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    Vadiando com Lêdo Ivo nos mares das Alagoas

    Carlito Peixoto - Brasil



    Este é um pequeno texto para reflexão quanto às atuais argumentações dos dirigentes de instituições culturais quanto aos acadêmicos eleitos e que, além de desaparecerem das ações culturais e administrativas da Instituição, são fiéis inadimplentes quanto às pequenas contribuições financeiras fixadas pela Diretoria para uma receita mínima que visa unicamente custear pequenas despesas originárias da Instituição.
    Academia é uma “Sociedade ou agremiação, com caráter científico, literário ou artístico”. Desta forma ela é um conjunto dos seus membros, denominados “acadêmicos”.
    As academias possuem seus quadros acadêmicos através dos seus patronos que, conforme sua localidade ou abrangência geográfica,  normalmente são escolhidos pelos Acadêmicos no momento da criação da Instituição, entre pessoas ilustres já falecidas e que sejam representativas e que estejam inseridas no contexto da Instituição.
    O Patrono, diante do número de cadeiras que passam a formar a Academia, passa a deter um numeral que irá designar a partir daquele momento a Cadeira a ser pleiteada por quem se considere apto a ocupá-la e que para isto sofrerá o sufrágio dos Acadêmicos já empossados. Este princípio não se aplica ao momento de criação de uma Instituição porque os fundadores não passam pelo citado sufrágio, mas são por todos os integrantes fundadores automaticamente já eleitos. Isto não os afasta da reflexão ora apresentada da inadimplência, como, também, do isolamento das ações culturais e administrativas da Instituição.
    Denominamos genericamente de “escritor” aquele que passa a pleitear uma vaga ou uma Cadeira em uma Academia de Letras, mediante o falecimento de um Acadêmico. Ora, a pretensão do Escritor passa a ser a de alcançar a IMORTALIDADE.
    A Imortalidade é de duração perpétua. Neste conceito de perpetuidade defino que o Acadêmico enquanto vivo detém apenas a qualidade de imortal e não a imortalidade. Assim, ao ser eleito e após devidamente empossado passa a usufruir da imortalidade, que nunca terá fim; que jamais será esquecido por estar eternizado na memória dos homens.
    Esta eternização absorvida pelo Escritor o faz caminhar entre duas correntes administrativas das Instituições Culturais. A primeira é que a luta ou o trabalho político-administrativo para inscrição e eleição para a Cadeira momentaneamente vaga tem sua revitalização quando o Acadêmico se torna um Escritor participativo das ações culturais e administrativas da Instituição e quando contribui com o pagamento dos valores, mensais ou anuais, atribuídos como receita da Instituição e devidos pelos Acadêmicos.
    A segunda corrente é quando o Escritor possui no seu íntimo a intenção da “busca pela imortalidade” apenas para composição curricular e status social, abandonando logo em seguida as ações culturais e administrativas das Instituições e, principalmente, não pagando mais qualquer valor contributivo para os cofres da Instituição, passando a compor um QUADRO DE EFETIVOS INADIMPLENTES DA PERPETUAÇÃO ACADÊMCIA.
    Quando tratamos de ACADEMIA fazemos uma associação imediata à Academia Francesa de Letras e à Academia Brasileira de Letras. Estas Instituições tradicionais e conservadoras dos princípios acadêmicos jamais colocarão em discussão a inadimplência acadêmica. Porém, as demais Instituições já passam a discutir o tema e algumas já colocam em seus Estatutos a perda do Título de Acadêmico em virtude da inadimplência acadêmica e assiduidade nas ações culturais e administrativas da Instituição.
    Considerando que o Escritor eleito para uma Cadeira em uma Academia de Letras, onde esta tem caráter de uma “sociedade” e que nesta sociedade o Escritor, na condição de pessoa enquanto viva detém apenas a qualidade de imortal e não a imortalidade, por ser esta de duração perpétua e que nunca terá fim, onde jamais será esquecido por estar eternizado na memória dos homens, dar-se-á como perpetuado após a sua morte.
    O conceito de imortalidade passa, então, a não mais ser definitivamente agregado ao Escritor eleito para uma determinada Cadeira de uma Academia de Letras, mas quando efetivamente fizer cumprir através de suas ações culturais e administrativas, como da adimplência, os objetivos da Instituição, até que a morte o venha consagrar com a IMORTALIDADE.


    Dedico este conceito de imortalidade ao Escritor Joacil de Brito Pereira que em sua trajetória Acadêmica (Academia Paraibana de Letras; Instituto Histórico e Geográfico Paraibano; Academia de Letras e Artes do Nordeste – Núcleo Paraíba; entre outras) foi digno ao cumprir com veemência os princípios que norteiam a verdadeira IMORTALIDADE.
     

    Imortalidade Acadêmica e a teoria da adimplência

    Ricardo Bezerra - Brasil



    Este é um pequeno texto para reflexão quanto às atuais argumentações dos dirigentes de instituições culturais quanto aos acadêmicos eleitos e que, além de desaparecerem das ações culturais e administrativas da Instituição, são fiéis inadimplentes quanto às pequenas contribuições financeiras fixadas pela Diretoria para uma receita mínima que visa unicamente custear pequenas despesas originárias da Instituição.
    Academia é uma “Sociedade ou agremiação, com caráter científico, literário ou artístico”. Desta forma ela é um conjunto dos seus membros, denominados “acadêmicos”.
    As academias possuem seus quadros acadêmicos através dos seus patronos que, conforme sua localidade ou abrangência geográfica,  normalmente são escolhidos pelos Acadêmicos no momento da criação da Instituição, entre pessoas ilustres já falecidas e que sejam representativas e que estejam inseridas no contexto da Instituição.
    O Patrono, diante do número de cadeiras que passam a formar a Academia, passa a deter um numeral que irá designar a partir daquele momento a Cadeira a ser pleiteada por quem se considere apto a ocupá-la e que para isto sofrerá o sufrágio dos Acadêmicos já empossados. Este princípio não se aplica ao momento de criação de uma Instituição porque os fundadores não passam pelo citado sufrágio, mas são por todos os integrantes fundadores automaticamente já eleitos. Isto não os afasta da reflexão ora apresentada da inadimplência, como, também, do isolamento das ações culturais e administrativas da Instituição.
    Denominamos genericamente de “escritor” aquele que passa a pleitear uma vaga ou uma Cadeira em uma Academia de Letras, mediante o falecimento de um Acadêmico. Ora, a pretensão do Escritor passa a ser a de alcançar a IMORTALIDADE.
    A Imortalidade é de duração perpétua. Neste conceito de perpetuidade defino que o Acadêmico enquanto vivo detém apenas a qualidade de imortal e não a imortalidade. Assim, ao ser eleito e após devidamente empossado passa a usufruir da imortalidade, que nunca terá fim; que jamais será esquecido por estar eternizado na memória dos homens.
    Esta eternização absorvida pelo Escritor o faz caminhar entre duas correntes administrativas das Instituições Culturais. A primeira é que a luta ou o trabalho político-administrativo para inscrição e eleição para a Cadeira momentaneamente vaga tem sua revitalização quando o Acadêmico se torna um Escritor participativo das ações culturais e administrativas da Instituição e quando contribui com o pagamento dos valores, mensais ou anuais, atribuídos como receita da Instituição e devidos pelos Acadêmicos.
    A segunda corrente é quando o Escritor possui no seu íntimo a intenção da “busca pela imortalidade” apenas para composição curricular e status social, abandonando logo em seguida as ações culturais e administrativas das Instituições e, principalmente, não pagando mais qualquer valor contributivo para os cofres da Instituição, passando a compor um QUADRO DE EFETIVOS INADIMPLENTES DA PERPETUAÇÃO ACADÊMCIA.
    Quando tratamos de ACADEMIA fazemos uma associação imediata à Academia Francesa de Letras e à Academia Brasileira de Letras. Estas Instituições tradicionais e conservadoras dos princípios acadêmicos jamais colocarão em discussão a inadimplência acadêmica. Porém, as demais Instituições já passam a discutir o tema e algumas já colocam em seus Estatutos a perda do Título de Acadêmico em virtude da inadimplência acadêmica e assiduidade nas ações culturais e administrativas da Instituição.
    Considerando que o Escritor eleito para uma Cadeira em uma Academia de Letras, onde esta tem caráter de uma “sociedade” e que nesta sociedade o Escritor, na condição de pessoa enquanto viva detém apenas a qualidade de imortal e não a imortalidade, por ser esta de duração perpétua e que nunca terá fim, onde jamais será esquecido por estar eternizado na memória dos homens, dar-se-á como perpetuado após a sua morte.
    O conceito de imortalidade passa, então, a não mais ser definitivamente agregado ao Escritor eleito para uma determinada Cadeira de uma Academia de Letras, mas quando efetivamente fizer cumprir através de suas ações culturais e administrativas, como da adimplência, os objetivos da Instituição, até que a morte o venha consagrar com a IMORTALIDADE.


    Dedico este conceito de imortalidade ao Escritor Joacil de Brito Pereira que em sua trajetória Acadêmica (Academia Paraibana de Letras; Instituto Histórico e Geográfico Paraibano; Academia de Letras e Artes do Nordeste – Núcleo Paraíba; entre outras) foi digno ao cumprir com veemência os princípios que norteiam a verdadeira IMORTALIDADE.
     

    O LEÃO DE SETE CABEÇAS: Significado e Mensagem


    Guido Bilharinho - Brasil
    Exilado de um país e de um subcontinente, nos quais, de tempos em tempos, seus nacionais mais lúcidos, patriotas e decididos, são perseguidos, torturados e mortos, Gláuber Rocha (Vitória da Conquista/BA, 1938-1981), depois de no Brasil pensá-lo e transfigurá-lo em arte, lança-se no panorama internacional.
    Sua primeira realização nesse período, O Leão de Sete Cabeças (Dar Leone à Sept Têtes, Itália, 1970), elege o continente africano como matéria e forma de sua inserção no mundo. Não o faz, porém, linear e convencionalmente como é usual no cinema. Ao invés do espetáculo da exploração de suas riquezas e domínio de seus povos, Gláuber os estigmatiza na eleição de estereótipos elaborados a partir da concreta faticidade.
    A realidade africana, nucleada e bipolarizada entre exploração externa e contexto interno formado pelas condições locais e consequências da atuação predatória das nações desenvolvidas, é filmicamente constituída por mosaicos fragmentados unidos pelo fio narrativo que a expõe, compondo condensado painel situacional.
    Os principais lances desse cenário perfazem-se um a um em instantâneos que o vão engendrando e revelando, desenvolvendo e urdindo, construindo e desconstruindo. Nada, no entanto, que não se saiba da exploração internacional da região, mas, no caso, apresentada de maneira contundente e mesmo raivosa.
    As linhas narrativas tecem-se em torno da atuação de pequeno grupo de representantes e mercenários imperiais e do papel de dois líderes locais.
    Se no cômputo final do filme evidencia-se sua nervura ficcional, o decorrer dos desdobramentos factuais estabelece-se por meio de blocos que se seguem e se sobrepõem.
    A articulação entre as partes não se processa linearmente e nem as personagens intervêm e se relacionam convencionalmente, mas, simbólica e sinteticamente, traduzindo cada cena corte transversal na realidade, ora concreto, ora alusivo, sempre, porém, denunciador.
    Por vezes, manifestam-se justificativas e explicações por meio de discursos de personagens.
    Sucedem-se, assim, diálogos, intervenções pessoais, manifestações diversas, danças, músicas, passeatas, paradas militares, agressões, reuniões, envolvimento e cooptação de dirigentes locais deslumbrados por alçados a pretensas altas funções, torturas, personagens simbólicas como o “profeta”, a loura Marlene e lideranças africanas autênticas.
    O leão de muitas cabeças é explorado, caçado e submetido, mas, não vencido e anulado. A sequência final de grupo de guerrilheiros armados internando-se na região ao som de canção libertária, de vigorosa beleza imagética, é emblemática, além de óbvia em seu significado e mensagem.
    A maneira elisiva de Gláuber construir cinematograficamente visão do quadro africano não esconde, ao contrário, explicita sua atormentada insatisfação com a problemática continental. Se não atinge grau elevado de criatividade, também não abdica de construção autoral de sua configuração imagética.
    Constitui, a bem dizer, ficção operativa aplicada à conjuntura temporal e espacialmente vinculada à análise de seus traços e trâmites procedimentais, ocasionadores de posicionamento subordinativo, adjetivo, objetal e residual no contexto de ordem/desordem planetária desequilibrada, desigual e injusta.
    O pragmatismo imoral de se aceitar as coisas tais como são e transcorrem é escarmentado pela própria ocorrência e propósito fílmico, jazendo implícita, mas, evidente, sua condenação, que não se limita a reconstruir o contexto, porém, nele intervindo e fatiando-o para melhor atuar em seu interior.

    (do livro Seis Cineastas Brasileiros, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2012-www.institutotriangulino.wordpress.com)

    __________________________________
    Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba/Brasil e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema e história regional e nacional.
    (Publicação autorizada pelo autor)

    António Panguila: Poeta com o «Corpo Molhado de Prazer»

    Lopito Feijóo - Angola




    Passaram-se quase três dezenas de anos desde que em Luanda um grupo razoável de jovens escritores -dentre os quais ANTÓNIO PANGUILA- arquitectou o projecto estético OHANDANJI que viria à público através da divulgação de um manifesto teórico-prático no “Jornal de Angola”. Foi num domingo, 22 de Abril do relativamente distante ano de 1984. Resultou do projecto, a formação de um dinâmico Colectivo de Trabalhos Literários que, discretamente, propunha-se, por via da investigação estética, passar em revista tudo quanto havia sido produzido e publicado localmente pelos integrantes das gerações literárias precedentes bem como por tudo quanto havia sido publicado pelos amantes da literatura, enquadrados na brigada jovem de literatura de então.
              O objectivo era, em princípio, encontrar circuitos operatórios que lhes permitisse dar à volta as produções literárias da emergente geração dos anos 80, até ai despidas de qualquer proposta estética. Sentia-se a necessidade de algo  novo que sacudisse, por via da agitação, a realidade literária então vivida pois, enveredava-se (facilmente claro!) pela via da produção literária dirigida e politicamente engajada, caindo-se –não raras vezes no domínio do  cantalutismo desnecessário … porque desprovido dos pressupostos da verdadeira arte literária.
      Tal viragem havia de acontecer por meio do surgimento de uma escola, de um novo movimento, de uma tendência ou uma qualquer corrente estético-literária inspirada na realidade local. Entretanto, os cultores do projecto estético OHANDANJI, integrando o Colectivo de Trabalhos Literários com o mesmo nome, já se haviam consciencializado da necessidade de um investimento capital que possibilitasse a produção e publicação de obras artístico-literárias independentemente da precisão e existência de um pensamento literário próprio e, várias vezes mesmo, defenderam o pensamento de B. Eikhenbaum segundo o qual, o que fica são as obras e todo o movimento literário ou mesmo cientifico deve ser avaliado, fundamentalmente, tendo em conta a obra produzida e não segundo a retórica dos seus manifestos.
      Curiosamente, haviam constatado (no âmbito das intensas leituras levadas a cabo) o lúcido pensamento de Castro Maldonado, personagem do romance Os Avisos Do Destino, segundo o qual: “Isso de escolas, novidades, correntes, e tudo mais dessa laia não é importante senão num dado momento! Ou, mais tarde, aos especialistas da história literária. O que realmente interessa são as obras! as obras e as personalidades. É o valor absoluto das criações”, chegando a concluir que: “Tudo o que pertence às circunstâncias envelhece depressa”.
      Certos de que o que realmente interessa são as obras, e depois de termos tido a honra e o prazer de assistir o lançamento de O VENTO DO PARTO que foi o seu livro de estreia poética em 1993, passam duas décadas e estamos diante do seu mais recente livro de poesia.
              Depois da publicação do AMOR MENDIGO em  1997 e um ensaio em 2003 sobre Agostinho Neto, o libertador e homem de  cultura que todos conhecemos –ou pelo menos devíamos conhecer!-, eis que o poeta «da vaca que arrasta o tempo» fazendo  jus à sua (re)conhecida pena  reaparece, passada que foi  uma década e meia de reflexão e labor oficinal, com o CORPO MOLHADO DE PRAZER livro editado pela União dos Escritores Angolanos na colecção «Guaches da Vida».
              Sempre OHANDANJIANO o Autor cresceu literariamente escrevendo. Agora apresenta-se com um refinado lirismo e sempre apaixonado pelos caminhos, vias e vielas dos corpos hirtos e tensos.
              Por via da palavra poética mostra-se um autêntico conhecedor/admirador dos cantos mais recônditos da felicidade feminina e da fertilidade consciente dos humanos que raciocinam.                                        Com o corpo suando, escreve com prazer e sobre prazeres. Sonha o «sonho do novo sexo» e metafórica mas corajosamente  pede aos (sobre)viventes leitores que não se esqueçam «de ressuscitar o orgasmo das flores /enlutadas para  alegria dos nossos mortos!». Parabenizá-mo-lo, por isso, mas não podemos deixar de considerar que o autor passado esta década e meia tinha como obrigação apresentar-se em melhor forma poética. O Panguila podia apresentar-se mais atento no que toca a construção do verso eliminado partículas desnecessárias  que em nosso entender não se coadunam com a gramaticalidade poética . Para quê tantos «teus, seus, meus,minhas»? – O autor podia ter sido maior. Atenção! 
      Com o seu primeiro “parto” A. Panguila, enquanto escultor da palavra poética, expôs-se ao “vento” que diariamente passa pelas paginas da imprensa, pelas carteiras das escolas, pelos escaparates das livrarias e até mesmo pelas ruas e ruelas nas cidades do País. O então promissor jovem poeta e amante da literatura expós-se andarilho pelos becos e esconderijos nos musseques e, quiçá, pelas inúmeras picadas por que pica qualquer anónimo cidadão, rumo a sua lavra cuja distância desconhecia!
      Tratava-se do seu primeiro livro. Imaginamos por isso quais não foram as íntimas interrogações quanto ao futuro. Qual terá sido a sensação do autor na hora do dito “parto” depois de algumas publicações em suplementos e jornais daqui  e mesmo doutras latitudes que o tornaram Homem plural.  Imaginamos  e ocorre-nos citar o magistral poeta Neruda por meio das suas memórias:
              “Sempre afirmei que o trabalho do escritor não é misterioso nem mágico, mas sim que, pelo menos, o do poeta é um trabalho pessoal, de utilidade pública. O mais parecido com a poesia é um pião ou um prato de cerâmica, ou uma tábua ternamente lavrada, ainda que seja por rudes mãos. No entanto, creio que nenhum artesão pode ter, como tem o poeta, uma única vez na vida, esta embriagadora sensação do primeiro objecto criado pelas suas mãos, com a desorientação ainda palpitante dos seus sonhos. É um momento que nunca mais se repetirá. Virão muitas edições mais cuidadas e belas. As suas palavras chegarão vazadas na taça de outros idiomas como um vinho que cante e perfume noutros lugares da terra. Mas aquele minuto em si fresco de tinta e macio no papel do primeiro livro, aquele minuto arrebatador e embriagante, com som de asas que revoluteiam e de primeira flor que se abre no topo conquistado, aquele minuto só está presente uma única vez na vida do poeta”.
      Aqui o poeta em causa atende oficialmente pelo nome de António Francisco Panguila. Humilde filho de origem camponesa. Há já vários anos, residiu no mais misterioso subúrbio luandense, lá bem perto da 5.ª avenida do Cazenga. É casado e pai de filhos. Nasceu em Luanda passados os primeiros 15 dias do mês de Julho no ano de 1963. Formado no Instituto Médio de Educação  e  no Instituto Superior de Ciências de Educação em luanda. Desde há muito abraçou a carreira do professorado mesmo enquanto alto funcionáro bancário transparecendo ser um dos que conscientemente aprende para ensinar.
      António Panguila foi membro da brigada jovem de literatura de Angola tendo ai exercido cargos directivos. É membro da União dos Escritores Angolanos e alguns dos seus textos poéticos podem ser encontrados em distintas publicações periódicas para além de ter sido por nós incluído na antologia de jovens poetas angolanos  “No Caminho Doloroso Das Coisas.”
      Escrito isto, perguntarão alguns deveras intrigados sobre a razão do pormenor biográfico do autor, diante da obra. No entanto, aqui fica uma referência esclarecedora advinda da pena de Luís Cardim (com quem concordamos!)no n.º 1020 da «Seara Nova»:
      “Cada vez me convenço mais de que a melhor maneira de apreciar qualquer autor, se não a única aceitável, é, muito simplesmente, a de lermos as suas obras, e deixarmos em paz a vida, e até as idiossincrasias do autor que nas suas produções não estejam reflectidas… A obra de arte, ou a obra de pensamento, tem necessariamente um valor em si, isto é, fosse qual fosse a personalidade humana de quem a estruturou e lhe deu realidade sensível; o nome do pensador ou do artista, a nosso ver, reduz-se deste modo quase a uma etiqueta e a um fio a amassar trabalhos mais ou menos aparentados…”, e acrescentava ainda: “Não quer isto dizer, é evidente, que as particularidades psicológicas, bem como os episódios, alegrias e agruras da carreira e da vida humana de qualquer artista ou homem de letras, de qualquer criador de pensamento ou de beleza, não possam oferecer o mais vivo interesse”. Em definitivo, julgamo-nos entendidos pois a trajectória da vida pessoal do nosso autor é deverás surpreendente para nós que a conhecemos.
    Cabe-nos aqui –pensamos - a pura e simples apresentação deste autor angolano aos leitores. Quanto ao conteúdo das obras poéticas, absté-mo-nos. Não emitiremos aqui nenhum subterrâneo juízo de valor. Quanto ao grau de amadurecimento da palavra poética, cabe aos reais leitores opinar depois das leituras e quanto ao nível de conseguimento estético e do equilíbrio e unidade estrutural dos livros de Panguila caberá certamente a um qualquer desarvorado patife borrado de tinta, descrever.
      Nós, diremos  in terminus: -Querendo considerar no conjunto uma obra original, fare-mo-lo somente na medida em que acreditamos na sinceridade e honestidade intelectual de qualquer autor para com os seus leitores. É provável que nem todos versos lhe vêm do fundo do coração, principalmente os que sugerem retórica inútil. Notámos excessivas influências. Estar profundamente influenciado é próprio e inevitável quando se procura o caminho certo. Reconhecemos, naturalmente, algumas arestas por limar principalmente no domínio da gramaticalidade poética. Trata-se de algo muito importante para o escorreito apuramento estético e conteudistico dos textos artístico-literários.
      António Panguila, dá-nos motivos de  satisfatória fruição porque não raras vezes notamos a procura da palavra certa que, sob uma perspectiva experimentalista, nalguns momentos se apresenta no lugar certo. Vejamos como exemplo o texto SE…(Vento Do Parto) no qual diz que:
       
        se o sapato do pato pata
        a pedra do Pedro apetrecha
        a ilha da selha asseia
        a era do erro sara.
        se o fumo do sumo consome
        o consumado fumo foge
        a fama da dama
        dada ao consolo da sola.

        se a roda da magia bate
        bate que bate a cobra
        cobra que cobra a cobra
        cobre que cobre o cobre.

      Certamente, para quem domina as características da poética da geração de 80 e conhece por exemplo o poema RITOS, de Conceição Cristóvão, saberá que a funcionalidade estética reside, fundamentalmente, no jogo embriagador dos lexemas em razão de um meticuloso labor laboratorial.
      Assim é que para Conceição Cristóvão: A cobra descobre/se/ao deslocar/se/deixa o rasto// a cabra/se/no óbito/há choro de mutudi.// rasga a noite negra/se/e só se no pó/se lê//…
      Confirmamos que a afirmação de uma geração faz-se também pela questão do estilo, corroborando com Paulo Castilho, premiado romancista luso que em entrevista ao Jornal de Letras (10/8/93) dizia: “As pessoas são seres complexos e as suas motivações acabam por ter provavelmente mais pontos de coincidência com o passado do que diferenças. Digamos que a geração, por vezes, é uma questão de estilo.” Ponto & final!

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