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    Hélder Proença: quando a palavra não se pode adiar


    Fontes: Wikipédia/Lusofonia.com.sapo.pt

    Escritor guineense, Helder Proença 

    Quando te propus
    um amanhecer diferente
    a terra ainda fervia em lavas
    e os homens ainda eram bestas ferozes

    Quando te propus
    a conquista do futuro
    vazias eram as mãos

    negras como breu o silêncio da resposta

    Quando te propus
    o acumular de forças
    o sangue nómada e igual
    coagulava em todos os cárceres
                em toda a terra
                e em todos os homens

    Quando te propus
    um amanhecer diferente, amor
    a eternidade voraz das nossas dores
    era igual a «Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra»

    Quando te propus
    olhos secos, pés na terra, e convicção firme
    surdos eram os céus e a terra
    receptivos as balas e punhais
                as amaldiçoavam cada existência nossa

    Quando te propus
    abraçar a história, amor
    tantas foram as esperanças comidas
    insondável a fé forjada
                no extenso breu de canto e morte

    Foi assim que te propus
    no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
    o hastear eterno do nosso sangue
    para um amanhecer diferente!




    Escritor da Guiné – Bissau, envolveu – se, nos anos 70, no movimento independentista do seu país, abandonando os estudos liceais e partindo para a guerrilha em 1973. Após o 25 de Abril, regressou a Bissau, prosseguindo os seus estudos.
    Foi responsável-adjunto pelo sector de educação na região de Bolama e professor de história. Frequentou, em 1979 e 1980, um curso de Planificação Regional no Rio de Janeiro. De regresso à Guiné, trabalhou como quadro no ministério da cultura, sendo ainda deputado na Assembleia Nacional Popular e membro do Comité Central do PAIGC.
    Tem colaboração nas publicações Raízes (cabo-verdiana), África (portuguesa), Libertação e O Militante, estas duas ligadas ao PAIGC.
    Hélder Proença começou por se dedicar à literatura era ainda adolescente, escrevendo poemas anticolonialistas, de afirmação da identidade nacional, que acompanharam a sua actividade política. Os textos desta fase foram reunidos no volume Não Posso Adiar a Palavra, editado apenas em 1982. Este carácter panfletário foi-se atenuando progressivamente, embora o autor nunca tenha descurado uma vertente de intervenção política e social. Considerado uma das grandes figuras da nova literatura guineense, escrevendo tanto em português como em crioulo, foi o co-organizador e prefaciador da primeira antologia poética do seu país Mantenhas Para Quem Luta! (1977). Alguma da sua produção continua inédita.
    De entre os poetas revelados nas primeiras antologias referidas, poucos prosseguiram o ofício, com poesia dispersa. Hélder Proença é um deles, publicando, em 1982, Não posso adiar a palavra, revelando-se, então com 26 anos, um poeta «amadurecido» pelo tempo e pela visão desapaixonada do momento. Sem se desvincular da enunciação ideológica (alguns poemas já haviam sido publicados), a sua poesia já evidencia, de maneira sugestiva, o labor consciente que se manifesta nos níveis formalizantes da mensagem literária: a concertação tecida da matéria sonora, das imagens e da rítmica e até da utilização gráfica da página. Nessa performance técnico-formal, o tecido social e ideológico engendra uma linguagem simbólica, transfigurada do real, mas ainda vinculadamente radicada nele. Mas até os temas se diversificam: além da celebração da pátria e dos heróis, o sentimento pátrio harmoniza-se com o amoroso e até o erótico e o sujeito é, então, simultaneamente aquele que pensa e sente, ama e odeia, ri e chora. É a catarse dos lugares comuns e o triunfo do homem pleno que se deixa envolver pelo fascínio da volúpia e se verticaliza na reivindicação de uma pátria de cidadãos individualizados.
    O próprio macrotexto convida-nos a essa procura de discursos paralelos. Divide--se em três partes: «As trincheiras também cantam, amor», «Entre mim e o canto, a poesia» e «Vem, Pátria, nesta proposta do amanhecer». E o último poema é também um manifesto: «Juramento».
    (Inocência Mata, “A Literatura da Guiné-Bissau” in Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p.362)

    Assassinato

    A morte de Proença foi anunciada pelo Ministro da Defesa guineense, horas depois do anúncio do assassinato por tropas oficiais do candidato a presidente Baciro Dabó. Segundo a versão oficial, Proença seria o protagonista dum golpe de estado e morrera em seu carro, junto ao motorista e um segurança, após troca de tiros com os soldados que iam prendê-lo. Já antes a imprensa mundial anunciara rumores de que o poeta também havia sido morto.

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