EM DESTAQUE

  • RUA ARAÚJO….É hora de ir a putaria. Conto de Eduardo Quive
  • FESTIVAL INTERNACIONAL SHOWESIA – levando a mensagem sobre a Paz no Mundo através da arte
  • VALE A PENA GASTAR 111 MILHÕES USD PARA ALTERAR A LÍNGUA?
  • Feira do Livro da Minerva Central na 76ª Edição em Maputo”.
  • SEGUIDORES

    LEIA AQUI A EDIÇÃO 51

    Pub

    Mostrar mensagens com a etiqueta Amosse Mucavele. Mostrar todas as mensagens
    Mostrar mensagens com a etiqueta Amosse Mucavele. Mostrar todas as mensagens

    De Lisboa a Famalicão: O baptismo do Perdedor da Distância Incerta ao Ponto Certo

    Amosse Mucavele



    S

    exta-feira acordo embriagado pela beleza das noites Lisboetas que não me largaram a beira do Sagres.
    Antes de me levantar vejo a Francisca ( a gata) encostada a almofada que desfilava no lugar onde dormia e eu nem tomei conta da sua presença, dei um abraço na gata a boa maneira que a Maria me ensinara, ela continua a olhar-me com desconfiança, deixo-a e levanto-me em direcção ao relógio pergunto-o as horas e ele respondeu-me:
    - São seis da manhã 
    Levantei-me a passos de camaleão, iniciei a minha digressão pelas coisas que me pertencem, preparei a mala, os livros nas devidas sacolas e os documentos nos seus concretos espaços de repente apercebi-me que tinha o bilhete do voo em falta. Acordo a Maria que de forma leve e tardia liberta-se da cama pois o sono já tomava conta do seu mar alentejano, eu convidei-a a mergulhar no mar da minha inquietação.
    Amosse tenta lembrar-se onde deixou o bilhete enquanto procuramos nos livros- retorquiu a Maria
    A mesma altura eu regava com lágrimas de dor a cheirarem-me o exílio pelos tantos cantos daquela casa. E ela disse:
    -será que não esqueceste na pensão onde dormiste no primeiro dia?
    As palavras me fugiam como um navio de pesca em plena castração no mar, o coração batia forte e melancólico como as águas turvas de um tsunami. O silêncio não me largava, o relógio corria a uma velocidade cósmica tipo um gato em brasas, 9 horas diz ele a rir-se de mim, olho-o com uma voz nostálgica pego no celular penso em ligar para Maputo a Maria intersecta-me diz:
    -Não precisa Amosse esta tudo bem com a sua avó o que tens que fazer é ligar para o Delmar e outro amigo da embaixada para te levarem a pensão para ires procurar o bilhete.
    Como sempre a voz da mulher é a voz do comando, liguei para o Paradona combinamos o ponto de encontro nas Amoreiras, sai da casa (Maria) a caminho da paragem do mesmo nome, minutos depois chega o Paradona exponho a minha preocupação .
    E ele disse não tem problemas vamos a TAP resolve-se este caso. Fiquei sossegado saímos em direcção ao aeroporto, o celular toca toca Delmar diz:
    -estou na embaixada a vossa espera com uma actriz brasileira.
    -Dentro de 5 minutos chegamos ao vosso encontro, respondeu Paradona
    saimos a moda da fórmula 1 que se conduz em Portugal despertamos na ponte em direcção a Setúbal. estamos perdidos para voltar temos que atravessar a ponte e voltar de novo na rotunda da Costa da Caparica -disse Paradona.
    Este era o prenúncio de um festival de perdidas que o dia esperava nos presentear. Chegamos a embaixada encontramo-los bem cansados de tanto esperar e bem sossegados de tanto conversar fez-se a divisão tal como deus fez quando dividiu o céu e o mar a bela actriz brasileira que passou a responder por Vera Barbosa entrou no carro onde eu estava com Paradona, o maestro do Núcleo Tenaz Jorge Viegas, Delmar Gonçalves e a esposa ficaram noutro carro e saímos escoltando-nos em direcção ao aeroporto, ali resolveu-se o problema do bilhete a troco de 40 Euros Paradonianos.
    São 12 horas a viagem a Vila Nova de Famalicão é longa os dois condutores trocam os mapas e o Delmar disse vamos pela via Torres Vedras em direcção a Porto isto na A25 e desviaremos  na A3 sentido Porto- Braga.

    Embalamo-nos na estrada de olhos bem abertos nas instruções da voz que falava verdades, o caminho é sempre a frente até encontrarmos a rota do desvio para Braga, o motor roncou com os pés rentes a estrada que nos namorava a 30 minutos do ponto de partida, a viagem teria a duração de 3h e 30minutos.mas devido ao mapa errado dado pela pessoa certa, prosseguimos felizes ao som da voz da Vera Barbosa ali falamos de tudo( teatro, literatura, cinema e mais) e de todos( Saramago, Jorge Amado, Craveirinha) antes de chegar a Aveiro o Delmar liga a perguntar sobre o nosso paradeiro
    -estamos a passar a Aveiro- respondi, era uma pura mentira que o celular as vezes nos induz, decidimos parar nas bombas a 5 km de Aveiro, pois ja estava tudo quente precisávamos de uma água ali nos reencontramos, e confirmou-se que estávamos no caminho certo, dividimo-nos tal como deus nos ensinou.
    A viagem continuo firme nos nossos ideias comunistas que diziam- chegaremos a Famalicão as 15 horas. puro sonho irrealizável, dai perdemo-nos um do outro, continuamos abraçados a estrada na esperança de chegar beijar a cidade que nos espera a séculos ,os poemas abertos nas mesas para as nossas bocas aprovarem e os poetas antropófagos que desejam comer as experiências dos poetas moçambicanos.
    As horas em nenhum momento perdoaram-nos e a distância chamava por nós seduzindo-nos com a sua nudez alcatroada de mel e os seus olhos pedregosos de vinhas  de sabores milenares.
    Passamos  o cruzamento do Porto esperançados no próspero encontro do desvio Braga, chamamos o Delmar telefonicamente e disse estão no caminho certo é para frente que se vai a Famalicão. Depois da fala a Vera e o Paradona colaram algumas interrogações no tecto que nos cobria pois ela cheirava o perfume de Viseu. Continuamos a andar em direcção a fronteira com Espanha (Viseu).
    As horas transbordavam de forma violenta no nosso rio das incertezas, 17 horas ainda a bordo desta amável estrada e em Famalicão iniciavam as RAIAS DOS RAIOS DA POETICA.
    Oh Paradona o primeiro desvio que encontrarmos vamos voltar para Coimbra e lá encontraremos o caminho para Porto- disse a Vera, estávamos em Tondela, ligamos para o Delmar - ele confirmou que já tinha chegado a Famalicão e já tinha informado a todos convidados que os poetas moçambicanos e a actriz brasileira estavam perdidos. Tomamos a estrada em direcção a Coimbra cansados de beijar a mesma boca da A25 e por fim encontramos a A3 com a placa Porto ai nos sentimos em casa acordamos do tédio que nos acompanhava continuamos a esculpir a conversa que a 1 hora o silêncio tinha a tomado de assalto.
    E por fim as 19h chegamos a Famalicão ali reencontramos velhos e novos amigos Abreu Paxe João Maimona (Angola), Luís Serguilhas, Maria João Cantinho, Luisa Demétrio Raposo, Jorge Velhote, Jorge Melicías Aurelino Costa, José Ilidio Torres, Inês Leitão, Marilía Lopes, Aurora Gaia, Luisa Monteiro ( Portugal), Laercio Correntina, Manaíra Aires Athayde, Cláudia Carvalho Machado ( Brasil) Alberte Momán, Ramiro Vidal Alvarinho, Verónica Martínez Delgado Carlos Quiroga, Javier Diaz (Espanha), e outros que a palavra sempre nos aproxim(ou)a deles. este era o baptismo das  Primeiras Raias Poéticas das Afluentes Ibero-Afro-Americanos na Vila Nova de Famalicão, bem haja.
    1.12.12 Hotel Moutados
    Quarto 404,  02 horas:50 minutos
    Vila Nova de Famalicão

    LEITURAS: "Ser escritor não deve ser visto como tentativa de se tornar imortal, famoso ou ter riqueza "




    Camille Dungy, poetisa norte-americana que recentemente visitou a capital moçambicana, Maputo, não se foi sem deixar a sua experiência como professora de escrita criativa no San Francisco State University, ao mesmo tempo que é poetisa. Era necessário que falássemos das suas obras, mas as dificuldades de acesso ao livro de autores contemporâneos de outros países se fez sentir neste encontro, mas, por outro lado, fez surtir efeitos a tentativa de se chegar à resposta sobre o que é um escritor, o que ele deve fazer para que se torne um escritor entre vários e, o principal, que exercícios faz um “bom escritor”. Na verdade, Camille é a pessoa que nos trás a fórmula mágica para que se seja um escritor: a leitura e a prática de escrita.


    Amosse Mucavele - Moçambique

    Literatas: Como é que o trabalho de professora de escrita criativa, jornalista influência a sua escrita?

    Camille Dungy: O acto de ensinar exige o enquadramento das minhas ideias de forma mais clara possível. Ensinar requer de mim que seja uma leitora por excelência e exige um pensamento crítico em relação ao trabalho e de como e porque se assume uma literatura com êxitos. Isto de ensinar leva-me a lêr bastante de modo a manter-me actualizada com o mundo da literatura. Também todas estas ferramentas são indispensáveis para mim como escritora. Ensinar enriquece a minha escrita, ou seja, ensinar requer o mesmo combustível como a escrita.

    L: Quais são as suas expectativas com esta viagem a Mocambique? Acha que os EUA estão de algum modo interessados pela literatura Moçambicana?

    C.D: como escritora e leitora a minha curiosidade é natural. O meu trabalho é questionar por detrás do mundo conhecido. Sinto-me tão entusiasmada para ter esta oportunidade de visitar Moçambique e encontrar alguns dos emergentes e já estabelecidos escritores. Do mesmo modo estou feliz por ter a oportunidade de ver o país in loco. Havia muito sobre o qual não tive chances de ver, mais do que nunca agora vou me focar em livros para saber algo mais. Assim como ensinar e ler, a viagem é também veículo inspirador para a escrita.
    Relativamente a questão sobre o interesse dos americanos em ler autores moçambicanos, leitores em todo mundo teêm interesse em literaturas de outras paragens e lugares. Há no entanto uma barreira que é a língua entre os países lusófonos e de expressão inglesa, por isso a importância dos tradutores, eles ajudam a construir a ponte que nos divide. Se há boa literatura, também há bons leitores.

    L: Para os que escrevem e por quê? Escreverão apenas para vender?

    C.D: Trata-se de uma questão específica em relação ao vosso Pais, o nível de realização e a variedade de tantos outros factores. Não poderei responder nesse âmbito comercial. Mas posso dar-lhe respostas que vão de encontro com a realidade, contudo, se pretende saber como tornar-se um escritor que as pessoas possam procurar ler, é necessário muita leitura, e também praticar a escrita. Não acontece como acordar numa fresca manhã e esperar que seja um escritor publicado com frequência ( quem  as pessoas queiram ler) ao final do dia. Anos e anos de estudo e prática levam-no a melhorar a qualidade a partir do que lê.

    L: Como é descrito um escritor culturalmente activo nos EUA?

    C.D: Receio que não tenha percebido a sua pergunta. Além do mais, não sei se posso responde-la. EUA é um país muito grande, e existem muitas diferentes maneiras de mostrar o envolvimento cultural.

    L: Há uma tendência dos escritores modernos em procurar os clássicos. Podemos dizer que estamos perante os substitutos legais do Hemingway, Faulkner e Allan Poe?

    C.D: Não se pode saber com exactidão quem deixará impressões. Há demasiados factores que concorrem para tal, de geração para geração. Tudo o que se pode fazer é escrever as melhores estórias e poemas possíveis. Ser escritor não deve ser visto como tentativa de se tornar imortal, famoso ou ter riqueza. Há tantos outros caminhos para atingir isso, se é isso o que procura.


    L: Pode citar alguns escritores africanos e em particular Moçambicanos que são editados nos EUA? Estarão, os EUA preparados para receber outras literaturas?  
    C.D: Vocês como leitores devem ter interesse em conhecer este desafio, que é a publicação de novos autores africanos.

    L: Quais escritores que marcam a sua leitura? Como é que caracteriza a literatura contemporânea Norte-Americana?

    C.D: Como disse anteriormente, EUA é um país grande, e a América do norte, ainda que, não é maior que a África, ela é enorme e um continente diversificado. Não poderei falar da literatura Norte-Americana como um todo. Darei um endereço no qual poderá ler um ensaio escrito por mim no qual recusei-me  expor o meu pensamento sobre a poesia Americana. Duma forma resumida, a poesia americana é maravilhosamente complexa e diversificada. Há um estilo definido, grupo ou ideia. É o que a torna tão maravilhosa.

    L: Poderia deixar um concelho para escritores e para aqueles que querem se tornar escritores?

    C.D: Leitura constante, leitura, e mais leitura, ler sempre mais. Fale daquilo que voçe acha/ consta. Escreva sobre aquilo que lhe mova quando lê. Escreva sobre aquilo que deseja tentar e que seja capaz de faze-lo. De seguida veja como atingir esses objectivos. Quando terminar a prática. Leia algo mais. Repita este ciclo para os restantes dias de sua vida.



    ________________________________________ 

    Camille T. Dungy é autora dos seguintes livros de Poesia:  Smith Blue, Suck on the Marrow, and What to Eat, What to Drink, What to Leave for Poison. Editou e organizou a antologia Black Nature: Four Centuries of African American Nature Poetry, e co-editou  From the Fishouse poetry anthology (www.fishousepoems.org).  A sua obra teve menção honrosa no American Book Award, Northern California Book Awards, prémio poetry fellowship from the National Endowment for the Arts.  E  é Professora no departamento de escrita criativa da Universidade Estadual São Francisco.  www.camilledungy.com.

    Tradução: Amosse Mucavele e Mauro Brito

    ENTREVISTA: "Cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão"

    Amosse Mucavele - Moçambique



    Literatas (L): A tua poesia se difere tanto dos outros poetas angolanos da actualidade, refiro-me ao Abreu Paxe, Nok Nogueira, onde nas suas criações poéticas eles têm a palavra como instrumento para fabricar outras realidades. E no teu caso acontece o inverso, você tem a realidade como a matriz do teu poema.
    - Como é que faz este exercício? O que é feito do poeta na criação dos seus livros?
    Décio Bettencourt (DB): Precisamos de diálogo, na nossa África. Muito diálogo. Precisamos de dialogar para exorcizar os fantasmas da guerra, dos genocídios, dos golpes de estado, das intolerâncias, das diferenças regionais, raciais, sociais e outras mais. Precisamos de vencer a fome, a doença, o analfabetismo, enfim, o subdesenvolvimento. Enquanto criador entendo como meta da criação não só a inevitável procura do belo, do artístico e de novos mundos, todavia de igual forma, o fluir de um despertar e chamar atenção social via mensagem. É preciso comunicar e falar África. E aí a poesia dialogante tem uma palavra de importância. É evidente que o processo criativo é (suposto ser) livre, e cada um à sua maneira e jeito. Agora o menos bom é fazerem-se ajuizamentos literários em função do estilo de preferência pessoal.

    L: A maneira do seu olhar a realidade circundante, faz-me lembrar a poesia do Agostinho Neto, José Craveirinha, Aires de Almeida Santos, António Jacinto. Que importância tem esta constante revisitação aos escritores de ontem na formação do poeta de hoje?
    DB: O poeta é um constante absorvedor de elementos materiais e espirituais do meio envolvente. Uma caminhada pode ser rotineira no dia de hoje, todavia altamente reveladora no dia de amanhã e depois. As leituras e revisitações – como chamou –, são manancial inevitável de colheita de inspiração, conhecimentos e aperfeiçoamento de técnicas literárias – no caso poéticas.

    L: Uma das barreiras que o “escritor engajado” tem no seu percurso, é esta: de ser lido pelo seu público-alvo. Será que a tua poesia é lida pelo candongueiro? Pela zungueira? E pelas restantes gentes dos pés descalços?
    DB: As gentes dos pés descalços da minha terra caminham com uma criança de fome às costas e um balaio de procura de sustento à cabeça. São jovens que passam o dia de sol intenso nas estradas a vender um negócio de miséria aos automobilistas que passam. Ou crianças que carregam quilómetros de um balde de água potável de má qualidade à cabeça. E outros mais dolorosos e humilhantes modus vivendi. Quem luta pela sobrevivência não tem, no geral, tempo para sentar-se e deliciar os prazeres mágicos de uma boa leitura. Enquanto criador, cantar o cântico sofrido das gentes da terra é para mim elemento de missão.  

    L: Como poeta angolano, avento que pensa e vive no meio onde o idioma predominante é o kimbundo, e outras línguas nacionais. E logo lembrei nas palavras de uma escritora brasileira que já não vem o nome, que diz: ‘’os escritores africanos não escrevem para os africanos, o que é um problema.’’
    - Que dificuldades atravessa ao escrever os seus sentimentos na língua portuguesa?
    DB: Vivo num meio em que a cultura e consequentemente as línguas da terra sofreram traumática e dolorosamente com o processo de colonização. Mas pior do que isto é fazer-se um quase nada em mais de trintena de anos, para corrigir ou reverter esta situação. Luanda, por exemplo, está lamentavelmente a perder o kimbundo a nível das gerações mais recentes. Mas a minha escrita identifica-se sobremaneira com as marcas, gentes e coisas da terra. É em primeira instância sobre os africanos que escrevo.

    L: A tua produção poética obedece um intervalo de tempo de dois ou três anos, com esta periodicidade não teme o abandono dos teus leitores?
    DB: Absolutamente não! Ainda assim, penso produzir o possível: trabalho numa indústria de muita exigência profissional – petrolífera –, sou pai, esposo e chefe de família. Gasto cerca de três horas e meia, diárias no dificílimo trânsito da cidade de Luanda, no trajecto casa serviço e vice-versa. Então é já quase que miraculosamente que tenho quatro livros publicados desde 2004.

    L: No livro “Xé Candongueiro”, você atribui datas e locais de cada poema, será que tem a precisão exacta que escreveu na data x e local y?
    DB: Quando escrevo, dato sempre o que escrevo. Apenas isto. Não escrevo uma linha hoje e outra depois de amanhã e outra no mês seguinte. Não. Escrevo um poema assim de uma só vez. É claro que depois ele (o poema) vai para o laboratório onde é exaustivamente re-trabalhado durante o tempo que for necessário. Anoto data e local da criação. Gosto de fazê-lo.

    L: O poema a “A Dor da Poesia’’ diz: (…) escuta as gentes empobrecidas/(…)/as gentes esfomeadas/e vivenciadas de vexame/(…)/escreve a voz das gentes analfabetas/nas ruelas das kubatas/as gentes sofridas da hipocrisia dum discurso polido/e armadilhado.
    - Como avalia a democracia angolana?
    DB: É tudo um aprendizado. Estamos a caminhar, estamos a aprender. A história de Angola tem episódios deveras traumáticos, deveras dolorosos e de muito sangue entornado. Estamos a caminhar, algumas vezes com passos seguros e firmes, outras vezes não tanto e até com alguns recuos. Mas não restam dúvidas de haver sinais de amadurecimento na consciência politico-democrática dos angolanos. Estamos a caminhar a aprender…

    L – Qual é o papel do poeta? E que espaço ocupa o mesmo na sociedade angolana?
    DB: O poeta é um sonhador, é um criador. E o desenvolvimento alicerça-se nestas duas componentes: sonho e criação. O poeta é manancial activo e vivo do desenvolvimento. É transmissor de conhecimentos e realidades. Quanto ao seu papel na sociedade angolana, desejar que a sociedade nas suas mais diversas formas organizacionais, crie espaços para que o mesmo possa expandir a sua actividade, de forma a que a sua beneficência se converta em realidade visível.

    L: O factor globalização tem como seu epicentro a juventude, onde os nossos países recebem, digerem, sem uma mínima selecção, e no poema ‘’As Minhas Pretas” sintetiza esta minha pobre afirmação.
    - Será que os africanos não são capazes de vender a sua cultura?
    DB: Para tal é preciso que acreditem e valorizem a sua própria cultura. É preciso que os africanos gostem de si e aceitem-se como são. Não percebo o que motiva uma negra africana a implantar na sua cabeça cabelos de uma mulher branca, rejeitando assim a sua própria natureza. Isto é ridículo e coloca de imediato as africanas, de modo voluntário, em posição de subalternização em relação a mulher europeia. Não percebo porque um africano acha que deve clarear o tom da sua pele usando químicos. E sabe, a natureza é tão generosa para com os africanos que abençoo-os com as mulheres mais lindas do planeta. Todavia não crêem e buscam padrões que nada têm a ver com a nossa realidade. Por isto escrevi “As Minhas Pretas”, “Negra da Terra”, e outros mais.

    L: A maioria dos escritores tem a poesia como o seu pano de fundo, tal como diria o critico português Eduardo Lourenço “a poesia é a palavra fundamental, a claridade de uma época.”
    Contudo nos teus poemas acontece algo de pouco culto nos poetas, de se recorrer a crónica ou mesmo ao conto na sua criação poética. Que espaço a prosa ocupa no seu percurso literário?
    DB: É um pouco difícil comentar, pois cada um escreve como escreve, a seu estilo pessoal, à sua marca. Estas coisas são natas. Quando comecei a escrever poesia não decidi que seria assim; descobri-me a escrever assim. Deve ser um pouco semelhante à forma como andamos, pronunciamos as palavras, etc.
    Quanto ao espaço da prosa no meu percurso literário, foi decisivo. O meu primeiro contacto com as letras foi via prosa. Era uma estante abarrotada de livros que o meu pai tinha lá em casa. Os livros fazem parte dos meus primeiros brinquedos. Eu e os meus irmãos brincávamos às escondidas com os livros: um procurava um título, anunciava, e o outro tinha de encontrar o tal livro. Começamos por aí. Depois passámos a devorá-los, o Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, Eça de Queirós, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa, Júlio Dinis, Lusíadas, Luís de Camões, etc. Andei também pelos policiais, Agatha Christie e outros, e até Julias, Sabrinas e Biancas devorei. E muitos. mais, naturalmente. O contacto com a poesia veio depois.

    L: É possível tornar Angola num país de leitores? E como formar leitores?
    DB: Sem a menor dúvida: é possível tornar Angola num País de leitores. Porém é preciso vontade, é preciso que se queira. Criar leitores é fácil demais. Mas primeiro é preciso que se perceba as vantagens de se criar leitores – ou pelo menos que se deixe de fingir que não se percebe É bem mais difícil e dispendioso buscar petróleo nas entranhas da terra. É bem mais difícil e dispendioso criar cidades de betão. É mais difícil e dispendioso construir estádios gingantes de futebol. Alguns elementos: que haja em cada município, bairro, aldeia, casa, etc. uma biblioteca (ou pequena biblioteca) e que se incentive as crianças, adolescentes e jovens a fazerem uso. Que se baixe o preço do custo do livro. Que haja comida básica para todos – que de barriga vazia ninguém lê! Quando isto acontecer teremos menos alcoólatras, menos delinquentes, menos desempregados, enfim estaremos a criar os sustentáculos para o desenvolvimento de Angola: estaremos a produzir angolanos de qualidade.

    L: O poema ‘’Um Homem Num McDonald’s” diz: (…) E parte perdido na ilusão das europas brancas/A vergonha das Áfricas ignorantes/E sua gentes/A barriga de fome a roer/A vergonha a doer/e um homem parte na desilusão das Áfricas.’’ Comente este poema.
    DB: Os poetas (alguns) não gostam muito de comentar os seus poemas. Eu faço-o com gosto quando solicitado. Trata-se de um olhar crítico àqueles africanos que deixam os seus países à procura duma Europa doirada que afinal não é bem assim – não quero dizer que não devam sonhar ou procurar melhores condições de vida. Estava sentado num McDonald’s em Paris, a saborear uma refeição ligeira quando apareceu um irmão meu africano a pedir gorjeta. Achei interessante que se tivesse dirigido a mim, quiçá por ser o único negro como ele. Recusei inicialmente, todavia acabei chamando-o e dando-lhe algum dinheiro. Nasceu assim este poema, pensando naquele homem que sai da sua terra e se põe mendigo nas Europas. 


    POESIA DE DÉCIO BETTENCOURT MATEUS

    A ZUNGUEIRA

    O miúdo nas costas, faminto
    O sol queimando
    O sol assando
    O miúdo nas costas, faminto de alimento
    As moscas acariciando-o
    E o lixo distraindo-o!

    A zungueira zunga, cansada
    Na cabeça, o negócio e o sustento
    E nos pés empoeirados
    O cansaço dos quilómetros galgados
    O cansaço da distância percorrida
    A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

    A zungueira zunga, cansada
    E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
    Arreou, arreou, arreou nos limões...
    A zungueira zunga, empoeirada
    E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
    Arreia o preço do sustento

    O miúdo nas costas faminto
    A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
    O miúdo nas costas, faminto de alimento
    Chora e berra
    Não é birra
    É a fome que aperta, é a fome da sede!

    A zungueira zunga, apressada
    E arreia o negócio, arreia o preço:
    Arreou, arreou, arreou no chouriço...
    A zungueira zunga empoeirada
    E arreia o preço do negócio
    Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

    Depois, a viatura da fiscalização
    Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
    E os homens arrogantes a perseguirem
    E a baterem
    E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
    Caídos, espalhados no chão!

    Depois vem o fiscal, também faminto,
    “Você tem autorização?
    Acompanha, isso é transgressão!”
    A zungueira implora e mostra a fome:
    Tem dois dias o miúdo não come
    A lombriga na barriga precisa alimento!

    O fiscal, também faminto
    Arreia o lucro da zungueira cansada
    E desesperada
    Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
    Senão a zungueira não volta a casa
    E a zungueira cede, com medo no pensamento

    Depois a zungueira chega a casa
    De bolsos vazios, mas alívio no coração
    E grata, afinal não foi presa
    Afinal não foi à prisão
    A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
    O miúdo sedento de alimento

    Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
    Amanhã a zungueira voltará a arrear:

    Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…


    (Os Meus Pés Descalços)


    MEU POEMA ACORDA DORIDO!


    À memória de Luzia Bettencourt M.,
    minha mãe.
    Manhã virgem manhã cedo
    meu poema acorda dorido
    manhãs frias
    vai à igreja vai à missa
    em pernas de pressa:
    ó Senhor pão às minhas crias.

    Meu poema sofre a madrugada
    a espreitar a aurora
    acarreta água ensonada
    enche bidão enche tamborão
    de olho na torneira
    música sofrida no coração.

    Dorme insónias na noite escura
    acorda constrangido a praça
    a vender gelados
    compra esperança
    recebe troco ternura
    bem diz os kwanzas bem diz trocados.

    Caminha um sol abrasador
    preocupação no rosto
    meu poema tem dor
    a rusga a falar serviço militar
    a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
    kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

    Meu poema desperta alvorecer
    lava roupa amontoada no tanque
    rebenta mãos de sofrer
    vende gelo no Roque
    e sofre filho fugidio emigrado
    filho mwangolé exilado.

    Meu poema dorme cansado
    é pai mãe marido mulher...
    cuida os miúdos
    atende o marido
    dorme dorido prazer
    dorrme dorido sonho de trocados.

    Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
    ó Senhor pão às minhas crias!

    (Gente de Mulher)


    XÉ CANDONGUEIRO!


    Candongueiro tem pressa
    Sobe na baúca
    Não tem conversa
    Condução louca
    Pé no acelerador, velocidade
    Não respeita prioridade!

    Eh! Candongueiro dono da estrada
    Ultrapassa pela direita
    Manobra arrojada
    Ultrapassa
    Vuza na estrada estreita
    “Trabalha não dá confiança”, tem pressa!

    Candongueiro abarrotado
    Não afrouxa na lomba
    Leva gente p’ra mutamba
    Pé no acelerador, velocidade
    Dono da cidade
    “Dinheiro trocado, dinheiro trocado!”

    Eh! Candongueiro tem cobrador
    Que grita: 1. de Maio, Maianga, Maianga…
    Pé no acelerador, zunga-que-zunga
    Abarrotado de gente
    Não respeita cliente:
    “Ou encosta ou desce meu senhor!”

    Zé Pirão, São Paulo, Roque
    “Não há maka emagrece meu kota”
    Candongueiro manda na estrada
    Leva gente do musseque
    Gente enlatada
    Roda batida é dono da rota!

    “Trabalha não dá confiança”
    Prenda, Mulembeira, Mulembeira
    Leva gente do povo gente da praça
    Candongueiro transporte do povo
    Não é carro novo
    Arranca levanta poeira!

    Zunga-que-zunga sobe o passeio
    Carro cheio
    Xé candongueiro
    Respeita passageiro
    E espera prioridade
    Candongueiro é dono da cidade!

    Eh! Candongueiro é gente importante
    No carro velho
    Leva gente p’ro trabalho
    Carrega gente descarrega gente
    Ku Duro música alta
    Xé candongueiro olha multa!

    (Xé Candongueiro)




    Pub

    AS MAIS LIDAS DA SEMANA

    Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More