Março de 2011 e no jornal @Verdade.
    Actualmente sou professor numa escola primária completa, algures na cidade da Beira, e estudante no 3º ano do curso de História, na Universidade Pedagógica (UP) -Beira.

    POEGRAFIAS: Cartografia do ecoar e do Miar do Couto ou como viajar com as 24 (c)obras do Mia Couto


    Amosse Mucavele - Moçambique



    Sobre a nossa a Terra disse que ela é Sonâmbula: com muita razão, sabem porquê?
    -Porque ela não dorme fica dias e noites de mãos estendidas ao exterior a pedir esmola.
    Amigos, num país visto como pobre os dirigentes são tão ricos! trocam de carros de luxo e gozam de mordomias , mas não tem nem se quer um livro na cabeça.(preocupante não é)
    Por isso que digo as nossas elites são incultas (vendem a nossa terra a 30 dinheiros)
    Além de tudo que acima croniquei, vejam só o profeta deu-lhes a porção, dada a incompetência deles fizeram tudo ao contrário, deram os venenos ao Deus e os remédios ao Diabo, nestes últimamentes nós o povo, encontramo-nos na berma de nenhuma estrada, sabem, sem onde guardar as nossas súplicas, sem onde pedir clemências, pois o Senhor Deus exilou-se na terra onde reside o Homem que lhe salvou da morte (por envenenamento perpetrado pela nossas elites) dando-lhe antídoto.
    Quem me dera lá estar com eles debaixo daquela Varanda do Frangipani, a ouvir os Contos do Nascer da Terra.
    Do que estar nestas Cidades dos partidos políticos com idades seculares no Governo, e onde os seus dirigentes consideram-se Divindades.
    Eu cansei de viver neste País do Queixa Andar, vou-me embora, com um fio amarrado no pescoço (sei que Missangas não me faltarão), pelo caminho irei folhear as páginas desta Casa Chamada Terra e irei remar contra maré deste Rio Chamado Tempo.
    Chegado a Uma Terra Sem Amós, constato que algo mudou, a aldeia cresceu, já são Vinte as Casas de madeira e Zinco. Mas ainda continuamos no Escuro e o Gato Abensonhado pressagia as Estórias do velho.
    Alguém disse o velho está a morrer, o Gato não parava de tocar o Ritmo do presságio:
    Retorquiu de novo-a biblioteca esta a arder.
    -E eu nos meus Pensatempos confusos, surgiu-me a seguinte a pergunta? Como hei-de o ajudar?
    -Pensei na Princêsa Russa, cortei a ideia porque a neve não pode extinguir as chamas, continuei neste pensaraltivo, afinei os meus Silêncios, dentro de mim uma voz uivava “Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte¹.”Pego no machado, pelo caminho vou Traduzindo esta Chuva que molha os ramos da minha alegria, de nada vale continuar aqui, mas, antes partir deixem-me descolar a Raiz do Orvalho.
    Alguém disse - Ah, de nada resultará. De repente as Vozes Anoiteceram, era o início da Chuva Pasmada.
    E agora vou me embora mesmo “a procura da outra Pátria esta não me pertence²”, pois O Mar Me Quer, é no mar onde vou pescar o meu sonho de se tornar noutro Pé da Sereia, caso não consiga concretizar este meu sonho, procurarei outra maneira de partir, assim sendo tornar-me-ei no Pensageiro Frequente deste Último Voo do Flamengo que me levará até a Jesusalém.


    Glossário
    1-Mia Couto in A Varanda do Fragipani
    2-Celso Manguana in Pàtria Que Pariu
    3-todas palavras a negrito fazem parte do acervo bibliográfico do autor acima referido -Princêsa Russa conto que faz parte do livro Cada Homem é Uma Raça. E outros livros
    -No meu País tem um provérbio que diz - um velho que morre é uma biblioteca que arde.
    -O gato e o escuro, Cronicando
    - Estórias abensonhadas
    -O fio das Missangas,....e outros ficam sob alçada do leitor, beijooooos

    Tu e eu…

    Ericson Maque - Lichinga


    Somos dois…
    Existo para…
    Não existo sem… 

    Nascemos algures
    Nem antes nos conhecíamos
    Juntos lá vamos 

    Nas escuras da incomensurável ambiguidade
    Das nossas vidas, vão os nossos desabafos. 

    ________________________
    Ericson Maque, nasceu na província de Manica actualmente vive no Niassa.
    Niassa – recolha do texto Mukurruza

    A Xitsuketa


    Amélia Matavele - Maputo

    Somos dois…
    Dois corpos, duas almas, dois animais
    Mas quem somos? 

    Podemos até ser três!
    Vigora a dita geração de viragem
    Mas quantos somos? 

    Somente saberemos isso
    Ao gosto das palmas
    A lua aberta, a sol nú
    E a estrelas ousadas… 

    Somos um!
    Mesmo desejo e agressividade animal
    Que faz gerar dinamismo no brutalismo
    Dum sentimentalismo 

    Hum! E assim começamos
    Dois corpos, dois instintos
    Uma lua aberta
    Um sol nú e estrelas
    Aplaudindo a nossa mais nova dança! 

    Uma dança…
    Uns instintos únicos…
    Uma xitsuketa!
    Abalando os corações dos que a assistem 

    Uma dança com dois
    Pode até ser com três!
    Dança que renasce após a adolescência…
    A dois! 

    A Rua e o Menino

    Celso Munguambe - Maputo

    Menino da rua
    Sob o olhar do imenso lixo
    Menino da rua
    Caminhando sem destino
    Menino da rua
     Nas noites sombrias e frias                                                           
    Menino da rua                                                               
    Caminhando na rua  

    Menino da rua, menino da rua
    Olhar brilhante
    Esperança inoperante
    Tristeza inquietante
    Temor vibrante
    Dor consistente

    Agora já não sou mais
    Menino da rua mas sim
    Menino das avenidas
    Do nosso Maputo

    Vestes rasgadas
    Imundas, de cheiro insuportável
    Como a vida k levo

    Sem saber se existirá o
    Amanhã para mim
    Se até o presente é incerto
    Sobrevivo na esperança
    De no futuro me tornar
    Algo melhor.

    Carta do Aniversariante no dia em que não se fará a festa

    Amosse Mucavele - Maputo

    Ontem foi o dia do meu adversário, comemorei com as 4 paredes que ladeiam o meu quarto,
    E hoje dia em que os Astros advogaram sem uma causa justa, mas com um aviso prévio sendo este o verdadeiro dia do meu aniversário.
    24 Anos completam-se em mim, e eu nem estou aí, neste instante procuro refúgio na imensidão deste poema - assim o julgo eterno.
    Tal como a as palavras que o guiam, eu deambulo no vazio do suco que refresca o bolo que vos ofereço.
    Desculpe a todos que esperavam uma festa -
    Agora vos digo – eu não sei organizar uma festa, assim sendo tenho da vossa companhia motivos suficientes para estarmos em festa.
    Que zanguem os homens das gargantas abertas, os das barrigas vazias, pois não há mas nada a dizer por isso sintetizo – eu não sei organizar uma festa.
    Depois de uma conversa afiada com a minha mãe no cemitério - onde, eu fui lhe dar uma água, uma flor, um beijo, e jurar perante ela que eu já sou homem crescido e novo.
    Já não sou aquele menino tal como o pai que destruía lares e eu sendo filho de peixe sabia nadar até no areal, e em contrapartida desmanchava prazeres das meninas, brincava com os sentimentos delas, agora sou um novo homem, 24 poemas me esperam,,,,,,,,,desde já juro fidelidade as garrafas e aos livros.
    E mulheres preciso daquelas divorciadas, humilhadas, mal amadas, pois ontem á noite recebi o antídoto para este veneno chamado traição, e as minhas namoradas do passado que o presente tornou-lhas Ex. Nem sei onde foi o buscar este prefixo e o futuro chama-as por amigas, elas me amaram e eu as violentei domesticamente no meu pobre quarto de Madeira e zinco, no momento diziam me machuca, eu puxava-lhes as mexas, dava-lhes palmadas, e não tinham onde queixar pois pediam que as machuca - se, ponto final eu já não quero brincar ou fazer orgias com os virgens sentimentos destas miúdas.
    O que me espera agora é viajar no silêncio de uma garrafa de whisky OLD PASCAS.

    Pretextos

    Nelson Lineu - Maputo 

    Acordo o galo
    Órfão de juramentos
    Herdeiros dos meus pensamentos
    Se tem que ser feito algo
    Que seja a minha vontade.

    Não sendo escravo de ninguém
    Muito menos de mim.

    Falsificando mentiras
    Para não abortar a verdade
    Quero grades
    Para me ver livre
    Liberdade para me prender
    Paz
    Como pretexto para a guerra
    Não como se tem feito
    Guerra
    Ser pretexto para a paz.

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