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    “Achei que já estivesse louco”

    Eduardo Quive - Maputo


    Muito já ouvimos dizer que um pouco de loucura faz bem para um provável escritor. Mas agora, ao entrevistarmos Andes Chivangue, que apesar de se destacar naquela que se pode chamar Literatura Moçambicana (que ele considera moribunda), tem a humildade de afirmar sem receio “não sou escritor”. E por quê um autor de duas valiosas obras que marcam, de acordo com Ricardo Riso, a ruptura dos tempos literários moçambicanos que se dividem com os tempos sociopolíticos, a não chamar-se escritor? Estamos a nos referir a um dos poucos escritores, apesar das suas dúvidas, que vítima de muita leitura, pauta na sua escrita pela lírica, inquietação e transpiração, o que acaba o levando ao “doloroso” exercício de reescrita. Um escritor que está em constante diálogo com o ego e sempre irritado com o produto final da sua criação. Porquê tantas palavras se o autor fala por si e, inclusive, as suas obras “Alma Trancada nos Dentes” e “A Febre dos Deuses”, apesar de raríssimas no mercado explicam melhor que caminhos trilha este que é jovem quanto pessoa e adulta quanto escriba..

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    L: Andes, falemos do leitor, poeta, contista, e de si próprio como pessoa, o cidadão, em fim, essas pessoas existem?
    A.C: Existem sim, mas com quem queres falar primeiro?

    L: Podemos começar pelo Andes leitor, como é que te entra o monstro da leitura?
    A.C: Comecei a ler com 16 anos, influenciado por amigos. Comecei pela leitura pouco instrutiva tal como a banda desenhada e o policial, mas posteriormente evoluí para coisas mais interessantes. Em 1996 conheci o Danúbio Afonso, hoje antropólogo, que me introduziu aos livros mais instrutivos. É nessa altura que entro em contacto com a poesia de Al Berto e os textos de Giovanni Papini e Loyola. Com o tempo conheci outras pessoas, amigos que me deram a conhecer autores. Dentre vários posso referenciar o escritor Rogério Manjate. Diria que o Andes leitor teve imensa sorte, pois teve sempre alguém que lhe mostrasse o caminho. É neste percurso que acabei lendo coisas que mudaram completamente a minha vida, a minha maneira de olhar para a literatura e para o mundo no geral. Infelizmente, nos últimos tempos leio mais material de trabalho, coisas que tem a ver com a minha profissão. Como decente universitário, para além da pesquisa inerente à própria actividade, é preciso estar atento ao que se vai publicando e tudo isso exige imensa leitura, não sobrando assim tempo para a leitura de laser, a literatura. Esta situação acaba tendo influência ao nível da escrita criativa, dado a minha escrita resultar da leitura. Portanto, sobre o Andes leitor eu posso dizer que nos últimos tempos ando mais preocupado com problemas ligados a governação, desenvolvimento económico e construção de cidadania em África, no geral, em Moçambique, em Particular.
    Como cidadão o Andes anda preocupado com a constante defraudação do património dos moçambicanos. É absurdo que perante um roubo como o que ocorreu no INSS as pessoas permaneçam impávidas e desinteressadas. Acho que são poucos os que têm a consciência de aquele dinheiro resultar das suas contribuições como trabalhadores. Perante uma situação daquelas devíamos cobrar responsabilidades, exigir que rolem cabeças, etc. Mas como se vê, para além da imprensa e alguns comentadores políticos, muito poucos discutem seriamente o assunto. Isto é grave e constitui um sintoma de uma doença muito mais séria. Ou seja, começa-se a aceitar o roubo, a desonestidade e a falta de carácter como valores. Numa sociedade nem todos têm de ser ricos (ou endinheirados). Aliás, se pararmos para pensar, chegaremos à conclusão de que o dinheiro é uma ficção e que muitas das necessidades que temos não são verdadeiras necessidades. Há outras coisas que podem e devem ser valorizadas tais como o conhecimento, a honestidade, o profissionalismo, etc. Só com a interiorização de valores como estes últimos é que poderemos construir o verdadeiro cidadão moçambicano, orgulhoso da sua pertença e história. Portanto, o Andes escritor, cidadão e docente cruzam-se nesta grande preocupação.

    L: Que ambiente ou ambientes propiciaram a sua aproximação à literatura?
    A.C: Eu nasci numa casa cheia de livros. Esta foi outra grande sorte que determinou parte do meu percurso como indivíduo e amante de literatura. O meu pai é professor de profissão e a minha mãe trabalhava no Instituto Nacional do Livro e do Disco. Como pode imaginar, a estava cheia de livros e de discos (de vinil). Foi neste ambiente que cresci. Devo acrescentar que, contrariamente ao que acontece com outras pessoas que escrevem, os meus pais não leram para mim estórias de criança à hora de dormir. Como disse anteriormente, o gosto pela leitura chega-me aos 14 ou 15 anos através de amigos. Ter livros em casa permitiu-me usa-los para conseguir outros mais.

    L: Disse que não fazia uma leitura instrutiva, isso significa que lia o quê?
    A.C: Como já referi, lia policiais e banda desenhada mas depois fui evoluindo e essa evolução aconteceu rapidamente e passei a devorar autores como Ngugi Wa Thiongo, Sembene Osmane, Wole Sonyika, e Emile Zola, W. Somerset Maugham, Dostoievsky, Eríco Veríssimo e tantos outros.  

    L: Foram leituras de qualidade… hoje parece-me haver dificuldade por parte da juventude em encontrar esses livros…
    A.C: A dificuldade em conseguir bons livros hoje prende-se com diversos factores. Antes tínhamos o Instituto Nacional do Livro e do Disco e os livros eram acessíceis, embora houvesse uma tendência para encher o mercado de literatura russa e chinesa, incluindo montanhas de manuais sobre marxismo-leninismo. Mas havia coisas para ler. Existia, por exemplo, a colecção Vozes de África, editada pelo INLD, com autores como Chinua Achebe, Birago Diop, Mongo Beti, Alex La Guma, Cyprian Ekwensi, etc. Para além de alguns autores que mencionei anteriormente. Eu tive a felicidade de encontrar esse material na estante do meu pai. Hoje uma parte considerável do meu salário vai para livros. E o livro está caro. Há a considerar também o facto de termos pouquíssimas bibliotecas em condições, o que não nos permite desenvolver a cultura de frequentar e estar numa biblioteca. Os nossos decisores políticos não estão preocupados com a cultura. Como diz Lobo Antunes, uma população inculta e mal formada constitui uma vantagem para as elites governantes, pois têm de fazer muito pouco para garantir a sua manutenção no poder. Em Moçambique é o mesmo. Há universidades que despejam toneladas de graduados por ano mas depois coloca-se o problema de saber-se se estas pessoas estão pelo menos preparadas para exercer a sua cidadania como moçambicanos. Ou seja, as pessoas deixam-se distrair com certificados e o grau, passando o essencial ao lado. Portanto, é preciso que haja um comprometimento sério com a cultura. E o acesso ao livro constitui um dos passos. Isentar o livro de taxas no processo de importação não basta. O Estado tem de dar um sinal no mercado livreiro, transformando-o numa possibilidade de negócio com benefício para o cidadão através da aquisição de livros a preços baixos.

    O ESCRITOR
     
    L: Disse que o te fez escritor é a leitura… foi no primeiro contacto com o livro que começou a escrever ou foi depois de muita leitura?
    A.C: Primeiro li e depois escrevi. Para mim a escrita funciona bem quando se lê primeiro. É preciso saber o que o existe para ousarmos contribuir com alguma coisa. Os círculos de leitores e os núcleos literários ajudam imenso na partilha de informação e troca de experiência. E os anos 1996 foram frutíferos nesse aspecto. Tivemos o Xitende em Xai-Xai e a Oásis em Maputo. Havia outros movimentos noutros cantos do país. Trocávamos livros, pontos de vista etc. a minha escrita é o resultado desta confluência vivências.  O encontro que motivou a criação da Revista Literária Xitende (organizado pelo Celso Manguana e Guilherme Mussane, em Xai-xai) foi decisivo na medida em que eu e os outros confrades da cidade ganhamos consciência da nobreza do exercício da escrita, o que motivou maior partilha de livros e opiniões. Portanto, primeiro a leitura e depois a escrita. E comecei por escrever sonetos, vilancetos e outros textos ligados a algumas coisas que ia tendo no ensino secundário, durante as aulas.

    L: Portanto, inicia-se na poesia?
    A.C: A minha maior ambição, se calhar sonho nessa altura, era ser poeta. Não imaginava se quer que podia um dia escrever prosa. Mas a vida prega-nos muitas partidas.

    L: E como explica essa mudança ou partilha da mesma pessoa para vários géneros literários?
    A.C: É uma coisa muito complexa e que só se pode explicar pelas coisas que lia. Houve uma fase durante o meu percurso em que trabalhei intensamente a escrita criativa. Exercitei entusiasticamente três géneros, nomeadamente a crónica, o conto e a poesia. Mas com o tempo passei a escrever mais contos do que poesia.

    L: “Alma Trancada nos Dentes”, seu primeiro livro. Pode o coração caber na boca?
    A.C: O que acontece é que hoje eu acho esse título um pouco falhado. Este livro é muito denso sob ponto de vista de imagens, tendo propositadamente procurado trabalhar a metáfora até à náusea, à exaustão. E é por isso que ele é um pouco pesado até um certo momento. Mas eu quis trazer esta tensão, digamos, esta confluência de vozes, sabores e memória. E o título Alma Trancada nos Dentes, nessa altura, pareceu-me bom, porque parecia aglutinar essa simbiose. Mas com o tempo percebi que outras opções talvez fossem melhores, podia ter testado mais ainda a sensação de limite. Enfim, diria que caí na minha própria armadilha. Para se compreender melhor o que pretendo dizer, talvez fazer referência aos autores que me influenciaram da fase em que escrevia a “Alma”. Foram basicamente quatro.
    O primeiro autor foi Manuel Gusmão, com o livro Migrações do Fogo. O livro preocupa-se em, como o próprio autor diz, explorar a palavra até ao limite, como uma corda de violino esticada. Recorre a alguma técnica cinematográfica, o que dá ao livro uma densidade imagética espectacular. O segundo autor é Ferreira Gullar, para mim o maior poeta vivo em língua portuguesa. A poesia do Gullar é qualquer coisa do outro mundo. Tentar imitá-lo só pode resultar naquilo que ele chama de fluir à toa. Mas constituiu uma boa base para encontrar o meu próprio caminho, a minha voz interior. O terceiro poeta é Herberto Hélder, que nem sequer se pode tentar imitar. Trata-se duma poesia para ir sendo digerida ao longo da vida. O quarto é o poeta espanhol Leopoldo Maria Panero e as suas elucubrações em torno da morte e da loucura.

    L: Ao ler-se a sua obra e como aqui já o disse, pode notar-se a preocupação em fazer uma poesia diferente, preocupando-se muito com as técnicas e estética. Tinha já em mente contrariar o cenário literário que se vivia na altura?
    A.C: Eu só posso explicar isso tendo como referências o Xitende. O Xitende surge num contexto em que tanto eu, como Dó Midó das Dores, e outros membros do movimento tínhamos acesso à coisas que eram escritas lá fora. Feliz ou infelizmente isto tornou-nos muito críticos em relação àquilo que se escrevia cá dentro, a forma como os escritores viviam e produziam literatura. Portanto, quisemos escrever alguma coisa que se demarcasse da abordagem desenvolvida naquela altura. É por isso que sempre que escrevemos nos preocupamos com essas mudanças. Se repararem a obra do Midó, A Bíblia dos Pretos, há uma particularidade, aliás, há várias, mas tem uma dimensão muito grande para além da carga poética e da forma como ele aborda o assunto; tem uma carga filosófica muito forte e que não se encontra muito na nossa literatura.
    A nossa ideia era tentar contribuir com alguma coisa e trabalhamos até ao limite. E acho que foi essa preocupação em escrever qualquer coisa diferente que nos permitiu chegar a algo relativamente diferente sob ponto de vista de criação literária. Já nessa altura as nossas referências tinham deixado há muito de ser autores moçambicanos, o que trouxe esse perfume de alguma coisa diferente na escrita. Essa preocupação sempre existiu, mas como deve saber há muito que se inventou a pólvora. Contudo, é muito boa aquela fase em que se acredita que se pode fazer algo novo, pois dá-se tudo e trabalha-se com garra.

    L: E portanto, assim foi até ao conto, ao escrever A Febre dos Deuses, que maneira de contar é aquela? Acho que é uma das melhores obras que já li e com o justo prefácio de Ungalani Ba Ka Khosa que te acha um contista quase que formal.
    A.C: O conto é um género muito difícil, é o que te posso dizer. É muito complicado. Se lhe disser que ainda hoje ando a procura de ensaios e de contistas que aprimorem a minha escrita não vais acreditar. “A Febre” é o resultado da minha convivência com a frase curta de Ernest Hemingway e de Ignácio de Loyola Brandão. O livro Dentes ao Sol de Loyola Brandão é uma obra notável. O autor transforma o sórdido e corriqueiro em intriga e diegese. A Febre dos Deuses é um pouco isso e mais. Através da frase enxuta e relativamente fluida procuro dialogar com os moçambicanos sobre alguns problemas prementes desta sociedade. Os textos “O Sacrifício”, “João Namburete” e outros que constam do livro não são mais do que um retrato da atrocidade e desumanidade que aos poucos se vão tornando um lugar-comum no país. O livro chama atenção para a degradação de toda uma sociedade e fá-lo da forma mais directa possível. Há pessoas que se sentem chocadas com as opções linguísticas usadas nalguns dos textos mas o que está ali escrito não são mais do que as mesmas palavras que recebemos nos nossos celulares ou mails todos dias. O que ali aconteceu foi a transposição do discurso urbano. E acho estranho que algumas pessoas não o reconheçam, quando estes mesmos indivíduos entre amigos usam exactamente aquele vocabulário.

    L: Os contos que constam desse livro têm traços do quotidiano que vivemos, terá tido a intenção de fazer relato de coisas que viveu?
    A.C: Não. De forma alguma. A escrita não se pode basear nas coisas vividas, então não seria literatura e não faria sentido. Qualquer escrita ou conto que se preze tem de apresentar um conflito, isso é o mínimo que se pede. Se fosse escrever uma estória, por exemplo, sobre meu trabalho como docente, sem nenhum conflito ou diegese construída, não seria um conto. Aquele livro tem uma particularidade interessante, é o resultado das coisas que ouvi, li, eventualmente de algum potencial Andes no futuro. O que fiz naqueles textos foi pegar nessas coisas e dei-lhes a volta. Trabalhei o material, dei-lhe ossatura e alguma geometria. É basicamente isso. Entretanto, porque toda a ficção assenta numa certa realidade, facilmente as pessoas visualizam as estórias com factos de alguma forma conhecidos. Ouvimos quase todos os dias notícias de mulheres cujos maridos, devido ao alcoolismo ou alguma insanidade qualquer, golpeiam as suas mulheres com catanas ou outros objectos contundentes. Para saber de alguma estória triste de prostituição já nem é preciso ir à Rua Araújo ou à 24 de Junho, as residências universitárias femininas dão-nos um quadro muito mais triste e deprimente. Mas voltando à tua questão, essa aproximação dos textos ao quotidiano foi algo feito conscientemente. E mesmo quando decidi reeditar o livro procurei preservar isso. A maior parte dos textos foram reescritos, tirei-lhes os adereços, os cosméticos, sempre à procura dessa perfeição inalcançável….

    L: De facto um livro é o culminar de muita escrita e reescrita…
    A.C: Acho que nenhum autor fica contente com o seu livro mesmo depois de terminado. O que acontece é que depois nos cansamos dele e perdemos também alguma capacidade de identificar erros e algumas falhas. Cansámo-nos e decidimos entregar. Mas todo autor tem sempre a necessidade de reescrever, refazer, de dizer de outra forma, porque as pessoas a cada dia que passa evoluem, vê outras coisas, essa é que é a questão.
    Muitos daqueles textos excepto “O Sacrifício”que para mim é o melhor texto daquele livro. Aliás, é um texto que me caiu do céu. É um dos poucos textos em que não tinha nenhum referente, que só me sentei e comecei a escrever, o texto ficou fechado logo a primeira. Foi o único texto que não reescrito, desconstruído. Tudo o resto é resultado das coisas que ouvia, das conversas enfim.

    L: Nas suas abordagens vê-se com frequência assuntos como loucura, conflitos familiares, marginalidade, machismo e o sexo. Aliás, acho que descreve muito bem os actos sexuais…
    A.C: No livro “A Febre dos Deuses” pode haver tudo menos a descrição de um acto sexual. Aliás, acho que não saberia dizer-lhe ao certo o que é exactamente descrever bem um acto sexual.

    L: Mas a loucura e o sexo o que lhe dizem como pessoa?
    A.C: Os textos que abordam o sexo, só para reiterar, acho que não descrevem o acto sexual em si, porque descrever o acto sexual implicaria descrever os preliminares, o próprio acto e provavelmente o fim dele e o estado psicológico das pessoas depois de terminar. Mas as partes do livro ou do texto que fazem referência ao sexo, procuram introduzir um momento crítico nas acções dos personagens ao longo de todo o texto. E tudo tem a ver com opções que cada autor escolhe. Podia, simplesmente, deixar o leitor intuir. Mas aqui devo culpar o adolescente Andes por ter optado por aquele caminho em detrimento de outros muito mais interessantes sob o ponto de vista de enriquecimento do diálogo leitor-escritor. Sim, o adolescente Andes porque aquelas estórias foram escritas entre os meus 20 e 23 anos.

    L: Mesmo porque estamos a falar de sexo e loucura que são questões que muitas vezes são atribuídas aos escritores por exemplo, pode falar do seu vício?
    A.C: O meu primeiro vício é a música. Desde os meus nove anos de idade que oiço música. Até cheguei a tentar ser música. Fundei uma banda e tenho algumas coisas gravadas. Tive o privilégio de trabalhar com o falecido Tony Django dos K-10. Mas por diversas razões acabei por desistir. Portanto, o que lhe posso dizer é que sou um músico falhado.
    Outro grande vício que tenho são livros. Tenho uma compulsão muito grande pelos livros. Não poço entrar numa livraria com dinheiro e sair sem um livro.

    L: Nunca teve medo de ficar louco?
    A.C: Isso é verdade. Não só tive medo como achei que já estivesse louco.

    L: Quando e como é que foi isso?
    A.C: Toda a gente tem neuroses e eu tive várias. Uma delas, por exemplo, tinha a ver com a minha relação com espaço. Eu passava muito tempo dentro do quarto e havia aqui um problema porque sempre que saísse não podia deitar-me (leio deitado ainda hoje) sem que antes espreitasse por todos os compartimentos a certificar-me se a coisa (que até hoje não sei bem o que é) que me atormentava não estava lá. Eu já era crescido, tinha mais de 20 anos. O que ilustra o meu estado de espírito nessa altura é o facto de ter feita amizade com uma árvore, cheguei inclusive a dar-lhe nome, chamava-se Joshua. O Midó das Dores escreveu um poema muito simpática sobre a minha relação com a árvore. 

    L: Hoje descobri que já esteve na rádio Cidade e durante 12 anos esteve a editar a revista literária Xitende, qual é sua relação com o jornalismo?
    A.C: A minha relação com o jornalismo é de biscateiro. Eu não me posso considerar um jornalista, não sou e nem posso ter essa pretensão. Se fiz jornalismo é porque queria sobreviver e…

    L: Mas sabe-se que a vida do jornalista é quase miserável porque pouco ou nada se ganha nessa profissão, terá sido por isso que pautou por outras coisas?
    A.C: Eu nunca quis ser jornalista. Surgiu-me a oportunidade de trabalhar num jornal como responsável de uma página de actualidade internacional e aproveitei a oportunidade, procurando inovar a forma como se apresentavam as notícias internacionais. O que os outros jornais fazem é colocar na página do internacional, notícias de agências noticiosas estrangeiras. Eu ia as notícias dessas agências e confrontava com a opinião de analistas nacionais. Por outro lado, ser jornalista num país como o nosso, a pessoa sujeita-se a muita humilhação e alguma estagnação, incluindo a morte quando se pretende realmente fazer coisas sérias. Ainda não estamos totalmente livres. A partir daí podes inferir o resto. Em parte foi também por isso que optei por outras actividades.

    L: Fale-nos do vosso Núcleo Literário Xitende, em particular da idealização da revista do mesmo nome.
    A.C: Foi uma coisa difícil. Fui editor do Xitende durante 12 anos, o que foi simplesmente um acto de coragem se se considerar a escassez ou mesmo inexistência de recursos. O Xitende não tinha nenhum financiamento ou patrocinador, nada, nós fazíamos aquilo sem apoios.
    É verdade que fomos sortudos nalgum momento. Houve gente de boa-fé em Xai-Xai que nos ajudou com papel, fotocópias e impressões, sem que tivéssemos de pagar, o que ajudou imenso.
    A revista existiu durante muito tempo e as pessoas foram-se cansando, foram deixando de apoiar e tivemos de financiar a revista com os nossos próprios recursos. Mas de qualquer forma foi a experiência que talhou o escritor ou o possível escritor que seria o Andes Chivangue.

    L: …o possível escritor!
    A.C: É preciso que tenhamos clareza das coisas. Há muitas pessoas inclusive algumas são da minha geração, que olham para o espaço literário como espaço de afirmação. Usam a literatura para ganhar status político e social. Para mim a literatura é uma coisa sagrada, é uma coisa muito especial e não tenho problemas em dizer que não sou um escritor. Eu gosto de literatura, escrevo, publico quando tenho o que publicar, mas prefiro não assumir-me como escritor e não tenho problemas com isso porque existem pessoas que realmente trabalham, cuja actividade consiste mesmo em escrever. Então qual é a diferença que estabeleceríamos entre eu digamos que esporadicamente escrevo e publico e aqueles que todos dias acordam escrevem, têm prazos, metas, se somos todos escritores? Você poderá dizer que são os dois escritores mas que cada um tem seu ritmo, é possível…é algo para discutir.

     O ACTIVISTA LITERÁRIO

    L: Você viveu um tempo em que havia revistas literárias e que a imprensa de certa forma dava espaço para a publicação de textos literários, mas hoje o cenário mudou. O que tem a dizer sobre isso?
    A.C: Eu e o Midó quando aparecemos com o debate da morte da literatura moçambicana, o objectivo era alertar para o marasmo que se vive no campo da literatura. Usamos um discurso polémico para chamar atenção a coisas que já estavam a acontecer nessa altura. Existe uma grande promiscuidade, pelo menos aqui em Moçambique, entre a literatura e a política e os respectivos políticos.
    Alguns escritores usam a literatura para se projectar politicamente, esse é o problema. E não é só isto, se olhares para o mundo dos concursos tenho a incrível sensação de que é um mundo que está muito sujo. Na maior parte dos concursos nacionais, os vencedores são o resultado de vários esquemas de concertação do que do trabalho que apresentaram ao concurso. Depois há um problema, dos vários, é que existe um medo muito grande de dizer-se aquilo que se pensa. As pessoas não fazem crítica aberta, privilegiando os corredores e bastidores emitirem as suas opiniões. Tudo isto cria uma situação de letargia, uma situação em que não evoluímos, são sempre as mesmas pessoas a publicar, são sempre as mesmas sensações, quando é para discutir discute-se as mesmas coisas. É como se o tempo não passasse e as pessoas mais atentas acabam por afastar-se desses meandros.
    Provavelmente a falta de revistas literárias não seja só de hoje. Quando olho para a época em que me estreei, havia o Xiphefu, o Xitende, Oásis, Horizonte e talvez mais duas ou três. Não muito mais. Mas sim, estávamos melhor comparativamente à sua geração. Os jornais reservavam algum espaço para a poesia ou conto. E isto tem impacto ao nível dos iniciantes na criação literário. Não têm um espaço para comunicar e a primeira opção ou ambição acaba sendo a publicação de um livro, o que na minha óptica não está certo. Se o nosso Ministério da Cultura não fosse um antro de incompetência e mau gosto talvez tivéssemos melhor cenário

    L: Durante o seu discurso vem citando muito o Dó Midó das Dores, aliás, aquele que juntos tem dado opiniões consideradas contundentes sobre a Literatura Moçambicana…
    A.C: Eu e Midó somos camaradas de batalha há muitos anos. E sempre usamos a literatura como um instrumento de luta. A literatura serve para mudar coisas, mais do que esta função lúdica. Não se pode ter uma literatura útil se ela estiver desligada dos problemas prementes dessa sociedade. A escrita criativa ajuda a reflectir e, sobretudo, alertar as pessoas para os diversos perigos sociais. É por isso que insisto em dizer que a literatura deve estar em cima dos acontecimentos. Os jovens não podem querer escrever como Craveirinha, Rui Nogar ou Knopfli porque estes fizeram-se escritores num contexto específico. São bons, mas são bons no seu tempo. E porque os contextos mudam, é preciso adequar os nossos óculos de leitura a essas mudanças. Ou seja, em vez de termos jovens a reproduzir o verso “eu sou carvão e tu arrancas-me brutalmente do chão” devíamos tê-los a dizer coisas como “meu estômago voa preso no bico duma gaivota”. Os problemas de hoje são os nossos desafios hoje. Não estou aqui a desvalorizar Craveirinha ou Knopfli, atenção, são bons e foram bons no tempo em que viveram, no tempo em que escreveram, têm um lugar reservado, mas sinto que nós precisamos de coisas que reflictam os assuntos actuais. Poder-se-á dizer que é preciso tempo para decantar os assuntos, mas nós não nos podemos dar o luxo de ficar a esperar pelo tempo.

    L: Em tempos terá dito que a literatura moçambicana estava morta, e agora que opinião tem sobre ela? Terá saído da tumba?
    A.C: Dizer que a literatura está morta foi uma forma que o Midó encontrou de colocar o problema. Mas que ela continua moribunda isso é verdade.
    Se reparares quantos grandes autores já surgiram, quantos grandes eventos ligados a literatura foram organizados desde o tempo em que lançamos o debate sobre a morte literatura, são muito poucos. Continua a ser o Mia Couto a publicar, a Paulina Chiziane, o Ungulani, o Marcelo Panguana, etc. Existe, obviamente, uma nova vaga de aurores como o Mbate Pedro, Lucílio Manjate, Rogério Manjate, Sangare Okapi, Midó das Dores, etc. Mas sinto que precisamos de muito mais para poder criar a diversidade necessária. E isto só é possível se houver políticas e alguma humildade por parte dos que têm estado a surgir. Falta-nos isso. Uma pessoa publica um ou dois livros e já se julga a máxima referência do país. O caminho é muito mais longo e exigente. Gostaria de poder comentar mais sobre isto mas estes quase dois anos em que estive fora do país não só me tiram essa legitimidade mas também não me permitiram ir acompanhando o que aconteceu por aqui nos últimos tempos.  

    1 HORA ( Em casa de Narguiss)*

    Lilía Momplé - Moçambique


    Q ue força é esta que não a deixa levantar-se e correr para o seu Abdul que , já impaciente, quase derruba a porta aos pontapés. “ Não grita...Espera só pouco”, roga ela, tremendo de receio que ele se vá embora.
    Mas Abdul não se vai embora, continua a dar pontapés na porta e a gritar como se alguém, lá fora, lhe estivesse a fazer mal. E ela sem poder abrir aporta. Está tão perto, só alguns passos, poucos, tão poucos que ela resolve ir de rastos, já que não consegue pôr-se de pé. Lutando contra a força que a paralisa, avança com lentidão que os gritos de Abdul tornam insuportáveis.
    Está quase...um pouco mais...agora é só levantar o braço, alcançar a fechadura e rodar a chave...uma, duas vezes. Mas o braço pesa-lhe... pesalhe tanto...não consegue...não...
    Narguiss acorda a transpirar, apesar do cacimbo de Maio que entra pela porta de rede que liga a cozinha á varanda. “ Afinal tudo pode ser um sonho...Abdul não vem”, lamenta ela, desiludida, á sua volta.
    Foi um sonho terrível, mas Abdul. Era melhor do que estar assim sozinha, sem marido, no dia de Ide.
    Não se lembra de ter adormecido sentada, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a mesa da cozinha. Lembra-se, no entanto, do pesadelo de onde acaba de emergir e da estranha sensação de ter visto Abdul através da porta que ele batia com os pés por ter as mãos cheias de embrulhos.
    “Mas pode ser tudo sonho, mesmo. Abdul não está aqui”, geme baixinho. Experimenta mexer as pernas e os braços e constata, aliviada, que lhe obedecem perfeitamente. Tudo foi mesmo sonho. Abdul não veio e nada lhe tolhe os movimentos. Porém... os gritos e o barulho esquisito que chega da rua não é sonho, não. São reais e cortam o silêncio da madrugada, com assustadora nitidez.
    Curiosa. Narguiss rebola o corpo imenso até á porta de rede e sai para a varanda. A princípio não quer acreditar no que vê. Supõe mesmo ter mergulhado num novo pesadelo, tão estranho lhe parece tudo.
    Na varanda do primeiro andar , mesmo em frente, o casal que lá vive e que ela só conhece de vista, desfaz-se em gritos. Ela grita apenas por socorro e ele, embrulhado no que parece lençol, repete qualquer coisa que Narguiss não consegue compreender. De vez em quando, grita também por socorro.
    Apesar da escuridão da noite sem lua e d acácia rubra que os oculta um pouco, Narguiss consegue vê-los agora, perfeitamente, iluminados por holofotes manejados da rua. O homem continua a bradar qualquer coisa incompreensível e a mulher não para de pedir socorro. De repente, põem-se a correr de um lado para outro lado, na exígua varanda, numa dança
    macabra.
    Narguiss não sabe se as balas que os atingem vêm de dentro de casa ou dos homens dos holofotes que também disparam sem cessar. Mas , quando os vê cair, desta ela a gritar.
    - Está matar gente... muanene inluco... está matar gente... ali... muanene inluco...
    Não vê o homem que, da rua, lhe aponta a arma pois toda atenção está centrada na varanda da flat em frente. As balas atingem-na, certeiras, no pescoço e no peito e ela espanta-se da sensação de infinita paz que a acompanha na queda. Já nada a faz sofrer, nem o Ide sem ver a lua, nem as filhas sem casar, nem mesmo o Abdul.
    Como se o enorme corpo se recuasse a ceder, dá uma volta sobre si mesma e , escorregando lentamente, Narguiss cai por fim, sentada, com as costas apoiadas no gradeamento da varanda. E é assim que, pouco depois, as filhas alertadas pela gritaria e pelos tiros, a vêm encontrar.

    *in Neighbours  pag 107 e 108, 3ª Edição da autora 2008
    Glossário
    muanene inluco – Meu Deus – Língua Macua- falada no norte de Moçambique
    particularmente na Provincía de Nampula
    ____________________________________
    Lilía Maria Clara Carriére Momplé nasceu a 19 de Março de 1935, na Ilha de Moçambique, fez o ensino secundário na então Lourenço Marques( hoje Maputo). Frequentou o 2º ano de Filologia Germânica e licennciou-se em Serviço Social no Instituto Superior do Serviço Social de Lisboa, viveu em londres, Baía, São Paulo. De volta á Moçambique,trabalhou no Ministério da Cultura,onde foi Directora do Fundo para o Desenvolvimento Artsitíco-Cultural, Secretária Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. É membro da Southern African Writers Council.
    Em 1997 participou no International Writing Program, na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos de América.

    Obras Publicadas:
    Ninguém Matou Suhura 1988 – Contos
    Neighbours 1995- Romance
    Os olhos da Cobra Verde 1997- Contos
    As suas obras estão Publicadas na Itália, África do Sul,etc.

    O conto do pequeno Édipo


    Suleiman Cassamo - Moçambique

    O HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com uma voz cinzenta: -Uma cerveja. Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime. A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de poucos amigos. - Vá brincar lá dentro - berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca. O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante. - Que tal? - perguntou a mulher, tentando animá-lo. Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino. - Que tal, é boa? O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o "chapa" e a casa, uma pausa para relaxar. À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo: - Boa. A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz
    tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza. O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera. - Suca daqui! - ordenou a viúva. Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe… - Dá-lhe um pacote de "Maria" - disse o cara. E acrescentou, peremptório: - na minha conta. Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço. À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou: - Boa como a própria dona? Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra. - Xixi cama! - berrou o homem. O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões: - Rua-rua-rua! Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta.
    A prostituta que me provou o teste
    S exta-feira. Na cidade. Meia-noite. Lua cheia. Verão de Dezembro.
    As miúdas alegres na carne masculina que enfileirava a rua delas. Os guardas mais ricos ficavam no aluguer dos sítios.
    Eu (Mbopene), Xiguimane, Muzila vestidos de roupa de passeio descemos a cidade baixa com a ejaculação na mente. Mente esta que estava alcoolizada de tantas garrafas derrubadas no covil da Xitique. Mulher incerta e experiente na arte de vender aos assalariados que mês á mês colhia do cantineiro, do camionista que chegava ao mercado vender hortícolas e legumes, do armazenista que descarregava vagões de produtos contrabandeados, do mulungo do escritório.
    Descemos nos cânticos de alegria e no provoco dos inocentes que cruzaram caminho com os três assalariados.
    Mulheres expostas na rua como se de manequins das lojas fossem caminhavam em direcções incertas a vender o que entre as pernas lhes é sagrada.
    No silêncio dos homens atenciosos e na boca larga do Muzila ouviu-se uma frase grave, aterrorizadora, inerte, grossa, má, que deixou os homens de verdade silenciosos, as mulheres da rua a vociferarem, os seguranças das boates a entrarem na zaragata.
    - Calma ai! Não foi isso que ele queria dizer e não se referia a senhora.
    - A quem dizia, eu ouvi, foi esse cão duma figa que disse.
    - Vais apanhar que nunca viste hoje, nos estão aqui a fazer a vida e tu se não queres nada fica em tua casa. Seu nquenho.
    - Pega ai, e vocês não se metam se não apanham também, leva o gajo para lá em cima. E vocês ficam aqui. Quem seguir apanha, juro mesmo. Este tipo vai aprender.
    Sumiu na escuridão da garagem daquele edifício. Fiquei lúcido. Pensei na polícia. Pensei em fugir. Pensei na milícia. Pensei.
    - Agora vás dizer de novo aqui que disseste na rua ou vás fuder com a malta.
    - Juro que não dizia a vocês.
    Gritos de dor, de tristeza, de amparo. Ninguém ouve. Fraqueza do homem.
    - Tira-lhe as calças e a camisa e a cueca se tiver.
    Nu. Amarrado contra dois postes de canalização de água ali colados a parede. Gritava. A primeira tirou a calcinha. Nua ia ficando. A outra apalpava-lhe o que o homem preserva. Outra metia um lencinho a boca para lhe silenciar. Apalparam-lhe. Acariciaram-lhe. Chuparam-lhe como se de rebuçado fosse.
    Ficou erecto mesmo com dor. Calou-se com lágrimas de medo.
    - Vais dizer mas aqui?
    Silencio mudo.
    A nua segurou-o e introduziu na miúda. Fez movimento que animais em cio, sentiu
    prazeres, gemiam na doçura do acto sexual. Ia perdendo o directo ao medo, ia perdendo o medo a vida, ia ficando com mas prazeres.
    Saiu e entrou a outra, mas brava na arte de satisfazer o cliente mexeu com tudo, sentiu sua vagina delirar, sentiu sua vagina amadurecer, sentiu o pénis fazer-lhe sentir o prazer da vida. Mijou.
    - Agora vai dizer aos teus amigos aquilo que você pronunciou na rua. Saíram de volta ao serviço. Feliz e ele enforcado com o sexo grátis.
    Teve medo de voltar a ver seus amigos, quando no fundo da escuridão ouviu vozes se aproximando em seu auxílio.
    - Então? O que te fizeram Muzila.
    - Sexo sem protecção.
    - Vamos a policia faz queixa, se te transmitiram o sida a força.
    Um ano depois enquanto Muzila cuidava dos seus afazeres, surgiu uma mulher com meia-idade, a cara era linda, o vestuário a medida. Perguntou quando custava o produto olhando para a prateleira ao lado.
    Quando os olhos se cruzaram, Muzila ficou minutos a discernir suas lembranças.
    - Conheço a senhorita de algum lado.
    - Todos me conhecem.
    - Mas não me recordo.
    Pagou a conta e saiu. Minutos depois Muzila seguia para confirmaram o local.
    - Desculpa senhorita, trabalha na baixa da cidade?
    - Onde?
    - Desculpe, na rua!
    - Sim, porquê? Já estivemos juntos.
    Silêncio.
    -Sim, recorda do jovem que a um ano foi obrigado a fazer sexo por ter ofendido três senhoritas e os homens todos ali presentes ajudaram-nas.
    - Sim lembro-me.
    - Sou eu!
    Silencio. Olhares. Perguntas por fazerem-se.
    - Como está?
    - Casada há 6 meses com um estrangeiro e mãe de um bebé de três meses.
    - A tua amiga que também me possuiu.
    - Morreu!
    - De doença?
    - Não foi isso que levou a te possuirmos, de desconfiar que nos éramos umas cheias de SIDA.
    - Foi!
    Poesia e Contos de Autores Africanos moçambicano (n.1962)

    ENSAIO: António Cabrita e o futuro da lusofonia


    Adelto Gonçalves - Brasil

    I
    escritor Antonio Cabrita

    A África não dorme. Vive em eterna vigília. Essa é a metáfora que explica A maldição de Ondina, do português-moçambicano António Cabrita (1959), livro que tem tudo para empolgar o leitor brasileiro não só por suas qualidades literárias como pelas marcas de várias culturas afins ao Brasil que impregnam suas páginas. Como toda boa metáfora, o título A maldição de Ondina tem duplo sentido. Ou seja, explica o fenómeno que faz parte da natureza intrínseca dos golfinhos, mamíferos que não podem dormir jamais, já que, para sobreviver, necessitam vir à tona de cinco em cinco minutos para respirar. E, portanto, não podem esquecer a condição em que vivem, sob o risco de desaparecerem.
    Não se pode esquecer que a referência à Ondina, ninfa das águas na mitologia germânica, serve também para qualificar uma rara síndrome – em 2006, havia apenas 200 casos conhecidos no mundo –, cujas formas graves exigem que a pessoa receba ventilação mecânica 24 horas por dia. Ou seja: vigília ininterrupta.
    Mas explica também o sentir e o estar africano ao longo dos séculos. Um povo – feito de muitas nações, etnias e tradições milenares – que está condenado à permanente vigilância, diante daqueles povos que se mantêm sempre à espreita para espoliá-lo, como fizeram os europeus por séculos a fio. E, agora, ao que parece, fazem os chineses, os colonizadores do século XXI, que estão a explorar as florestas do Norte de Moçambique até o ponto de transformá-las em vasto deserto. Sem esquecer aqueles que saem do próprio povo africano – que, afinal, é resultado de muitas e distintas etnias – e que, no poder, acabam também por espoliá-lo. Mas essa não é uma característica do africano, mas da espécie humana, seja lá qual for a sua matiz de cor.
    Portanto, não se quer dizer aqui que, se a África tivesse ficado imune à presença do europeu e de povos como indianos, hindus, goeses, mouros, cojás e tantos outros que a assolam desde tempos avoengos, teria tido um destino melhor. Ou que, hoje, seria um continente sem problemas, um paraíso terrenal em que Deus pudesse passear tranquilo no jardim pela viração do dia.
    Pelo contrário. É provável que estivesse imerso em mais obscurantismo, ao menos sob o prisma da visão eurocêntrica que nunca iremos perder. Não é isso o que se contesta aqui: até porque essa é uma opção irremediavelmente perdida na História. E que remete ao lamento do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) sobre a vida que podia ter sido – e que não foi.
    A África é o que é hoje. E ponto final. Entrecruzamento de raças e etnias, suas mazelas – a miséria de muitos povos, a falta de perspectivas para muitos, a opressão de uma classe sobre outras – são iguais às de todos os homens que vivem na Terra – uns mais, outros menos. Uma espécie de Brasil nenhum pouco às avessas. Se aqui o partido que se dizia de esquerda e defendia os oprimidos chegou ao poder pelas vias da democracia chamada burguesa e, naturalmente, não o quer largar, ainda que tenha de recorrer a meios inconfessáveis, ao estilo das antigas máfias napolitanas, lá o partido dos oprimidos, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), alcançou o poder pela força das armas, depois de ter, primeiro, colocado o colonialismo para correr e, em seguida, em meio a anos de contendas e mortandades, destruído pelos fuzis adversários que tinham os mesmos objectivos.
    No poder, num congraçamento entre “marxistas-leninistas arrependidos” e oportunistas incrustados nas máquinas partidárias, tanto lá como cá, os partidos e seus dirigentes logo esqueceram os miseráveis que tanto defendiam, deixando-se levar pelas delícias do dinheiro fácil das grandes corporações nacionais e internacionais, que, afinal, ninguém é de ferro e a vida é uma só e tem de ser vivida à larga, ainda que à custa da dilapidação do património público, da corrupção generalizada, do gangrenamento da vida da nação e da destruição dos bens naturais do país. Tudo em troca de “consultorias”, “sobras de campanhas” ou “numerário não contabilizado”, conhecidos eufemismos brasileiros para a maldita taxa de corrupção e outras formas de enriquecimento ilícito. Obviamente, sempre revestidas por “bazófias patrióticas”, como diria o autor.
    É o que se pode sentir neste romance de Cabrita, um retrato de uma África pouco conhecida no Brasil, mas facilmente reconhecível, que se desenha na vida de meia-dúzia de personagens: César, luso-moçambicano, professor e escritor de romances policiais; Raul, amigo de César, policial; Beatriz, mulher de César e professora universitária na área de Literaturas Africanas; Argentina, concubina de César por dez anos e gestora numa ONG; Aurora, antiga ama-seca de César e sua cozinheira; e Filipa, irmã de César e médica. Além de outros personagens secundários apenas citados, como a famosa atriz Rita Hayworth (1918-1987), estrela de Gilda (1946), que, entre outros casamentos, viveu com o príncipe Aly Khan, de 1949 a 1953, num palácio na Ilha de Moçambique, para quem, no romance, Aurora – provavelmente, macua ou maconde – teria prestado serviços culinários.
    Por trás de tudo, um pano de fundo facilmente reconhecível: uma estrada de terra batida é aberta só para que presidentes (das câmaras) de duas cidades e secretários do partido se visitem; um presidente da câmara de Maputo é atropelado de modo acidental, mas ninguém acredita na versão oficial; enfim, crimes que nunca se explicam, como aquele com o qual o policial Raul se vê às voltas com investigações a respeito de pessoas que desviaram dinheiro para o partido, mas para os quais o partido volta as costas. Como nesse tipo de regime o agente policial anda sempre sobre o fio da navalha, dependendo das facções que estão no poder, Raul trata de colocar as barbas de molho, pois teme que o seu fim possa estar próximo. E pede a César, que nunca teve filhos, que leve o seu “miúdo daqui para fora”, pois não quer que fique com a mãe, em Quelimane, pois “isso seria condená-lo a uma vida medíocre...”.

    II

    Observador arguto do linguajar moçambicano, Cabrita constrói os diálogos com fidelidade à oralidade, o que permite suspeitar que, em pouco tempo, o idioma de Camões estará totalmente substituído pelo de Shakespeare não só em terras que foram do sultão Mussa Bin-Mbiki como em todo o antigo e vasto império Monomotapa e nas antigas terras do reino do Ndongo, cobrindo todo o “mapa cor-de-rosa” imaginado, um dia, pelos colonialistas lusos. Até porque a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como organismo internacional, não passa de uma bela fantasia. E, até prova em contrário, pouco faz em defesa da lusofonia. Que o digam os rebeldes da Casamansa, província do Senegal, que desde 1982 empreendem uma inglória guerra de guerrilha para se livrar da opressão do governo de Dakar e virar país independente na órbita da CPLP.
    Cabrita nasceu português de quatro costados, pois é do Pragal, freguesia do concelho de Almada, cidade do distrito de Setúbal, que fica à entrada do rio Tejo, em frente a Lisboa. Mas, como muitos de seus ascendentes, achou de tentar descobrir na África, não a árvore das patacas dos quinhentistas, porém outra maneira de viver. Quem sabe, menos morna e asséptica, porque sob o sol africano e em meio a ameaças físicas e até contagiosas. Como gosta de viver na contramão, foi para Maputo há poucos anos, a uma época em que raros lusos se dispõem a ir para a África e os que de lá retornaram choram até hoje o “império colonial derramado”. Não se arrependeu, pois encontrou material, o chamado “tecido da vida”, para escrever novas e surpreendentes histórias como estas que o leitor brasileiro tem a oportunidade de conhecer.

    III

    O que se lê neste romance, para quem conhece a vida nas favelas e subúrbios das grandes e médias cidades brasileiras, não haverá de surpreender. Talvez uma ou outra expressão autóctone que o escritor esclarece devidamente em notas de rodapé. Um personagem era bem visto pela comunidade porque colocara a filha a estudar – já estava na 11ª classe –, ainda que o seu verdadeiro negócio fosse o tráfico. Outro, que exibia uma cara da ratazana, tinha duas mulheres e nove filhos e vivia de biscates. Um terceiro, professor primário, fora abandonado pela mulher, depois de tê-la espancado até quase à morte, com oito meses de gravidez, por causa de ciúmes do pastor.
    Em meio a uma natureza paradisíaca, a violência doméstica é corriqueira em algumas aldeias, onde o isolamento parece enlouquecer os homens. “As pessoas catanavam-se à primeira, por medo, cativos. À mínima tensão o marido acusava a mulher de feitiço e a família dele acabava por cataná-la, a cobro da noite (...)”, diz Beatriz. Catanavam-se, ou seja, cortavam-se com facão.
    O estilo de Cabrita é de fácil e envolvente leitura, ainda que os capítulos em flash nem sempre permitam acompanhar o foco da narrativa ou o fio-condutor da trama com facilidade, exigindo novas e detidas leituras. O texto, porém, vale por si mesmo, pois não deixa de explorar todas as técnicas desenvolvidas pelos grandes mestres da literatura. Com mestria, Cabrita recorre ao discurso indireto livre sempre que pode: “(...) A sua mãe, farta daqueles modos, resolvera voltar a casa e levar as crianças, advertindo-a na porta, esta gente não presta, se armarem confusão fala com o polícia do sétimo”.
    A história, porém, é conduzida em torno de César, uma espécie de alter ego do autor, professor, intelectual que vive rodeado de livros, casado com Beatriz, mas que teve uma amante com o sugestivo nome de Argentina. Filho de “boa família portuguesa”, que é como se diz daquelas famílias que conseguiram amealhar um bom património e dinheiro no banco, César não hesita em chantagear o pai, em troca de que este o deixe levar consigo a amante negra para com ele estudar em Lisboa. Afinal, o pai sabe que ele sabe de sua segunda mulher, “a quem instalara casa nas Torres Vermelhas, em Maputo”. O silêncio vem “em troca de uma passagem para Argentina e de um aumento chorudo na mesada”.
    Se não conseguiu entrar no curso de Direito como o pai ansiava, enquanto Argentina concluía o de Economia, César ganhou fama com seu primeiro romance policial, a que se seguiram outros. Quando se sentia secar por dentro, retornava a Moçambique em busca de reciclagem e renovação. Depois de anos com Argentina como amante, resolve casar a sério com a professora Beatriz, talvez em busca de uma união estável. Mas aqui não há como deixar de pensar que, para ele, as “pretas” só servem como amantes, ainda que Argentina seja uma mulher extremamente culta. Ranço do racismo colonialista, quem sabe. Mas, quando o casamento com Beatriz entra na fase morna, César volta a Moçambique, atrás novamente de Argentina, que, a essa altura, também voltara para a África de olho num mestrado no Zimbabué.
    Quando está às vésperas de reatar com Argentina, quem sabe para finalmente constituir uma família e uma velhice tranquila para ambos, o destino o leva para outro rumo. Por lealdade a Raul – morto numa cilada em Quelimane, provavelmente por um colega de profissão, vítima de alguma intriga política –, terá de assumir o filho do outro para colocá-lo longe da África. E garantir-lhe uma vida melhor.
    Eis a metáfora de volta: na África nunca ninguém pode dormir, o que significa que não se pode esquecer o passado, essa assombração que vai aonde quer que se vá. Em outras palavras: como não podem esquecer o que lhes fizeram, os africanos não conseguem superar o ressentimento e atingir o perdão. Nem perdoar os outros nem a si mesmos. Essa é a maldição que paira sobre a África. A maldição de Ondina.

    IV

    António Cabrita publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores (1979), Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo (Teorema, 2008), Carta de Ventos e Naufrágios (Teorema, 1998) e Cegueira de Rios (Relógio de Água, 1994). Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico literário e de cinema de 1988 a 2004 no semanário Expresso, de Lisboa é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para o cinema.

    _________________________________

    (*) Posfácio do livro A Maldição de Ondina, de António Cabrita (Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2011).

    E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br

    Site: www.letraselvagem.com.br

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    (**) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage -- o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

    CONTO: Filho Pródigo


    Alex Dau – Maputo/Moçambique

    O moribundo soergueu sofrivelmente, e procurou balbuciar algo, sem conseguir, voltou a adormecer seu sono doente.
    Parentes atónitos olhavam-no cheios de piedade. Preces intermináveis eram rogadas silenciosamente. Todos clamavam misericórdia para com o enfermo que se debatia pela vida.
    Os dias sucediam-se e a família partilhava pacientemente a dor de Bucande que gemia perdidamente no seio leito.
    Nhessene, a esposa lacrimejava triste e era amparada pelos dois filhos, Massembe, o mais velho e Dimbo o mais novo.
    Ambos escutavam calados a dor do pai, que já haviam levado a todas instâncias da medicina convencional ao seu alcance recorreram mesmo a medicina tradicional sem no entanto alcançar resultados positivos. O enfermo continuava internado na sua agonia deixando os demais entregues a um desespero interminável.
    Mário Bucande, homem modesto de cinquenta e três anos, abandonara sua terra natal, Kuala no centro do país para a cidade capital quando tinha dezoito anos. Desde então nunca mais voltou. Conheceu Nhessene e cheios de paixão casaram-se, criando assim uma nova família. Deu sustento a mulher e aos filhos com os proventos oriundos de seu emprego numa fábrica.
    A sua degradação do género irreversível iniciou-se com sonhos misteriosos que vinha tendo com os falecidos pais. Primeiro acontecimento nefasto que surgiu foi a perda de emprego na fábrica. Dias depois caiu doente, devaneava morbidamente sentindo o espírito transferir-se do corpo para um espaço recôndito. Mário já não reconhecia o meio em que se encontrava inserido, por vezes ficava com os olhos esbugalhados divisando o vazio.
    Sua esposa era arrebatada vezes sem conta por uma opressão cruel que a desesperava, vigiava regularmente o marido esperando ver qualquer reacção no corpo imóvel deste.
    Os filhos firmes em levar avante o tratamento do velhote aplicavam suas economias com médicos que não sabiam diagnosticar a enfermidade de Bucande. Em contrapartida, curandeiros de todos escalões eram unânimes em afirmar que o doente não havia cumprido com os compromissos tradicionais para com os seus mortos.
    – Ele não foi nem ao enterro do pai nem da mãe, ainda mais não cerimoniou os falecidos. Agora, eles estão muito zangados! – leu convictamente Yambe o curandeiro mais afamado da cidade e arredores nos dados mirabolantes que se encontravam espalhados no chão.
    – O que podemos fazer para salvar o nosso pai? – consultou penosamente Massembe.
    – Nada, os mortos do seu pai são muito confusos, ele não escapa! – sentenciou friamente o curandeiro.
    Exasperado com os acontecimentos, Massembe embrenhou-se numa enorme solidão que lhe desatinava o espírito, e não foi suficientemente corajoso para dizer a mãe o juízo final proferido por Yambe.
    Já a noite emprestava uma densa escuridão, que a lua não dissipava e no quarto do paciente, o “Xiphefo” espraiava debilmente sua luz, lá fora uma coruja emitia seu pio augurando a noite infernal dos Bucande’s.
    O doente agitava-se febrilmente, deixando sair dos poros suor cálidos que escorria para o lençol fedendo todo o quarto, mas os parentes mesmo sufocados suportavam aquele mau cheiro.
    Delírios troaram dos lábios trémulos do paciente, que procurava titubear algo:
    – Eu morrer...Kuala! – tartamudeou por fim o moribundo.
    Gatos excitados miavam num acto de orgia perturbando orações que eram emitidas para o todo-poderoso.
    Bucande gemia descompassadamente libertando sangue que jorrava da boca, esperneou preguiçosamente, os olhos reviraram-se procurando um antídoto algures, desesperou-se dando o último suspiro.
    Nhessene a esposa do falecido, assinalou seu luto chorando e emitindo gritos, os filhos prantearam silenciosamente.
    Sem delongas, os preceitos fúnebres foram tratados para o dia seguinte. Em casa do falecido, decorriam as cerimónias inerentes ao facto, Nhessene tétrica, lastimava com sinceridade a morte do marido, ela era consolada carinhosamente pelos filhos.
    O cortejo fúnebre seguiu silenciosamente, por picadas encharcadas até ao cemitério, rezas foram proclamadas seguindo-se depois a inumação. Belas flores coloriam o túmulo improvisado de areia. A família enlutada regressou a casa ficando na companhia de amigos, vizinhos e parentes.
    Massembe bastante estafado, acomodou-se na sua cama. Mal fechou os olhos, enxergou através de uma visão, a imagem distorcida do falecido pai, solicitando que fosse desenterrado e translado de urgência para Kuala, pois sentia-se estranho entre espíritos desconhecidas.
    Assustado, Massembe abriu os olhos e sacudiu a cabeça procurando afastar aquelas imagens perturbadoras, mas quando de novo fechou os olhos voltou a deparar com a mesma situação.
    Levantou-se bastante conturbado e resoluto, caminhou a procura de Yambe.
    – O espírito do velho diz que quer para a sua terra – afirmou Massembe sereno, esperando atentamente o resultado da consulta que o curandeiro fazia.
    – Faça-lhe a vontade sem demora – determinou Yambe olhando fixamente para Massembe.
    Uma assembleia familiar foi convocada para discutir e acertar a vontade do espírito viajar de regresso as suas origens.
    No dia seguinte, segundo orientações de Yambe, Massembe e Dimbo escalaram o cemitério depois de completarem toda a burocracia e corajosamente procederam ao desenterro do caixão contendo os restos mortais do pai, que de seguida foi transportado por um “tchova” para sua antiga residência.
    Logo pela manhã quando o sol espalhava molemente os seus raios solares, já a viajem, havia sido preparada ao pormenor, o ataúde foi colocado dissimuladamente numa carrinha alugada.
    Massembe e Dimbo despediram-se penosamente da mãe e tomaram os seus lugares na carroçaria ladeando a féretro do pai.
    A carrinha partiu levando o corpo de Bucande a sua terra natal, Nhassene bastante comovido dispensava um olhar terno de último adeus ao marido.
    O veículo funerário distanciou-se de sua origem percorrendo numerosos quilómetros, os irmãos entreolharam-se calados. Do céu descoberto da manhã, um bando de corvos planava bem alto bem duas filas indianas escoltando o carro funerário.
    Depois de uma longa viagem rica em percalços, primeiro foi um pneu dianteiro que estourou e por pouco o motorista não perdeu o controlo da viatura, depois foi o motor que aqueceu bastante e tiveram que parar o veículo até o motor arrefecer, finalmente alcançaram exausto o destino.
    Um manto nublado cobria os céus de Kuala quando a comitiva fúnebre chegou, Massembe e Dimbo foram recebidos por Tsango irmão mais novo de Bucande, que sabia antecipadamente da vinda do corpo do irmão, através de um comunicado anunciado pelos espíritos. Tsango auto apresentou-se aos sobrinhos passando a expor os mandamentos dos espíritos do falecidos pais.
    – Temos que sepultar ainda esta noite – proferiu Tsango enrugando a testa.
    – Que assim seja! – consentiu Massembe.
    Um pequeno grupo acompanhou solenemente o cortejo até ao cume de um monte onde iria ficar sepultado o corpo de Bucande. Sons de um cântico tradicional fizeram-se ouvir dando início ao acto cerimonial, batuques rugiram vigorosamente ritmando na noite. Um grupo de donzelas virgens e de tronco nu dançavam eufóricas ao ritmo da batucada e cantavam de ânimo leve acompanhadas por dois mochos que piavam enquanto um homem dotado de poderes sobrenaturais purificava com sangue de serpente o fundo onde iriam ficar sepultados os restos mortais de Bucande.
    O ataúde foi inserido no fundo da cova e coberto primeiro com um plano vermelho e areia de seguida. Atearam um archote junto ao túmulo que ardia fortemente cativando com o seu poder ígneo a atenção de todos os presentes.
    A cerimónia terminou quando começou a chover torrencialmente, mas o archote teimava em arder.
    – Já foi cumprido a vontade dos espíritos, por isso chove – afirmou Tsango
    Os irmãos, estupefactos com todo aquele ritual, consentiram calados.
    Os espíritos jubilosos, celebravam o regresso do filho às origens.

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