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    O assustador romance em formação, “Como eu deixei de ser Deus” de Pedro Maciel


    “A ausência de uma coisa não é somente isso,
    não é apenas uma falta principal, é uma
    subversão de todo o resto, um estado
    novo impossível de prever no antigo”

                                     (Marcel Proust)




    O estupendo e assustador Romance “COMO DEIXEI DE SER DEUS”, de Pedro Maciel, Topbooks Editora, 2009, é o top de linha no atual momento da efervescente literatura brasileira contemporânea de peso e em alto pique. Humor, concisão perturbadora, erudição, alumbramento e ironia, com assustadora sonoridade, ritmo e lucidez exacerbadoramente rica, estrambólica até, por assim dizer. Máximas, epigramas, aforismos (desaforismos?) citações, fragmentos reflexivos contundentes. Muito mais do que isso. Há recursos brilhantes na intextualidade, além de alumbrados estados metafóricos. E muito mais do que isso. Começa a apresentação estética da obra com a capa de um vermelho-diabólico que parte da obra “Desvio Para o Vermelho “ (êpa!) de Cildo Meireles. Mas o conjunto é todo um corpo-texto estético de altíssima qualidade técnico-editorial até.

    Elogiado entre outros por Moacir Scliar, o maior proseador brasileiro categorizado por excelência nos últimos tempos, por Ivo Barroso, pelo emepebelizado filósofo multimídia Antonio Cícero, e ainda por Luis Fernando Veríssimo (o maior cronista da imprensa), Pedro Maciel se afirma e confirma em cada trabalho, e todo mundo que entende do riscado surpreendido assina embaixo de que ele é mesmo a mais fina flor da espécie literária contemporânea. Muitíssimo acima da média. Um achado.

    Com um seu mundo letral ostentando em esplêndido e magistral imaginário, algo apocalíptico, (surpreendente fluxo neural e jorro letral), Pedro Maciel produziu um excelente romance presente-(passado)-futural em construção, com ecos, estados oníricos, viajações e até certas derramas. Ficção-show. Antigamente se diria que ele é pinta brava de tão bom.

    O pesadelo de Deus. O homem? O espelho? Deus mora nos fragmentos atemporais? Deus, a consciência do homem... Pensamentos, sensibilidades, abstrações – o tripé em que fomenta (fermenta) a obra COMO EU DEIXEI DE SER DEUS. Em entremeios a tudo isso, encantamentos e textamentos. O tempo-rei costurando veios. “Deus, a alma dos brutos”. E os brutos que amam-odeiam Deus. Diálogos interligados, incendiando pequenos parágrafos epigramáticos entre reticências, citações e a pólvora do criar se vislumbrando. A arte-pura-provocação. A construção-desconstrução de uma babel íntima? O que foi é. O que será se cabe sendo. Deus não é fóssil. Não é fácil, portanto. O universo mágico da loucura que não é santa e nem se veste de ouro e prata, talvez vermelho-coisal, bezerros de ouro à parte...

    Sim, um tresloucado anti-romance de Pedro Maciel que corajosamente (competência é isso) mergulha fundo no aparente lusco-fluxo de sua sentição/criação, lado pensador/sentidor (não vegetativo), feito “estar” em fio-terra descascado. Já pensou? Ah, Deus usa os loucos para confundir os sábios. Está escrito.  Santas palavras. Não há origem possível? Não há um fim em si mesmo. Estar de “star” também. Somos todos eternas poeiras cósmicas?

    O Deus S/A se expressa. A essência da busca de séculos, milênios. Como uma praga-mãe. Quem somos? Quem ou o quê é/seria D.US. Na casa do pai também há muitas palavras... Somos a imagem e parecença?... Ai de nós, juros além. O “Bildungsroman” (romance em formação) informa, transforma, reforma, disforma, forma, metamorfoseia. Essas e outras. Idéias? Propósitos? Como um concretismo em prosas. E toma Platão, Heráclito, Beckett, Da Vinci, Dostoiéski. E os livros sagrados, claro, que sem eles não haveria a proposital (?) provação, provocação, ação literária nesse caso de extremidades que se tocam, permeiam, tecem, vazam, desnorteiam.

    A “desnarração” sem arames e presilhas como fim, fito e propósito. A voz do narrador (em negrito); a voz que clama no deserto (em itálico): delírios que nada passam a limpo, antes, com e fundem, feito delírios sarados do finito ser que cria o transcendentalizar-se.  Será o impossível. Quando se brinca de Deus, com Deus, adeus sanidade. Sorte nossa. Será o impossível? Ah a notável caixa de pandora da literatura dando bons refluxos. Estamos no coração das luzes e não nos enxergamos em nós? A função da escrita enquanto arte é também retrazer o não identificável. Talento tem gerador próprio. É o caso de Pedro Maciel já elogiado por A Hora dos Náufragos (Bertrand Brasil, 2006). Ninguém fica lúcido de uma honra pra outra. A impertinência é que faz a hora, a criação, o desmonte que seja.

    Pedro Maciel é sim um puro “neoriobaldo” em contracorrente: “A gente vive pra desmistificar”. E administrar as contundências dos mitos também. Entre o sótão e o porão de si mesmo (tantos sis em si), Pedro Maciel maravilhosamente desestrutura o osso de ostra do romance formal. Um de-quê de Borges, de Garcia Marques, de Cortazar, de Kafka Lispectoriano... E ainda assim, o lugar de si tem cabimento. Para que a lógica perversa das estruturas con(m)-flitos(filtros) religiosos?  Pedro Maciel regurgita de alguma forma no sensível, a imaginação. E imagina são. Torrentes. A mutação das rotas-rusgas. A reflexão dos sobreviventes de antes, depois e durante.

    O romance que se atirou frente a janelas de alma-mente-coração. A alma diversa. A vida (vida?) diversa. Um romance que diz versos. Janelas de fugas criacionais. Quase pequenas pinceladas multi-historiais. O não lugar, o são ser, os não personagens. Deus e o diabo na terra do nunca, na terra do Self. E escurez. Sozinhez. A originalidade da obra clássica de Pedro Maciel surpreende, assusta, intriga, corrói (des)valores, desmistifica, toca o indizível. Toca circuitos, escritas. Todo criador toca seu Deus quando cria? Dito e farto.

    Você lê o romance-vanguarda e se sente também de alguma forma inconcluso, na incompletude “deusal” de si mesmo. E capitula. Sente e ouve vozes nas entrelinhas. Como se refém de um ponto de interrogação à beira do abismo de ser Ser, e de pensar ser filho de um Deus. Só por Deus. Ou vermelho-coiso? A dualidade dúbia da dúvida atroz.

    Pedro Maciel enumera os zeros. Do nada ao infinital. Pedro Maciel nomina o inominável. Do pré ao pós, feito um assim ser-permanecer-se. Cada um sabe onde aperta o cale-se. Ele escrevendo questiona, intriga, alucina. E cintilantemente se entrega na obra que dá muito o que falar, o que não falar, o que calar, o que atiçar... Coisa do demo também? Periga ver. Sai de baixo.

    Vejam/leiam os “joios” preciosos:

    “Ontem visitei a cidade em que nasci; ninguém me reconheceu(...)/deuses não têm Deus quando lembram do homem(...)/Se Deus existisse todo mundo ficaria sabendo(...)/Há cabeças que mesmo cortadas emitem pensamentos(...)/Pelo amor de Deus se vai ao inferno(...)/A linguagem sempre esconde o pensamento(...)/O homem pensa e Deus ri(...)/Quando nasci os deuses já estavam mortos(...)” 

    Lendo Pedro Maciel enloucresço. Também pudera, com essas contações mexendo com os “sagrados” laços dos entes...

    Sim, mas, mexer com Deus é um vespeiro. No entanto, modo de dizer, se eu quiser falar com Deus agora, tenho que saber a Pedro Maciel que tem a chave literal da porta do céu; da porta do Self. Na casa do pai há muitas erratas?

    Disse Kateb Yacine:

    “É preciso que nosso sangue se inflame
    E que nos incendiemos
    Para que os espectadores se comovam
    E o mundo abra enfim os olhos
    Não sobre nossos desejos
    Mas sobre as chagas dos sobreviventes”
    ....................................................................

    “Um dos traços essenciais da literatura na sociedade dita pós-moderna, consiste na rarefação dos gêneros, na interpenetração dos modos, na mistura arbitrária de espécies e modelos literários, numa constante e ousada intertessitura das formas (...)” disse Hildeberto Barbosa Filho (in, Raro Encontro da Poética com a Beleza, Sol Negro, Augusto Ferraz, Nossa Livraria Editora, PE, 2008). Pedro Maciel é desta safra e gabarito.

    Pedro Maciel na verdade introspectou um deus dúbio, um deus-Dublin, um deus irado e vingativo. O homem é o destempero de Deus na “herrança” da criação? Ora, sob a ótica de Darwin, quem mandaria Deus pentear macacos? Pedro Maciel teve a coragem de. A terra é o aterro sanitário do espaço, onde estão depositados todos os vermes, e ainda de alguma maneira estamos balançando no cipó das aparências, o rabo entre as pernas? Para um artista de peso, viver não é só ab ana r o rabo. Tudo pode ser ou não ser. Eis questão. Ler “Deus” de Pedro Maciel é estar na prestação de prós e contras.

    A arte como Proteu pode assumir qualquer forma. Prometeu trazendo o incêndio do céu para a terra? Ah Orfeu enfeitiçando a natureza com sua música, sua mística... Escrever é colocar palavras nem tão sagradas nas bocas dos mistérios...

    Literalmente, sem tirar e nem pôr, com Pedro Maciel Deus literalmente escreve torto por deslizes tortos também. Um Deus gauche? Onde já se viu isso?

    Bingo. Ou, quero dizer, eureka.

    Pedro Maciel com COMO EU DEIXEI DE SER DEUS fez um puta livraço.

    Deus está nu.

    Nem toda escrita sem uniforme são oráculos.

    CHORUMES: Os Poemas “Anjos Afogados” de Marcelo Ariel


    Silas Correia Leite - Brasil



    “Os seres humanos me assombram”

    Markus Zusak

    In, A Menina Que Roubava Livros




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    Espantalhos: seres reses. A máquina de existir é a máquina de parir seres. Serão seres? Existem? “Existir a que será que se destina?”, perguntou cantando Caetano Veloso. O Poeta de Cubatão, Marcelo Ariel, sabe. Deve doer saber. E nos responde por tabelas ou diretamente nas fuças com horror de ver, viver e escreviver: anjos afogados. Anjos em fios de alta tensão. A morte-amor. Choro e ranger de dentros. Jean-Paul Sartre dizia que ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo.

    A chocante Poesia de Marcelo Ariel é uma fronteira cercada de destroços por todos os lados. Vidas-Socós. As duras realidades focadas na névoa-nada. A vida sobrevivencial lançando chamas na UTI do cáustico olhar plausível. A alma sangra entre o chão-diesel e os estilhaços poéticos multicortados de pontos de interrogachão. A cena do crime de existir. Escrever é um modo de estar no mundo, para repugnar-se contra o próprio mundo, e ainda assim sentenciá-lo ao assento de horror.

    A poesia tirando enterros da alma em pedaços. O revólver quente da criação destrinchando verbos, versos, ver-se, ter-se, verter. Prismas-caças-e-caçadores. Poesia dolor. “Como o céu que dança pra si mesmo/Sem a nossa presença/E depois apaga” (In, Com Miles Davis na Serra, pg.48). Os desterros são íntimos. Os aterros sociais têm seus chorumes dolorosamente lírico-contestatórios por assim dizer. Feito um açougue metafísico de almas letrais.

    Marcelo Ariel voa com remos. As desnaturezas do ranço humano/urbano/insano. A maldição daquele que respiga as sobras, restos de nadas: sub-seres. E ainda achando poemas aí. Meio Jean Genet Pretobrazyl, um pleno pliniomarcos mestiço nas trincheiras do caos que retrata em fotogramas de amarguras, pintando com lucidez palavral os seus achados e perdidos. Não é fácil. Nunca foi.

    Um Goya-rimbaud. Os sem cérebro produzem monstros. Como ainda tirar poemas do inferno?. O lusco-fusco não sabe de lágrimas de muito além de Dante. O inferno são os seres. O céu rebrilhante de Cubatão é poluição pesada. A poesia toxina esplende um historial da morte poeticamente homeopática dos que foram soterrados. Em meio ao monturo Marcelo Ariel vaza poemas-lágrimas, poemas duros, tristes, contundentes, assustadoras lascas de seu meio. Filósofo e metafísico. Que ciência há em não pensar sobre? Entre carcaças de todos os tipos e naipes, os poemas-letra-de-rock pesado em valas perdidas. Chorumes-rajadas. Metralhando palavras que se encorpam em peso-visão, brutezas pegajentas. Falou o diabo e aparece o anti-clímax. A vida só é possível reinventada, disse Cecilia Meireles.

    Poemas sentidos. Há sangue pra tudo. Serão só poemas? Testemunhos-depojos. Não, são também luzes negras sobre macadames de lixões. “A morte não dorme/A alma não pensa/A vida não vive” (In, Veredito, pg 93). Marcelo Ariel é isso: esquisito porque puramente real por mais que isso nos doa. O asco é mais embaixo. Só os imbecis são felizes. Não há sensações no esquecimento. Ai de ti Cubatão-Brazyl! Ensaios de amargedons localizados, datados. Estúdios a céu aberto entre viadutos, chaminés, mangues e resíduos fichados. Entre ratos, abutres, quasehumanos. A sifilização-réstia. O olhar transido é ainda recolhedor sistêmico. Ponches de restos. Sangria desatando subvidas. Os excluídos sociais, os carentes, os sacrificados, as amarguras de. Tudo do mesmo. Paradoxos inexatos que sucumbem entre mesmices impunes. O teatro de absurdos da vida real no seu pior estertor. “Na noite/Se convertendo em transparência sem tempo” (In, Espelho, pg.137). Marcelo Ariel não é fácil também. Somos literalmente atravessados por seus versos de arames em tintas entrecortadas dele mesmo no seu estilo todo próprio de repaginar o que vê/sente/comporta/assoma/redime... liquidifica. Assustador.

    Marcelo Ariel é um soco de luz no LER. Ler o livro de Poemas “Tratado de Anjos Afogados” é um sopro na acomodação saturada. Poesia puro sangue. Os perdidos nas estrofes sujas da mais descarnada vida são literalmente revivificados. Escrevendo ele tira fantasmas da névoa e diz da dor de havê-los. Dói sentir a dor dos outros. Não há como sarar o mundo; já não é possível curar o mundo. Parafraseando Baudelaire, sob o crânio da raça hum ana o horror não faz milagres. Os miseráveis precisam de poetas para retratá-los, serem assim disformes registrados em suas condições de subvida, como seres ocasionalmente sobrevivenciais que acabam sendo, entre os chorumes dos condomínios fechados e os tantos insensíveis podres poderes. As cinzas das desonras.

    Falando sério, cara pálida, é muito difícil resenhar um livro como o Tratado dos Anjos Afogados de Marcelo Ariel. Você procura palavras exatas e não acha, não cabem, querem refugar o sentir, o pensar, o se achar num igual. Não há metáforas que caibam como identificações em poemas de tal grandeza cívica até. Nem são almas penduradas nos varais para secarem os ossos, mesmo que pareçam. Com tanta “informação” (poesia tensão) você fica irado com a carga poética que recebe, apreende, engole a seco; feito um ocasional renunciante à vida. Vida? Como não fazer parte daquilo e se aceitar humano? Que vida? O que é isso? Seres? Que seres? Chorumes.

    Poemas como incompreendidas nênias entoando impressões digitais de mortos. A carne-vida nos poemas insepultos. Dentro das covas clandestinas desses céus e infernos não há GPS. Que cadáver-vitrine é a raça hum ana , a civilização por si mesma?  Marcelo Ariel arranca poemas de feridas. Leia-o. Isso é que é Poesia. Venha para o mundo de Marcelo Ariel.  Mas se apronte que vai doer um bocado. No entanto, você também precisa se enxergar no charco, ver a própria lama social entre cacos de espelhos.

    Subterrâneos de confins. Marcelo Ariel escreve poemas como quem recupera, com sua placa mãe de captura em alta sensibilidade, os suspiros dos sentenciados a sobreviver; como ainda um pior castigo-condenação do que ter que existir.

    Existir?

    LIVROS: "As hienas também sorriem " de Aurélio Furdela




    As hienas também sorriem é o novo livro do escritor moçambicano Aurélio Furdela, a sair brevemente.
    Contista e dramaturgo moçambicano, representativo da novíssima prosa moçambicana, depois de publicar De medo morreu o susto (2004, 2a edição), contos que encetam uma incursão surrealista no universo tradicional moçambicano, no que ele tem de antítese em relação aos valores da modernidade, Gatsi Lucere (2005), texto dramático que representa o Estado de Mwenemutapa, e O golo que meteu o árbitro (2006), crónicas desportivas, Furdela brinda-nos, desta vez, com esta afirmação categórica e insólita: As hienas também sorriem.
    Trata-se de um livro de contos sobre um Moçambique lido, pelo autor, numa perspectiva diacrónica, desde a independência até estes anos, em que o país, de olhos postos nas riquezas minerais que jazem sobre os pés moçambicanos, almeja um futuro de utopias possíveis.
    É sobre este esteio, entre passado, presente e futuro, que a escrita de Aurélio Furdela assume, em As hienas também sorriem, o carácter satírico quanto catártico de uma escrita que sabe arremessar a memória nacional, de dor e vitória, contra as muralhas que escondem a hipocrisia, a intolerância, a agressão e a cobardia do presente, mas sempre em busca de um oásis.

     Lucílio Manjate

    LIVROS: "A poesia da Guiné-Bissau: história e crítica"



    A poesia da Guiné-Bissau: história e crítica, de João Adalberto Campato Jr.,  integra a coleção “Literaturas de Língua Portuguesa: Marcos e Marcas” como seu sexto volume, apresentando-se como um estudo panorâmico dos poetas de língua portuguesa da Guiné-Bissau, organizados segundo uma cronologia histórica. Enfoca a produção literária poética, escrita em língua portuguesa, da Guiné-Bissau a partir de 1990 até os nossos dias, detectando um desenvolvimento significativo do gênero no país, um recrudescimento da identidade nacional e um aumento quantitativo e qualitativo do acervo de poetas que enriquecem esta literatura emergente. Campato Jr. apresenta-nos um ensaio de crítica e história literária que enriquece a bibliografia sobre literaturas de países africanos de língua portuguesa, ressaltando o florescimento da poesia no país e, a par da objetividade científica, não se recusa a julgamentos críticos e valorativos. João Adalberto Campato Junior é professor universitário e Pesquisador Associado da Universidade Federal de São Carlos. É Pós-Doutor pela UNICAMP e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É Mestre e Doutor em Letras pela UNESP.

    AEMO revitaliza Aníbal Aleluia

    Escritor moçambicano Aníbal Aleluia


    “O Gajo e os Outros” de Aníbal Aleluia foi relançado a título póstumo, pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), 19 anos depois de se ter publicado a sua primeira edição.
    O acto que teve lugar no Centro Cultural do Banco de Moçambique na cidade da Matola.
    Reconhecido como um exímio contista ainda que pouco estudado com um poder de descrição único entre escritores nacionais, Aníbal Aleluia é aquilo que os críticos literários o tem como o “clássico” da Literatura Moçambicana e figura emblemática na narrativa.
    Jornalista e ficcionista moçambicano, Henrique Aníbal Aleluia, por vezes com os pseudónimos Roberto Amado, Augusto António e Bin Adam, nasceu em 1926, em Inhambane (Moçambique), e faleceu em 1993, em Maputo.
    Concluiu os estudos primários na sua terra natal e os estudos secundários em Lourenço Marques (atual Maputo). Exerceu várias profissões desde aprendiz de caixeiro, enfermeiro, funcionário administrativo, solicitador, entre outras, profissionalizando-se, mais tarde, no jornalismo e na literatura.
    Colaborou em várias publicações, como Itinerário, O Brado Africano, Voz de Moçambique, Charrua, Tempo, Vértice, para além de outras. Escreveu Mbelele e Outros Contos (1987), O Gajo e os Outros (1993), Contos do Fantástico (2011) e, ainda por publicar, Contos Avulsos.

    “OLHOS DE BARRO”, FRETE GRATUITO (NO TERRITÓRIO BRASILEIRO), APROVEITE!



    Olhos de barro (Editora Patuá, 2012) é o terceiro livro do poeta, ficcionista e produtor cultural paulista José Geraldo Neres, que recebeu “Menção Especial” no 3º Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (ficção – 2010). É uma coletânea de contos na qual o lirismo tem precedência sobre o enredo, estruturada em cinco livros: Colheita de silêncios, Um pedaço de chuva no bolso, Sol rasgado aos pés da serpente, O silêncio das árvores e A fome dos nomes.

    Conta com apresentação de Maria Lúcia Dal Farra, comentários de Moacir Amâncio e Luiz Ruffato.

    LIVROS: “Ndekeni” de Alexandre Chaúque

    Gulamo Tajú (Sociólogo)


    Sexta-feira, 24 de Fevereiro, o Sol estava a pôr-se do lado de lá da Maxixe. Eu e o Chaúque partilhávamos uma preta em Nyaposa[1], quando ele fala-me do Ndekeni e convida-me a fazer a sua apresentação na cerimónia do seu lançamento público. Não pestanejei. Aceitei de coração. Mas sei que serei incompreendido. Muitos estarão aqui interrogados: porquê eu apresentar um livro desta natureza se não sou escritor, nem estudioso de literatura. É verdade. Têm muita razão, os que assim se interrogam. Mas, eu, o ninguém, nestas circunstâncias, não poderia ter negado o convite do Chaúque. Falando na língua[2] em que a nunu[3] Sagwate[4] e a Dª Marta wa Firmino[5] nos ensinaram as primeiras palavras, e as seguintes também, Chaúque é mufo wangu. É meu amigo. Não é um amigo qualquer. Aliás, entre os Vatonga não há amigo qualquer (ou, pelo menos, não havia). Amigo é aquele por quem podemos morrer e que também pode morrer por nós (neste caso, arriscando-me, eu, a morrer pela boca, por falar muito e de coisas de que nem sou especialista). Mufo[6]. Mufo wangu. É isso mesmo. Aquele que pode morrer – gufa – por mim. 
    Malditos dos portugueses que semearam falsidades nas nossas relações sociais e passamos a tratarmo-nos, nas nossas amizades, por parceiros, pares (dzipari[7]). É isso mesmo. Hoje, mesmo avba gaya[8], muitos tratam amigo por pari – o que denota amizade circunstancial, episódica. Chaúque não é, para mim, pari yangu. É mufo wangu[9]. Por isso aceitei o seu convite. Nyibongide, Chaúque, unganyirana para nyiganela ku uwe nyi gulova gwago. (Sei que há aqui convidados e mais circunstantes cujas mães lhes iniciaram na fala em outras línguas que não o Gitonga. Por isso vou traduzir: “Obrigado, Chaúque, por me teres convidado para falar de ti e da tua escrita.”).O livro e o autor sobre os quais devo falar se confundem muito. O livro narra a trajectória e as peripécias do Ndekeni – um jovem das planícies de Mocodoene, aqui em Inhambane, que se aventurou para Maputo e depois para Africa do Sul, ao encontro da luz. Queria ganhar dinheiro para depois regressar com outra condição social e casar-se com uma mulher da terra. 
    O jovem Ndekeni, em Mocodoene, sonhava com os leões lhe transportando no dorso e ele abraçado à farta juba, ao encontro da luz. Já os seus antepassados haviam tido sonhos semelhantes e, ao encontro da luz, em Maputo ou na África do Sul, fizeram-se a pé ou transportados do “Madjone-Ngonyamo, Lda”, do “Sá” (Auto-Viação do Sul do Save, Lda), da Romos e agora dos Chapas[10] da Junta[11]. Ndekeni chegou à Junta num dia de chuva. Não tinha bússola nem GPS[12]. Valeram-lhe os espíritos dos antepassados. Ali mesmo, mas não de imediato, conheceu um avô, casado com Raci Makwandra e já estabelecido em Maputo há 30 anos, e que lhe fez conhecer “Estrelas Vermelhas” e mulheres. 
    E, já sozinho, porque negava dependências do avô, conheceu a baixa de Maputo e a Rua de Bagamoyo com tudo o que de Araújo tinha.Este livro já foi premiado pelo Conselho Municipal de Maputo, em 2011. Ainda era manuscrito. Quando li a chegada e permanência do Ndekeni na Junta, no bairro do Aeroporto, no “Estrela”, na Rua de Bagamoyo, compreendi as razões por que o meu antigo colega de profissão premiou esta obra do meu antigo colega da Pré-primária, na Escola Primária Carvalho de Araújo. É o retrato de Maputo, das migrações diárias, das multidões sem destinos bussolados e muito menos djipiessizados[13], mas com sonhos todos os dias adiados e, no dia seguinte, renovadamente acordados. É o Maputo das insónias do Simango.A primeira pessoa com quem partilhei a leitura deste livro foi a minha filha, última. Ela nascida na terra dos Varonga. Ficou deslumbrada com a estória da Raci Makwandra. Ela está a estudar medicina na UEM. 
    E a Raci estudou outra medicina, nos fundos do mar, durante 3 meses. E a sua graduação não foi feita com a toga preta europeia, mas com o corpo coberto de algas e missangas ganhas nos 3 meses de marinagem. Minha filha já havia ouvido falar desta estória, quando, em 2004, veio passar férias com a avó Zaharai[14], precisamente em Mucucune (ou, melhor dito, em Nguhune) – terra da Raci – e aonde ela bebeu um pouco melhor das raízes do pai. E vi-lhe maravilhada e disse-me: “isto é típico da vossa terra”. Com uma beleza de pormenores, o típico da nossa terra, as suas crenças, as suas celebrações, a sua culturalidade, perpassam o livro do Chaúque. E eu reencontro-me, nele, com a minha infância em Bhalane, Nguhune, Gilaleni, Gihengeni, Tsuvanene, Nyacutsêni, Macolo, Marrambône, Tsamane[15], ouvindo dzingoma[16] que fazem as mulheres vatonga vibrarem nozore[17].Leiam a obra. Chaúque angulova[18].Chaúque, ele mesmo, tem uma grande experiência como Ndekeni, tal como alguns de nós aqui presentes e muitos aqui ausentes. Montado no dorso de um leão e abraçado à sua farta juba, Chaúque também já se fez transportar de Satare[19] ao encontro da luz em Maputo e em Tete. Foi militar das FPLM e trabalhou na revista Tempo. Regressou à terra-mãe para vir trabalhar no Tribunal e depois na RM. 
    A sura[20] diária, extraída pelo anónimo kêmi[21], deu-lhe muitas e irresistíveis alegrias. E começou a cantar blues, em Gitonga, nesse tempo. Mas sonhou de novo com a luz e partiu. Foi trabalhar no Savana, na AEMO, no Notícias, no Calowera, no Público, n´A Verdade. Queria trabalhar e voltar, um dia, para a sua terra natal como um grande senhor, arrebatar tudo e casar-se com uma mulher da terra – esse sonho de Ndekeni, entretanto agora já concretizado por Chaúque. Passa quase um ano que Inhambane-Sewi[22] recebeu, de regresso, o seu Alexandre Chaúque, que havia empreendido aquela aventura ao estilo Ndekeniano, para, longe daqui, escrever este livro (e outras crónicas) e receber o Prémio 10 de Novembro das mãos do David Simango, da cidade grande, em Kampfumo (“Pfhumweni” – como nós, gitongamente, dizíamos, antes de ser Maputo). Chaúque ganhou e continuará a ganhar, mas para gaya regressou.E sempre que telemovelmente falávamos, nos dias iniciais, e para me criar inveja e vontade de cá também regressar, dizia-me, com aquele seu orgulho Tonga, “nyaguhodza mathapa, ndriyango, nya guphudwe ku maiwango. Mathapa nya guphudwe nyi dzitogoma, nyi mavbandzi nyagubange, nyi dzindrolo nya gunone. Nyagumahodza nyi marosa, nyi farinya, nyi mihile nyagugadzingwe gambe” (eu como matapa, meu irmão, feita por minha mãe. Matapa com caracóis marinhos, camarão seco e caranguejo do melhor, acompanhado de arroz, regado de tapioca, e com pescadinha frita, de lado).
    Regressou e encontrou já a sua pfhumugadzi[23], sinyarane[24] Camila. Escolheu viver, com ela, agora em Nyaposa. Confesso que não sou murembedzi[25]. 
    Ele confidenciou-me isso, naquele final do dia, em que a Camila estava atarefada com os últimos arranjos do casamento da filha, enquanto nós partilhavamos a preta numa barraca de Nyaposa. E, naquele crepúsculo vespertino, vi o amanhã do Chaúque cantado na saga dos Vanyapose, donos da terra que agora o acolhe e nela vive. Não se escandalizem – sexo entre os Vatonga não era tabu antes da influência islâmica trazida pelos Vamwinye e cristã trazida pelos Vatsungo[26]. Era assunto cuidado, com toda a dignidade, à luz do dia. Por isso os Vanyapose evocam os espíritos dos seus antepassados rezando o seguinte: “nyapose pandre tshigira nongo, gimbolowana gidugwana gu pandra rengo[27]”.
    Os espíritos dos Vanyapose seguramente vão dar maior fertilidade à escrita literária do Chaúque. Ademais, no recanto da suaphfumugadzi, comendo macoloma[28] e bebendo da sua água, hoje, Chaúque encontra o sossego necessário para ouvir as vozes dos fundos da baía de Inhambane – aquelas vozes que ensinaram medicina à Raci Makwandra e que, a ele, vão inspirar para escrever mais livros.
    Quanta inveja tenho eu, por isso, por não ser escritor e nem conseguir regressar à terra aonde está enterrado o meu cordão umbilical – esta terra que abandonei, tinha eu 16 anos, quando conclui o 5˚ ano comercial, na mesma Escola aonde estudou a avó do Ndekeni. Ainda não ganhei o suficiente, e nem prémio algum, para regressar, como ele, de cabeça erguida e não como um fracassado. Munganyhega[29]. Eis o meu dilema, que é, afinal, o dilema existencial de todos os Ndekenis. E o livro que Chaúque hoje nos oferece trata exactamente de nós, os Ndekenis – que aventuramos abandonar as nossas terras maternais à procura de melhores vidas em outras paragens, por vezes, madrastas. E sempre com a ilusão de que acumularemos riqueza para, um dia, regressarmos e, com outro estatuto social, casarmos com uma gyagadzyana gya gaya[30].
    Para ti, Chaúque, ndriyango[31], digo-te mais uma vez, como disse-te pelo teu Bitonga Blues: ungulova[32]. E mais:ungudandra [33], pois com Ndekeni inicias um novo percurso literário, mais ousado e, nyaposenemente[34], mais fecundo: unapandra rengo[35].
    Nyiganedhe[36].


    GLOSSÁRIO
    [1] - Povoado de Inhambane situado a 12km a sul do centro desta cidade.
    [2] - Em Gitonga - língua falada pelos Vatonga (sg: Tonga) do recôncavo da baía de Inhambane. Palavra corrompida pelos portugueses para Bitonga (e com direito a presença no dicionário electrónico português) e, passando a significar tanto a língua quanto os seus falantes. [Todas as palavras em Gitonga, empregues neste texto, foram escritas conforme a padronização das línguas bantu adoptada em Moçambique e seguiram de perto Laisse, S. (coord) (2007) Dicionário de Português-Gitonga/Gitonga-Português e Compêndio Gramatical, Oeiras, Edição Câmara Municipal de Oeiras]
    [3] - Nunu (pl: Vanunu) - Palavra de origem árabe ou swahili significando senhora e usada, entre os Vatonga, para designar as mulheres muçulmanas, independentemente da sua raça. O masculino é Mwinye (pl: Vamwinye). Os portugueses corromperam pejorativamente a expressão mwinye para monhé e com ela passaram a designar pessoas de origem asiática, geralmente comerciantes, e independentemente de serem muçulmanas ou não.
    [4] - Minha mãe (falecida em 1991)
    [5] - Mãe de Alexandre Chaúque
    [6] - Mufo – amigo. Mufo wangu – meu amigo.
    [7] - Pari (pl: dzipari) – expressão do Gitonga, derivada do português par, significando amigo. Pari yangu - meu amigo.
    [8] - Gaya – casa, no sentido de terra-mãe. Avba – aqui.
    [9] - A minha ligação com o Chaúque remonta ao dia 10 de Setembro de 1965, na Sala-10, da Escola Primária Carvalho de Araújo, em Inhambane, aonde juntos iniciamos a Pré. (Feliz coincidência: hoje é também dia 10).
    [10] - Chapa – designação popular (cunhada em Maputo e depois nacionalizada) dos pequenos transportes colectivos de passageiros, inicialmente de caixa aberta (e agora também), e eufemisticamente chamados pela oficialidade licenciadora desemi-colectivos.
    [11] - Junta - importante terminal de transportes de passageiros, em Maputo.
    [12] GPS - sistema de orientação por satélite que fornece a um aparelho receptor móvel as coordenadas do mesmo.
    [13] - Destinos não orientados nem por uma bússola, nem por um GPS.
    [14] - Minha tia, recentemente falecida.
    [15] - Bairros e povoados de Inhambane
    [16] - Ngoma – batuque, música (pl: dzingoma – batuques, batucadas, músicas)
    [17] - Dança típica de Inhambane.
    [18] - Escreve (V.Inf: gulova)
    [19] - Corruptela de Santarém, bairro da cidade de Inhambane, rebaptizado Liberdade, depois da independência nacional.
    [20] - Líquido divino extraído do coqueiro. Quando doce, a sura é usada como fermento e faz uns bolos deliciosos.
    Fermentada dá muita alegria a quem a bebe. Ultrapassado o nível de fermentação, transforma-se num vinagre gostoso.
    [21] - Kêmi – esse homem, geralmente de estatura baixa e pernas arqueadas, trepador de coqueiros, imprescindível para que a divina bebida chegue aos apreciadores, mas ignorado por estes. Ele extrai a sura sob um contrato que estabelece que, numa semana ele entrega o líquido ao dono dos coqueiros, e na outra é para si (ou: dia sim-dia não).
    [22] - Sewi - cidade (de Inhambane). Embora pura como o céu seja a nossa cidade (daí: “Terra da Boa Gente”) ela não é, como os chapas da Junta nos enganam, Inhambane “Céu”, mas sim, Sewi.
    [23] - Pfhumugadzi – expressão de ouro, em Gitonga, para designar esposa. Pois, entre os Vatonga, esposa é rainha da casa. Pfhumugadzi é isso. Não é súbdita do marido como os europeus nos ensinaram a tratar a nossa mulher, para, sem vergonha, depois virem ensinar-nos as relações de género.
    [24] -Sinyarane – do Sinyare, corruptela de senhora (sinyarane significa senhorita). Originalmente, tratamento dado a “brancas” (portuguesas).
    [25] - Murembedzi – alcoviteiro ou pessoa que se dedica a arranjar e/ou acompanhar a(o) noiva(o) para alguém.
    [26] -Tsungo (pl: Vatsungo) – expressão originariamente usada para designar branco (português). Depois também para qualificar pessoas com posses (ou com aparência disso).
    [27] - Laisse, S (2007:141). O significado da reza é, mais ou menos, o seguinte: os Vanyapose são de uma fertilidade incrível. Mesmo aqueles que têm pénis pequenito geram multidões (fazem muitos filhos). Por serem tantos, um Nyaposa tem que “andar com cuidado” para não pisar/destruir família
    [28] - Licoloma (pl: macoloma) – lanho (coco ainda tenrinho). É também o título da coluna que semanalmente Chaúque assina n´A Verdade.
    [29] - Guhega (v.inf) – rir, zombar, fazer pouco. Munganyhega – se não vão fazer pouco de mim.
    [30] - Moça da terra.
    [31] - Meu irmão.
    [32] - Veja o texto “O livro Bitonga Blues de Alexandre Chaúque”, in Notícias: 16.11.2011 (página cultural)
    [33] - Estás a crescer (v.inf: gudandra).
    [34] - Ao estilo da fertilidade dos Vanyapose.
    [35] - Vais parir multidões (de textos literários).
    [36] - Falei/Disse (v.inf: guganela). Isto é: tenho dito.
    * Título da nossa autoria. Texto de apresentação do livro “Ndekeni” a 12 de Agosto nas celebrações do dia da cidade de Inhambane.

    Marcelo Panguana lança “Conversas do Fim do Mundo”


    Eduardo Quive
    Escritor Marcelo Panguana lança um novo livro em Maputo

    Como se pode explicar um fim? Como ele é ou como será? O que dizer perante o mundo que se acaba? Qual será o tempo final?
    Todas estas questões que podem incomodar o leitor (como a nós incomodam), levam-nos a este, no mínimo, satírico título do escritor moçambicano Marcelo Panguana, “Conversas do Fim do Mundo”, que será apresentado em público na próxima quinta-feira, 13 de Setembro, no Instituto Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

    Realmente, perante o fim, não se tem nenhum argumento, se não o próprio fim que se instala, afinal, Marcelo Panguana, autor de outras reflexivas oubras como, “As Vozes que Falam Verdade” (1987), “A Balada dos Deuses” (1991), “O chão das coisas” (2003) e “Como um Louco ao Fim da Tarde” (2010), é aquele que não se cansa de falar o que vê, vive e sente.
    É como dizia Francisco Noa, crítico literário, “na literatura moçambicana o que há de melhor são contistas e são contos que não se precisa inventar”. Panguana, é esse escritor que não inventa, usa os “chãos” que tem para contar várias histórias com o devido cuidado de se perder no texto, típico de jornalista que é Marcelo Panguana, embora se ocultando.
    Em “Conversas do Fim do Mundo” não encontrará-se um “eu” novo deste escritor, no entanto, há nessa obra, a novidade dos próprios assuntos retratados, desta vez, em jeito de críticas de obras literárias moçambicanas, reflexão filosóficas, análise de assuntos existenciais e, como não podia faltar, tendo em conta o estilo caracteristico das suas abordagens, interogações do país que vive e de onde é.
    “Estou a cumprir as minhas obrigações como escritor e como cidadão. Vou falar do país, das coisas que vejo no quotidiano e outros textos que fui produzindo ao longo dos últimos tempos, na sua maioria já publicados em jornais e revistas e alguns inéditos”.
    A olhar pelas declarações do autor, tidas em exclusivo pela Literatas, “Conversas do Fim do Mundo” será o prenúncio dos nossos dias no olhar da lucidez de um literato.
    “A Literatura  não pode ser tida apenas como uma forma de proporcionar lazer, mais do que isso, a Literatura é uma forma de intervir.”
    O facto deste livro estar a adiantar-se para o “fim” não implica o fim da carreira de Marcelo Panguana aos 61 de idade. “um escritor não morre”, disse o escritor.

    LIVROS: “Livro Livre” de Laulane e arredores


    Eduardo Quive


    Em jeito de insitação a uma provável viagem ao seu meio, Niosta Cossa que se propõe ser o cronista dos próximos tempos depois dos Machado da Graça, Tomás Vieira Mário entre outros bons nomes que se assinalam neste género raro no país, tornou oficial o seu estatuto de cronista na semana passada em Maputo, com o lançamento do seu livro intitulado “Livro Livre”.
    Afinal, estamos perante uma escrita não muito nova, mas para lá das regras clássicas. Estamos na verdade, diante de um autor que se consolida entre o dizer o que pensa perante o dizer o que sabe e o que outros pensam. Niosta Cossa não cede à pressão e nem teme as aventuras. Escreve e descreve de forma sólida, os problemas periféricos, aliás, tal periferia que vive desde ao seu “agitado” bairro Laulane aos outros cantos da cidade de Maputo que ele vê com um olhar crítico.
    Na lupa desde jovem escriba, em “Livro Livre” passam-se cenários como, pressa com que os homens agem todos os dias, frustração, nostalgia, fome e sede sem falar dos movimentos que Laulane faz sem estar fora da cidade que é capital de Moçambique o que lhe faz dizer de viva voz “escrevo por paixão – actualmente amo brincar com as palavras, construir frases, desconstruir conceitos, inaugurar novos mundos (ou redescobrir os velhos)”.
    A relação deste autor com o seu meio (meio de todos), leva a uma necessidade de se revisitar um outro “cronista” que constantemente se camufla na posição de contador de estórias, Marcelo Panguana, que nas suas obras “O Chão das Coisas” e “Como um louco ao fim da tarde” faz quese que sistematicamente, uma radiografia dos problemas do quotidiano, sem deixar de os relacionar com os tempos idos.
    O lançamento de “Livro Livre” de Niosta Cossa, que aconteceu na Escola de Artes e Comunicação da Universidade Eduardo Mondlane, foi um acto presidido pelo académico Cremildo Bahule, este que por sua vez, é autor da satírica obra “Carlos Cardoso: um poeta de consciência profética” e “Babalaze: A Outra Margem da Verdade”.
    Para Bahule, Niosta Cossa é um autor de que o país precisa e vem para enriquecer o Moçambique literário que se está a consolidar, daí, a leitura de “Livro Livre” ser não só por necessidade de entretenimento, mas por se tratar de um livro que fala de um quotidiano por todos conhecido, facto que nos leva a intitular essa obra de “Livro Livre” de Laulane e arredores.

    LANÇAMENTOS:"Um Passeio pelo Céu" de Carlos dos Santos já nas livrarias

    Nova obra do escritor moçambicano Carlos dos Santos já nas bancas

    Chega às livrarias esta semana um novo livro da autoria de Carlos dos Santos, intitulado “Um Passeio pelo Céu”.

    Trata-se de mais uma obra de literatura infantil, de natureza educativa, com carácter lúdico, que busca contribuir para o diálogo entre pais e filhos, que se pretende constante. Para o efeito o autor fez uso das suas competências como Psico-Pedagogo e da sua experiência docente.

    O acto de contar histórias, esse momento de partilha, será um momento privilegiado de consolidação do elo sentimental que liga pais, tios e avós às crianças, elo esse que é fundamental para o desenvolvimento são e equilibrado das crianças sob os pontos de vista psíquico e emocional.”

    Neste conto, aos personagens do conto anterior, Moça, Mbique e Paz, uma tartaruga, um pássaro e uma borboleta, respectivamente, junta-se um novo personagem, a minhoca Liberdade. “Esta é uma fábula em que, espicaçando o interesse das crianças para as maravilhas do Universo, se lhes ensina que não é vergonha não saber, que é bom serem curiosas e que nunca devem ter medo nem vergonha de fazer perguntas.” E que “Só é vergonha não procurar aprender”.
    O livro, em formato A5, tem 24 páginas, profusamente desenhadas por Hélder Sutia e estará à venda ao público ao preço de 185,00Mt, sob chancela da Plural Editores.

    Carlos dos Santos é também autor dos romances de Ficção Científica “A Quinta Dimensão” (2006/2010) e “O Pastor de Ondas” (2011),  bem como dos contos infantis “O Conselho” (2007), “Os Frutos da Amizade” (2008), “As Cores da Amizade” (2010), os dois últimos dados à estampa pela Plural Editores. Tem no prelo o conto infantil “O Mundo e mais Eu”.

    1 HORA ( Em casa de Narguiss)*

    Lilía Momplé - Moçambique


    Q ue força é esta que não a deixa levantar-se e correr para o seu Abdul que , já impaciente, quase derruba a porta aos pontapés. “ Não grita...Espera só pouco”, roga ela, tremendo de receio que ele se vá embora.
    Mas Abdul não se vai embora, continua a dar pontapés na porta e a gritar como se alguém, lá fora, lhe estivesse a fazer mal. E ela sem poder abrir aporta. Está tão perto, só alguns passos, poucos, tão poucos que ela resolve ir de rastos, já que não consegue pôr-se de pé. Lutando contra a força que a paralisa, avança com lentidão que os gritos de Abdul tornam insuportáveis.
    Está quase...um pouco mais...agora é só levantar o braço, alcançar a fechadura e rodar a chave...uma, duas vezes. Mas o braço pesa-lhe... pesalhe tanto...não consegue...não...
    Narguiss acorda a transpirar, apesar do cacimbo de Maio que entra pela porta de rede que liga a cozinha á varanda. “ Afinal tudo pode ser um sonho...Abdul não vem”, lamenta ela, desiludida, á sua volta.
    Foi um sonho terrível, mas Abdul. Era melhor do que estar assim sozinha, sem marido, no dia de Ide.
    Não se lembra de ter adormecido sentada, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a mesa da cozinha. Lembra-se, no entanto, do pesadelo de onde acaba de emergir e da estranha sensação de ter visto Abdul através da porta que ele batia com os pés por ter as mãos cheias de embrulhos.
    “Mas pode ser tudo sonho, mesmo. Abdul não está aqui”, geme baixinho. Experimenta mexer as pernas e os braços e constata, aliviada, que lhe obedecem perfeitamente. Tudo foi mesmo sonho. Abdul não veio e nada lhe tolhe os movimentos. Porém... os gritos e o barulho esquisito que chega da rua não é sonho, não. São reais e cortam o silêncio da madrugada, com assustadora nitidez.
    Curiosa. Narguiss rebola o corpo imenso até á porta de rede e sai para a varanda. A princípio não quer acreditar no que vê. Supõe mesmo ter mergulhado num novo pesadelo, tão estranho lhe parece tudo.
    Na varanda do primeiro andar , mesmo em frente, o casal que lá vive e que ela só conhece de vista, desfaz-se em gritos. Ela grita apenas por socorro e ele, embrulhado no que parece lençol, repete qualquer coisa que Narguiss não consegue compreender. De vez em quando, grita também por socorro.
    Apesar da escuridão da noite sem lua e d acácia rubra que os oculta um pouco, Narguiss consegue vê-los agora, perfeitamente, iluminados por holofotes manejados da rua. O homem continua a bradar qualquer coisa incompreensível e a mulher não para de pedir socorro. De repente, põem-se a correr de um lado para outro lado, na exígua varanda, numa dança
    macabra.
    Narguiss não sabe se as balas que os atingem vêm de dentro de casa ou dos homens dos holofotes que também disparam sem cessar. Mas , quando os vê cair, desta ela a gritar.
    - Está matar gente... muanene inluco... está matar gente... ali... muanene inluco...
    Não vê o homem que, da rua, lhe aponta a arma pois toda atenção está centrada na varanda da flat em frente. As balas atingem-na, certeiras, no pescoço e no peito e ela espanta-se da sensação de infinita paz que a acompanha na queda. Já nada a faz sofrer, nem o Ide sem ver a lua, nem as filhas sem casar, nem mesmo o Abdul.
    Como se o enorme corpo se recuasse a ceder, dá uma volta sobre si mesma e , escorregando lentamente, Narguiss cai por fim, sentada, com as costas apoiadas no gradeamento da varanda. E é assim que, pouco depois, as filhas alertadas pela gritaria e pelos tiros, a vêm encontrar.

    *in Neighbours  pag 107 e 108, 3ª Edição da autora 2008
    Glossário
    muanene inluco – Meu Deus – Língua Macua- falada no norte de Moçambique
    particularmente na Provincía de Nampula
    ____________________________________
    Lilía Maria Clara Carriére Momplé nasceu a 19 de Março de 1935, na Ilha de Moçambique, fez o ensino secundário na então Lourenço Marques( hoje Maputo). Frequentou o 2º ano de Filologia Germânica e licennciou-se em Serviço Social no Instituto Superior do Serviço Social de Lisboa, viveu em londres, Baía, São Paulo. De volta á Moçambique,trabalhou no Ministério da Cultura,onde foi Directora do Fundo para o Desenvolvimento Artsitíco-Cultural, Secretária Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. É membro da Southern African Writers Council.
    Em 1997 participou no International Writing Program, na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos de América.

    Obras Publicadas:
    Ninguém Matou Suhura 1988 – Contos
    Neighbours 1995- Romance
    Os olhos da Cobra Verde 1997- Contos
    As suas obras estão Publicadas na Itália, África do Sul,etc.

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