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    Os novos poetas de Macau*


    Paulo Barbosa

    Estará a poesia de Macau à altura da sua história e de nomes como Pessanha ou Camões? Os tempos são outros, mas o certo é que há um novo impulso na poesia escrita em Macau. Jovens, muitos deles agregados pela ASM, estão a criar versos com alguns pontos comuns. Inglês e chinês são as línguas de expressão dominantes.

    São bilingues, escrevem cruzando línguas e culturas e imprimem nos seus textos as especificidades do território. O aparecimento de uma nova geração de poetas em Macau ficou patente na semana passada, quando foi lançada “Just a coin’s worth of blue”, uma antologia poética publicada pela Associação de Estórias de Macau (ASM, na sigla inglesa). A obra apresenta quinze “novas vozes” – apenas uma delas expressa em português – e é representativa de um novo fôlego na poesia local, segundo Christopher (Kit) Kelen.

    O principal traço que une estes novos poetas passará pelo facto de “escreverem maioritariamente em chinês e em inglês”, reconhece o mentor da ASM, que é também professor da disciplina da escrita criativa do mestrado em língua inglesa da Universidade de Macau (UMAC). Desde que foi criada, em 2005, a associação já publicou 37 obras, numa demonstração de que há muitas pessoas a escrever poesia em Macau, “a maioria das quais nunca foram publicadas, por isso as apelidamos de novas vozes”, comenta Kelen, também ele poeta publicado, autor do recente  “To The Single Man’s Hut” (“Para a Cabana do Homem Solteiro”, na versão portuguesa).
    Para além do bilinguismo, um traço comum estas “novas vozes” da poesia local passa pelo facto de muitas delas estarem associadas ao mestrado em língua inglesa da UMAC. Alguns já estudam e escrevem poesia há anos, outros interessaram-se verdadeiramente pelo tema graças ao estímulo do professor australiano. A viver em Macau há pouco mais do que dois anos, Chris Song Zijiang é o melhor exemplo do primeiro caso. Licenciado em literatura inglesa na Universidade de Shenzhen e detentor de um bacharelato em filosofia, Chris foi um dos poetas publicados em “Just a coin’s worth of blue”, para além de ser tradutor de poetas chineses para inglês e de ingleses para chinês. Na UMAC, onde já é professor assistente, está a terminar a uma tese de mestrado, que consiste num estudo comparativo da eco-poesia no trabalho do americano Gary Snyder e do australiano Robert Gray.
    Parece uma hipótese remota ver um chinês de Shenzhen a interessar-se especialmente por Gary Snyder, um poeta que inspirou Jack Kerouac a escrever “Os Vagabundos do Dharma”. Elemento da famosa “geração beat”, que revolucionou o panorama literário americano em meados do século XX, Snyder está ligado à filosofia budista. Na década de 1970, permaneceu vários anos no Japão, antes de regressar aos EUA para viver nas montanhas, em retiros interrompidos para participação em leituras públicas, como fez no ano passado, quando esteve num festival de poesia em Hong Kong. Ao escolher tão distante objecto de estudo, Chris quis aproximar poesia e a filosofia, duas das suas predilecções.
    “Snyder interessou-se pelo budismo através dos seus amigos da geração beat, tais como Alan Watts, Jack Kerouac, Ginsberg ou Corso. Robert Gray interessou-se pelo budismo também por causa de Alan Watts. Ambos têm muitos interesses comuns e eu quis muito fazer este estudo comparativo”, conta. O factor descoberta também pesou: “Snyder continua vivo, por isso penso que escrever sobre ele é mais interessante e vale mais a pena do que escrever sobre, por exemplo, Wordsworth, ou Robert Frost, sobre os quais já há muitas teses. Quanto a Snyder, ainda é possível escrever coisas novas e interessantes.”
    Tradutor de poetas chineses clássicos, o poeta vê diferenças e similitudes nas maneiras de escrever oriental e ocidental, que se interligam em sítios como Macau. Segundo analisa, “na poesia clássica britânica, como nos casos de Shakespeare, ou de Wordsworth, prevalecia uma forma muito estrita de escrever poesia, através de um formato”. Quase o mesmo se passava na poesia chinesa clássica, onde os poetas tinham de escrever com uma forma subjacente: “O poema tinha que ter, por exemplo, 25 caracteres e cinco caracteres em cada verso. Na dinastia Song, a poesia é feita para ser cantada, com música em fundo. Há muitos estilos de poesia cantada”, descreve Chris.
    Defendendo que “o formato rígido é semelhante entre as poesias clássicas oriental e ocidental”, o poeta universitário diz que os movimentos modernistas destruíram essa formatação. A ocidente, depois da I Guerra Mundial, começou a ser escrita poesia em estilo livre, abandonando os formatos tradicionais. A poesia chinesa passou então a ser mais influenciada pelo Ocidente e, após a Revolução Cultural, “também os chineses começaram a escrever em estilo moderno, através do acesso que tiveram à poesia ocidental”, argumenta Chris. Actualmente, “as poesias chinesa e ocidental são muito similares em termos de estilo”, mas persistem diferenças no conteúdo: “Os chineses nunca se tornam tão radicais. [risos]. Pura e simplesmente, não fazem isso.”
    Quando instado a ensaiar alguns traços comuns para a poesia feita em Macau, Chris Song hesita antes de tentar uma definição: “Em Macau há a poesia portuguesa, que é uma parte importante da história do território. Há também a poesia chinesa, escrita por pessoas naturais de Macau. Há também alguma poesia escrita por pessoas que passaram por Macau. Isso engloba pessoas que escrevem em chinês e pessoas que escrevem em inglês.”

    Poetas bilingues

    Talvez se tenha que analisar o método de escrita para encontrar um ponto forte que seja comum a muitos dos poetas de Macau. Chris Song avalia-se como um poeta bilingue, embora esteja mais próximo do chinês, a sua língua-mãe. Escreve indiscriminadamente em ambos idiomas, sendo-lhe difícil definir qual vem primeiro. “Por vezes, começo a escrever um poema e sinto que não estou a chegar a lado nenhum, ponho-o de lado. Uns tempos depois volto a pegar nele e penso que talvez pudesse continuá-lo em inglês. Quando acabo de trabalhar a estrutura e o conteúdo do poema, faço duas versões, a chinesa e a inglesa”, conta.
    Trata-se de uma nova forma de escrever, “que beneficia muito o poeta bilingue, porque se pode criar algo de novo numa linguagem quando se está a pedir algo de emprestado a outra”, continua Chris Song. “A poesia é uma luta contra o cliché, por isso leva a linguagem até aos extremos, explora uma forma extrema. Às vezes, colocando duas línguas numa forma extrema, pode haver um ponto de contacto entre elas. Um cliché em inglês pode ser algo de muito novo em chinês, ou vice-versa.”
    É esta originalidade, provocada pelo cruzamento entre duas línguas e pelo método de tradução directa dos caracteres chineses para o inglês, que faz com que este poeta vá ser publicado numa revista de poesia americana, a “Amistad”: “Eles aceitaram, acharam que era algo de novo e que nunca tinham visto algo assim. É claro que o Robert Frost tem razão quando diz que ‘a poesia é aquilo que se perde na tradução’, mas ele não se está a referir apenas à mera tradução de uma língua para outra, tem a ver também com o processo de simbolização daquilo que o poeta quer dizer para a sua língua, algo se perde nesse projecto. Também os leitores podem ter uma interpretação muito diferente da do escritor e este pode ficar com a impressão de que o leitor não captou a sua intenção.”
    Menn Chow, outro dos poetas que faz a sua estreia na antologia da ASM, destaca também a característica multilinguística dos novos poetas de Macau. “A maioria de nós sabe, pelo menos, duas línguas. Macau é um local complexo, por exemplo eu e você estamos a falar em inglês e não em chinês ou português, que são as duas línguas oficiais. O inglês tornou-se mais popular do que o português por motivos comerciais e também dada a influência de Hong Kong. Aqui parece que o mandarim e o português são estranhos às pessoas locais. Há as línguas oficiais, mas as pessoas usam outras para comunicar. No estilo de escrita chinês, o cantonês e o mandarim são escritos da mesma maneira, mas eu prefiro escrever num estilo mais próximo do cantonês e não no chinês correcto. Assim sou mais expressivo, posso jogar mais com as imagens poéticas”, explica, admitindo que usa a mesma informalidade com o inglês.
    Ligado ao design, às instalações artísticas e à fotografia, Chow escolheu agora “explorar o ultra-fantástico mundo da literatura inglesa” e está a ultimar o seu primeiro livro de poemas, que terá como título “poems from love, death and you”. O jovem, que trabalha no Creative Macau, interessou-se pela composição de poemas, com os quais tenta “explorar os formatos, porque diferentes meios podem ajudar a expressar as ideias”. Chow escreve num estilo pessoal e diz mesmo que a sua poesia é a sua biografia. Tal como Chris Song, também este poeta tem um método bilingue, começando poemas num idioma e “mudando-os” para outro. Ou misturando ambas as línguas, como num dos poemas publicados na antologia, onde joga como facto de no chinês tradicional o caracter que representa a ideia de amor ter um coração no meio, o que não acontece no simplificado.
    Nascido em Macau, Chow conhece bem a cidade e atribui à impermanência o facto de muitos poetas, chineses e portugueses, não se tornarem conhecidos. Por isso, faz um apelo a uma maior fixação. “Apenas passam algumas temporadas aqui. Precisamos de muitas pessoas jovens que fiquem em Macau e que falem sobre o que é território”. Chow louva o trabalho da ASM enquanto associação pioneira para a promoção de contos e poesia, que “está a recrutar muito ‘sangue novo’”.
    Tradutora e poeta, Iris Fan inclui-se nesse novo conjunto de valores “recrutados” pela ASM. Na sua opinião, a poesia feita em Macau tem características diferentes, que a fazem diferente daquela que é feita na China interior. O que terá a ver com o facto de Macau “ser uma cidade que é diferente das cidades do interior historicamente e que está a passar por mudanças e tem também a ver com os poetas que escrevem sobre ou em Macau, e que têm várias origens culturais”. Subjacente a todo esse trabalho poético está “a identidade de Macau, que necessita de ser mais analisada, não só na poesia, mas também em outras formas literárias”, opina Iris Fan.
    Outra “nova voz” lançada pela ASM, Dodo Gao, começou a escrever poemas devido à frequência das aulas de escrita criativa de Kit Kelen. E “viciou-se”, por assim dizer: “Nestes meses, sinto que foi criado um hábito e agora dou por mim a apontar as ideias que me impressionam na minha vida diária. Desde que comecei a escrever, tenho estado mais alerta para observar e sentir o que se passa à minha volta”. Para esta autora, é importante escrever poemas porque a “escrita é uma evidência do crescimento pessoal e testemunho das mudanças por que passa a vida”. Debby Sou, escritora e pintora de Macau que, no início da década de 1990, estudou língua portuguesa durante dois anos em Coimbra, é mais enigmática: “Não sei porque escrevo, talvez tenha a ver com o facto de ter nascido para isso e a poesia é uma das formas que uso”, conta outra das autoras de “Just a coin’s worth of blue”.

    Poetas portugueses procuram-se

    Kit Kelen bem tenta encorajar mais pessoas a escrever também em português, mas Leonor Macedo é a única poeta da antologia que se expressa no idioma luso. A autora contribui com três poemas, cuja versão original é em inglês, mas que estão também “elaborados em português”. A participação no livro ocorreu em consequência da assistência às aulas de poesia e tradução Kelen. “Participei nas tarefas da aula, incluindo a criação e tradução de poemas. Devido a esta participação, o professor convidou-me a ter parte no livro de poemas que estava a construir com alguns alunos e outro poetas de Macau já editados”, recorda.
    Frisando que as temáticas são diversas e variam de autor para autor, Leonor Macedo encontra algumas especificidades na poesia escrita em Macau. “Existe, de facto, uma poesia que pode ser chamada de ‘poesia de Macau’, poesia ligada ao lugar, que tem principalmente a ver com o modo como a pessoa sente ou vê Macau, e explora a sua relação com o sítio. São, muitas vezes, poemas que falam do ‘antes’ e do ‘agora’ e exploram os temas da memória e da mudança e que, muitas vezes, se fixam em sítios específicos e característicos da cidade”, descreve. Uma temática expectável tendo em conta o contexto histórico e social de Macau, na opinião da autora. “Mas os ‘jovens poetas macaenses’ que tive oportunidade de ler não escrevem só sobre Macau, e acho que isso também é importante.”
    Quanto ao nível qualitativo da poesia escrita em Macau pela nova geração, Leonor confessa não ter um conhecimento extenso do assunto. “Mas do que conheço e do que estudei quando estive em Macau [a poeta encontra-se em Portugal], fiquei muito bem impressionada. Há uma grande quantidade de escritores de qualidade, vários dos quais tive o prazer de conhecer durante este processo. Como leitora, fiquei muito satisfeita com as coisas que li”, argumenta.

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    *Artigo publicado no dia 10 de Junho de 2010 no blogue: http://pontofinalmacau.wordpress.com com o título “Quem são os novos poetas de Macau”.

    EDITORIAL-49: A Literatas acabou?


    C



    omo uma agulha esta pergunta me chegou de um dos mais prestigiados colaboradores da revista Literatas em Portugal, num tom de quem diz “não pode ser!” e que não era justo um final tão inesperado. O fim assusta como o começo. É tudo imprevisível, entretanto, são duas coisas necessárias e de certa forma, a essência para a existência.

    Uma missão só é dada como completa quando ela se inicia e se acaba. Por isso, caro Victor, não temas o fim, esse vírus de um novo começo que é inevitável. Mas mais ainda, não deve temer porque a Literatas, Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona não acabou, está só no começo e como uma gravidez prematura, tem realmente as suas dificuldades. Mas o maior poder que ela precisa para existir e prosseguir, ela tem. São as mentes e os corações. Nada mais poderoso que essas duas coisas juntas e uma concordando com a outra.
    A revista Literatas tem gente que a quer (bem ou mal), e são esses que a levam adiante. Cada colaborador é parte do oxigénio que ela respira; cada texto enviado é um sim anunciado ao mundo sobre a continuidade; cada escritor que nasce diz “sim” à revista Literatas. Portanto, o fim ainda que inevitável, ainda é uma miragem. Assumamos.
    E neste prenúncio do fim (de ano) em que nos encontramos, mesmo na penúltima edição de 2012, encontramos na Rua Mário Pinto de Andrade, no Pulmão da Malhangalene, periferia da cidade de Maputo, o poeta Eduardo White. O poeta estava lá sentado a nossa espera como espera o país (ou os países) que o tornam o que é; um actor desassossegado, aconchegado à palavra para ser o que sonha. Mas há-de ser fácil ser um cidadão neste “O País de Mim”? Não, porque tal como os homens nunca compreendem as mulheres, White, não compreende o seu país, questiona as suas crises e psicoses, mas dele parte para outros Orientes. Uma entrevista que transcendeu todos os ideais, esperamos estar certos de que estamos no penúltimo piso da satisfação, caro leitor.
    Ademais, não seria justo entrevistar um poeta entre países onde a poesia é o canto do povo, sem que os símbolos sejam recordados. Por isso, homenageamos neste número, Carlos Drummond de Andrade e Reinaldo Ferreira, se quisermos, homenageamos também a São-Tomense Conceição Lima numa viagem pela sua primeira obra, “O Útero da Casa”. Esses nomes fazem o nosso quotidiano poético, desde Brasil, Moçambique-Portugal e São Tomé e Príncipe. Há razões para reconhecer esses poetas.
    Esta podia ser um fim antecipado, mas os fins não se antecipam, esperam-se. Então, esperamos com o trabalho deste número, a edição 50, que encerrará 2012, para com a mesma esperarmos 2013, aquele que nos quer com gula, reservando-nos muitos sucessos. Esperamos estar juntos (sem medo de que tudo acabe).

    Boa Leitura

    CADA PALAVRA, UMA TESE

    Marcelo Soreano - Brasil



    C

    ada palavra é uma tese. Não. Na verdade, cada letra é uma tese. O traço, o simbolismo, a significação... Repensando... Cada letra em cada palavra gera um sem fim de teses.
    Uma tese (literalmente 'posição', do grego θέσις) é uma proposição intelectual, segundo Wikipédia, a enciclopédia livre. E não raro ignorarmos, em prol do afã imediato, a história, a origem, a cosmogonia, o universo daquela palavra específica que já existia - ou pré existia - muito antes de pesarmos nosso corpo sobre a superfície da Terra da Linguagem, do letramento, da alfabetização.
    Quantos lugares inóspitos, de difícil acesso, nos propõem as palavras?! Isso quando não nos acenam de 'não lugares' semi perfeitos, a partir de regiões inalcançáveis de nossa ilusão, de nossas inquietudes emocionais e intelectuais.
    Hoje, por exemplo, enquanto ser dominical que não refuta o extremismo do ócio imposto ao homem biológico e suscetível ao tédio que, também, sou...  Nenhuma palavra me ocorre. Até porque a palavra "palavra" para mim é tão íntima e intimidadora quanto um espelho e quanto aquelas fotografias em momentos de esculhambação pessoal. E, também, porque a palavra "palavra" suscita outra para mim: Trabalho. E domingo, corriqueiramente falando, seria dia de descanso.
    Outro dia,  se não me falha a memória, li que a palavra "criança" foi a escolhida por Manoel de Barros. E pensei, pensei, refleti... E não leio outra igual no mundo. E criança não é gente, é um composto entre passarinho e redemoinho, ou àquilo que as avós entendiam por anjos e que se confunde, entre a poeira corrida da estrada e o pé por pé na flor d'água das vertentes.
    A palavra das palavras, a mãe das crianças e das teses, para mim, Senhor Manoelito - ser letral das próprias 'criaturezas' - seria Silêncio - a ausência total de barulho. Aquele que nos embalsama com perfumes durante a hora dos sonhos; aquele que olha nos olhos e não precisa dizer mais nada; o silêncio da pedra que confabula com o vento...
    Bom, a tese (não concluo, nem defino) seria o oposto da poesia, mas ambas perambulam de mãos dadas pelo fio da meada que se perde e se encontra de modo descomportado pelos confins dos cadernos rabiscados das crianças que, em silêncio, aprendem desmedidamente a ler e a desenhar o mundo muito antes de aprenderem os vieses caligráficos de um redigir sistemático com excesso de palavras expelidas ao deus-dará, em plena tarde quente, que configuram este maçante, porém, perseverante monólogo sobre as palavras dominical. _ 

    (Escrito para a Revista Literatas - Maputo, MZ, 2012)


    O que há para celebrar quando o presente é oposto ao passado?

    Japone Arijuane - Moçambique



    A

     Celebração é, e deve ser, considerada e concebida como o momento alto de uma satisfação interior e exterior; individual ou colectiva. Uma satisfação de cumprimento de uma dada tarefa, luta ou mesmo um desafio; a mesma deve ser encarada com o espírito de missão cumprida. Sendo esta o auge de uma satisfação, deve habitar no interior de toda colectividade contemplada; de todas as individualidades chamadas a celebrar e, nesses moldes, que seja uma celebração sem vencidos e sem vencedores. Não se pode celebrar em nome de famílias enlutados, e muito menos, em nome das vítimas e vitimados; se não, melhor uma reflexão em vez de celebração. Os momentos de reflexão que hajam, quando assim exigirem. E a celebração não seja pela quantidade de anos passados, sem que nestes anos algo se tenha feito para comemorar. A celebração, que seja pela quantidade e qualidade de desafios, tarefas ou lutas ganhas em menor espaço de tempo.
    Passam-se neste mês o 125º aniversário da Cidade de Maputo, será que nós os citadinos desta urbe somos dignos de uma celebração?, ou de uma profunda e colectiva reflexão? E se for celebração, o quê que estaríamos a comemorar?
    Ora vejamos, meus caros maputenses, a demanda demográfico esta cada vez mais incontornável, e esta sem acompanhamento infra-estrutural; como consequência a falta de habitação tornou-se o pão de cada dia; a falta de saneamento do meio, a intransitabilidades nas das ruas, a marginalidade gritante das famílias de baixa renda; que como causa e efeito sobe incansavelmente o índice da “pobreza urbano”, mendicidade, a violência etc. O cancro dos transportes urbanos, hoje municipalizados; mas, mesmo assim, cada vez mais grave a falta destes. E sem esquecer-se dessa questão que já tem carapinhas brancas, a questão do lixo na cidade; que por ser tão grave e crónica alguns fingem em não ver. E o que dizer do elevado consumo de álcool da juventude e não só; que, quando ébrios além de regarem as acácias a urinol, brincam de rali nas vias públicas e mancham indelevelmente as as mesmas ruas a vermelho. A prostituição que antes era na rua do bagamoyo, hoje várias esquinas foram abertas, novos postos se formam em qualquer esquina da “cidade”. Caro munícipes o que há para celebrar? O parque imobiliário do Zimpeto?, cujas casas da vila olímpica que antes mesmo de dois anos clamam o final do jogo? Há desertificação dos jardins, - sem comentários ao zoológico, aliás zoo-ilógico.
    Alguns distraídos, como uma vez alguém chamou opostamente os lúcidos deste país, dirão que celebram as novas construções dentro da cidade. A questão é: aquém beneficiam estas construções?, aos citadinos comuns feito eu e tu?, ou os outros? Estes que mais para além da distracção, dirão o projecto da circular de Maputo, que inclui a ponte sobre KaTembe, não acham ser sedo de mais para celebrar um jogo ainda por jogar?, lembrem-se da memória tão fresca do massacre de Marraquexe. O que celebrar?, a nova subida, sem pressupostos básicos, dos preços dos transportes públicos?, e desta que celebração esperamos? Não será esta semelhante que se deu nos dia 2 e 3 de Setembro?
    Meus caros munícipes desta cidade das acácias urinadas, acham que temos motivos de celebração? Porque que, além de celebração, não chamarmos esta data de reflexão? Reflexão dos 125 anos de um lugarejo de dificuldades, cujo nome é Maputo? Não acham se continuaremos a chamar desta data de celebração haverão vencidos e vencedores? Ou mesmo derrotados e ganhadores? Que haja honestidade!

    De Lisboa a Famalicão: O baptismo do Perdedor da Distância Incerta ao Ponto Certo

    Amosse Mucavele



    S

    exta-feira acordo embriagado pela beleza das noites Lisboetas que não me largaram a beira do Sagres.
    Antes de me levantar vejo a Francisca ( a gata) encostada a almofada que desfilava no lugar onde dormia e eu nem tomei conta da sua presença, dei um abraço na gata a boa maneira que a Maria me ensinara, ela continua a olhar-me com desconfiança, deixo-a e levanto-me em direcção ao relógio pergunto-o as horas e ele respondeu-me:
    - São seis da manhã 
    Levantei-me a passos de camaleão, iniciei a minha digressão pelas coisas que me pertencem, preparei a mala, os livros nas devidas sacolas e os documentos nos seus concretos espaços de repente apercebi-me que tinha o bilhete do voo em falta. Acordo a Maria que de forma leve e tardia liberta-se da cama pois o sono já tomava conta do seu mar alentejano, eu convidei-a a mergulhar no mar da minha inquietação.
    Amosse tenta lembrar-se onde deixou o bilhete enquanto procuramos nos livros- retorquiu a Maria
    A mesma altura eu regava com lágrimas de dor a cheirarem-me o exílio pelos tantos cantos daquela casa. E ela disse:
    -será que não esqueceste na pensão onde dormiste no primeiro dia?
    As palavras me fugiam como um navio de pesca em plena castração no mar, o coração batia forte e melancólico como as águas turvas de um tsunami. O silêncio não me largava, o relógio corria a uma velocidade cósmica tipo um gato em brasas, 9 horas diz ele a rir-se de mim, olho-o com uma voz nostálgica pego no celular penso em ligar para Maputo a Maria intersecta-me diz:
    -Não precisa Amosse esta tudo bem com a sua avó o que tens que fazer é ligar para o Delmar e outro amigo da embaixada para te levarem a pensão para ires procurar o bilhete.
    Como sempre a voz da mulher é a voz do comando, liguei para o Paradona combinamos o ponto de encontro nas Amoreiras, sai da casa (Maria) a caminho da paragem do mesmo nome, minutos depois chega o Paradona exponho a minha preocupação .
    E ele disse não tem problemas vamos a TAP resolve-se este caso. Fiquei sossegado saímos em direcção ao aeroporto, o celular toca toca Delmar diz:
    -estou na embaixada a vossa espera com uma actriz brasileira.
    -Dentro de 5 minutos chegamos ao vosso encontro, respondeu Paradona
    saimos a moda da fórmula 1 que se conduz em Portugal despertamos na ponte em direcção a Setúbal. estamos perdidos para voltar temos que atravessar a ponte e voltar de novo na rotunda da Costa da Caparica -disse Paradona.
    Este era o prenúncio de um festival de perdidas que o dia esperava nos presentear. Chegamos a embaixada encontramo-los bem cansados de tanto esperar e bem sossegados de tanto conversar fez-se a divisão tal como deus fez quando dividiu o céu e o mar a bela actriz brasileira que passou a responder por Vera Barbosa entrou no carro onde eu estava com Paradona, o maestro do Núcleo Tenaz Jorge Viegas, Delmar Gonçalves e a esposa ficaram noutro carro e saímos escoltando-nos em direcção ao aeroporto, ali resolveu-se o problema do bilhete a troco de 40 Euros Paradonianos.
    São 12 horas a viagem a Vila Nova de Famalicão é longa os dois condutores trocam os mapas e o Delmar disse vamos pela via Torres Vedras em direcção a Porto isto na A25 e desviaremos  na A3 sentido Porto- Braga.

    Embalamo-nos na estrada de olhos bem abertos nas instruções da voz que falava verdades, o caminho é sempre a frente até encontrarmos a rota do desvio para Braga, o motor roncou com os pés rentes a estrada que nos namorava a 30 minutos do ponto de partida, a viagem teria a duração de 3h e 30minutos.mas devido ao mapa errado dado pela pessoa certa, prosseguimos felizes ao som da voz da Vera Barbosa ali falamos de tudo( teatro, literatura, cinema e mais) e de todos( Saramago, Jorge Amado, Craveirinha) antes de chegar a Aveiro o Delmar liga a perguntar sobre o nosso paradeiro
    -estamos a passar a Aveiro- respondi, era uma pura mentira que o celular as vezes nos induz, decidimos parar nas bombas a 5 km de Aveiro, pois ja estava tudo quente precisávamos de uma água ali nos reencontramos, e confirmou-se que estávamos no caminho certo, dividimo-nos tal como deus nos ensinou.
    A viagem continuo firme nos nossos ideias comunistas que diziam- chegaremos a Famalicão as 15 horas. puro sonho irrealizável, dai perdemo-nos um do outro, continuamos abraçados a estrada na esperança de chegar beijar a cidade que nos espera a séculos ,os poemas abertos nas mesas para as nossas bocas aprovarem e os poetas antropófagos que desejam comer as experiências dos poetas moçambicanos.
    As horas em nenhum momento perdoaram-nos e a distância chamava por nós seduzindo-nos com a sua nudez alcatroada de mel e os seus olhos pedregosos de vinhas  de sabores milenares.
    Passamos  o cruzamento do Porto esperançados no próspero encontro do desvio Braga, chamamos o Delmar telefonicamente e disse estão no caminho certo é para frente que se vai a Famalicão. Depois da fala a Vera e o Paradona colaram algumas interrogações no tecto que nos cobria pois ela cheirava o perfume de Viseu. Continuamos a andar em direcção a fronteira com Espanha (Viseu).
    As horas transbordavam de forma violenta no nosso rio das incertezas, 17 horas ainda a bordo desta amável estrada e em Famalicão iniciavam as RAIAS DOS RAIOS DA POETICA.
    Oh Paradona o primeiro desvio que encontrarmos vamos voltar para Coimbra e lá encontraremos o caminho para Porto- disse a Vera, estávamos em Tondela, ligamos para o Delmar - ele confirmou que já tinha chegado a Famalicão e já tinha informado a todos convidados que os poetas moçambicanos e a actriz brasileira estavam perdidos. Tomamos a estrada em direcção a Coimbra cansados de beijar a mesma boca da A25 e por fim encontramos a A3 com a placa Porto ai nos sentimos em casa acordamos do tédio que nos acompanhava continuamos a esculpir a conversa que a 1 hora o silêncio tinha a tomado de assalto.
    E por fim as 19h chegamos a Famalicão ali reencontramos velhos e novos amigos Abreu Paxe João Maimona (Angola), Luís Serguilhas, Maria João Cantinho, Luisa Demétrio Raposo, Jorge Velhote, Jorge Melicías Aurelino Costa, José Ilidio Torres, Inês Leitão, Marilía Lopes, Aurora Gaia, Luisa Monteiro ( Portugal), Laercio Correntina, Manaíra Aires Athayde, Cláudia Carvalho Machado ( Brasil) Alberte Momán, Ramiro Vidal Alvarinho, Verónica Martínez Delgado Carlos Quiroga, Javier Diaz (Espanha), e outros que a palavra sempre nos aproxim(ou)a deles. este era o baptismo das  Primeiras Raias Poéticas das Afluentes Ibero-Afro-Americanos na Vila Nova de Famalicão, bem haja.
    1.12.12 Hotel Moutados
    Quarto 404,  02 horas:50 minutos
    Vila Nova de Famalicão

    O lado da Ala-C (lado alado) no Contar Ser Gregos e na poesia epigramática de Emmy Xyx Ou a arte de Contar SeGredos

    Mbate Pedro - Moçambique



    À

    s vezes escrevemos porque não sabemos fazer mais nada. Ou às vezes não fazemos mais nada porque só sabemos escrever. O que há, no intervalo entre não fazer mais nada e escrever? A arte. A arte de Emmy Xyx. Ou, se preferirem, a da poética de Manuela Xavier, que, como diria Herberto Hélder, escreve para os silêncios. Porque a poesia, aqui, não nos surge quando estamos vazios dos outros. Mas sim quando cheios de nós próprios, estamos. Exaustos de bater as asas sem poder abrir voo. Há em Contar Ser Gregos, de Emmy Xyx, a mesma angústia, indignação e miséria humana que habita (ou habitua) a poesia epigramática de Amin Nordine, poeta pós-modernista Moçambicano, ou até nos poemetos de José Paulo Paes, poeta Brasileiro. Disso, Manuela Xavier fala-nos, no poema intitulado “Quantas noites”, na página 56: “Cada dia que passa/por trás das grades estremeço/quantas noites faltam/para o que não mereço?/”. As ressonâncias e as aproximações com a poesia Nordineana, operam na dimensão estética de grande parte desta obra, embora a autora, num brevíssimo poema de inegável beleza estética, faça a demarcação topográfica e territorial da sua poética com a do autor do livro, “Do lado da Ala-B”. Ora, vejamos: “Lado a lado?/Seria bom, mas não é assim/para ficarmos água lados/seria/também eu/estar dentro de ti…/aguar em ti/no lado alado…/não-se-ria?!/”.
    Com uma poética essencialmente vocal, com um notável cuidado sobre a linguagem e uma contenção grega quase a resvalar à austeridade, Manuela Xavier escreve para a música que há dentro das palavras e à canção que, insubmissa, cresce por detrás delas. Daí talvez, que uma larga parte de Contar Ser Gregos seja, a meu ver, musical, como aliás atesta, o poema “Viver cem gurus”, página 64: “Todos dias vivem cem gurus/todos altares dormem maduros/vastos algozes espremem impuros/porque se espumam em apuros/”. Ou até o poema, “Murmúrios de Zim”, página 47: “Correntes que chamam por mim/numa tertúlia a benigna sem fim/gritam alto murmúrios de zim/fincando pé cortes doces em pudim/”.

    Por outro lado, o recorrente experimentalismo lúdico, a que somos convidados a assistir, desde o título da obra, Contar Ser Gregos ou Contar SeGredos, assume, a meu ver, a imagem central na poesia da autora. Há neste livro, uma constelação de trocadilhos bem conseguidos e que, com alguma originalidade, sobrepõem-se uns aos outros como as costuras de um vestido de noiva. Vejamos alguns exemplos: “…Porque me obrigas/quando te queres abrigar…/porque eu sinto e tu és sentido? ”; “ mas o fogo não afaga o fogo”; “o estudo que me diz que tu és tudo”; “…do meu furto/faço futuro/...do teu fato/faço factura/”.
    Uma Emmy Xyx terrivelmente satírica e profundamente irónica, características que quase pouco se vê no nosso actual panorama poético feminino. Repare-se, por exemplo, como opera, a ironia, no poema Bala pedida (não bala perdida!), na página 16: “a bala pedida encontrou/volumes imensos a flutuar/de madrugada à noite soou/nada há a lamentar”. E num outro texto, intitulado, “Erres de heróis” (não erros dos heróis), lemos: “os erres dos heróis são apagados?/Os erres são livres de ficar?/Quantos erres tem o vento?/ Quantos ventos tem o mar?/”. 
    Se é verdade que, como Lobo Antunes um dia escreveu, a verdadeira arte é aquela que resulta do trabalho árduo e do sofrimento do artista, para que depois o leitor tenha o prazer do texto, e não o contrário, não deixa também de ser verdade dizer que Contar Ser Gregos requer um leitor sem nevoeiro dentro de si, como diria o bom do Eugénio de Andrade. Talvez seja por isso, que Manuela Xavier alerta-nos, neste fragmento do poema “Escrituras”, página 39: “…o que é preciso é saber ler,/conforme as escrituras/”.
    Jorge Luís Borges dizia, amiúde, que o essencial da boa literatura e da arte no geral, é a metáfora e a maneira como o autor se insinua nela. Contar Ser Gregos, obra que reúne 53 poemas, (a)Grega desde simples imagens subtis à outras de uma violentação e tensão metafórica, equiparáveis ao que encontramos, na poesia escatológica de um Andes Chivangue, cá entre nós ou na de um Luis Miguel Nava, escritor português. Cumprindo aquilo que é a função da literatura genuína: a de produzir uma tensão muito mais fundamental do que a própria realidade. Escute-se alguns fragmentos: “…a andorinha …/ enterrou a sua viagem/”; “ …barbas emprestam ao pano/a solidez do ser fino/”; “...diz-me porque o medo/vai atrás das primaveras/”; “…até nos mares tens cebolas…”.
    A poesia de Emmy Xyx, distancia-se, com um discurso singular, do lirismo amoroso em voga no actual momento literário em Moçambique e, praticado pela maioria das poetisas publicadas, criando uma voz própria, limpa e que através dela, o sujeito poético manifesta a sua denúncia (Contar SeGredos) e o seu desencanto com, passo a citar: “… a coscuvilhice nacional, …as verdades mintas do tamanho dum boi…, com os chulos…, com os vastos algozes que espremem impuros…, com o fim que continua ferozmente a começar pelo princípio…, e…com os que gozaram sem sanções”.
    Agora, pergunto: o que os leitores procuram nos livros, para além de uma nota perdida (não pedida!) de quinhentos meticais? Porque a literatura, como certa vez disse Ferreira Gullar, não melhora em nada a nossa condição de vida. Muito pelo contrário. A arte, tem tirado dos artistas quase tudo e a muitos de nós, a pobreza deixa-nos como herança apenas um fio da sua baba. O que os leitores procuram nos livros? Os leitores ávidos e atentos ou leitores que do leite fazem leitura, como observa Manuela Xavier. Esses, que procuram nos livros o amor e o despertar às coisas belas, fim primário e irreductível da verdadeira arte. Esses, a quem se pede a preciosa e psiquiátrica paciência de quem escuta o outro a Contar SeGredos. Porque a vida, sem o amor às coisas belas, fica uma coisa terrível e insuportável! E talvez, seja por isso, a meu ver, que o sujeito poético, em Contar Ser Gregos, alerta-nos, que mesmo com o Chão-País torto, iniciará a canção, mesmo com o Chão-País coxo, elevará o nome da nação, mesmo com o Chão-País roto, encherá os sinais, mesmo com o Chão-País porco encontrará desencontros e mesmo com o Chão-País morto, saberá dançar.
    Para terminar, que mais dizer, para além do facto de “Contar Ser Gregos”, despertar em nós, uma das grandes metáforas das nossas vidas: a de Contarmos um dia Ser Gregos. Afinal, não há em cada um de nós um pouco do Maníaco de Atenas? O personagem de Machado de Assis que por dormir ao relento, todos os dias, em frente ao porto de Pireu passou a julgar que todos os navios que atracavam lá eram de sua propriedade.
    Talvez a ignorância e a ingenuidade enganem-me, mas Contar Ser Gregos, é, a meu ver, um dos mais puros livros de poesia, feita por mulheres, que até hoje publicou-se em Moçambique.

    Conceição Lima e a linguagem-morada

    Bruno Gaudêncio - Brasil

    Escritora são-tomense, Conceição Lima


    O

    Útero da Casa (Lexonics, 2º edição, 2012) é um livro de poemas de Conceição Lima, um dos nomes mais importantes da poesia africana contemporânea. Poeta e jornalista conceituada, natural de Santana, na Ilha de São Tomé e Príncipe, Conceição estudou jornalismo em Portugal e Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros em Londres, Inglaterra, onde também conquistou o grau de mestre. Foi durante anos produtora dos serviços de língua portuguesa na BBC de Londres. Exerceu cargos de direção de rádio, televisão e em periódicos do seu país, aonde chegou a ser produtora e coordenadora do principal sistema de Televisão, a TVS – Televisão São-Tomense.
    Porém, apesar de sua dedicação ao jornalismo, tanto em São Tomé e Príncipe como na Inglaterra, é na poesia que seu nome se firma como uma das melhores vozes de sua nação. Sua trajetória poética iniciou-se em livro justamente com O Útero da Casa (Editorial Caminho, 2004) e logo depois vieram mais dois outros títulos: A Dolorosa Raiz de Mincondó (Editorial Caminho, 2006) e O País de Akendenguê (Editorial Caminho, 2011). Em 2012, com o patrocínio do Banco Equador, de São Tomé e Príncipe, os seus três livros ganharam segundas edições.
    Constituído por 28 poemas, O Útero da Casa demonstra desde o início a força poética de uma autora comprometida com si mesmo e seu país de origem. Através de “lugares metonímicos”, no dizer da crítica literária portuguesa Inocência Mata (prefaciadora da obra), Conceição Lima deslumbra o seu leitor ao construir e reconstruir os seus lugares de afetividade; o seu país, rico em simbolismos e lutas, a partir de um “eu feminino”, em que a casa ganha uma dimensão de amargura e rememoração.
    Amargura causada por um arquivo de memórias e sensações. Rememoração de lugares íntimos, de pessoas próximas, causando um “imaginário territorial”, numa cartografia sentimental, onde o traço político se efetiva. Um passado que busca combater um período sombrio e perturbador de seu país, num momento pós- independência ou pós-colonial.
    A história recente da Ilha de São Tomé e Príncipe é marcada por diversas lutas, pois o pequeno país africano passou pelo processo de descolonização com o surgimento de grupos nacionalistas, nos anos 1960, até a conquista da independência em 1975. Porém a liberdade partidária esteve ceifada durante muitos anos, visto que apenas em 1990 iniciou-se a transição para a democracia, com a institucionalização do pluripartidarismo e a adoção de uma nova constituição.
    Portanto, na poesia de Conceição Lima um traço marcante é a tentativa de uma “reconstrução identitária”- coletiva e ao mesmo tempo individual - no qual o lugar matriarcal ganha um primeiro plano, numa voz feminina que se forma num universo de memórias, em meio a barcos, canaviais, praças de lutas, datas comemorativas, amores e amizades, dentre outros.

    Um exemplo do universo político na poesia de Conceição Lima esta presente no poema Os Heróis, onde uma atmosfera mórbida é desvendada numa lógica de memórias conflituosa perceptivelmente relacionada às lutas de um país por independência e democracia:

    Na raiz da praça
    sob o mastro
    ossos visíveis, severos, palpitam.
    Pássaros em pânico derrubam trombetas
    recuam em silêncio as estatuas
    para paisagens longínquas.
    Os mortos que morreram sem perguntas
    regressam devagar de olhos abertos
    indagando por suas asas crucificadas.

    É percebível a ruptura com “o colonizador”, com uma “imagética do passado”, algo presente também em poemas como “1975”, “Mostra-me o Sangue Agora” e “Manifesto Imaginário de um Serviçal”. Há ainda outro valor identitário presente em O Útero da Casa, numa assimilação de uma identidade maior, a africanidade, algo continental, pois a partir do meio do livro a autora amplia-se poeticamente numa busca mais coletiva que íntima, mais africana que são tomense, - algo que se cristalizará nos dois livros subseqüentes da autora: A Dolorosa Raiz de Mincondó e O País de Akendenguê.
    Concluo assim a minha breve incursão sobre um livro que considero paradigmático no universo da produção poética africana contemporânea, - por ser um maravilhoso tratado de amor a um país, num discurso que prende por sua historicidade, por seus valores memorialísticos, afetivos e políticos. O Brasil e o mundo precisam conhecer mais a poesia de Conceição Lima, aquela que afirma que através de uma linguagem morada “Não basta o delírio das lágrimas libertas”.





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