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    ENTREVISTA AO ESCRITOR PEDRO CHISSANO: “Niguém Matou a Charrua”

    Eduardo Quive - Moçambique

    Vítimas das imigrações como muitos bantus, os Chissanos que são no geral da província de Gaza, subdividem-se entre os do Guijá, no Chókwè, região do Limpopo e os de Bilene em Macia e Mandlakazi. Pedro Baptista Chissano, este a quem nós retratamos nesta entrevista, nasceu no Guijá, ao sétimo dia do Março de 1956, filho de pai motorista no Chókwè que depois veio a integrar a empresa pública, que na era colonial denominava-se de Serviços Municipais de Viação (SMV), hoje conhecidos por Transportes Públicos de Maputo (TPM). Aliás, foi essa integração do pai nos SMV, que tornou Pedro, em menino de Lourenço Marques a partir de 1962. Recebeu o nome do seu bisavô, é avô do seu pai, Chicolonhe, nessa altura estava a decorrer o processo de colonização do Limpopo. Portanto, o seu primeiro nome foi Chicolonhe, mas esse nome caiu no desuso, entretanto era usado antes de vir para Lourenço Marques. Daí em diante, fica Pedro Chissano. Um autêntico activista literário, escritor dos outros e poucas vezes escritor de si e como se não bastasse o facto de não publicar as suas obras, tenta sufocar o jornalista que há em si. No seu jeito de falar com aquela nostalgia, Pedro Chissano, vai citando nomes, deixando frases e canções que não saem da sua contemporânea memória e sempre que entende, chora os tempos sem se queixar de nada, apenas da saudade que reconhece ser maior. Super dotado, Pedro cairia um bom historiador e até Antropólogo, consegue harmonizar os termos, às origens e preservar os acontecimentos com os devidos efeitos. Eis a razão de ser a figura que homenageamos neste número que fala da exclusivamente da Literatura Moçambicana e, particularmente, da Associação dos Escritores Moçambicanos. O menino Pedro tem na sua memória “O Chão das Coisas”.


    Literatas: Como é que sai de Guijá para Lourenço Marques, já agora, Maputo?
    Pedro Chissano: Saio porque meu pai que era motorista conseguiu um outro emprego nos Serviços Municipais de Viação aquilo que vocês chamam de TPM (Transportes Públicos de Maputo) agora. Isso foi em 1962. Ele foi o primeiro preto a entrar para esses serviços. Estudei na Munhuana, primeira e segunda.
    Chegado a esse nível disseram ao meu pai “os seus filhos não podem continuar ai” e fomos ao João Belo, onde faço a 4ª classe na Escola Secundária Estrela Vermelha em 1968. Aprendi a jogar basquete ali e outras coisas. Estávamos na sociedade portuguesa.

    L: E quando chegaram, viveram no bairro de caniço?
    P.C: Não cheguei de viver no bairro de caniço no entanto, quando cá cheguei fomos viver ao lado da casa do Senhor Enoque Libombo, que chegou a presidente da Associação dos Negros de Moçambique. É pai da Aida Libombo que foi vice-ministra.
    Vivemos na casa que era do seu irmão, Alfredo Libombo que arrendou ao meu pai. Bem ao lado. Vivemos ali durante dois três anos. Considerava-se bairro de caniço, mas as casas onde vivíamos não eram de caniço, tinha até luz e água.
    Foi quando a vida do menino Pedro começou a mudar. Vivia numa palhota lá de onde vinha, mas em Lourenço Marques, dado a profissão do meu pai, não era permitido viver em más condições. E ele recebia o suficiente para arrendar uma boa casa, ter os filhos numa boa escola e educar-lhes melhor.
    Fui baptizado na Munhana entre 1964 a 65.
    Depois fomos viver na avenida Paiva de Andrade, agora Av. Siad Bar. Grande parte dos prédios que ali estão, vi a construírem. Eu brincava ao lado de uma cantina que se chamava Benfica no Alto-Maé, mas agora aquilo já não existe. Essa gente sempre preocupada em matar a memória, não é? Muda-se tudo todos dias.
    A memória boa que tenho é do tempo que vivia já no Alto Maé, cá na zona de cimento e não lá nas lagoas, nos Libombos. Quer dizer, começamos a ser cosmopolita, mas entre pobres, porque havia também brancos pobres, aqueles que vinham de Goa. A gente chama Indianos, porque eram de facto indianos. Só que os portugueses chamava-os de Goeses, porque era sua colónia. Portanto, estávamos numa colónia de pretos assimilados e semi-pobres, brancos pobres e ricos, goeses, em fim, brocávamos juntos.

    L: Creio que nessa altura já entrava em contacto com os livros, a leitura…
    P.C: Sim. O meu padrinho de baptismo era chefe do meu pai, um fiscal na empresa dos transportes. Eram pessoas, embora não ricas, mas com cultura. Mensalmente eu recebia um pacote de livros. Além de que é a partir daqui que vou a Escola Joaquim de Araújo, ou Estrela Vermelha, hoje, onde cheguei a bibliotecário de turma. Tinha um cacifo e a minha tarefa era distribuir livros aos alunos. Naquele tempo era no máximo por turma, 35 alunos.
    Aí decantou-se a paixão pela leitura, porque era obrigado a ler. Ler, ler, ler e interpretar; fazer redacções, etc.
    Quando vou para a Escola Comercial, aí aconteço como um pequeno redactor. Porque lembro-me que ainda no primeiro ano do comércio iniciávamos a fazer pequenas redacções e o professor por eu ser preto disse numa dessas vezes que apresentei mau trabalho “não vou acreditar que você preto pode escrever desta maneira”. Mas, eu acredito que escrevia bem devido a acumulação de léxicos, por muita leitura. Quando lemos muito há momentos em que as coisas saem sob outras formas, criatividade.
    Mas na escola comercial não foi tudo. Aprendi a tocar viola. Gravo dois discos no estúdio Delta Publicidade, com um grupo chamado CONCERTO GUITARRA ELÉCTRICA. Gravamos no dia 01 de Abril de 1974, quatro temas: USIWANA, MARIA ROSA, cantadas em ronga por um colega meu que as compunha. O triste equívoco ai pela idade, já vez o alto nível de intelectualidade de um menino que está a despontar, Pedro Chissano, está lá na capa do disco, Escrito em português FELICIDADE A VOCÊS. Eu tinha 17 anos em 1974.
    A letra e música foi feito por mim, quem me ensina é um colega que já morreu, lá do Instituto Vasco da Gama, chamava-se Octávio David Mahumane, a quem gostaria de deixar uma homenagem escrita. Outro é o Jonny Job Mondlane, esse está vivo. Mas o falecido que cantava “Ussiwana, Ussiwana; Hine hi ta fana na Jesus a nga fela Ussiwanine” é o Ambrósio Dantas Pedro Coisinha, gostaria de deixar este nome registado por que são companheiros de jornada. Eu tinha 17, Ambrósio tinha 20 anos, era o mais velho.
    A registar que o Ambrósio Dantas Coisinha cresceu na Munhuna onde fiz a 2ª classe. O Octávio David Mahumane, conheci na Estrela Vermelha. Os brancos começaram a nos chumbar muito na Estrela Vermelha por causa desses velhotes, o Guebuza, Albino e Lina Magaia, Josina, andavam a fugir. Os brancos começaram a perceber que “estes miúdos basta fazerem o 5º ano fogem vão para a Frelimo” então começaram a travar-nos. Tu não passavas de qualquer maneira. Em 72, bastava passar o 2º ano, os gajos travavam-te. Então os pais gastavam muito dinheiro porque ficávamos muito tempo no ensino. Eram 450 escudos por mês. É onde conheço o David Mahumana, mas depois passei e fui para o Comércio.
    Consegui fazer a Escola Comercial, mas veio em 1974 o golpe de Estado, aí instala-se a confusão. O meu pai tinha muitos filhos, no total somos 14. Eu sou o 10º filho, estão a minha atrás 9 irmãos e 4 á frente. Alguns são célebres como o João Chissano que foi treinador de Costa do Sol, agora é treinador adjunto da Selecção moçambicana de futebol. Mas antes dele tive duas irmãs artistas, a Ana Vasta Chissano e Joaquina Chissano que estiveram na Companhia Nacional de Canto e Dança. Esta coisa de arte persegue-nos. O Alfredo Chissano também está ligado a arte, esteve na Sociedade Moçambicana de Autores e agora no Instituto Nacional do Livro e do Disco com o Ungulani Ba Ka Khosa.
    Mas voltando às leituras. Em 1974, decido trabalhar, o meu pai tinha já muitas despesas. Fui a Niassa, não porque quis. Quando volto do Niassa tinha a mania de que já escrevia então venho encontrar-me com o Albino Magaia e cruzo-me com o Ungulani aqui (na AEMO), o Armando Artur também andava por aqui, ele era o mais novinho. Khosa era professor e o Armando ainda a estudar.
    É aqui na Associação dos Escritores Moçambicanos onde se caldeiam novas vontades e o gosto por escrever. Por via disso acaba nascendo a Charrua revista ou grupo que fui um dos fundadores e coordenador. O Tomás Vieira Mário, fui resgatá-lo, andava por ai, eu sabia que ele escrevia muitas coisas, tinha uma escrita muito bonita. Chamei o Tomás, até hoje ele diz-me “eu tinha medo de entrar na associação dos escritores”, bom tinha medo coisíssima nenhuma, não tinha entrado antes, tinha esse receio.
    O Albino Magaia já o conhecia pelo nome, mas conheci-o melhor em Niassa, porque ele como antigo combatente na clandestinidade, juntamente com o Malangatana, Samora Machel, a Frelimo, (quando digo Samora é porque era quem estava em frente das grandes decisões), manda-o para Niassa. Nessa altura eu estou a vir de Cuba, 11º Festival Mundial da Juventude Estudante, apanho o Albino Magaia na mesma casa onde vivi.
    Fui a Cuba em 1978 a chefiar a delegação do Niassa. Fui descoberto lá em Mecanhelas onde estava. Encontrei em Niassa, o Hilário Matusse, estivemos juntos na Escola Comercial, mas brincámos juntos no Niassa.
    O próprio Hortêncio Langa, ia lá cumprir outra missão, o encontrei. Foi professor no Niassa, mas isso compete a ele dizer. No entanto, lembro-me que a esposa dele ou a mãe dos filhos dele mais velho estava na Rádio Moçambique na altura.
    Fizemos um pequeno conjunto de amigos lá. Trocávamos livros, conversávamos e essa prática veio reforçar-se na AEMO. Além de nós, fomos conhecendo outros jovens que foram chegando, os da Forja, estou já a ver o Castigo Zita, estou a ver um que está aqui no Ministério da Cultura que já não me lembro do nome. Depois viemos conhecer esses meninos da Oásis, e outros com os quais estamos a fazer de facto este esforço de crescimento mútuo. Depois sois vós a aparecer agora também a incomodar-nos com os livros, embora não tenham surgido aqui, mas estão a fazer as coisas com zelo. É um núcleo positivo que eu acredito, nos ajuda a colocar – alicerces já os temos – mas ajuda-nos a colocar algumas pedras sobre nós próprios. Não nos bastamos a nós próprios, precisamos sempre de maior confortabilidade – se quisermos – estética ou de solidez e a gente vai buscando nos mais novos esses que nos aparecem, vós inclusos lá.
    Esta é a pequena história do menino Pedro.
    Depois fui coordenador da Charrua, fui muito trabalhador em levar livros à Impressa Nacional. A pessoa que mais saia daqui para levar livros dos outros a Impressa Nacional, era eu. Tive uma relação muito especial com o Júlio Navarro.
    Quando ele era chefe das edições daqui, ficava naquele gabinete onde está o Alves, tinha muitos papéis. A minha missão era ler, entregar ao Albino Magaia na altura dizendo que a proposta era lançar este ou aquele livro. E foram muitos, “Magoda” do Hortêncio Langa, livros do Armando Artur e muitos outros.
    Eu era muito preguiçoso em ter as minhas próprias coisas. Só agora lancei o “Boas Festas Chiquito”, tem o “Algumas histórias e brincadeiras com B grande” eu sei que está pronto, mas só o secretário-geral é que pode dizer quando é que isso sai.
    Colaborei com muitos jornais, no “Notícias” o “Kikirigóóó” ou o “Canto do Galo” é que produziu o “Boas Festas Chiquito”. Depois fiz o “Polígamo 2” que ainda não sistematizei para livro. Os contos que vão sair são de textos publicados na Charrua e na revista “Tempo” sobre tudo. Colaborei com o “Savana” nos tempos de Juvenal Bucuane, com crónicas.


    L: Quando entram na AEMO e criam a Charrua, como é que foram recebidos por aqueles que já estavam dentro da associação, como por exemplo, o Rui Nogar?
    P.C: O Rui Nogar era uma pessoa especialíssima. Provavelmente por causa do passado recente dele: preso político, um indivíduo complacente para com os outros, tolerante. Tu podes ver ao ponto mais alto, como o comportamento de Nelson Mandela com as pessoas que o encarceravam, quando ele sai como os trata. Não quero dizer que a cadeia seja um belíssimo centro de reeducação, mas de reflexão é, muita reflexão. E o Rui Nogar foi muito excepcional.
    Tivemos problemas com algumas figuras – não é oportuno dizer quem são – mas
    nem todos nos deixavam passear por aqui. Há espaços físicos em que éramos ditos “hei hei hei, vocês aqui não ficam”, pessoas da direcção da AEMO que saiu em 1982.
    Tivemos que provar com trabalho que podíamos ser acoitados na AEMO. Esses trabalhos revelaram-se nas próprias edições da Charrua. Mas essas pessoas que não nos queriam ver, vinham com estigmas - é bom que se diga isso – vinham estigmatizadas das redacções dos jornais onde trabalhavam e sobre tudo quando a cor é mais escurinha. Foram maltratados. E aquele estigma, a tendência humana é passar para gerações subsequentes e dizer “sofram lá um pouco mais, não podem ter as coisas de mãos beijadas”. Mas foi boa coisa, porque não há aqui gente que saiu ferida, paraplégica, estamos todos em pé e conversamos até com essas pessoas, salvo, aquelas que já partiram.

    L: Nota-se hoje alguma inoperância em novos projectos de revistas literárias. Como é que faziam para manter a Charrua?
    P.C: O problema daquele tempo é que cada um de nós saía do seu local de trabalho e vinha para aqui pensar Charrua. A única coisa que tínhamos em mão para a nossa afirmação era a Charrua. E a partir do momento que saiu o primeiro número, decidimos que todas as semanas – se não todos o dias – tínhamos que nos encontrar. E inventamos aquilo que chamamos “Jantar Literário”às sextas-feiras. Todas sextas-feiras estávamos na AEMO.
    Os Jantares Literários eram a consagração daquilo que nós fazíamos. Ainda vejo o Ungulani pendurado na janela a ler um dos seus textos, assim um bocado ébrio naqueles tempos, com uma voz um bocado rouca e nós a batermos palmas, pá, “é um texto conseguido”!
    Isto fazíamos todos nós, uns com maior e outros com menos propriedade. E fomos crescendo.

    L: Algo chamou-me atenção durante as leituras que fiz de algumas edições da Charrua, foi o facto de ter nos revelado uma escrita sua mais jornalística. Reconhece essa influência?
    P.C: Provavelmente. Tenho algumas coisas que herdei de jornalistas bons. Há jornalistas bons, por exemplo, um Albino Magaia, um Calane da Silva, um Tomás Vieira Mário – apesar de ele dizer que quem o trouxe aqui fui eu – mas as suas crónicas são boas. Um Machado da Graça, eu já nem quero falar deste Machado da Graça que tenho lido no “Savana”, aquela maneira quase que muito simplista de colocar as coisas, mas a piada dele está lá, ele gosta daquela pintada do riso e está lá.
    Mas eu li coisas que o Machado da Graça escrevia na “Tempo” em 1981, coisas belíssimas. Essa gente marcou-me, mas sobretudo o Albino Magaia marcou-me profundamente. Para além de que essa gente aguçou o meu sentido de observação, eu gosto de escrever um texto ainda que profundo, mas breve e que te chama atenção para uma realidade – não para tu perderes tempo a ler, duas ou três páginas, não – gosto da síntese que os jornalistas, têm muito disso. Quer dizer, eu escrevi, tu leste, percebeste e podes voar para onde tu quiseres naquela brevidade que te apresento.
    Nesse aspecto tens razão. Por isso eu chamei ao primeiro livro de cronicontos. São crónicas mescladas de contos. Quem lê “Boas Festas Chiquito” verá que há crónica, mas aquilo é uma história ao mesmo tempo.
    Agora tu hás-de encontrar essa diferença no livro que ai vem e, provavelmente, eu me sinto pequenino em algumas histórias e brincadeiras. São contos alguns muito densos, o leitor as vezes pode se perder. Mas quando escrevo crónica sinto-me um peixe na água. Sinto-me bem.

    L: Estavam no tempo em que a guerra era pela barriga e a reconstrução. Havia dinheiro para sustentar uma revista?
    P.C: Eram tempos difíceis. Não tinha papel no País…


    L: Aliás, nas edições número 5 e seis que saíram juntas, Tomás Vimaró, escreveu um artigo sobre essa falta de papel que punha muitos livros a espera de serem impressos…
    P.C: Nessa altura em que começa a escassear de verdade o papel, começa igualmente, o descalabro da revista. Mas devo dizer que, quem nos apoia em primeiro lugar é a Embaixada de Portugal – isto é bom que se diga porque é história – nós mandatamos o Eduardo Luís de Menezes White – não por ser white – ele foi lá, negociou e conseguiu o primeiro financiamento e naquele tempo fazer uma revista eram 20.000 a 25.000 meticais. Os tais 20.000 fomos dados pela Embaixada de Portugal.
    Desse dinheiro inicial havia tanto sentido de austeridade, tanto que o dinheiro das vendas – porque nós vendíamos a revista – guardamos para imprimir as edições subsequentes até a morte da Charrua nós é que custeávamos as publicações.
    Tínhamos um bom tesoureiro, o Juvenal Bucuane, ele sabia muito bem fechar o dinheiro. Penso que os cheques tinham que ser assinados por ele, por mim e por mais alguém que já não me lembro.
    Luís Carlos Patraquim – só uma dica – foi a Portugal com o dinheiro da Charrua, pediu 15.000 meticais emprestado, o suficiente para sair daqui para Portugal. Assinamos o cheque e ainda agora está lá – está lá, mas é nosso. E não estamos arrependidos pelo apoio que o demos, até hoje quando vou a Portugal, os melhores momentos que tenho é com o Luís Carlos Patraquim. E recordamos isso numa gargalhada daquelas “ó Patraquim pediste dinheiro da Charrua!”. (risos)

    L: E chegou a devolver o valor?
    P.C: Não, não, não. Não devolveu. É óbvio que aquela conta o banco já se esqueceu e a Charrua morreu! (risos).

    L: E foram galgando até a edição oito…
    P.C: Pois, terminamos na oitava edição, mas isso tinha a ver com o sentido da afirmação. Nós sempre defendemos que a Charrua era como um viveiro onde as pessoas se vão afirmar. E as pessoas se afirmaram. O Ungulani afirmou-se ali. E hoje aparece como um dos maiores do século XX, foi a Charrua. E quando nós começamos a sentir isso, cada um dos componentes foi vendo a altura que tínhamos atingido. O Bucuane já tinha livro, o White também já tinha – esses foram os primeiros a publicar.
    Depois sai o Ualalapi. O Ualalapi criou barulho neste país. Aí as pessoas foram dizendo para si mesmas “afinal eu posso” e a Charrua foi caindo assim. Os colaboradores primários foram esquecendo a Charrua e a Charrua morreu. É uma morte natural, ninguém a matou. Também não queríamos fazer daquilo um espaço permanente, mas sim, um espaço de afirmação, foi o que sempre dissemos. Mesmo no primeiro editorial nós já dizíamos, que se aqueles velhotes não conseguirem, nós vamos para frente. E alguns foram ficando dirigentes, seja da própria AEMO ou de outras instituições.

    L: E parece que até hoje as coisas são assim: vamos criando, vamos subindo e ganhando nome e prestígio, quando achamos que estamos próximos do sucesso inesgotável, deixamos para trás o que nos catapultou e vamos assumir aquela grandeza que sempre foi na verdade a nossa ambição.
    P.C: Começamos a não ter tempo. Alguns ficaram dirigentes como disse, foram nomeados chefes nesses sítios; eu fui nomeado chefe do gabinete no Conselho Municipal e o tempo foi ficando escasso. Que isso, por ser um facto, que não desiluda os nossos seguidores é falso também. Porque os nossos seguidores ficam desiludidos. Eles viam em nós um fio que os puxava. Há textos por aí que dizem “Charrua quem te puxa e quem te quer parar?”. Há textos dessa natureza. Mas ninguém matou a Charrua.
    Essa coisa de chefia é complicada. Começamos a ficar chefe e depois fomos ficando consagrados ao nível de outras revistas. A Charrua já não era uma coisa da praça, tu tinhas que ir a Tempo, ver um texto – é esse o outro lado que gostaria de dizer – o Gilberto Matusse, vem de Portugal com os seus colegas, o Cunha, o Gregório Firmino e olham para a Charrua, como objecto de trabalho. E eles divulgam a Charrua, escrevem, escrevem e escrevem e, nós ficamos um bocado fortes. Mas a Charrua ficou para trás, provavelmente, injustamente, porque podíamos tê-la como modelo de referência como primeira revista e podíamos continuar dois três contos, poemas e etc, aquilo que a malta publicava com qualidade e com aqueles desenhos do Ídasse Tembe – já me esquecia do Ídasse. E aquelas entrevistas que eu só aprendi a ler na Charrua pelo Tomás Vimaró. Uma entrevista feita ao Manuel Ferreira; uma entrevista feita ao José Luandino Vieira quando ele diz “a Língua Portuguesa calhou na rifa fónica”, ele disse isso na revista Charrua e quem fazia as entrevistas era o Tomás Vieira Mário com aquela experiência de jornalismo que ele tinha, mesmo antes de ir a Roma.
    Há uma saudade que eu próprio tenho da Charrua. Há aquela nostalgia ao lembrar Charrua, aquelas tertúlias literárias, os Jantares Literários, o Eduardo White em cima de uma mangueira a ler “Os Amotinados” com a Anabela Adrianoupolis. Esses momentos não voltam mais. (instantes de silêncio, entornando na boca algumas gotas do seu vinho).
    Já houve de tudo aqui na AEMO, teatro lá de cima das árvores, o Eduardo White nessa altura era mais novo – se subisse agora caía de certeza absoluta – (risos). O gajo subia e dizia lá um poema a sua bela maneira “Os Amotinados”.

    L: Como disse Charrua era um espaço de afirmação como escritores, mas acontece que alguns afirmaram-se como políticos e outras áreas sociais e económicas…
    P.C: Não. Em qualquer um de nós há um bicho político, isso é velho. Não sou eu e eu acredito que em ti próprio há esse bicho. Acredito ainda que daqui a 10 anos, o futuro chefe de Estado se te convidar para seres ministro da Cultura vais. Eu sei que tu vais. (risos)
    Agora isso é conversa. O que é facto é que nós arrancamos para Charrua sem qualquer outro interesse se não a escrita. Os que conseguiram ser são. Mas não estou a ver pessoas da Charrua que não são escritores, acho que todos ficamos escritores. Aqueles que caíram na graça do poder do dia foram resgatados para aquilo e o primeiro a abrir o caminho para isso – é bom ser claro – foi o Hélder Muteia. O Hélder não foi lá pedir seja lá o que for, alguém engraçou-se com ele lá de cima e convidou-o, ele aceitou. Eu, em momento bom se me tivessem convidado, teria ido fazer papel, digamos, de governante. Quando digo momento bom, digo momento oportuno, este já não é o meu caso, mas haverá outros que se seguirão. Eu tenho já barba branca, só se calhar for para uma Assembleia Provincial da minha província que é Maputo, aí vou, mas não tarefas pesadas que me obrigariam a andar a ver dossiês e dossiês que não acabam.
    Eu gosto dos meus camaradas, o Hélder, Juvenal – o Juvenal até tem uma tarefa menos desgastante, digamos, prestigiante – é membro da Comissão Nacional de Eleições aquilo dá prestígio. Ouvem a tua voz como conselheiro e não pertences a nenhum executivo. O Herldér, já esteve numa cadeira desgastante, mas agora está na FAO, isso dá prestígio. Isso é bom para mim, deixa-me gordo, tenho companheiros confiados em boas missões e não sou daqueles que aproveita-se disso para fazer rixas e ter inveja.
    Ta aí aquele menino que é director do Instituto Superior de Artes e Culturas, o Filimone Meigos, isso também orgulha-me. Nós acompanhamos o Filimone a acabar a sua décima primeira classe. Depois foi para a universidade, batalhou para o que tem.
    Esta aí o Ministro Armando Artur, críticas há várias, mas está a fazer o seu trabalho. Isto é belo.
    Agora se todos esses fossem para altos cargos como estão e fosse para fazer confusão, ficaria muito triste ou seja, haviam de dizer é a geração deste que está a fazer porras.
    Mas fico feliz meu filho pela pergunta que fizeste-me. É pertinente. Tenho ouvido muita gente por aí a dizer “essa gente fica secretário-geral da AEMO e depois são ministros”, acho que é muito simplista dizer isso.

    L: Há quem diga as pessoas da Charrua eram as que tinham ou tem, capacidades para assumir grandes responsabilidades nas áreas culturais. Concorda?
    P.C: O pessoal da Charrua estava fardada a cumprir algumas tarefas. Não há hipótese. Não há maneira. Eu já fui convidado para fazer tarefas que não se podem dizer assim. E eu não era secretário-geral, era apenas da Charrua. E aqui nos cruzamos com o Marcelino dos Santos que ia nos dando algumas missões, por exemplo.
    Destinos são vários, partindo da AEMO. Podes ir a vários sítios. Podes ser reitor de uma universidade, podes dar aulas, podes ser chamado a secretariado do congresso de Cabo Delgado a partir daqui. Mas não é célula da Frelimo como se fala por ai ou se algum dia foi, hoje já não é.
    Em algum momento a AEMO foi confundida nesse sentido porque quem a cria é Samora Machel que manda o Marcelino dos Santos. Mas nunca alguém via num Marcelino, um poeta; num Sérgio Vieira, um poeta, num Jorge Ribelo, um poeta. Viam aqueles homens fardados daquele uniforme de lá donde vinham, então era uma célula da Frelimo. Mas não é.


    L: Tal como vocês foram assistidos ao surgir, foram surgindo, igualmente, na AEMO outras revistas ou grupos depois da Charrua. Sendo que vocês em algum momento foram vítimas de estigmas dos velhotes, terão sabido não “torturar” os mais jovens?
    P.C: Há uma coisa que o velhote Rui Nogar costumava dizer, aquilo que ele chamava de “características idiossincráticas de cada um dos Homens” que é a tua maneira de ser, a minha maneira de ser e de estar. Há quem olhasse e dissesse “isto aqui?”.
    O primeiro livro de Armando Artur, foi da Charrua, ele entregou ao Ungulani Ba Ka Khosa para ler, - sentado ali onde agora é contabilidade – ele sentou em cima do livro – esses meninos pá – Armando ainda hoje não se esquece disso. Ele fez a leitura que fez, numa desses são chefes da Charrua e sei lá, e pediu o livro de volta.
    Mas isso depende de cada pessoa. Eu nunca tive problemas com as novas gerações. Forja era da minha geração só que entendeu que queria fazer paralelismo com a Charrua. Publicaram dois ou três números, se a memória não me falha. Só que não havia suporte literário para aguentar uma revista de 32 páginas. Enquanto nós tínhamos material, havia escritores no nosso grupo. O Juvenal já escrevia desde os anos 70’, e estavam os seus escritos guardados porque não sabia onde publicar; o Ungulani e eu já tínhamos. O Eduardo White, não tendo esse material, mas com uma grande capacidade de criação estava sempre a produzir, tinha um cérebro blindado. Nós alimentávamos a nossa revista e eles não tinham essa capacidade.

    L: Mas vocês da Charrua eram vistos também como indisciplinados…
    P.C: “Nós fizemos muita porcaria”, entre aspas, coisa que tem a ver muito com as idades que tínhamos. Eu sai de Maputo para Niassa com 20 anos e regresso com 26 anos, ainda não tinha 30 – esse dado é curioso – o Ungulani tinha 24 anos, um menino mandado para ser professor no Niassa depois volta, o Armando Artur é que não tinha idade para ser rebelde.
    O Eduardo era, claramente, rebelde. Mas rebeldia o que era? Era a gente postar-se sempre um pouco fora dos cânones do poder político, isso é natural. E havia os mais rebeldes e outros menos, mais disciplinados. Éramos assim.
    Estava aqui uma senhora que vendia cerveja, já morreu e não me lembro do nome, ela disse que a cerveja que restou nesse dia era para o dia seguinte e ela queria ir para casa. Obviamente que tomamos de assalto a geleira! (risos).
    Nós sabíamos que lá fora não havia mais cerveja, só aqui. Estou a falar dos anos 1982 a 1984. Não tinhas cervejas por ai, e eu disse quero tomar mais uma cerveja. Tinha que tomar mais uma cerveja. Nós tomamos de assalto ela a gritar, “não Ungulani, hei Pedro! Armando!” éramos rebeldes, mas a nossa rebeldia era marginal. Uma rebeldia de fulcro e não de mexer com os poderes. Essa de que temos que tomar esta cerveja, porquê que temos que tomar amanhã?
    Lembro-me daquilo que fizeram ao Ungulani quando ele faz um discurso autodiegético num conto seu, em que ele diz que saiu foi roubar um par de sapato para o filho, mas acontece que foi apanhado e espancado e o seu filho veio a passar sem saber que era o pai, também espancou-lhe. O Marcelino dos Santos fez uma reunião na revista Tempo onde o texto saiu e eu disse ao Ungulai “essa é tua retórica literária contra as imposições políticas”, ele riu-se. Ele tinha que encontrar uma maneira subtil de rebeldia, mas não uma rebeldia de rua. Se não pegavam em ti e desapareces. Vivemos momentos difíceis. Não havia esse barulho, manifestar contra o poder era impossível.

    L: E quanto a própria AEMO quanto uma “instituição” se assim se pode dizer, o
    que acha dela?
    P.C: Isto tem altos e baixos. Esta era uma casa de começo com Rui Nogar, foi uma casa de consolidação com Albino Magaia, com Pedro Chissano – não estou a afirma-lo de forma concludente – terá sido o momento de gente da minha geração também habitar a casa mais livremente.
    Acredito que o Hélder Muteia fez algumas mexidas e teve uma secretária-geral adjunta esplêndida a Lília Momplé, eu também tive um secretário-geral esplêndido que é o Leite Vasconcelos. Penso que essas pendles terão conseguido ajudar para que a casa não descarrilasse.
    Depois do Hélder creio que foi a própria Lília Momplé tendo como adjunto, o Armando, depois da Lília foi Suleiman Cassamo só depois vem o próprio Armando.
    Há aqui uma sucessão – para ser honesto – de sucessões na direcção da AEMO de dois em dois anos que não é muito sólido. Um sai ainda com coisas por fazer, entra outro também com suas coisas e esquece as do outro, assim vamos acumulando esquecimentos, de direcção a direcção. Isto terá criado qualquer problema estrutural ao nível da coerência programática da AEMO. Isto poderá ter falhado.
    E depois o outro erro foi exceder as sucessões geracionais. Essas sucessões geracionais a experiência ao cabo destes quatro anos mostra que não são a melhor maneira de resolver o problema na associação. As candidaturas têm que ser supra-geracionas. Se sou da Charrua ou da Oásis não podemos nos candidatar por diferença de geração. Se isso aconteceu, temos que mudar. Tem que se ter a casa como a casa dos escritores e não da geração do dia ou seja, o que nós passamos a fazer aqui foi pensar que a Charrua é um partido, depois a Oásis é outro partido.
    Quando estamos na Assembleia Geral a tendência é digladiarmo-nos enquanto forças literárias de momentos diferentes e foi preciso que isto fosse esquecido. Agora é isto que estás a ver, a casa caiu num descalabro. O perfil de um secretário-geral tem de ser de disponibilidade a toda hora, se não pode estar a tempo inteiro, que dedique duas a três horas ao dia, mas isso não está a acontecer. O poder quando é concentrado numa só pessoa há um vício de que se cometam erros sem alguém para chamar atenção. E a acumulação de erros pode ser nefasta para vários vectores.
    Estamos a falar livremente, na associação dos músicos moçambicanos foi o mesmo que aconteceu. O meu irmão Hortêncio Langa foi deixado sozinho. Acumulou erros atrás de erros e há pessoas que falam com muita alegria co-relação a isso. Mas ele estava sozinho. E sozinho não se faz nada.
    Há uma necessidade que a chama do colectivismo na instituição se mantenha acesa e esta capacidade congregacional não existe, porque ela perdeu o lado supra-geracional. Quer dizer quando eu me zango contigo só digo este há-de ver, mas com um mais velho podia se ter um método diferente de abordar o problema.
    O que nós estamos a tentar fazer e o que estamos a discutir neste momento é esta situação que prevalece. Como mudar essa situação? O que entendo é que isto está mal, é preciso reunirmos todos os escritores, todos, discutirmos os problemas abertamente e arranjarmos uma solução. Se for necessário recorremos ao estatuto da associação caso o erro esteja lá e rectificamos.

    Você já me massacrou muito pá.

    FILIMONE MEIGOS SOBRE OS 30 ANOS DA AEMO: “Há uma mc-rogização da Literatura Moçambicana”

    Eduardo Quive



    Filimone Meigos, o jovem da Beira que acompanhou enquanto ainda militar, o processo de criação da AEMO, através de um contacto em Nampula com Rui Nogar e Orlando Mendes que apaixonaram-se a primeira como a sua escrita. Chega a Maputo e deixa-se levar pelo ambiente literário que caracteriza de democrático, vivido na Charrua. Hoje, sociólogo, dirige o Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC) é mais um legado daqueles que foram os tempos de gestação de novo sangue da Literatura moçambicana. Contudo quando chega a de fazer o rescaldo daquilo que é hoje a escrita em Moçambique, dá também a mão à palmatória.



    Literatas: Entra na Charrua já com ambições como escritor? Tinha já em plano a publicação de um livro?
    Filimone Meigos: Eu devo ter sido um dos últimos escritores da Charrua a publicar uma obra. O livro não era um fim em si, obviamente que iria ser, mas não era uma meta. Se for a ver o Pedro Chissano, ou eu, mesmo próprio Aníbal Aleluia, nós só lançamos livros já no fim. Na verdade o que valeu naquele tempo foi a possibilidade de partilharmos vivências, e debatermos a literatura no seu sentido mais amplo. Nós líamos muito e trocávamos livros e ideias. É isso que me traz muita tristeza porque não se esta geração suposta ser a fiel depositária – o que é normal porque as gerações sucedem-se – não sei se lêem, se trocam livros. Nós fazíamos isso, íamos a casa de um e do outro, embora bebêssemos uns copos, e havia uns mais adiantados outros, já tinham livros e até famílias, como era o caso de Khosa, Chissano e do Bucuane. Nós vivíamos como família. Veja hoje como os filhos de Khosa, ou os do White, os meus filhos, tratam-se como primos, somos tios e eles consideram-nos assim. E não era farsa, provavelmente porque não houvesse diferenciação social como hoje há. Éramos todos iguais, ninguém tinha nada. O Rui Nogar é que tinha que lutar para nos meter na loja para temos uma camisa, calça ou mateiga. E ele fazia questão de dizer ao pessoal das lojas que éramos responsáveis. Ele gostava muito de dizer “cada um com a sua idiossincrasia”.
    Nós tivemos sorte porque apanhamos uma geração que depositava em nós a esperança e me parece, modéstia parte, que correspondemos a expectativa.

    L: Corresponderam as expectativas…
    F.M: Tu lés um “ Ualalapi” de Ungulani Ba Khosa, “ Amar sobre o Índico” de Eduardo White, e tu vês que está ali uma coisa sumarenta. Bem exprimida e as análises que fazíamos um bocado empíricas, porque nenhum de nós tinha ido a escola, mas eram feitas com alguma profundidade.

    L: Mas também eram tidos como rebeldes…
    F.M: Sim. Essa é a característica da juventude. Não é rebeldia como rebeldia, mas rebeldia com alguma substância. É um bocado disso que não sinto na geração que nos sucedeu na AEMO. E para o meu gáudio, sinto isso com o Movimento Kuphaluxa, que é – se eu quiser dizer quem é que herdou o espírito ou o modis faciente da Charrua – na minha opinião não é a geração dos jovens que estão na AEMO que faz edita e discute ideias sobre a nossa literatura. A geração que está na AEMO não consegue fazer isso.

    L: Mas nesse processo de “passagem de testemunho” sendo que vocês aprenderam dos outros, fizeram o vosso tempo da juventude com um certo reconhecimento e terão ensinado aos mais jovens que hoje estão, o que terá falhado?
    F.M: É um problema conjuntural. O testemunho ficou nas nossas mãos e não foi passado por vários motivos:
    Primeiro parece-me que a geração sucessora não entendeu o recado.
    Segundo parece-me que a própria conjuntura fez com que tivéssemos tido uma abordagem diferente. Era outra coisa que não fosse literatura. Nós nunca pensamos nisso. Fazíamos literatura por literatura. Parece-me que a conjuntura
    impeliu-nos – quando digo “nos”, estou a incluir-me na nova geração e dou a mão à palmatória – impeliu-nos à Mc-rogização da Literatura tal como aconteceu na música e nas outras modalidades artístico-culturais. É a cogumelização, a preocupação com os efeitos rápidos, e ganhos. O que nós na Charrua não tínhamos. Éramos pobrezinhos, mas não pobres de espírito e se leres o Khosa vás achar isso, por exemplo. Mas hoje estamos preocupados com o exibicionismo, marcas de factos e parece-me, infelizmente que esse paradigma vincou – a parte na minha opinião o Movimento Kuphaluxa – mas vincou esse Mc rogização, enquanto a literatura vai para além dos fatos.

    L: Mas esses todos problemas que se registam que resultados trarão em termos do novo produto artístico.
    F.M: Toda gente apercebeu-se sem o devido contrafeito que a cultura é um poder. Mas não tem o devido contrapeso, porque não estudam, não lêem, então fica tudo vazio. Esvazia o conceito de arte como o nível mais alto de criatividade e por conseguinte o nível mais alto de intelectualização do mundo circundante.
    Então, estão todos preocupados com os livros, gingação, meninas e viagens, mas se olhares para eles com tudo isso não são nada.

    L: Já disse, portanto, que Kalach in Love é uma releitura do programa radiofónico “ O Poema essa Arma”, mas também podem ser as falas de um militar que precisava da paz?
    F.M: Há ali a antítese da guerra, ou seja, o dilema de ter que pegar numa arma para alcançar a paz.

    L: E é exactamente isso que quero saber, porque há aqui um cidadão que era militar e tinha que lutar, por outro há aquele que diz “a guerra não é a solução”…
    F.M: Tínhamos o Apartheid e tínhamos os BA’s, estávamos expostos à apúlia, por um lado, mas por outro, tínhamos como única saída a guerra. Mas como hipótese de trabalho submersa era a paz. Nós podíamos ter uma solução para o Apartheid os BA’s negociando a paz, e esta era a proposta da Charrua. A Liberdade. Na Charrua tínhamos o debate crítico e democrático que não é o que me parece haver agora na AEMO. Não sei que cor tem e o que pensa a geração que agora se encontra na AEMO.

    L: Acha que há falta de uma ideologia por parte dos actuais gestores da AEMO?
    F.M: Nós tínhamos uma ideologia que não era exactamente uma ideologia. Mas pelo menos tínhamos um manifesto. Se for a ler Charrua poderá encontrar isso, mas não me parece haver esse manifesto nos que agora estão. 

    EDUARDO WHITE SOBRE OS 30 ANOS DA AEMO: "não conheço a AEMO"

    Eduardo Quive





    Eduardo White é aquele que foi negociar os 20 mil meticais em 1984 na Embaixada de Portugal que deram vida ao projecto da revista literária Charrua na qual fez parte como membro do conselho editorial desde a sua morte “natural”. Apesar de já ter 50 anos, Pedro Chissano ainda o chama de “menino White”, aquele que subia a mangueira da AEMO para espontaneamente e como só ele sabia, dizer poesia num imbatível dueto que compunha ao lado da Anabela Adrianoupolis. Quase que aborrecido por falar do assunto “Associação dos Escritores Moçambicanos”, mostrou-se conhecedor da actual realidade da Literatura Moçambicana, principalmente ao que se refere aos novos autores. “Basta lançarem um livro já saem a gritar eu sou escritor!” – diz Eduardo White.



    Literatas: Que lembranças tem do menino White da Charrua?
    Eduardo White: Da autenticidade, da solidariedade, menos materialistas, não havia essa fome de poder que há agora. Agora toda a gente quer ser outro tipo de gente. Quer usar gravata, quer andar de outro tipo de carro, um AVC, toda a gente quer ser chefe, e por toda a gente querer ser gente este país anda mal chefiado. Eu acho que naquele tempo todo mundo queria ser gente, a minha juventude foi mais feliz e mais autêntica por que era uma idade de procura.
    Todos nós estávamos a procura. Toda gente lia muito, trocávamos livros, andávamos em grupo, é pa, bebíamos os nossos copos, fumávamos os nossos cigarros, ninguém saia sem outro. Éramos uma família, o que agora já não acontece. Bom isso é também devido ao tempo, mas acho que conservamos muito pouco aquelas coisas. Hoje vejo o meu filho que tem 30 anos, ele ainda tem amigos que são amigos dele desde os 18 anos de idade. Acho que isso é importante conservar. Uma família literária ou um projecto literário é por toda a vida. E quando a literatura começa a ser uma pista de atletismo, ela perde-se. Essa coisa que eu sou melhor que outro, é muito má para uma literatura que está a começar. E é um facto.
    Relativamente à expressão angolana, se vocês forem a ver, eles publicam tudo e o tempo vai encarregar-se de deplorar, de filtrar e é isso que nós precisamos. Nós precisamos mais jornais com páginas literárias. Naquele tempo todos os jornais tinham um caderno com duas ou três páginas dedicadas a literatura. Hoje não. Tens o “ Notícias” que tem o suplemente cultural, mas o resto já não há. É por isso que há falta de qualidade porque publicar no jornal é bom, para qualquer um. Mesmo para um autor consagrado, publicar no jornal é bom, porque mede o seu nível de escrita e as pessoas que o lê vão tendo noção de que quem ele é.

    L: Incrivelmente os escritores em destaque hoje na literatura moçambicana são da Charrua! Mas o que aconteceu para que as coisas mudassem?
    EW: É o capitalismo selvagem. Num governo de capitalismo selvagem, interessa sempre ao poder, controlar o que se escreve e o que se lê. E quem escreve e quem lê. Não é por acaso que as editoras que sobrevivem até hoje e que publicam, são as dos livros escolares. O dia em que essas editoras deixarem de publicar o livro escolar, não há livro em Moçambique. Não há um investimento. Ninguém investe num novo escritor. As vezes vejo jovens, eu próprio quando é para viajar, para obter uma passagem de 20.000 meticais, quase que te arrasta-se, quase que te humilhas, quase que ladras.
    As vezes digo que se fosse um cantor, talvez safava-me melhor, mas não bom cantor, mau cantor, com uns vídeos com umas mulheres com boas mamas. Neste país o que se patrocina são pernas e mamas. Não é música propriamente dita. Isso eu sempre disse.
    L: Mas há quem diga que o Eduardo White não tem sofrido para obter apoios, pelo nome e pela cor…
    EW: Há quem diga… há muita gente que diz muitas coisas de mim, mas até dizerem é porque há muita gente que não sofre pelo nome. E se eu não sofresse pelo nome imagina, não estaria a beber a crédito numa barraca. Mas quem diz são os que tomam chá no Hotel Cardoso, que andam de carros, esses é que dizem isso e que não escrevem a uma porrada de anos. E que são directores disto ou daquilo e que são ou foram ministros. Esses gajos todos é que dizem, mas se fores lá pedir a eles, sempre dizem estou a construir a minha casa, gastei uma fortuna. Mas eu não estou a construir nenhuma casa, não crio galinhas, não tenho três amantes, faço amor a crédito, tas a ver? De maneiras que estou me cagando para os gajos, redondamente.

    L: A AEMO completa 30 anos de existência, podemos dizer que são trinta anos de uma instituição literária?
    EW: É pa, eu nem sei o que é AEMO. Se existe isso ou não eu não sei. O que é AEMO? Conheço a AEMO a uns 10 15 anos atrás, isso ruiu. AEMO é o quê? É um bar? Restaurante? Não sei, não conheço.

    L: A fase em que une-se a vários jovens na AEMO, formando a Charrua foi crucial para ti?
    EW: foi crucial sim. Foi boa mas foi má porque se tivesse me dedicado a escola não seria pobre. Teria terminado o meu curso de engenharia civil, desisti no terceiro ano. É que eu tinha muita mecânica de sol enquanto eu queria a mecânica lunar.
    Depois fui fazer o jornalismo, tive um grande amigo que recebeu-me na altura da TVE (Televisão Experimental de Moçambique, actualmente Televisão de Moçambique, TVM), o Pedro Pimenta era na altura o director geral. Pôs-me ali a fazer alguns directos. E fiquei. Depois fui para a revista tempo. Foi de seguida a Charrua, dei aulas até que tive o meu primeiro emprego.

    L: Mas quase todos os que saíram da Charrua tornaram-se dirigentes…
    EW: Mas isso é com eles. Eu não me refiro a esse dinheiro. Estou a falar daquele dinheiro do dia-a-dia, apanhar um taxe ir até ao Museu beber um vinho, mas não posso porque só tenho 100 meticais. É bonito, mas ao mesmo tempo é chato, tenho já 50 anos. Dizem que temos que poupar, mas eu nunca encontro dinheiro para poupar.
    Quando encontro dinheiro só serve para pagar algumas dívidas, a água, a luz, o sapato em fim. Comprar uns livritos de vez em quando.


    L: Há uma nova vaga de autores moçambicanos, refiro-me aos que se quer fizeram parte da Charrua. O que acha deles?
    EW: Acho que é bom. Mas há muito escritor pedante. Hoje tu lanças um livro e se acham. São todos uns vaidosos. Isso é mau. Lançam e saem a gritar “eu sou escritor”. Acho que um escritor de verdade, não é isso que diz.

    L: O que tem que dizer quem quer ser ou é escritor realmente?
    EW: Ya, poeta é puta ao mesmo tempo. Esse é um melhor conceito, sem vaidade, sem grandes coisas.
    Por exemplo vocês estão a fazer um bom trabalho com humildade, isso é bom. Vão aprender mais do que sendo arrogantes.
    Sabes porque é que a associação dos escritores hoje é o que é? Ou morreu porquê? Por causa disto, este é este, o outro não é nada. Mas não, todos nós somos. Tu tens os teus leitores e eu tenho os meus. Os teus leitores podem não gostar de mim ou podem gostar de mim por influência tua. Por exemplo o meu filho não me curte nada. Diz que prefere o computador e eu respeito isso. Tem gente que me curte, mas não curte o que eu escrevo. E nem por isso não deixamos de ser amigos e nem deixo de dar importância a o que eles dizem. E quando gostam é porque viram algo de interessante.

    L: Estava a dizer que o que está a acontecer é bom, ao mesmo tempo que reclama da arrogância dos novos. Então que momentos estaríamos nós a viver?
    EW: Olha, estamos a passar pelos engravafatados. Os que já são, estão e de vez enquanto saem do guarda-fato. Com ar e são senhores e temos aqueles que querem ir para o Guarda-fato. E devemos partir os guarda-fatos e dizermos a eles que não há guarda-fatos, devemos escrever e ter mais lugares para publicar. Mais jornais que tivessem mais espaço para jovens escritores. Porque a literatura é mais uma forma de intervir. Todos grandes escritores que conhecemos, desde o Gabriel García Marquez, Jorge Amado, utilizaram a literatura como meio de retratar a guerra, de expressar opiniões, etc, etc. Isso é que é importante.
    Por exemplo vocês tem uma revista electrónica e que a juventude e não só pode a ler baste abrir o e-mail sem gastar dinheiro. Isso é bom, porque os preços dos livros são altos. Até eu há livros que tenho dificuldades em comprar.

    L: Os preços dos livros te preocupam?
    EW: Preocupam-me porque não ganho nada.

    L: Mas sendo um escritor e com uma das obras mais caras entre os escritores moçambicanos…
    EW: Esses livros que são caros são meus aparentemente. Há um maior investimento por parte do artista, mas ele recebe 10% do preço de capa. Se um livro custar 100 meticais ele recebe 10. E numa tiragem de 3.000 a vender por 100 que serão 300.000 meticais, ele só recebe 30.000. e levaste por ai cinco anos a escrever o livro. O autor está a ser mal pago e isso acontece porque aqui temos poucos leitores, os editores não arriscam a grandes tiragens porque as grandes tiragens diminuem os preços dos livros, tanto nos custos como no produto de oferta e dão a possibilidade de o autor ter mais dinheiro.
    E depois mesmo os livros escolares que são a maior produção que o país faz, os escritores não recebem direitos do autor, deviam receber. Tudo isso são coisas
    importantes.
    Há estúdios que são feitos e que todos os dias me chegam, sobre mestrados, licenciaturas sobre as minhas obras, mas nunca recebi tais livros. Nunca recebi dinheiro, nunca recebi pedido de autorização, nem livros, nem o convite para ver esses tais lançamentos. Isso desagrada-me um pouco.
    Há uma coisa que até já escrevi, “ ser poeta pobre e um pobre do poeta”. É pouco dignificante ser poeta. Mas não estou a dizer para vocês deixarem de ser, porque os vossos tempos vão ser melhores.

    L: acha que serão melhores…? O que te faz pensar assim?

    EW: Vão ser melhores. Porque acho que os futuros dirigentes serão vocês e se tivermos mais gente escolarizada, lida, letrada, nos destinos deste país, mais importância se vai dar à cultura, mais importância se vai dar ao desporto, mais importância se vai dar a juventude, mais importância se vai dar às livrarias, às bibliotecas – um país sem bibliotecas é … - a tua Biblioteca Nacional não tem nada! A pouco tempo o director do Arquivo Histórico chamou atenção que os arquivos não estavam a ser bem conservados porque estavam numa casa em arredores. Estamos preocupados com outras coisas e isso é mau. É preciso chamar atenção à essa gente. E há gente que escreve ou que diz que escreve, o Presidente da República é poeta e membro número 10 ou 11 ou 07 da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Marcelino dos Santos, o Sérgio Vieira – não sei se já deixou de ser poeta ou ainda é - , mas essa gente está no poder e não faz nada. Estão preocupados com as patentes, com o poder, com os carros.
    Mas há gente no meio dessa gente que ainda – graças a Deus – está a suportar muito o que se faz hoje na Literatura, na Música, como o caso de grandes empresas.

    L: Outro facto é que há escritores um pouco por todo o país que não são conhecidos interna e internacionalmente…
    EW: Sim mais que livros tens para levar para fora? Há escritores mas eles não têm livros. Como é que vais chegar lá fora? Até nós que temos livros nos é difícil chegar lá fora! Chegam apenas alguns que tem lóbis.
    Anda a fazer-se um mau juízo de nós os escritores consagrados. Nem toda história que se conta a nosso respeito é verdadeira. Isso são ilusões que todos dias estamos lá foram. E se estamos lá fora só sabemos depois muitas vezes. São meras ilusões. Hoje tens dois ou três escritores que estão lá fora porque pronto…. É o caso de Mia Couto, Paulina Chiziane – esta merecidamente porque está a fazer um belíssimo trabalho – tens ainda o João Paulo Borges Coelho que só agora começa a sair e ninguém. Aliás o que tens depois sou eu e o Khosa que publicamos livros fora, mas voltamos a publicar outra vez cá dentro, porque publicávamos lá e cá não se lia, é preferível que se leia cá do que lá fora.
    É ai onde devia entrar a associação dos escritores – lá vem, eu não queria falar dessa porcaria, desse casebre – se a associação dos escritores congregasse escritores poderia se debater e ver-se que saídas se podiam arranjar para esses problemas. Nós estamos mal de saúde em termos de divulgação literária. Muito mal mesmo. O Brasil está a entrar muito bem. Aliás o meu amigo Calane da Silva, gosto muito dele e ele sabe disso, tenho esse precedente com ele, desse brasileirismo que ele tem, que eu acho que faz um belíssimo trabalho, mas falta mandar de cá para lá para que se leia, porque Brasil é potencialmente um grande mercado para a literatura.

    UNGULANI BA KA KHOSA SOBRE OS 30 ANOS DA AEMO: Falta críticos literários em Moçambique

    Eduardo Quive



    Francisco Issaú Cossa, é aquele que todos chamamos por Ungulani Ba Kha Khosa, faz parte daqueles que realizaram o “assalto à instituição literária” logo que ela se cria e formou a turma da Charrua que veio a oficializar-se a 23 de Junho de 1984 com o lançamento do primeiro número dessa revista que até hoje não sai do debate literário moçambicano. Eram eles, Pedro Chissano, Juvenal Bucuane (esses dois tendo assumido as funções de coordenadores), Eduardo White, Hélder Muteia Ídasse Tembe, Tomás Vieira Mário/Tomás Vimaró, Filimone Meigos, Marcelo Panguana, Armando Artur entre outros. Mas uma particularidade levou à distinção de Ungulani dos outros, ele era homem inquieto e com um discurso literário de desassossegar o poder. Na verdade, nesta entrevista Ungulani explica que a sua preocupação mais do que atingir o poder político, estava a obedecer o código de conduta da literatura “ser sincero com o texto”. E é nessa sinceridade que nasceu o seu primeiro livro “Ualalapi” por sinal, a sua consagração como uma referência obrigatória na literatura nacional.


    Literatas: Estamos aos 30 anos da AEMO, e lembro-me que a bem poucos anos há quem falava da morte da Literatura Moçambicana. O que pensa disso?
    Ungulani Ba Ka Khosa: Há em mim alguma perplexidade quando vejo essas coisas. Quando tu vês uma pessoa jovem a iniciar-se nas letras e ele próprio a se liquidar, a dar-se um tiro nos cornos, a dizer que esta é uma literatura morta. Não vejo futuro nessa pessoa. Eu quando comecei a escrever eu preocupei-me em fazer o meu texto, quer dizer, eu estou preocupado em escrever.
    Mas quando eu começo e faço uma leitura para a minha contemporaneidade e digo que estamos mortos, implica que o próprio fazedor recusa-se a positivar o seu próprio trabalho isto significa ainda, qualquer coisa que é anacrónica, não achas? (apenas encolhi os ombros)
    Quando vemos lamentações deste nível quer dizer que temos qualquer problemas editoriais. Quando dizes que o nosso texto, a nossa literatura, o nosso trabalho está nesse patamar, não sei como é que podes chegar a outros patamares.

    L: Indo directo à pergunta que queria que me respondesse a partir da anterior questão: Quando vocês entram na AEMO o professor Gilberto Matusse escreve um artigo intitulado “O Assalto à Instituição Literária”. Hoje aos 30 anos estaremos de facto, a comemorar os 30 anos da Institucionalização da Literatura Moçambicana?
    U.B.K.K: A questão é esta: nós estamos numa economia de mercado e como economia de mercado, digamos, todo o mundo editorial praticamente está ancorado no sector privado. O sector cooperativo que podíamos dizer que é este sector não tem crescimento e nem significado nenhum.
    O Estado gradualmente foi-se afastando desse lado interventivo da cultura. Portanto, quando tu olhas para a associação tens que olha-la num prisma de intervenção, num prisma de associativismo, de cidadania, de outros valores que temos que fazer chegar. Agora a associação dos escritores passou por várias etapas, o importante neste momento, é encontrar-se outras formas que se adeqúem ao tempo.

    L: Mas isso a o que se refere à situação editorial, mas quanto a própria vida literária do país, incluindo os debates que nos referíamos? A literatura funciona em uma rede, temos as editoras, os livreiros, o escritor e o leitor.
    U.B.K.K: No campo dos debates, provavelmente por natureza deste tipo de sociedade, as pessoas tornam-se cada vez mais egoístas. Os campos de solidariedade tendem a ser diminutos. Mas o que te posso dizer é que realmente a situação da associação dos escritores moçambicanos também reflecte um pouco o marasmo com que a gente vive de ausência de debate, não só na associação, mas como ao nível das universidades esses grandes debates não existem. É o próprio país que também tem essa falta e a associação por estar dentro, reflecte essa situação. É aquilo que falei no princípio, quando transformamos este grande país parece um grande supermercado de venda de acções mercantis e esquecemos a dimensão cultural. E a dimensão cultural faz-se por grandes debates, por cidadania. Vez por exemplo coisas vergonhosas como eu vi agora, nessa cimeira da SADC, algumas personalidades no debate a querer questionar aquelas manifestações dos diversos povos do mundo, quer dizer questionar aquelas atitudes cívicas tem sido habitual.
    Chegamos ao ponto de questionar isso, como se estivesse tudo dentro do Estado e nada fora do Estado. Quando jovens ainda estão com essa mentalidade é qualquer coisa que chega a ser assustador. Portanto quando tu falas 30 anos da AEMO, foram em que tivemos o nosso crescimento, mas a dinâmica que se quer, na parte dos debates é praticamente nulo, mas devo dizer que é o reflexo de uma situação geral porque até instituições académicas, que devia ser promotoras desses debates, levantando grandes questões sociais e criarem um movimento, aí é que se evitava essa morte. É uma morte lenta de crescimento e de cidadania que estão praticamente adormecidos.

    L: Concorda com a opinião que considera ter havido dentro da associação durante esse tempo, conflito entre os grupos que foram se criando por dentro e que ganharam nome de gerações?
    U.B.K.K: Eu não acredito nos conflitos de gerações. O que eu acredito sempre é que tu como escritor a tua grande luta é no sentido de conseguires publicar o teu texto e de lutares para que ele melhore. Nada de falas.
    Se olhares para mim, para os Craveirinhas, Magaias, eu olhei-os como pessoas que estão no grupo literário em que eu podia entrar e com o meu esforço podia me impor. É obvio que o mundo literário também é tão sódico como outros mundos. É um mundo tão solto, tão transparente, tão sólido como outros, há golpes baixos, há jogos de misérias que se fazem, há todo isto mundo. Mas a pessoa tem que estar acima por vezes, desses particularismos ou entraves. Onde há um ser humano, há duas ou três pessoas há disto, mas fundamentalmente é o texto que deve prevalecer. De certo modo há alguns que sempre teimaram em falar de gerações e de conflitos, mas muitas vezes por de trás dessas acções há alguma mediocridade que impera.

    L: Dos escritores moçambicanos que vão se internacionalizando, temos o Mia Couto, o Eduardo White, agora a Paulina Chiziane, João Paulo Borges Coelho e você, naturalmente. Acha que há novos horizontes a abrirem-se para mais escritores moçambicanos no estrangeiro?
    U.B.K.K: Eu acho que sim. Não te posso falar da poesia que é uma área que respeito muito e tenho uma opinião muito subjectiva sobre ela, mas no campo da prosa eu acho que o espaço não morreu como tal. Eu sou daqueles que digo uma coisa: o grande problema que nós temos aqui não é do aparecimento ou não de escritores que estão na praça. O problema é da massa crítica. Paradoxalmente nós temos gente que sai em número crescente da universidade na área das letras, mas ao mesmo tempo esse número decresce em termos de intervenção crítica. Nós não temos. Eu nasci na literatura no momento em que estavam nascer críticos desde os Noas, Gilberto, Lobo e outros, mas agora não. para tua geração e outra geração vocês nascem com o texto e tem ele e ficam cinco seis sente meses e ninguém fala de si. São esses os grandes problemas que temos que colmatar. Isso se verifica tanto na literatura como nas artes plásticas. Temos um grande movimento de artistas, tu vez aqueles nomes todos, mas ninguém consegue os agregar. Mas quem deve os agregar não sou eu, não é minha vocação, eu não sou crítico. Sou crítico em relação ao meu texto e ao texto do outro, mas mesmo assim, a minha crítica é em função das minhas leituras. Mas uma pessoa que aparece num patamar que é capaz de ver a distância eu posso criticar, em função de que ele não entra na minha linha, é a natureza do escritor. Não colecciono livros sobre a crítica. Agora o crítico esse é que deve ter forças e existir. Por isso que há uns fulanos que são críticos, estudiosos de literatura e que são doutra geração já se utilizaram num mundo em que já se especializaram em determinados escritores e por vezes não temos olhos para o geral. Falta críticos literários, isso é que falta em Moçambique.

    LEITURAS: “Charrua” na voz do seu primeiro coordenador

    Eduardo Quive

    Juvenal Bucuane hoje aos 61 anos de idade, autor de numerosas obras entre poesia e prosa, com a sua mais recente obra lançada neste ano intitulada “Crendices e Crenças”. Foi o primeiro coordenador da Revista Literária “Charrua” este empreendimento que teve o realce da sua edificação em 1984 e mais tarde, em 2005, fica secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, isto é, o último antes do do actual secretariado liderado por Jorge de Oliveira. “Charrua” e AEMO são dois assuntos breves que da entrevista que fizemos a este escritor, procuramos trazer neste número na primeira pessoa.

    Um dos números da revista literária Charrua


    Fui convidado para estar presente na constituição da AEMO porque a quando da proclamação da independência em 1975 eu já escrevia alguns poemas que pretendi publicar no jornal. Consegui publicar alguns no jornal Notícias e na revista Tempo que eram os órgãos mais lidos nessa altura.
    O meu nome começou a ter alguma visibilidade cá fora, mas muitas pessoas não sabiam que eu era. Mas estou certo que o grupo que estava a trabalhar para a criação da Associação dos Escritores Moçambicanos conheceu esse nome e deve ter andado a procura. E quando descobriram-me endereçaram-me um convite para estar presente em todas sessões da constituição da AEMO. Não tinha voz activa, nem direito a voto, era apenas um observador que ficava para ver o que se estava a passar. Até quando no dia 31 de Agosto exactamente a 30 anos assisti a formação oficial da AEMO.
    Nessa altura para mim era gratificante estar ao lado de pessoas que já ouvira falar, mas que nunca tinha estado ao pé delas, estou a falar de José Craveirinha, Luís Bernardo Hownana, Orlando Mendes, Albino Magaia, Calane da Silva, Gulamo Khan, Marcelino dos Santos e vários outros estiveram na constituição da AEMO e, claro o Rrui Nogar que na altura foi indicado secretário-geral da AEMO, sendo assim o primeiro. O primeiro presidente foi José Craveirinha.
    Praticamente esse foi o meu primeiro baptismo, já me sentia não escritor, mas pelo menos já considerado na família dos escritores.
    Depois da criação da associação, Rui Nogar faz um apelo a todos os jovens que escrevem para aproximarem-se da Associação dos Escritores Moçambicanos, é nessa altura onde vendo essa chance, que cheguei a AEMO e descobri lá muitos jovens que atenderam ao chamamento. Estou a falar do Ungulani Ba Ka Khosa, Pedro Chissano, Hélder Muteia, Eduardo White, Tomás Vieira Mário, Marcelo Panguana, António Pinto de Abreu e tantos outros.
    Nessa altura o Rui Nogar diz assim “formem grupos, como são muitos, formem dois grupos de leitura e troca de obras, troquem os vossos escritos entre vocês e façam debate crítico daquilo que leram dos vossos amigos.” Fizemos esse exercício até que chegou uma altura que nos apercebemos que tínhamos já muitos textos prontos. E perguntamos-nos, qual é o destino dos tais escritos?
    A associação não tinha condições para editar aqueles trabalhos em livro, e mesmo se fosse nós não tínhamos ainda, muita tarimba para isso. Na altura nós entendemos que aquilo era uma forma de nos entreter, mas que criou em nós aquele desejo de fazer qualquer coisa para amanhã sermos como aqueles escritores que nós víamos naquela casa a circularem.
    Fomos produzindo mais textos até que um dia chegou a ideia de fundar uma revista de jovens. Isso foi muito pol’emico, não foi fácil, porque tínhamos pessoas a favor da ideia e outras contra que diziam-nos “miúdos destes o que ‘e que sabem da literatura para fazerem uma revista literária?” havia esse pensamento enquanto outros abraçavam a ideia e uma dessas pessoas era o próprio Rui Nogar, ele existia que nós estávamos a fazer um trabalho e estava consciente que um dia íamos conseguir. naturalmente que não havendo condições da AEMO levar isso avante ele dávamos o apoio moralmente. Ele incentivava-nos. Mas a tal revista que queríamos criar, sentamos e consolidamos as coisas pelo que demos o nome a revista ficando “Charrua” no sentido de que Charrua desbrava a terra, desbrava a terra, abre o chão para lançarmos a semente. Todos concordaram com o nome.
    Mas acontece que nós só sabíamos recolher os textos necessários e não sabíamos mais o que fazer a seguir, foi então quando nos lembramos do irmão do Ungulani Ba Ka Khosa, Elias Cossa ele era jornalista e estando dentro desses meandros fizemos a maquetização da revista, em casa dele. Eu penso que fizemos a primeira, a segunda e mais algumas em casa dele. Ele foi o grande maquetizador da revista “Charrua”. Aí a revista ganhou forma. Mas era preciso ilustrar a revista porque não tínhamos ainda a possibilidade de fazermos fotografias é quando nos lembramos que tínhamos um amigo que aliás, era também um dos jovens que aderiu ao movimento jovem da AEMO, o Ídasse Tembe, artista plástico, ele disponibilizou-se para ilustrar a revista e depois dele outros artistas plásticos que apaixonaram-se à ideia aproximaram-se a nós. Foi quando saiu a revista e foi um sucesso, mas mesmo assim contra a vontade de algumas pessoas da AEMO. A emoção foi maior ao ver a “Charrua” sair, lembro-me que íamos todos dias à Imprensa Nacional para vermos como é que estava a andar o trabalho.
    Tínhamos um pequeno grupo de coordenação da revista, mas atrás de nós tínhamos um grupo muito grande de jovens, cerca de 30 a 35 jovens que aderiram a ideia e colaboravam. Mandavam-nos poemas, contos e outras coisas literárias, inclusive desenhos. Assim a nossa revista andou até ao oitavo número.
    Este foi mais ou menos o meu percurso até a minha consagração como escritor. E a minha consagração como escritor deu-se quando militei na revista “Charrua”, na AEMO. Foi aí que amadureci e muitos escritores que hoje são conhecidos e que tomam dianteira da literatura moçambicana, foram forjados na mesma forja que eu. Estou a falar de Ungulani Ba Ka Khosa, Pedro Chissano, Hélder Muteia, Eduardo White, Tomás Vieira Mário e de outros escritores que posso me esquecer, naturalmente, dos nomes. Mas a grande parte dos escritores que hoje se impõem na Literatura Moçambicana após a independência vem da Charrua.
    Há naturalmente escritores da mesma época, mas que não foram da revista “Charrua” como por exemplo, Paulina Chiziane, Mia Couto e vários outros escritores que não são da lavra da revista “Charrua” mas que surgiram nesse tempo. Mas há muitos outros que não saem da “Charrua” mas beberam das suas ideias que foram para eles, uma espécie de adubo para que pudessem surgir como escritores porque alguma coisa lis chamou atenção.

    Sobre o trabalho da sua direcção na AEMO
    Escritor Juvenal Bucuane, antigo secretário-geral da AEMO

    Fui eleito a secretário-geral da AEMO depois de ter pertencido a vários elencos do secretariado, vogal e duas vezes como vice-presidente até que fui convencido por um grupo de escritores que acharam que podia candidatar-me a secretário geral. Em 2005 tornei-me secretário geral da AEMO e foi numa altura em que a associação enfrentava muitos problemas de carácter financeiro e credibilidade. Na mesma altura havia um grupo de dissidentes da AEMO que estava a criar ou criou a União Nacional dos Escritores (UNE). E essa decadência era cousada por muitas coisas que nem vou nomear, mas eram muito negativas. A AEMO tinha entrado numa rota de descrédito que ninguém mais acreditava nela, sobretudo os jovens, isso porque a juventude é irreverente. É irreverente no sentido de que quer que as coisas aconteçam e ninguém deixa que elas aconteçam. E percebem que estão a perder tempo porque nessa altura a associação não tinha forças no sentido de contar os ânimos desses jovens, se calhar, criando alguma coisa que pudesse os entreter com a causa da própria associação. Portanto, havia uma espécie de anarquia dentre da AEMO em todos sentidos.
    Surgi não como salvador da associação, mas foi numa altura em que alguns membros comprometidos com a causa e que sentiram na carne aquilo que era a rota que a associação tinha caído, decidiram que nós tínhamos que salvar a Associação dos Escritores Moçambicanos, porque havia a eterna luta entre o velho e o novo, em que se dizia que os elementos da “Charrua” estavam a impedir o desenvolvimento da AEMO e que impedia, igualmente, a entrada dos jovens e que pudessem progredir, publicar, frequentar a casa e tudo que quisessem, porque a associação dos escritores é uma instituição oficial, não é uma coisa qualquer.
    A AEMO existe e é reconhecida nacional e internacionalmente, mas estava a cair no descrédito. Tínhamos que salvar a associação. Portanto, queríamos recuperar o prestígio da AEMO e grande parte das pessoas que tinham essa intenção era uma maioria oriunda da “Charrua”. Procuraram-me e propuseram-me que eu aceitasse essas funções. Dei algumas voltas porque não me agradava nada ser secretário de uma associação naquela situação. E ia ter sobre mim muitas atenções e depois o risco de ser tomado como quem
    vem salvar a associação e se as coisas não saíssem bem o culpado seria eu. Mas eu vi uma vontade séria por parte dos outros e aceitei o cargo.
    O que aconteceu nos secretariados anteriores, principalmente aos dois ou três que me antecederam, eu sentia que me hostilizavam, havia uma hostilidade daí que tinha me afastado da AEMO, apenas de vez em quando passava e cumprimentava. Mas apesar disso eram meus amigos, encontrávamos fora e conversávamos, por fora da AEMO éramos amigos. Mas eu senti-me claramente hostilizado por eles. Eu os conheço mas não interessa falar deles agora. Mas quando assumi o cargo virei a página, tudo estava ultrapassado com vista a devolvermos os melhores momentos à casa.
    Formei uma equipa e trabalhamos, começamos a ter um grupo de pessoas e instituições que pouco a pouco foram voltando a ser nossos parceiros. Assinamos memorando de entendimento com alguns grupos culturais inicialmente aqui em Maputo e depois fizemos um grande memorando com a CEPAN (Clube de Escritores e Amigos do Niassa), isto devido ao meu feitio, porque eu era muito aberto. Eu aceitava conversar com toda a gente e os jovens do Niassa perceberam que tínhamos como estabelecer essa parceria que ainda hoje perdura.
    Mas o essencial é que a AEMO para funcionar, sejamos sinceros, precisa de dinheiro, pessoas honestas e humildes na sua direcção. Tendo isso a AEMO pode avançar, com pessoas prontas a se juntar às outras que também fazem as artes. Porque sem dinheiro as coisas não avançariam. É como se diz, não se pode fazer omeletes sem ovos.
    Mas a AEMO quando saio já estava a ter alguma visibilidade, chegou a ter alguns equipamentos electrónicos, como computadores e etc. Oferecidos pelo FUNDAC (Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural) na altura da minha direcção. Começou a ter algum apoio da MOZAL para a publicação de alguns autores jovens – eu cheguei a anunciar nessa altura, só não se se avançou, a publicação de 7 títulos. Não sei se essas parcerias foram postas a valer porque a minha saída foi tanto a quanto precipitada. Saí da AEMO porque houve vozes que se precipitaram e gritaram contra como se eu de facto fosse...
    Mas sai sem renovar o mandato, a pesar de alguns terem vindo ter comigo para convencer-me a recandidatar-me, mas quando vi essa cena recuei. Ouve eleições novas e foi o que aconteceu o que todos sabem.
    Mas mesmo assim, sempre que há realizações e sou chamado não recuso. Eu sou muito aberto.

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