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    Um dia de cão

    Alex Dau - Moçambique




    O

    sol fulgurante expelia 45 graus célsius, tornando a terra num inferno. Santos e pecadores transpiravam por todos poros.
    Veículos de dez, vinte e mais cavalos marchavam pelo asfalto amolecido pela penetração dos raios solares. Carros fumegantes parados ali e acolá com os radiadores super-aquecidos estavam completamente derrotados pelo incremento da temperatura.
    Era um dia de cão, com o sol implacável a testar a resistência dos seres humanos e não humanos.
    O suor banhava rostos de muitos peões que marchavam sequiosos pelas várias artérias da cidade de Maputo e arredores.
    Um cão tinhoso que escapara diversas vezes das campanhas de abate dos serviços veterinários vagueava com a língua completamente por fora. Estafado, parou. Buscou por uma sombra onde não se misturasse com os humanos, pois estes sempre o escorraçavam.
    Fornos de uma das maiores companhias de produção dum metal precioso prestavam o seu auxílio ao diabo infernizando mais as terras do sul de Moçambique.
    – Quando morrermos, vamos para o paraíso porque no inferno já nós estamos! – desabafou um passageiro que acabava de entrar para o chapa apinhado de indivíduos que seguiam com destino a praia.
    - Esta terra não aquecia assim, agora até parece Tete! – corroborou outro viajante.
    A praia da costa sol era o paraíso mais próximo, para muitos citadinos e não só que buscavam refúgio algures para escapar a vaga de calor que se abatia sobre o sul do País.
    Os serviços meteorológicos não haviam previsto o excesso de calor que nessa sexta-feira se abateria sobre as terras dos changanas e dos rongas.
    Os prejuízos eram enormes, frangos de todas idades sucumbiram ante ao calor infernal, mesmo antes de serem atacadas pela gripe que pulverizava o mundo. Aparelhos de frio de todas as marcas descambaram.
    Bares, tascas e barracas estavam aglomerados de clientes.
    - Mais uma cerveja! solicitava cliente após cliente.
    Raparigas expunham-se pelas artérias da cidade semi-nuas mostrando o que um cego negaria de usufruir, mas ninguém se importava com o atentado ao pudor, estavam todos com as mentes em banho-maria.
    Os chinelos de borracha de dona Glória governanta da casa do senhor Elias enterraram-se no asfalto embebido da avenida 24 de Julho quando ela se dirigia para o mercado municipal.
    Ela foi socorrida por dois garotos que se equilibravam em blocos de cimento colocados em paralelo, foi preciso um equilíbrio acrobático para transportarem a mamana para um lugar seguro. 
    Accionistas da maior e única cervejeira do país babavam-se de contentamento a berma das suas piscinas particulares embebedando-se com cerveja importada.
    Hipertensos de várias idades desembarcavam aflitos nas clínica, hospitais e postos de saúde da capital e arredores, muitos sucumbiram ante a radiação solar e os proprietários das agências funerárias já estavam prontos para lucrar com as mortes excepto com a dos indigentes.
    O sistema de frios da morgue do maior hospital pifou porque o responsável pela manutenção preferiu contratar uma empresa medíocre e ganhar comissão e assim engordar o seu bolso satisfazendo sua ganância. A putrefacção dos corpos incrementava a degradação do ar. Estruturas sanitárias empreenderam diligências no sentido de se livrar dos corpos.
    O ferryboat responsável pela travessia, Maputo-Catembe vice-versa esta complemente repleto de passageiros banhistas e rebentava pelas costuras a ponto da última soldadura efectuada na doca seca começar a romper-se.
    O ferry apitou uma, duas vezes antes de o motor bufar e o cheiro da combustão se propagar pela atmosfera e muitos citadinos absorveram o ar já impregnado que habitou muitos pulmões, arruinando mais os dos fumadores activos também estes sérios contribuintes para degradação do ar que se respira.
    A embarcação ferrugenta balançava nas águas poluídas da baia de Maputo, e no porto navios de médio porte estavam ancorados depois de libertarem seus resíduos maléficos pelo nosso belo indico.
    O ferryboat atracou pelo estibordo, os passageiros banhistas desembarcaram precipitados e ansiosos de efectuarem o seu mergulho, para arrefecer o quente que o organismo alberga.
    O comboio ferroviário rolava sobre os trilhos largando sua baforada que se evolava na atmosfera participando na comunhão maléfica contra o clima.
    Um trovão fez-se ouvir e os ouvintes que sintonizaram a frequência da explosão olharam o céu descoberto e luzidio, os que tinham experimentado a guerra civil aplacaram temendo por um obus. Afinal era um posto de transformação de corrente eléctrica da electricidade de Moçambique que explodira. Labaredas de fogo gigantes serpenteavam o habitáculo do equipamento eléctrico.
    Um transeunte solidário procurava estabelecer contacto com posto de comando dos bombeiros, mas obtém a resposta automática “neste momento não é possível estabelecer a ligação que deseja”.
    Mirones não arredavam pé dos arredores, as explosões sucediam-se uma atrás da outra, um autêntico espectáculo de fogo-de-artifício.
    A cada nova explosão recuavam um dois passos mas não descartavam o espectáculo mesmo com o incremento da temperatura nos lugares que ocupavam.
    Quando finalmente informados, o carro dos bombeiros saiu de rompante. Desembarcaram no local do incidente quando o fogo já havia devorado por completo o posto de transformação.
    O inferno continuar a habitar a terra dos marongas. Ateus tornam-se pagãos, pagãos crentes e crentes em pregadores nessas onze horas em que o calor abrasador domina o sul de Moçambique.
    Preces multi-religiosas propagam-se no éter rogando por melhores tempos.
    O cão vagabundo redescobriu um lugar fresco, talvez o único arejado da cidade e arredores, e repousava cauteloso temendo que um peão manhoso aniquilasse o seu bem-estar.

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